Cortes

Estou acordado. Estou deitado na cama, acordado. A casa está em silêncio. A casa está na escuridão. Não para mim. Tenho os olhos habituados ao escuro. A luz da noite que entra pelas janelas mal fechadas dá-me os contornos da casa. Do quarto. Da cama.
Olho para ela, deitada aqui ao meu lado. Olho para ela e vejo-a de olhos fechados. Dorme. Dorme encostada a mim. Os nossos corpos nus, quentes. O dela descansado no meu. O meu nervoso com ele próprio.
Não consigo dormir.
Olho o tecto. Um raio de luz cruza-o quase de lado-a-lado.
Estou ansioso. Tremo.
Tenho medo, mas não sei de quê. Só medo.
Olho para ela ao meu lado na cama. Está a dormir descansada.
Levanto-me devagar e em silêncio para não a acordar. Saio do quarto descalço. Nu. Cruzo a casa em silêncio. Cruzo a casa naquela quase obscuridade. Não preciso de luz. Os olhos estão habituados à escuridão. E conheço a casa de cor. Conheço cada parede. Cada esquina. Cada móvel.
Entro na cozinha. Vou à janela. Olho para fora. Há um pouco de luar. Vejo as árvores. As folhas mexem-se. Há uma pequena aragem. Nada de muito forte. A figueira ainda não deu figos. É muito cedo para os figos. Mas comia agora um figo da figueira. São doces, estes figos.
Há umas luzes a luzir ao longe. Há mais gente acordada. Há mais gente que não consegue dormir esta noite. Gente como eu. Talvez.
Abro uma gaveta. Agarro numa faca. Fico em pé sobre o lava-loiça. Respiro. Sinto a respiração. Ouço-me respirar. Depois forço a lâmina da faca sobre o meu braço. Corto. Corto carne. Corto-me. Sinto o sangue sair. Sinto o sangue escorrer pelo braço, como uma rede. Uma matriz. Sinto o sangue cair. Ouço os pingos no lava-loiça.
Suspiro.
Sinto um certo alívio. Uma libertação.
Mas ainda estou ansioso. Ainda sinto medo.
Acho que sinto medo de mim.
Abro a torneira do lava-loiça. Lavo a faca. Meto o braço cortado debaixo do fio de água que sai da torneira.
Gosto do frio da água. Gosto do frio da água a arder-me na carne.
Olho de novo lá para fora. As luzes ao fundo ainda estão acesas. O que é que estarão a fazer? Lá onde as luzes estão acesas?
Seco a faca num pano. Arrumo a faca na gaveta. Em silêncio. Puxo o braço para mim. Encosto-o ao peito.
Regresso ao quarto.
Deito-me na cama. Ela volta a encostar-se a mim. Eu olho para o tecto. Um raio de luz cruza-o de lado-a-lado.
Espero conseguir adormecer.
Estou cansado. Estou cansado e com medo.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/09]

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Um Pau à Cabeceira da Cama

Acordo a meio da noite com o vento a fazer bater as portadas das janelas. Acordo assustado com todo este barulho. São quatro da manhã. O silêncio da casa e a hora tardia da madrugada tornam tudo muito mais assustador.
Abro os olhos e aguardo que se habituem à pouca luz. Tenho o quarto na penumbra, iluminado apenas com a pouca luz que chega da rua pelas janelas abertas. Não tenho persianas. Não tenho cortinados. Tenho portadas de madeira que esqueço sempre de prender. E o vento fá-las bater na parede da casa e nas janelas. Um som seco. Pam-Pam. Pam-Pam.
Os olhos habituam-se àquela penumbra que me chega da rua. Vejo as sombras que se deslocam pelas paredes e pelo tecto do quarto. Talvez uma deslocação de luzes no exterior. Talvez um movimento de alguém lá fora. Talvez o cão. Os gatos. Talvez lá ande mesmo alguém. Ou talvez esteja só a sonhar.
Levanto-me da cama. Esfrego os olhos. Estou nu. Descalço. Pego no pau que tenho à cabeceira da cama e vou até à janela do quarto. Olho lá para fora.
O vento está forte. As árvores parecem dobrar. As árvores parecem quase partir. As árvores parecem querer levantar voo.
As portadas continuam a bater.
Não me atrevo a abrir a janela.
Agarro com mais força no pau. Acho que vejo alguém a mover-se lá fora. Com o vento. Furtivamente. Tento focar os olhos no exterior. Mas é difícil.
Saio do quarto. Em silêncio. Nu. Descalço. Percorro toda a casa. Levo o pau na mão. À cautela.
As portadas de todas as janelas continuam a bater furiosamente. Pam-Pam. Pam-Pam. O barulho amedronta-me. Mas não o suficiente para me fazer abrir as janelas e prender as portadas.
Passo na casa-de-banho. Aproveito para urinar. O som da urina a cair no fundo da retrete é abafado pelo vento lá fora, na rua.
Regresso ao quarto. Sinto uns pingos de urina a caírem-me na perna enquanto caminho. Não me sacudi o suficiente. Estou sonolento. Quero dormir.
Enfio-me na cama. Tapo-me até ao pescoço com o edredão. Olho para o tecto. Vejo as sombras a passear por lá. Tento fechar os olhos mas não consigo. Estou cansado mas não consigo fechar os olhos. Acho que estou com medo. Estou sozinho em casa. No quarto. Na cama. E estou com medo. Sei que é estúpido, este medo. Sei que não há razão para estar com medo. Sei que não há ninguém lá fora. Só o vento. Só o vento e o barulho que o vento provoca. Mas estou deitado na cama com o pau na mão.
Sinto uma presença num canto do quarto. Tento espreitar. Reviro os olhos. Acho que vi um movimento. Talvez uma barata? Um rato?
O medo veio da rua para dentro do quarto. Agarro o pau com mais força.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/14]

