A Playlist do Miguel Guedes

Sabem aquela sensação de querer respirar e não conseguir? De parecer ter algo a bloquear a traqueia? De sentir que se vai desmaiar a qualquer momento por falta de ar? E que nessa altura só queriam ter um revólver nas mãos e apontá-lo à cabeça? Ou à cabeça dela que não se cala? Sabem? E sabem essa sensação de quando começam a mover o dedo no gatilho e já antecipam o tiro, o disparo, a bala a sair do revólver a cruzar o ar e a entrar num pedaço de carne fragmentando tudo à sua volta? E que nesse momento, nesse preciso momento recuperam a capacidade de respirar e mandam um berro, um berro tão grande que tudo à vossa volta cai em silêncio? Sabem? Pois foi o que me aconteceu.
Só não tinha o revólver na mão, que eu não tenho nenhum revólver em casa. Não tenho nenhuma arma para além das facas de cozinha. Mas foi como se tivesse. Mandei o berro e saí de casa. Abri a porta da rua bruscamente e fechei-a com estrondo nas minhas costas. Toda a gente do prédio haveria de ficar a saber que espécie de besta era eu.
Voei pelas escadas do prédio e aterrei no carro. Liguei-o e arranquei.
Na rádio a voz do Miguel Guedes na Playlist da TSF e eu pensei Que porra! Odeio este gajo! Vozinha arrogante. Raios o partam!, mas começou a música e deixei ficar. A música acalma as bestas, não é?
Deixei o carro levar-me estrada fora enquanto fui ouvindo a selecção musical do Miguel Guedes e só pensava Como podemos não gostar de pessoas que têm um gosto musical igual ao nosso? É que era uma selecção de primeira e que podia ter sido feita por mim. De Mazzy Star a Anna Calvi, passando por Arcade Fire, Dark Dark Dark, Elliott Smith, Jorge Palma, Nick Drake e sem esquecer Dylan, Bowie, Cave e Springsteen.
O carro levava-me estrada fora. A música escolhida por Miguel Guedes tinha-me acalmado. Já não queria berrar. Já não queria agarrar num revólver. Nem apertar no gatilho. Já conseguia respirar e estava a respirar bem. Bem e calmamente.
Cheguei a São Pedro de Moel. O carro levara-me até lá. Estava a chover uma chuva miudinha. Uma chuva que mais parecia cacimbo. Desci até à praça. Talvez umas pevides e olhar o mar, pensei.
Mas não.
A descer, quase a chegar à praça, o mar por companhia. O mar comera a praia e galgara as escadas até chegar à praça. Era impossível passar para o outro lado. Não estava lá a senhora dos tremoços. Não estava lá ninguém. Na rádio continuava a Playlist do Miguel Guedes. Continuava a achá-lo um sujeito arrogante, duma arrogância que se detectava logo na voz. O facto dele ser do FC Porto também contribuía para a construção que fazia dele. Mas tinha bom gosto, o cabrão. Um gosto igual ao meu. E foi aí que pensei se não seríamos nós todos, esta gente que gosta de boa música, todos uns arrogantes de merda por conhecerem aquilo que os outros não sonham sequer conhecer?
Abri o vidro do carro e acendi um cigarro. Fiquei ali algum tempo a fumar e a olhar a espuma suja que o mar trazia para a praça. Ainda pensei no que é que ela estaria a fazer em casa. Mas foi um pensamento rápido, que logo se esvaneceu.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/15]

A Puta da Gravidade

Nem tudo é preto no branco, // Sou bandido e santo // Mas só toco no céu // Se subir a um banco // Eu nem sei bem porque canto, // Eu já nem a mim me espanto // Orelhas de burro ao canto// A ver se aprendo entretanto…

A puta da gravidade, A puta da gravidade, A puta da gravidade, A puta da!…

Vinha pela estrada do pinhal para a Nazaré. No rádio, a TSF. No rádio os Linda Martini a berrar A Puta da Gravidade. No rádio a Playlist de Tó Trips. E que Playlist! Podia ser a minha. Não! Não podia! Havia três ou quatro escolhas dele que eu não conhecia. E que bem me soube conhecer.

