O Mundo a Fazer uma Barrela

Olhei para o céu e vi passar os aviões cheios de munições. Mais tarde haveria de os ver regressar bem mais leves, vazios de munições, depois de não-sei-quantos curdos mortos no norte da Síria.
Estava no alpendre. Sentei-me na cadeira. Acendi um cigarro.
Na casa do outro lado da estrada havia festa. Uma festa popular. Muito popular. Muita gente a dançar ao som de música popular. Havia vinho. Cerveja. Espumante. Umas jovens em biquínis diminutos mergulhavam numa piscina. Nas varandas, nas várias varandas da casa, apareceram várias pessoas, uma em cada varanda. A música foi desligada. As pessoas pararam de dançar. Pararam de beber. Ficaram paradas com os copos nas mãos. As raparigas pararam de nadar na piscina e toda a gente prestou atenção. Todos olharam para as varandas. Em silêncio. Atentos. Cada um olhava para a sua mas toda a gente parecia estar a olhar para todas as varandas ao mesmo tempo. Numa varanda estava Jair Bolsonaro. Na outra, ao lado, Donald Trump. Na outra a seguir estava Nicolás Maduro. Depois Viktor Orbán. E Recep Erdogan. Ao lado, Vladimir Putin. A seguir estava Boris Johnson. Logo depois Mohammad bin Salman. Colado estava Xi Jinping. Depois outras personagens que não identifiquei logo. E lá no canto, na última varanda, que afinal não era uma varanda mas uma janela, estava André Ventura. Que raio é isto? Como é que a casa em frente tem tantas varandas? E janelas? E toda esta gente? Quem é esta gente toda? E o que está aqui a fazer à frente de minha casa?
Os homens nas varandas, e o que estava à janela, começaram a discursar. Todos a uma voz como se fossem um só. Em todas as línguas do mundo que eram uma só. E toda a gente atenta a ouvir. Os homens que discursavam estavam com os olhos vermelhos, injectados de sangue, escorria-lhes uma baba verde, ácida, pelos cantos da boca e cuspiam perdigotos sobre as pessoas enquanto falavam com elas, enquanto lhes cuspiam palavras de ódio. As pessoas pareciam hipnotizadas. Batiam palmas. Uivavam. Anuíam. Concordavam. E começaram também elas a babar. Babar ódio. O terreno em frente começou a ficar inundado de tanta baba. Depois os discursos pararam. Apareceram uma moças quase despidas, de seios proeminentes, a erguer umas placas sobre a cabeça com alguns dizeres: Eu Primeiro; Eu à Frente; Eu De Novo em Primeiro; Ordem e Progresso; Acima de Todos Eu, Acima de Mim Deus.
Achei tudo muito interessante. Mas estava com sede. Levantei-me e fui buscar um copo de vinho. Regressei ao alpendre. Acendi novo cigarro.
Ao fundo, vi as montanhas a abanar, como se fossem de gelatina. Tremiam como varas verdes. As vacas que sobreviveram deixaram de ter leite e passaram a dar manteiga. As ovelhas perderam os caracóis e ficaram com o pêlo liso e escorrido. Depois um furação passou por cima das montanhas e levou as turbinas eólicas pelos ares. Deixou umas nuvens escuras, carregadas de água, que largaram tudo sobre as pedreiras que devastavam as montanhas e inundaram os vales, arrastaram casas e carros e os camiões de transporte de pedras das pedreiras e devastaram as quintas e quintais como as pedreiras tinham devastado as montanhas.
A água veio pela montanha abaixo, o rio e o ribeiro galgaram as margens, houve inundação em todo o lado e acabou por terminar com a festa na casa em frente, do outro lado da rua. As varandas foram destruídas e as pessoas que lá estavam foram arrastadas pelas águas furiosas e zangadas. Ainda vi a cabeça do André Ventura a tentar manter-se à tona da água que corria violenta.
Não chegou cá acima, felizmente.
Deu-me uma certa agonia. Cuspi para o chão do alpendre. Pensei que eu vivia num cantinho do céu guardado por Deus. Via todas as desgraças a acontecerem lá longe. Do outro lado da estrada. Longe do meu alpendre.
Depois senti um trovão a ribombar sobre mim, sobre a minha cabeça, e pensei Falei cedo demais, porra!
Foi então que me levantei da cadeira do alpendre e resolvi entrar em casa. Nesse momento voltavam os aviões turcos, mais leves, depois de terem despejado toda a munição sobre os curdos que, coitados, andaram a salvar-nos do Daesh e agora estavam a ser dizimados.
Ainda antes de entrar em casa senti um aperto no coração. Virei-me para trás e percebi. Ao ver a enxurrada levar toda a gente na fúria das águas, percebi. Alguns amigos de infância estavam naquela embrulhada. Eram levados. Eram levados para longe. Alguns morriam. Morriam cheios de ódio. E senti-me triste. Triste por eles. Depois pensei que isto era o mundo a dar uma barrela.
Entrei em casa e fechei a porta nas minhas costas.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/13]