Eu, a Preto e Branco

Tinha uma data de livros empilhados à entrada de casa. Não sabia onde os meter. A casa é pequena e não abunda espaço vazio. Mas ali à entrada estavam no caminho das baratas. Tinha de os tirar de lá.
Abri o armário e vi o aspirador. O aspirador que já não saía dali há meses porque estava avariado. Tirei-o do armário e coloquei-o na rua, à porta de casa. Peguei nos livros e enfiei-os no armário. Ficaram empilhados na mesma, sem ordem, só uns em cima dos outros. Pelo menos consegui que ficassem com a cota virada para a entrada. Para perceber que livros eram. Mas não fiquei satisfeito com a arrumação. Não gosto dos livros arrumados assim, em pilhas, como se estivessem acampados. Como se eu fosse desleixado com eles. Como se eu não me importasse com a sua vida. Com as estórias que me contam. Mas importo. Importo sim. Às vezes até mais do que com as pessoas.
Fechei a porta do armário e pus-me a varrer a casa. É inacreditável a quantidade de cotão que surge do nada. Os montes de lixo agrupado nos cantos, debaixo dos móveis, no trajecto dos cabos de todos os aparelhos eléctricos e electrónicos da casa.
No fim transpirava. A respiração estava pesada. Aquele pó todo tinha-me activado um ataque de asma. Sentei-me no sofá e acendi um cigarro. Senti os pulmões a acalmar. E eu também. Relaxei. Levantei-me e abri a janela para deixar sair o fumo do cigarro, mas sabendo da quantidade de lixo que viria a entrar, de novo, em casa.
Depois saí. Peguei no aspirador e fui levá-lo ao ponto do lixo. Deixei-o de fora, encostado ao caixote do rsu.
E fui jantar.
Fui a uma cervejaria ali da zona. Sentei-me ao balcão. Pedi um bitoque e uma imperial. Enquanto esperava, fui à rua fumar um cigarro. Estava a chover. Tinha começado a chover e enfiei-me debaixo do beiral do prédio. Os pingos da chuva caíam no passeio e espalhavam-se por todo o lado e iam molhando-me as sapatilhas.
Ao fundo vi um casal a caminhar à chuva. Ela levava um chapéu-de-chuva. Ele levava a gola do casaco de ganga levantado. Mas iam a passo, como se a chuva não os incomodasse. Ela refilava com ele. Falava alto. Dizia muitas asneiras. Insultava-o. Mas nenhum deles olhava para o outro. Passaram à minha frente mas ignoraram-me. Ela continuou a falar alto para ele como se não me tivessem cruzado. A dizer coisas que eu não queria ouvir. Não devia ouvir. Mas as pessoas são assim. Fervem em pouca água. Agridem os outros. Dizem o que querem e o que não querem. Acusam-nos de tudo. Das maiores vilanias. Dos maiores crimes. Dali a pouco ela estaria a pedir-lhe perdão. Desculpa, diria ela. Ele não iria conseguir dizer não. E aquela relação iria perdurar até um deles se cansar, se passar e fazer alguma merda. Daquelas merdas que ocupam páginas no Correio da Manhã ou os programas do Hernani Carvalho.
Mandei fora o resto do cigarro e entrei na cervejaria à procura do meu bitoque.
Quando me sentei ao balcão olhei em frente e vi-me. Vi-me no espelho que estava à minha frente. Senti-me a preto e branco. Pesado. Cansado. E percebi que eu era a minha única companhia. Ninguém me gritava. Ninguém me batia. Ninguém me agredia. Ninguém iria fazer-me merda. Ou pelo menos assim eu acreditava.
O bitoque chegou.
Rasguei um bocado de pão e molhei-o no ovo a cavalo. A minha boca abriu-se e engoli aquele creme amarelo, tão saboroso que rapidamente me fez esquecer a minha solidão. E pensei que, lá em casa, dentro do armário, estava um livro à minha espera.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/26]