Não Devia Ter Bebido o Último Copo

Arrasto-me pela estrada fora. Pesam-me os pés e a cabeça. Os pés têm dificuldade em colocar-se um a seguir ao outro, a cabeça tende a cair sobre o peito. Vejo tudo a dançar à minha volta. Como o carrossel da Feira de Maio. A bacia que gira sobre si própria enquanto o carrossel anda às voltas e acima e abaixo. Sinto-me enjoado. Sinto um vómito a querer subir, mas consigo que fique lá em baixo, quietinho, sossegado.
Não devia ter bebido o último copo.
A casa fica longe. A minha casa. A casa onde estou a viver. Estou lá sozinho. Vivo sozinho naquela casa. Uma casa grande. Não gosto de beber sozinho. Gosto de companhia. Gosto de conversar enquanto bebo. Gosto de beber. Também gosto de conversar. Não gosto quando bebo o último copo.
Não devia ter bebido aquele copo.
Tropeço num dos pés ou um dos pés tropeça em qualquer coisa e eu caio. Não consigo levar as mãos à frente e caio com a cara. Acho que parti o nariz. Acho que fiz sangue. Mas não me dói muito. Não me consigo levantar. Tenho de fazer um esforço. Tenho de voltar para casa. Não posso ficar aqui. Estou pesado. Tenho de emagrecer. Comer menos pão. Beber menos. Fazer exercício físico. Aqui dou uma gargalhada. Eu a fazer exercício físico? acho que me ouvi perguntar. Dou nova gargalhada. Ou é a mesma? O meu exercício físico preferido é o zapping de cu enterrado no sofá, de preferência com um cigarro numa mão e um copo de vinho noutra.
Estive a beber uns copos de vinho no café. No café da aldeia. Não devia ter bebido o último copo.
Estava a saber-me bem, estar ali na conversa. O vinho escorrega e só dou por ele quando ele dá por mim. Quando ele dá por mim, já não dá mais para dar conta dele porque ele já deu conta de mim.
Preciso de arrotar.
Primeiro, levantar-me. Está difícil. Difícil mas não impossível.
Vamos lá. Recomeçamos a caminhada. O fim da rua está cada vez mais distante. Levantou-se esta ventania. Oh, pá! Que arroto azedo. Foda-se!
Não devia ter bebido o último copo.
Devia ter comido alguma coisa. Ajudava a ensopar. Mas não me apetece. Quando é que começa outra vez o Benfica?
Olha, os candeeiros já estão ligados. Já é de noite? Porra, já é de noite?
O que é que eu vou fazer agora?
Quero deitar-me. Mas não posso fechar os olhos. Vou tomar um banho. Tenho calor. Tenho sangue. Tenho sangue na cara, porra! Dói-me o nariz. Parti o nariz? Como é que parti esta merda? Oh, que caralho! Como é que fiz isto?
Tenho de ir depressa para casa. Porra, a estrada mexe-se. Tenho de ir mais depressa. Tenho de tentar manter o equilíbrio e não sair da estrada. Corro. Corro. Corro e não caio. Mas a rua não acaba. Corro. Corro mas parece que estou no mesmo sítio. Não consigo sair daqui.
Volto a tropeçar. Caio. Outra vez. Desta vez levo as mãos à minha frente. Eu vejo-me a cair e a levar as mãos à frente da cara, do corpo. Mas caio de joelhos. Foda-se! Estou de calções. Rasgo os joelhos. Há mais sangue. Não sei se é o mesmo, se é outro. Vou vomitar. Foda-se! Vomito-me todo. Estou maldisposto. Ouço um carro a buzinar. O que é que o carro está a fazer no passeio? Faço-lhe um pirete. Vai para o caralho, pá! digo-lhe. Ou acho que lhe digo. Não me ouço. Estarei afónico? Quero levantar-me. Tenho sangue. A cabeça está à roda. Quero ir para casa. Não quero ir para o hospital. Apetecia-me beber uma cerveja. Fumar uma joint.