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Um Mergulho na Piscina

A miúda chegou. Foi ter com os outros miúdos. Mandou os chinelos a voar. Tirou logo as calças. A blusa. Largou tudo no chão. Depois fez pose para mostrar o fato-de-banho novo. Reduzido. Fluorescente.
Eu estava no meu canto. Sentado na cadeira. À sombra de um chapéu-de-sol. Quantos anos teria a miúda?, pensei. Dezasseis? Dezassete? Não, definitivamente não. Dezoito anos. Decidi que tinha dezoito anos para não ser atormentado pela culpa. E continuei a olhar para a miúda à beira da piscina, em pose para o grupo de amigos, a mostrar o corpo, o fato-de-banho, aquele conjunto que tapa-e-revela.
E, no fim de tudo, eu ainda gostava de olhar para as miúdas.
Ela virou costas ao grupo e mandou um salto para a piscina, e mergulhou, com as mãos à frente do corpo.
Eu senti um tremor. Imaginei que senti um tremor quando a vi mergulhar na água da piscina. Mantive o olhar ansioso sobre as águas. Sentia umas gotas de transpiração a escorrer-me pelas frontes.
Vi-me há trinta anos atrás. Vi-me assim, num estúpido ritual de acasalamento qualquer. Numa brincadeira animalesca para gáudio dos meus amigos. Para brilhar aos olhos das miúdas. Corri. Corri ao longo da relva da piscina, uma correria elegante, o corpo direito, os braços a cortarem o ar, os cabelos a esvoaçarem sobre os olhos, cheguei à zona das lajes, senti um ligeiro escorregar dos pés, mas percebi-os suficientemente seguros para ganhar impulso, saltar para o ar, sobrevoar a água cheia de cloro, sentir-me o super-herói da piscina, as miúdas de boca aberta, espantadas com a elegância do meu salto, o mergulho na água como uma agulha, a escapar ao atrito, a furar o espelho de água como se fosse uma vara e ir fundo dentro da piscina e esqueci-me que ali, daquele lado, a piscina era baixa, e já ia tarde quando me lembrei, e foi nesse preciso momento em que me lembrei que senti a cabeça a bater no fundo da piscina e senti a dor, um choque eléctrico, e desapareci de mim, deixei de me recordar do que quer que fosse, que já não era eu, pelo menos não era eu acordado, consciente, e só voltei a tomar-me por conta numa cama de lençóis brancos e impecavelmente esticados, e algumas pessoas ao meu lado, reconheci nelas a minha mãe, o meu pai e vi-os a chorar e percebi o que lembrava de ter percebido logo no momento imediatamente antes de apagar e ficar tudo negro Estou fodido! E estava. Estava fodido. E o mundo acabou ali. Naquela cama de hospital.
Nunca chorei.
Passaram muitos anos. E agora estava ansioso por causa do mergulho da miúda. Não devia ter vindo aqui, à piscina.
Revirei os olhos para o lado e disse à rapariga que estava sentada, não muito longe de mim, a ler um livro, não consegui ver a capa, não sei que livro era, e disse-lhe Leva-me daqui. Ela pousou o livro no chão. Vestiu-se. Arrumou as suas coisas e colocou as mãos sobre a cadeira, destravou-a e começou a girá-la . Eu ainda tive tempo de ver a miúda a subir as escadas para sair da piscina e ir, molhada, ter com o grupo de amigos que a esperava deitado sobre a relva.
Eu suspirei aliviado. Mas ainda sentia umas gotas de transpiração a correrem-me pelo pescoço abaixo. A rapariga, baixou-se enquanto empurrava a cadeira e disse-me Foi uma boa manhã. Temos de cá voltar.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/05]

