Sexta-Feira, 13

Sexta-feira, 13. Hoje é Sexta-feira, 13. Não acredito em maldições e azares. Como não acredito em Bruxas. Mas que as há, há.
Foi numa Sexta-feira, 13. Um dia como hoje. Há muitos anos. Tantos anos que já não sei quantos.
Estava no açude que havia ali em baixo, ao pé de São Romão. Ali a caminho das Cortes. Estava com uma miúda. Uma miúda de quem gostava muito. Era uma miúda da minha idade. Da minha turma. Éramos amigos já antes de sermos namorados. Foi a minha última namorada. Este dia, naquele dia, foi o último dia de namoro. Nunca mais namorei. Nunca mais quis nenhum relacionamento. Não queria ter um relacionamento coxo. Que me iria fazer lembrar, a todo o momento, que já não era homem. Já não era gente. Só um corpo atrofiado.
Estávamos no açude. Eu e ela. Era o fim das aulas e nós tínhamos faltado. Estávamos com o sangue quente e cheios de desejo. Fomos até ao açude. Eu era bom nadador. Elegante a mergulhar. E fazia gala disso. E então, mergulhei para ela. Para ela ver. Saltei do braço grosso da árvore para o meio do açude. Mas algo correu mal quando mergulhei. Fui mais fundo que o habitual. Tinha entrado muito a pique. E quando dei por mim, já tudo tinha acontecido e eu já estava no hospital. A minha vida ficou naquele mergulho. E eu nunca mais regressei ao contacto com os vivos. Não, não morri. Mas foi como se tivesse morrido.
Mergulhei mais a pique que o habitual e bati com a cabeça numa rocha no fundo do açude. Desmaiei. O meu corpo, inerte, subiu. Ela viu-me e puxou-me para fora. Parece que teve de me fazer respiração boca-a-boca e carregar forte nos pulmões. Parece que acordei e cuspi água. Depois foi à procura de ajuda. Eu não me lembro nada. Não me lembro de ter acordado. Nem de ter estado à espera de ajuda. Nem da ambulância. Lembro-me de ter acordado no hospital. Lembro-me de não me conseguir mexer. Lembro-me de a ver chorar. E lembro-me de uma conversa que a médica teve comigo. A primeira conversa. A dor da primeira conversa. O desespero. E a vontade de ter morrido. A vontade de ter ficado lá no açude.
E foi assim que me senti. Como se tivesse morrido. Tudo aconteceu numa Sexta-feira, 13. Não acredito em maldições. Nem em azares do destino. Mas a minha vida foi abalroada pelo destino numa Sexta-feira, 13.
Mandei-a embora. Mandei toda a gente embora da minha vida. Saí da cidade. Fui viver para o campo. Os meus pais foram comigo. Eu isolei-me. E continuo isolado, hoje.
Às vezes tenho de descer à cidade. E custa-me. Custa-me ter de vir para o meio das pessoas. Algumas pessoas que eram do meu passado. Fingimos que não nos reconhecemos. Mas também me custa não reconhecer a cidade que era minha. Custa-me não andar por aqui a sorver esta cidade com tudo o que ela tem, tinha, para me dar. Mas eu não tenho forma de sorver nada disto. Continuo a existir, mas já não vivo. Sou um tipo zangado. Eu, na verdade, fiquei no açude.
Em dias como o de hoje, ainda mais zangado fico. Tive de vir à cidade. Tive de chamar o táxi para me trazer à cidade e fazer, por mim, umas coisas que precisava que fossem feitas. Mas o taxista é simpático. Já la vão uns anos que me ajuda.
Mas hoje!? Hoje o diabo saiu à rua para me azucrinar e fazer lembrar que as Sextas-feiras, 13 não gostam de mim.
Vou no carro com o taxista. Vou sentado quieto, sem me mexer. Nada em mim mexe. Sei que já há um procedimento, através de um implante no cérebro, que me poderá fazer recuperar as mãos e os braços. Mas ainda sou um tronco estático. Só a cabeça mexe. Mas sinto tudo o que anda, ou não, à minha volta.
Estou parado numa estrada na cidade. Há uma fila que não anda. Uma das principais saídas da cidade está fechada por causa de um evento automóvel. Uma espécie de exposição de carros antigos. Passeiam-se pela cidade. Fazem provas de perícia. Gastam combustível fóssil, queimam borracha e sentem as suas pilas enormes, do tamanho dos seu carros e dos seus motores.
Eu também gostava de sentir a minha pila. E conduzir um carro. Mas não posso. Não consigo. Estou aqui na cidade, enfiado numa fila de trânsito que não se mexe. Pareço eu. A cidade sou eu. Os motores a trabalhar. O cheiro insuportável. Estou preso. Preso em mim e na cidade.
Às vezes penso na minha namorada. E como a minha vida podia ter sido se não tivesse faltado as aulas. Mas também penso que aquele mergulho, com ela a ver o meu corpo a furar o espelho de água do açude, valeu por uma vida.
Só é pena ter de vir a esta cidade nestes dias. São dias que acordam a minha tristeza.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/13]