Não devia ter bebido aquele último copo de vinho. Estava estragado, com certeza. Agora vou morrer. Oh, foda-se! Agora vou morrer! Não quero morrer. Não quero morrer sozinho. Quero ir para casa. Quero ir para a cama. Choro. Choro? Porque raio é que choro? Paneleirices! És um homem ou um garoto? Eu acho que sou um garoto. Que homem estaria nesta situação? Bom, um homem como eu. Oh, pá! Cala-te que já não consigo ouvir-te. Deixa-te ficar aqui deitado. Deixa-te ficar aqui que estás bem. Afasta-te é um pouco deste vomitado. Alguém vomitou aqui. Preciso de mijar. Acho que vou ficar aqui um bocadinho. Para descansar. Só preciso de descansar um bocadinho. Depois fumo um cigarro. Fumo um cigarro e bebo um copo, tomo um Ventilan, um Voltaren, um Ben-U-Ron e dois Xanax e fico bem.
Não devia ter bebido aquele copo.
Vou ficar bem.
Vou, vou.

[escrito directamente no facebook em 2021/07/19]

Ao Passar a Ponte Sobre o Tejo

Íamos de carro a atravessar a ponte sobre o Tejo. Eu e ela. Ainda não estávamos bem no tabuleiro da ponte. Estávamos a caminho do tabuleiro, naquela parte em que todos os acessos já deram acesso e é tempo de continuar em frente, passar a ponte, e escolher a A2 e ir para o Algarve ou virar à direita e ir para a Costa da Caparica. Também se pode virar à direita e ir para Almada, Cacilhas e Cova da Piedade, mas não era esse o caso. Íamos seguir em frente, pela A2, e virar à direita mais à frente para irmos para o Meco.
Eu ia de calções. Uma t-shirt velha e muito coçada, de um material que fazia lembrar os pólos, mas não era um pólo, era uma t-shirt. Não tinha botões.
Ela ia de vestido leve e esvoaçante. Um vestido transparente que deixava ver o biquíni por baixo.
Ainda não tínhamos chegado ao tabuleiro da ponte, eu estava a mexer nos botões do rádio à procura de uma música que me agradasse, quando senti a mão dela a pousar na minha perna, na minha perna cá em cima, já na coxa, mesmo na pele, a fugir à perneira curta dos calções, e senti-me excitado, os pêlos eriçaram-se, fiz girar o botão do volume que largou o rádio num berreiro e eu tirei, por momentos, o olhar da estrada para ver o que é que estava a acontecer com o rádio e a retirar a mão dela de cima de mim, pelo menos enquanto eu estivesse assim, tão susceptível, quando senti o carro a dar uma pequena guinada, senti uma pancada seca, seca mas não muito forte e, logo de seguida, a buzina de um automóvel que, vim a perceber, me era dirigida.
Levantei a cabeça, procurei de onde vinha a buzina que não se calava e vi um sujeito a esbracejar dentro de um carro. Ao lado dele, uma mulher também esbracejava. Continuava a apitar e a agitar os braços, as mãos, os dedos e apontava, apontava para mim, parecia-me, e apontava para o rio e continuava a apitar.
Ela estava sentada no banco, afundada no banco, assustada. E disse Acho que batemos no carro. E eu pensei Se calhar batemos. Mas foi um pequeno toque sem consequências. E ela continuou Se calhar é melhor pararmos. E eu pensei Parar, onde? Estamos na ponte. E como se tivesse ouvido a minha pergunta, ela disse Vira à direita, como se fôssemos para a Costa. Há aí uma estação de serviço.
Fiz o resto da ponte com o outro carro a seguir-me e a buzinar, depois virei à direita e acabei por parar na estação de serviço a caminho da Costa da Caparica.
O outro carro seguiu-nos e parou atrás de nós. Finalmente a buzina calou-se e senti alívio.