Corte de Cabelo

Desci da camioneta no novo terminal. Aquilo era um novo terminal já comido pelo tempo. Há muitos anos que não ia ali. Não ia ali de camioneta. Naquele tempo o terminal era outro. Este agora era um terminal novo. Mas a memória que tinha do antigo preservava-o mais que este que me garantia ser novo e já tão estragado pela erosão. Também pela falta de manutenção, uma das grandes doenças destes tempos que correm. As entidades gastam as verbas na criação dos espaços mas, depois, não têm como os manter. Ou não querem. Ou esquecem-se. O esquecimento também é uma doença destes tempos.
E foi isso que eu vi quando desci naquele terminal. O esquecimento e a morte.
Saí da camioneta e fui logo bafejado por uma onda de calor. Estava quente. Levei com uma explosão térmica que me fez desejar não ter ido ali. Mas aguentei. Tive de aguentar. Não fiz todos aqueles quilómetros para voltar atrás.
Havia silêncio. Quase silêncio. O motorista tinha desligado o motor da camioneta. Os ouvidos, habituados àquele rame-rame de um motor a gasóleo, suspiraram de alívio. O calor abafava quase todos os sons. Percebia-se o som distante das cigarras. Mais distante ainda, o som do mar. Pelo menos parecia-me. Mas podia ser só sugestão. Estava com calor. Com calor e com vontade de mergulhar. Mas tinha ido ali por outro motivo.
Tinha ido ali para cortar o cabelo.
Saí do terminal e caminhei junto às casas da rua para tentar aproveitar as mínimas sombras existentes. Cheguei à marginal. Olhei o mar. Estava convidativo. Pensei na minha transpiração. Sabia-me bem um mergulho, pensei. Mas vai saber-me melhor o cabelo cortado. Cortado curto. E caminhei durante algum tempo pela marginal. Acompanhei o mar. Olhei as pessoas a apanhar banhos de sol. Apreciei os corpos. Senti alguma vergonha do meu. Depois meti para dentro. Virei numas ruas até chegar à casa. Toquei à campainha. Ouvi um clique. Empurrei a porta. Abriu. Entrei. Avancei pela casa na penumbra. À espera de descobrir o que procurava. Voltei a sair. Luz. Comecei a ouvir música. Umas velhas canções New Wave. Saí do outro lado da casa. Saí para um quintal. Com umas árvores. Um baloiço. Uma piscina de borracha. Uma piscina grande. Um pequeno balcão a fazer de bar. Uma mala térmica. E uma cadeira. A cadeira. A cadeira onde ela cortava o cabelo.
Ela estava a acabar de cortar o cabelo a um rapaz. Eu abri a mala térmica. Olhei lá para dentro. Olhei para as garrafas no bar. Agarrei num limão. Pequei num copo. Fiz um gin tónico. Sentei-me no chão. Encostado a uma árvore. À sombra. À espera.
Depois o rapaz foi despachado.
E ela chamou-me. Levantei-me. Abraçámos-nos. Trocámos beijos. E ela disse Tinha saudades tuas. E eu disse Isto está bonito.
Sentei-me na cadeira. Ela cortou-me o cabelo. Conversámos. Quer dizer, ela falou. Eu escutei. Acabei com o gin.
Ela já não tinha mais cabelos para cortar. Mais tarde haveria de chegar gente para beber uns copos e ouvir música. Aproveitou para entrar na piscina de borracha e refrescar-se um pouco. Eu olhei o relógio de pulso e fui embora. Despedi-me.
Refiz a marginal. Voltei ao terminal. Ainda tinha de esperar uma hora pela camioneta para me levar de regresso a casa.
E foi então que fui ao mar. Dar um mergulho. Com o meu cabelo cortado curto. Nem me lembrei de ter vergonha do meu corpo flácido. Mergulhei no mar e senti-me bem. Senti-me fresco.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/28]

