Quem É que Está Aí?

Sinto a porta da rua a abrir. Deve ser ela, penso. Está de regresso, finalmente. Já era tempo, não?
Aproveitei a vergonha do sol para arrumar a lenha que me vieram trazer a casa. Não estava muito calor. Chuviscou um pouco. Peguei no carrinho-de-mão e andei, para cima e para baixo, a acartar a lenha para debaixo do telheiro. Amealhar para o Inverno. Enquanto ainda nos deixam queimar madeira para nos aquecermos.
Ia no segundo carrinho quando o sol despertou e veio na companhia do calor. Custou-me carregar o resto da lenha. Não sei quantas viagens fiz com o carrinho-de-mão. Mas ganhei umas bolhas nas mãos. Despertei a minha alergia ao calor e tive de tomar um Zyrtec. Demorou a fazer efeito.
Enquanto acartava a lenha para o telheiro pensei na conversa que tinha tido com ela no dia anterior. A conversa que azedou e acabou por me deixar sozinho em casa.
Eu só tinha dito que a culpa era dela. Não dela, dela, especificamente. Mas de todas as elas e eles e nós. Eu! Eu também me incluía na culpa mas, na conversa, tinha-me saído um dela por força das circunstâncias. Estávamos a discutir e era eu contra ela. E ela levou com a culpa. Mas a culpa não era só dela. Mas também. Eu só disse A culpa é tua. E ela, admirada, quase escandalizada, perguntou Minha? Minha como? e eu respondi-lhe Porque votaste neles. E ela ficou ali assim, admirada, de boca aberta, a olhar para mim.
O sol já tinha despertado. Abrira as portas ao calor. A transpiração corria-me corpo abaixo. E eu pensava no que ela me tinha dito.
Mas eu sou só um voto e votei para protestar. Não significa mais que isso. Um protesto que não tem poder nenhum. Um voto. O que é que isto significa? Nada! Não significa nada! Mas significava. Tanto significava que eles tinham chegado ao poder. Todos os votos unitários contados um-a-um conseguiu elegê-los. Com maioria absoluta. E estavam a transformar tudo. A vida como nós tínhamos aprendido a viver. Tudo transformado em nome da eficiência. Em nome do futuro. Mas qual futuro? Era tudo muito obscuro e bizarro. Porque nem sequer é para todos. Quem pode pagar pode comprar a bula. Porque há bulas. Há sempre bulas. Há bulas para quem pode pagar. E foi isso que lhe quis explicar. Que pessoas como nós, estão sempre fodidas. Utilizam-nos e depois descartam-nos. Os outros, os que podem, os que mandam, esses podem sempre pagar para ser como eles querem. E, ironia do destino, somos sempre nós que elegemos esta gente. Era isso que eu lhe estava a explicar. E ela só me perguntou E eu sou a culpada pela merda de vida que agora temos? E eu nem precisei de lhe responder. Olhei para ela. Um olhar parvo e cínico, admito. Só olhei para ela. E ela viu a resposta no meu olhar.
Já estava cansado quando fiz a última viagem até ao telheiro com o resto da lenha. E parecia que tudo aquilo era só para me chatear. Na minha última viagem o sol despediu-se. O céu cobriu-se de negro, trouxe de volta um pouco de frio e um bocadinho de chuva. Pensei Ao menos a lenha não fica molhada.
Parei debaixo do telheiro a olhar para a pilha de lenha. Arrumei o carrinho-de-mão. Observei a chuva e voltei a pensar na conversa que tinha tido com ela.
Mas já não houve conversa. Ela ficou zangada comigo. Levantou-se do sofá e saiu de casa. Ouvi o carro a descer a alameda e a sair o portão. Onde andaria?, pensei.
Afinal está aqui, de regresso a casa. Afinal a conversa era estúpida. Não era caso para tanto. Claro que ela era culpada. Ela como eu. Mas não precisava de ficar zangada comigo e sair porta fora. E pergunto alto És tu?, mas ninguém me responde. Nem ouço barulho. Não me chega o cheiro dela. Não lhe ouço a respiração. Nem lhe sinto os passos. Quem será? Quem é que está aí?

[escrito directamente no facebook em 2019/09/18]