Saí do carro mas ainda nem tinha os dois pés fora do carro, o tipo já me estava a agarrar pela t-shirt e a puxar-me para fora. Rasgou-me a t-shirt. Não era preciso muita força para rasgar a t-shirt. Estava coçada. Tinha muitos anos. Já tinha viajado muito comigo. Estava cansada. Como eu fiquei quando o tipo me puxou para fora do carro, rasgou-me a t-shirt e empurrou-me contra o capot. Senti-me cansado. Ao lado dele a mulher. Os dois estavam aos berros comigo. Não sei o que diziam. Não conseguia ouvir. Berravam. As bocas abriam-se e pareciam querer engolir-me. A ele faltavam-lhe dois ou três dentes à frente, na boca, a mulher tinha os lábios pintados de cor-de-rosa, mas com um batom muito pastoso.
Eu olhei dentro do carro e vi-a cheia de medo, afundada no banco. Levantei os braços a dizer ao tipo que estava tudo bem. Íamos falar. Íamos ver o que tinha acontecido e íamos falar. E ouvi-o dizer Cem euros! Cem euros!
Olhei para o carro deles à procura de estragos e o carro era um chaço todo batido e cheio de ferrugem. Se lhe bati, nem se notava.
Perguntei-lhe Queres cem euros? Porquê?
E o tipo e a mulher dele recomeçaram a cuspir-me palavras para cima, muito irritados, muito próximos de mim, sentia-lhes o bafo, o bafo azedo e a cheirar a tabaco frio, e levei as mãos aos bolsos e vi que não tinha nem a carteira nem dinheiro, nada.
Ainda disse Podemos chamar a polícia, e ai foi ela que me agarrou a t-shirt e ainda ma rasgou mais. Pensei que era nessa altura que me iriam mesmo bater. Os tipos estavam furiosos. Se calhar até tinham razão para estarem furiosos. Se calhar bati-lhes mesmo com o carro. E eles não tinham culpa de terem um carro tão velho e estragado e sem tinta e não se perceber o que é que eu tinha estragado, quando olhei para dentro do carro e vi que ela já não estava lá, olhei em volta, por entre as cabeças e os braços e as mãos dos outros dois e vi-a vir do interior da estação de serviço, e vinha com duas notas de cinquenta euros na mão e aproximou-se deles e deu-lhes o dinheiro.
Foi a mulher que agarrou no dinheiro. Pôs o dinheiro dentro do soutien e cuspiu para o chão. O tipo largou-me e ainda disse Para a próxima toma mais atenção. E foram os dois embora para o carro deles.
Ela acendeu um cigarro e passou-mo. Eu levei o cigarro à boca. Foi então que percebi que estava nervoso. O cigarro começou a acalmar-me e eu percebi, então, que estava mesmo muito nervoso.
O carro dos tipos passou por nós para voltar à estrada e vi que no banco de trás estava uma alcofa com uma criança de colo. A alcofa ia solta sobre o banco de trás. A criança ia solta na alcofa e a agitar os braços e as pernas. A mulher fez-me um pirete e o carro voltou à estrada.
Respirei fundo.
Ela veio encostar-se ao meu lado a fumar um cigarro também.
E disse-me Acho que batemos mesmo no carro deles. Mas não temos nada estragado no carro. Eu acenei, em silêncio.
Acabámos de fumar os cigarros. Apagámos as beatas no chão.
Eu perguntei Vamos?
Ela disse Estás todo rasgado. Ergueu-se um pouco e deu-me um beijo. Senti-me de novo excitado.
Antes de entrarmos para o carro disse-lhe Não me voltes a tocar até chegarmos à praia. E ela riu-se.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/01]

Dia Um de Setembro

Dia um de Setembro. Acabaram-se as férias. Os emigrantes regressam a França. À Suíça. Ao Luxemburgo. Os parques de campismo ganham clareiras. As unidades hoteleiras deixam de estar lotadas. Deixa de haver festas nas aldeias. Os Santos já foram todos homenageados. Os camiões TIR, que se transformam em palcos de luz e cor, voltam para as suas garagens à espera da rentrée, que não tardará. Deixo de ouvir os morteiros que me anunciavam as festas aqui à volta. Os pais pegam no dinheiro que esconderam nas férias, por causa das tentações, e avançam para a compra do material escolar dos filhos. A escola está aí ao virar da esquina. Alguns pais andam desesperados com o site Mega. Não funciona. Ou funciona mal. Aos bochechos. Os pais não conseguem os vouchers para adquirirem os livros gratuitos. As secretarias das escolas vão estar a meio-gás e não vão ter as informações necessárias. Haverá gente que irá parecer não ter ido de férias. Ou ainda não ter voltado. As cidades, amanhã, vão ter mais gente, mais carros, mais confusão.