Estou Entre as Pernas Dela e Não Consigo Sair

Estava a tomar banho. Estava no duche. A janela da casa-de-banho estava aberta. Gosto de sentir o frio gelado por cima da água quente a açoitar-me o corpo. Começou a chover. De repente. Uma chuvada que Deus-a-dava. Uma chuvada tipo tropical. Daquelas violentas. De grossas bátegas. Tocada a vento. Entrou casa-de-banho dentro.
Eu não via nada. Tinha o champô na cabeça a cair-me pela cara e a entrar pelos olhos. Estavam-me a arder. Nem os conseguia abrir. Mas ouvi. Ouvi a chuva a entrar dentro da casa-de-banho. Parecia uma rajada de metralhadora. Ouvi o vento a abanar as janelas. Ouvi um vidro a partir. Mas não tinha a certeza do quê. Podia ter sido o vidro da janela ou o espelho sobre o lavatório. Ouvi também a pequena prateleira onde estava a escova dos dentes, a pasta dentífrica e o secador a cair no chão. Ouvi o barulho de queda em água. A casa-de-banho estava inundada. Parecia-me.
Enxaguei o cabelo e tirei o champô. Lavei bem a cara. Molhei bem os olhos. Desliguei a água do duche. Abri a cortina de banho e olhei à volta. Parecia o Inferno.
A casa-de-banho era uma piscina. Tudo o que estava em cima, estava agora em baixo. A boiar. A sanita partida. Havia também bocados de merda a passear pela casa-de-banho. Ramos de árvores. Folhas. Muito papel-higiénico desenrolado. Dois sapos. Vi dois sapos a nadar na poça de água. Um deles ainda subiu para o bidé e depois mandou um pulo para o lavatório onde ainda está. Acho. Só não sei como a cortina do banho se aguentou no meio daquele caos.
Mas assim como veio, foi-se. Caiu violentamente. Muita e muito depressa. E depois, foi-se. Acabou por chegar um sol brilhante e amarelo. O sol trouxe o chilrear dos pássaros. Mas os estragos feitos na casa-de-banho, esses mantinham-se.
Saí da banheira. Enrolei uma toalha à volta da cintura. Abri a porta da casa-de-banho com dificuldade. A casa estava toda inundada. Na sala, em frente, um tronco de uma árvore tinha partido a janela e tinha aberto caminho à água da chuva. Cheguei-me à janela para espreitar. A água estava da altura do meu apartamento. Um primeiro andar. Eu moro na porra de um primeiro andar. Estava tudo inundado até à altura do primeiro andar. Aquilo são quantos metros? Nem sei, mas são bastantes.
Não sabia como tirar a água de casa. Não tinha para onde escoar. Estava prisioneiro.
Peguei no telemóvel e liguei para os bombeiros. Ocupado. Mas as telecomunicações estavam a funcionar. Menos mal.
Percorri a casa de uma ponta à outra a tentar ver o que salvar e não vi grandes possibilidades. Devia estar angustiado, triste, desesperado. Mas afinal, nada disso. Na verdade, estava a cagar-me para a casa, para as coisas que tinha perdido, para o fenómeno extremo, como disseram mais tarde nos noticiários, para tudo aquilo. Na verdade estava bastante calmo. Era como se não fosse nada comigo. Como se eu não estivesse ali.
Liguei para a minha vizinha de cima. Atendeu. Pedi-lhe ajuda. Ela estava cheia de medo. Abriu-me a porta de casa. Sempre era um segundo andar. A casa estava seca.
Abriu-me também a cama. E depois, as pernas.
É onde estou agora. Entre as pernas dela. Dentro da cama dela. No apartamento dela. Mas vou ter de me levantar. Estou com fome. Vou ter de fazer alguma coisa para comer. Para comermos. E ela já me disse que não sabe nem estrelar um ovo. Eu acho que é desculpa. Mas não é problema. Eu sei cozinhar. Vou ver o que é que há por ali, E quanto é que há por ali. É que a água ainda não desceu um centímetro. Os bombeiros não atendem. Não sei quanto tempo vou ter de ficar na cama dela. E só tenho uma toalha como roupa. Também, não preciso de mais.
Estranhamente os telemóveis estão a funcionar. A televisão também. A CMTV já perdeu dois jornalistas afogados em directo. Foi um sucesso. A internet também está a funcionar. E a funcionar bastante bem. O Facebook, o Instagram e o Twitter não param de bombardear informação, piadolas e imagens radicais dos estragos e do mundo ao avesso.
Vou fumar um cigarro. Vou fumar um cigarro e ver o que há aqui para comer. E procurar uma garrafa de vinho.
Deixa-me sair. Chega para lá, vá. Então, rapariga? Descruza lá as pernas, se fazes favor. Ai, então?! Não tem piada, vá. Vamos. Vá lá. Oh! Estás a ouvir? Hei! Oh, porra!…