O Contribuinte

Houve um tempo em que os bancos ocuparam os centros das cidades.
A Caixa Geral de Depósitos, por exemplo, tomou o lugar das igrejas e passou a ser o edifício com mais impacto na malha arquitectónica da zona histórica das cidades. Construiu edifícios enormes, por vezes demasiado grandes para os centros mirrados das cidades da média dimensão. Uma arquitectura a lembrar a Roma imperial. Edifícios de linhas direitas. Utilização de pedra clara. Nalguns casos, vidro. Eram um símbolo de poder. Edifícios criados para causar impressão. Um certo esmagamento. Respeito. Medo.
Os outros bancos, numa lógica de crescimento constante, começaram a invadir os centros históricos, a invadir a baixa das cidades, como se a cidade fosse só deles. Abriram agências em todo o lado. Umas em cima das outras. Fecharam cafés. Pastelarias. Lojas antigas. Memórias. Memórias das próprias cidades. Memórias da história das cidades. Os bancos ajudaram a encarecer o metro quadrado nestas zonas. Alguns deles transformaram tanto os edifícios para onde se deslocaram que os edifícios tornaram-se outros. Houve grandes transformações urbanas motivadas pela proliferação das agências bancárias. Mataram edifícios intemporais por troca por uma modernidade parola que está envelhecida antes mesmo de começar a funcionar.
Os anos passaram. As novas tecnologias mudaram a relação dos bancos com os seus clientes. Os clientes deixaram de ser clientes para passarem a ser fonte de rendimento. Tudo é pago. Tudo é pago para uma classe que vive da utilização do dinheiro alheio. Tudo é pago e tudo é feito para ser o próprio cliente a ter todo o trabalho. E, como se não bastasse, agora começaram a abandonar os centros das cidades. Depois de ajudarem e esvaziar os centros das cidades, agora deixam-nas ao Deus-dará. Mudam-se para centros-comerciais. Mudam-se para centros-financeiros. Para zonas de escritórios. Locais de maior agrupamento de clientes, esquecendo-se do funcionamento real das cidades.
Penso nisto ao olhar para o banco fechado à minha frente. Não é só a porta que está fechada. É mesmo o banco. Encerrou. Leio o papel colado no vidro da porta. Mudámos para outro sítio, dizem. Desde ontem. Nem o Multibanco funciona. E esse sítio para onde mudaram é outro sítio mesmo. É noutra localidade. E agora? Não pensam em mim? Afinal têm lá o meu dinheiro.
Estou parado frente à porta fechada do banco. Sinto-me deprimido. Os ombros tombam. Ouço um barulho atrás de mim. Um barulho que me assusta. Um barulho grave e muito alto. Viro-me para trás e vejo um carro com o chassis quebrado. Um carro que quebrou o chassis na lomba da passadeira camuflada. Atrás de mim há uma passadeira em lomba. Mas o tempo comeu a pintura da passadeira. E não há manutenção. É um dos grandes problemas destas tempos. A manutenção. O motorista não viu a lomba. Nem vinha muito depressa. Mas o suficiente para ser bloqueado pela lomba. Não é a primeira vez que vejo coisas assim acontecer. Mas nunca como hoje. Um chassis quebrado. Numa lomba em passadeira cega, surda e muda.
Sinto que deixei de ser uma pessoa. Sinto que passei a ser um número numa qualquer folha Excel. Sou o número que paga. E é só isso que sou. Um contribuinte.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/02]

Passar pelo Tempo

Fui cortar o cabelo. É uma coisa que faço muitas vezes quando as coisas não me correm bem, quando ando nervoso, quando não sei o que fazer.
Ultimamente tenho cortado bastantes vezes o cabelo. Cortei-o tanto que já não o consigo agarrar. Passo-lhe a mão, os dedos tentam agarrar os cabelos mas não conseguem. Acabam por ser uma massagem. O que até sabe bem. Gosto de uma boa massagem.
Quando tomo banho nem tenho que me preocupar a secá-lo. Passo a toalha uma vez, e já está.
Descobri que até tenho um crânio bonito, redondo, circular, não muito perfeito. No meio de toda a beleza do meu crânio, descobri-lhe três altos. Não sei o que são. Não são acumulação de caspa. Não são feridas. Não são furúnculos nem quistos. Não me doem. São rijos. É como se o crânio tivesse três cornos. Talvez sejam uns cornos. Para defender o crânio. Ou talvez seja uma inovação estética. Ou o passo seguinte e natural na evolução do Homo Sapiens. Uma mutação. Talvez seja o factor X. Como o dos X-Men. Tenho de tentar perceber qual o meu poder. Talvez… Hei! O que é que estou para aqui a dizer?
Já não sei o que digo. Ando nervoso. E quando ando nervoso falo muito. Sobre tudo. Acerca de nada. Acho que não consigo estar calado. Se me calo começo a pensar no que me incomoda e deprimo. Quando falo, esqueço a depressão. As conversas são o meu Alprazolam.
Não sei porque é que estou nervoso.
Sinto um aperto no peito. Quero respirar, mas é difícil. É como se tivesse o peito cheio de ar e ele não quisesse sair. Tenho que o ir tirando aos poucos. E insistir. Forçar.
Com o cabelo curto respiro com mais facilidade. É como se ao cortar o cabelo abrisse uma passagem de ar directa aos pulmões. Isto não faz muito sentido mas é o mais próximo do que sinto.
Sentei-me numa esplanada a aproveitar os últimos restos do Verão e acendi um cigarro.
Bebi um café. Comi um croissant folhado. Simples. Fumei, bebi e comi, tudo ao mesmo tempo.
Reparei que andava a fazer as coisas todas ao mesmo tempo. Como se não houvesse mais tempo à minha disposição. Como se as horas fossem minutos. Os dias, horas. As semanas, dias. Os meses, semanas. Eu estava a envelhecer e o tempo comigo. Íamos acabar.
Estava na esplanada a fumar um cigarro, a beber um café e a comer um croissant folhado e começou a nevar. As senhoras passavam de casacos compridos e quentes. Os homens de guarda-chuva na mão. Uma música de Natal entrou-me pelos ouvidos. As lojas luziam às cores. As pessoas passavam com sacos de presentes. As crianças corriam contentes. Um cão cheirava o rabo da um gato. O meu cabelo estava outra vez comprido. Só o cigarro era o mesmo e estava do mesmo tamanho. E como me sabia bem, cuspir fora o fumo e sentir o cheiro a invadir-me as narinas. E a beata presa nos dedos. Sim, gostava de sentir o cigarro preso nos dedos da mão. Agarrava-me à realidade. À vida. Morro quando largar o cigarro.