Dia um de Setembro. Acabaram-se as férias. É altura de eu ir até à praia. Ter espaço para estender a toalha sem ter de deitar a cabeça nos pés do vizinho. Mergulhar na água do mar e não no chichi da velha. Poder dormir na areia e não ter de levar com o tijolo musical do jovem adolescente. Com a bola do atleta. Com a estória interminável da tagarela que não se cala, nem com o choro da criancinha que quer um gelado, uma Bola de Berlim, uma Bolacha Americana, ir ao mar ou, tão só, chatear toda a gente só porque sim.
Dia um de Setembro. Saio de casa de manhã. Levo chinelos nos pés. Calções de banho vestidos e outros para vestir mais tarde. Uma toalha. Um boné. Uma garrafa de água que deixei no congelador de véspera. Um Tupperware com uvas. Os óculos escuros que impedem os raios UV de me estragarem os olhos e uma vontade de mergulhar no Atlântico.
Dia um de Setembro. Cruzo-me com poucos carros na estrada. Pareço estar num filme pós-apocalíptico. Rodo sozinho. Fumo um cigarro enquanto faço o pinhal de Leiria que ainda não ardeu, a caminho da Nazaré. Deito a cinza no cinzeiro. Aproximo-me do primeiro carro que vejo desde que saí de casa. Vejo sair um pacote de batatas fritas pela janela do lado direito do carro. Apito. Ele responde com outra apitadela. Depois vejo um braço a sair pelo vidro esquerdo e fazer-me um pirete. Filho-da-puta!, penso.
Acelero. Ultrapasso o carro. Ponho-me ao lado dele. Olho para o homem que vai a conduzir através dos meus óculos escuros. São Ray-Ban. Não faço nenhum gesto. Só olho. O homem evita olhar para mim. Não estava à espera que eu me chegasse à frente. Guino o volante para a direita. O tipo assusta-se. Guina também para a direita e sai da estrada, entrando pelo pinhal de Leiria dentro. Eu continuo em frente, indiferente ao carro, ao tipo e a quem mandou o pacote de batatas-fritas janela fora.
Estou a chegar à Nazaré. No Calhau vejo uma quantidade enorme de cartazes a anunciar Quartos, Rooms, Zimmers, Habitaciones.
É bom sinal. Quer dizer que já toda a gente foi mesmo embora. Só espero que já não hajam Caravelas Portuguesas a impedir-me de ir ao mar.
Quando começo a descer para Nazaré, percebo que, afinal, ainda não acabaram as férias de toda a gente. É Domingo. É a porra de Domingo. Há fila compacta para chegar lá abaixo, à praia da Nazaré. Na rotunda, vejo que também há fila para ir para o Sítio.
Foda-se!
Contorno a rotunda e volto para trás. Volto para casa. Ainda não estou preparado para multidões. Afinal, ao fim-de-semana, Setembro ainda não é Setembro.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/01]

Uma Desgraça Nunca Vem Só

Naquela época, a civilização começava em Aveiras. As despedidas da província eram feitas no Pôr-do-Sol 2, encostados ao balcão, agarrados a um pão com panado e uma Coca-Cola, ou uma mini para os mais afoitos que naquela altura a polícia não andava a perseguir os alcoolizados ao volante, e depois de uma bica de café queimado, o ingresso na estrada do futuro em direcção à capital.
A primeira vez que entrei na estrada da civilização ao volante de um carro, foi com um Fiat 127 branco nas mãos. O meu segundo carro. O primeiro tinha sido um Simca, também branco, com motor atrás e um saco com cinquenta quilos de areia à frente para o carro não levantar cavalinho, mas com ele não me arriscava a tão longa viagem. A minha experiência mais louca com o Simca tinha sido de Leiria a São Pedro de Moel, à noite, depois de jantar, depois da noite de Leiria fechar, e estar meia-hora parado nos semáforos na Marinha Grande à espera que o carro arrefecesse. Depois de parar (e geralmente ia abaixo quando estava parado num semáforo, ou à entrada de uma rotunda se não pudesse entrar logo) tinha de esperar que o humor arrefecesse. Então, o Simca nunca saiu das berças da cidade provinciana.