[escrito directamente no facebook em 2018/10/20]

A Picadela do Peixe-Aranha

Eles chegaram à praia e trouxeram o barulho.

A praia estava quase vazia, mas escolheram, precisamente, aquele espaço ali ao meu lado.

O pai desatou logo a peidar-se. A mãe disse Então, Zé? Não estás em casa!, e o filho mais novo começou a rir, estridente, e acabou a rebolar no chão. A filha, um pouco mais velha, uma adolescente já com outros interesses, ignorou por completo a família, estendeu a tolha, despiu o vestido e largou-se com o fato-de-banho mínimo a bronzear-se.

O pai foi a correr ao mar, ainda de calções e t-shirt, mergulhou atabalhoadamente, e regressou molhado e foi sacudir-se para cima da filha que fez sair um Foda-se, pai! Que levou a mãe e o irmão a rir.

Eu bufei.

O pai despiu a roupa, ficou nu e nu andou a pendurar a roupa molhada em cima do chapéu-de-sol até a mulher lhe dizer Oh, Zé, não andes a mostrar as vergonhas que quem fica com vergonha sou eu! E o filho riu e a filha olhou para mim e fez má-cara a tentar encontrar em mim um aliado contra a família.

Não respondi. Virei costas à família e deitei-me ao contrário, a tempo de ver chegar outra família a assentar arraiais à minha beira. Oh, que caralho.

O pai chegou e partiu. Foi caminhar. A filha despiu-se, passou bronzeador pelo corpo enquanto olhava para mim a olhar para ela e depois deitou-se, com o rabo virado para mim, e deixou-se adormecer. A mãe agarrou-se ao telefone. Nunca mais o largou.

Entre os peidos do pai de uma família e os telefonemas da mãe da outra, não sabia o que fazer.

Levantei-me e fui ao mar.

Estava a tentar entrar na água, entrando centímetro atrás de centímetro a tentar sobreviver ao frio atlântico, quando pisei no que supus ser um peixe-aranha. Uma dores diabólicas. Gritei um Caralho, foda-se! que fez toda a gente olhar para mim. Caí na areia. As ondas passavam-me por cima.

Um nadador-salvador foi lá puxar-me para terra. À minha volta uma série de curiosos. Alguém disse Mordida de peixe-aranha! E logo outro alguém que estava a fumar disse Queima-se a ferida para não infectar, e agarrou-me o pé, soprou para o cigarro para intensificar o borrão de cinza e queimou-me o pé, eu gritei, mandei o tipo P’ró caralho! e o nadador-salvador disse Tenho ali um desinfectante e foi buscá-lo e entretanto chegou o pai da primeira família e disse que O mijo desinfecta tudo, sacou da pila e mijou-me no pé à frente de toda a gente e eu mandei-lhe um pontapé nos tomates e saí dali a coxear, apanhei a minha toalha, a roupa e os chinelos e fui embora da praia.

A partir de amanhã só vou para a piscina e nas horas de maior calor.

Odeio pessoas.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/28]