Era Sábado de Carnaval e era bom fugir ao Apita o Comboio e ao Meu Amigo Charlie, Charlie Brown e levar uma bela tareia de bom e velho rock’n’roll de guitarras eléctricas cheias de genica e gana a dar-me cabo da cabeça. Que se fodessem os tímpanos e as dores de cabeça!

Não cheguei a descer à Nazaré. Fiquei-me pelo Sítio. É mais tranquilo. Havia lugar para o carro. E dava para ver o corso lá em baixo. Na marginal.

Engano. Dei logo de caras com o Love Bus. Um autocarro cor-de-rosa cheio de mascarados com duas caras. Foliões de copo na mão. Dançavam uns com os outros. Roçavam-se uns nos outros. Cantavam músicas cujas letras ficavam embargadas nos altifalantes fanhosos e na voz enrolada de gente já muito bebida.

Não vou embora daqui sem ela, nã vou, nã vou, nã vou…

Depois desta gente arrancar atrás do Love Bus, chegaram outros com uma cabeça de tubarão plantado no cocuruto e a cara pintada de branco, como mimos, mas estes não conseguiam estar calados. Estes tentavam vender porta-chaves para pagarem a bebedeira. Deixem-me em paz! dizia eu.

Sentei-me numa esplanada com lugares vagos. Percebi logo o porquê. Das colunas rasgava um som alto de música popular, folclórica e alguma brasileira, com gente a bailar feito louca.

Cada balão uma criança, lá lá lá lá lá…

Os turistas fotografavam. Os locais bebiam. Os locais dançavam. Os locais cantavam. Os turistas riam. Os turistas fotografavam mais ainda. Very typical!…

Alguém disse Olha o corso lá em baixo! E sim, afinal havia corso. Ou uma imitação dele. Uma miúda encostou-se ao muro para uma selfie com o corso na marginal de fundo. Levantou uma perna. Sorriu. Abanou a cabeça. Os cabelos voaram. Ela tirou a selfie. A perna levantada. Desequilibrou-se. Caiu para trás. Ainda lançou a mão para a frente. Para o muro. O telemóvel caiu no chão. Estilhaçou-se. As duas pernas levantaram-se acima do corpo. O sorriso fugiu. Eu levantei-me da cadeira. Ela gritou. E ficou em suspenso por alguns momentos. Em suspenso no ar. No vazio daquele precipício. Entre o Sítio e a Nazaré.

E depois… E depois, a puta da gravidade. E ela foi puxada para baixo. Caiu no vazio. Ainda vi a primeira vez que bateu com a cabeça numa rocha. Depois sentei-me e deixei de a ver cair. Ouvi os gritos das pessoas que acompanhavam ainda a queda. As mãos nas bocas. O desespero nas caras. O horror.

Ao fundo, o Love Bus descia para a Nazaré em alegre cantoria. Os foliões dançavam. Cantavam. Apitavam ao comboio, em apitos de plástico de todas as cores do arco-íris. Eu já não consegui levantar-me da cadeira. O café que tinha pedido estava a ficar frio. Acendi um cigarro. Fumei-o quase todo de seguida. Esqueci-me do café.

Na esplanada a música continuava a sair pelos altifalantes. As pessoas já não cantavam. Nem dançavam. Ali à volta, à volta daquele sítio, ali no Sítio, o Carnaval estava ferido. Havia música mas já não havia vontade de festejar.

Do outro lado Praça havia mais um grupo a preparar-se para descer. Mas estavam longe. Não se tinham apercebido.

Olhei para a praia, lá em baixo. Vi a Doca. Vi a Praia do Salgado. Se fosse Verão haveria lá alguns nudistas. Elas com as mamas ao léu. Eles com as vergonhas a dar-a-dar.

No horizonte do mar viam-se as Berlengas. E os Farilhões. Raios de luz rompiam o céu como uma bênção divina. Faziam círculos iluminados no mar. Às vezes Deus parece adormecido. Depois acorda. Mas geralmente acorda tarde.

Ao fundo da marginal via-se umas luzes a brilhar. Não sabia se era da polícia, dos bombeiros ou do corso de Carnaval. Mas lá em baixo ninguém se tinha apercebido do que tinha acontecido.

A puta da gravidade.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/02]