Já o Fiat, carro italiano, nervoso, pequeno mas irreverente que até permitia algumas ultrapassagens em plena N1, era carro para chegar à capital.
Foi derrubado em Vila Franca de Xira, com a ponte Marechal Carmona à vista. Começou por tossicar, solavancou, desligou-se do peso do meu pé no acelerador, abrandou e disse-me Daqui não saio. Encostei-o à curta berma da estrada. Saí do carro. Acendi um cigarro e perguntei-me E agora? O que faço agora? E não sabia.
Fumei o cigarro.
Um carro abrandou. Abrandou até quase parar ao pé de mim. Mas não chegou a parar. Um carro desprevenido bateu-lhe por trás e o carro foi projectado para a frente. Como um carrinho-de-choques na Feira de Maio. Mas o carro não saiu da estrada, aproveitou o empurrão e continuou o caminho. O que lhe bateu, também. Nenhum deles se preocupou com as chapas amolgadas. Toda a gente tinha pressa de chegar à capital. Eu também. E resto era paisagem.
Acendi outro cigarro. Pensei Se houvesse telemóveis, GPS, computadores, mas não! Que merda de época! E era. Era uma merda de época. Os carros não tinham fecho centralizado de portas. As janelas precisavam de força braçal para serem abertas. Não havia ar-condicionado. Só chauffage. Os bancos não eram climatizados. Os encostos de cabeça não traziam DVD. Os isqueiros funcionavam. Os cinzeiros andavam sempre cheios de cinza e beatas velhas. Os porta-luvas carregavam velhos maços de cigarros vazios e amarrotados, caroços de maçãs meio roídos e preservativos usados. Uma desgraça.
E como uma desgraça nunca vem só, e precisa de companhia para um bom happening, lá apareceu um reboque. O homem-reboque tentou ligar o carro. Nada. Abriu o capot. Olhou lá para dentro. Colocou o dedo do pirete numa peça. Noutra. Bateu. Ninguém respondeu. Abriu o depósito de água. Viu a vareta do óleo. Depois virou-se para mim e disse-me, com ar professoral e entendido, O motor gripou.
Mas quem se gripou fui eu.
Puxou-me o carro para cima do reboque. Deu-me boleia ao lado dele. Fumámos cigarros. Eu por nervosismo. Ele por tradição. E levou-me o carro para uma oficina não muito longe de minha casa. Tive de esperar pelo dia seguinte para a oficina abrir que era Domingo. Passei um cheque ao homem-reboque (ainda se utilizavam cheques, alguns só visados). O carro ficou meio em cima de um canteiro de flores mal tratadas pela autarquia. Fui a pé para casa. Nessa noite não jantei. Só bebi vinho e fumei cigarros. Estava nervoso. Nervoso e zangado.
Fui deitar-me quando se acabou o vinho e os cigarros. E não dormi a pensar no cheque passado ao homem-reboque. Nem sabia se tinha dinheiro suficiente na conta. E não dormi a pensar no motor gripado. E não dormi a pensar em quanto é que o motor gripado iria custar. E não dormi a pensar no que fazer ao carro se não conseguisse fazer nada.
E foi então que acordei com o despertador a tocar e a angustia a chegar. Agora tinha de ir tratar do carro.
E uma desgraça nunca vem só. A minha sorte é que estava no coração da civilização.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/24]

Abandonado numa Estrada Deserta

Está um calor de abrasar. Vejo, à frente, lá ao fundo da estrada, através do pára-brisas do carro, as ondas de calor que sobem do alcatrão.
Ela vai a conduzir. Eu vou ao lado. Vamos em silêncio. O rádio do carro está desligado. Não me lembro quem é que o desligou. Terei sido eu? Ela? Ela vai concentrada a olhar a estrada. Mas não precisa de muita concentração. Estamos numa recta infindável. Estamos numa estrada deserta. E não se ouve o barulho de outro carro. Só este. O barulho rouco do motor em sobre-aquecimento. E os pneus de borracha a descolar do asfalto mole, quase derretido, um quase-pântano que tenta prender o movimentos das rodas a circular.
Vou com o braço pousado na janela aberta. Vão as quatro janelas abertas. Mas não se sente quase nenhuma aragem. Estamos mesmo no reino do calor extremo.
Ela também leva o braço esquerdo fora do carro. Conduz só com uma mão. Não há muito para conduzir. Não há ultrapassagens. Não há que acelerar, travar, desviar.
Ela podia deixar-se dormir que o carro iria sozinho lá para onde vamos – e para onde é que vamos? Ela pegou no carro, mandou-me entrar, e arrancou. Arrancámos e aqui estamos.
Olho para o pulso, à procura do relógio e vejo as horas. Marca oito horas. Mas não pode ser. Oito horas, da manhã ou da tarde? Nenhuma das oito horas tem o sol tão alto. Levo o relógio ao ouvido. Está parado. Não lhe dei corda. Tiro-o do pulso e dou-lhe corda. Quero acertá-lo. Olho para o tablier do carro. Olho para os manómetros. Olho para o espelho retrovisor interior. Não há relógio em lado algum. Não há horas.
Levo a mão ao bolso das calças. Procuro o telemóvel. Não o encontro. Viro-me para ela e pergunto-lhe Viste o meu telemóvel? Ela olha para mim – e eu não sei se gosto daquele olhar. Com um gesto da cara, aponta o queixo para os meus pés. Eu olho para baixo e vejo o telemóvel partido. Pego-lhe. Pego-lhe nas peças. Nas pequenas e nas grandes peças partidas do que já foi o meu telemóvel. Sem a olhar pergunto-lhe O que é que aconteceu? e ela não me responde. Continua a conduzir o carro e atenta ao deserto que se abre perante nós.
Largo os pedaços do telemóvel na estrada. Vou deixando cair através da janela ao longo da estrada. O que é que terá acontecido ao telemóvel?
Depois, ela pára o carro. Pára o carro num descampado. Estamos parados numa estrada deserta no meio de um deserto. Não se vê ninguém. Ela diz Paragem para a mijinha. Ela abre a porta do carro mas não sai. Eu abro e saio. Dou três passos, agarro na pila e começo a mijar. E digo Foda-se! que me sabe tão bem.
E depois ouço.
Ouço o motor do carro a trabalhar. O carro a arrancar. Viro-me para trás e vejo o carro a acelerar na estrada deserta e a mão dela fora da janela, a fazer-me um pirete.
Meto a pila dentro das calças. Sinto alguns pingos a caírem nas cuecas. Mas logo secam. Corro para a estrada mas já é tarde. Como o pó que as rodas do carro fizeram ao arrancar. Vejo-o fugir de mim. Ouço-o fugir de mim.
Estou parado na estrada. Estou a transpirar. Ainda vejo o carro lá muito ao fundo, transformado numa onda de calor, a tremer. Mas já não o ouço. Só ouço a minha respiração. O cantar das cigarras. Penso nas cobras. Olho para o chão à minha volta. Pergunto-me O que é que aconteceu?
Olho para a frente, para onde o carro foi, para onde o carro desapareceu. Olho para trás, para de onde viemos. E penso Onde caralho é que estou?
Começo a andar na direcção do carro. Começo a andar na direcção do carro na esperança que ela volte atrás e me apanhe.
Mas não tenho grandes esperanças.
Acho que deve ter havido merda. Porque é que vínhamos em silêncio? O que é que eu fiz? O que é que eu lhe fiz? Devo ter feito alguma, de certeza. Mas o quê? O que é que eu lhe fiz para ela me largar aqui, assim, debaixo deste calor tórrido? E daqui a umas horas é noite. Há por aqui cobras. Não sei onde estou. Tenho a cabeça a ferver. Tenho sede.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/10]