O Tiago Baptista Pendurado numa Parede

Hoje encontrei o Tiago Baptista pendurado numa parede do CCB.
Fui empurrado para fora da cama pelo sol madrugador. Estava sol e calor. Pegaram-me pela orelha e fizeram-me ir.
E disseram Come! e eu comi.
E depois disseram Bebe! e eu bebi.
E ainda disseram Fuma! e eu fumei. Não, é mentira. Não foi preciso que me mandassem fumar para eu puxar de um cigarro e inundar os pulmões daquele prazer acre e mal cheiroso.
Depois de fumar, ao ar livre como convém para não chatear os outros, entrei. Entrei lá dentro.
E vi.
Vi o Tiago Baptista pendurado numa parede.
O homem estava em tronco nu. O corpo torneado, mas não plástico. Era o corpo de um homem, não de um modelo. O corpo era de um homem. Tinha uma lança na mão. No braço levantado em posição de ataque.
Sentei-me no chão. No meio da sala. Sentei-me e esperei. Deixei que saíssem todas pessoas que conversavam alto e à galhofa e esperei. Queria ver o homem mandar a lança. Queria ver qual era o alvo. Quem era o alvo! Esperei. Esperei. Mas o homem não mandou a lança. O homem fugiu. Vi-o fugir, mais pequenino, em silhueta, a correr e deixar para trás a tela gigante. Mais tarde percebi. Percebi quando vi a boca a cuspir as palavras de Samuel Beckett. A boca gigante na tela. A projectar as palavras de Beckett. E o homem fugiu. E nunca mais o vi.
Ainda perguntei por ele à Sara. E ao André. Encolheram os ombros. Ninguém viu para onde é que o homem tinha fugido
Mais tarde acabei por ver o Gonçalo Pena no meio de uma suruba. A placa avisava para a susceptibilidade de algumas peças. Pilas. Ratas. Gente nua. Sexo. A Nan Goldin a mostrar as suas tragédias. Os seus olhos inchados. Negros.
Teria uma coisa a ver com a outra?
Fui beber um café. Fumar um cigarro.
Vi que a Surma ia lá tocar.
Ficou frio.
A luz caiu.
Vim-me embora.
Ainda estou a pensar no homem. Com umas nuvens carregadas num céu azul. Uma lança na mão. O homem em tronco nu. De calças de ganga. Descalço. A sentir a terra nos pés. E olhos vendados. Agora é que me lembro. O homem tem os olhos vendados. E, depois…
E depois já estou em casa. A comer uns ovos mexidos com alheira de caça. E a beber um vinho alentejano.
Tenho um prato e um copo na mesa. À espera do homem. Se ele resolver passar por aqui. (Eu já tive o Homem com Cara de Cu pendurado na parede, mas ficou numa das curvas da minha vida).
Mas o homem, o homem será sempre bem-vindo.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/02]

E se Eu Fosse?…

E se eu fosse preto? Devia ser maltratado por isso?
E se eu fosse branco? Devia ser glorificado?
E se eu fosse homossexual? Gay? Paneleiro? Maricas? Bicha? Sapatona? Lésbica? Lambedora de velcro? Fessureira? Fufa? Estaria fora da lei de Deus?
E se eu fosse Bispo católico? Devia ser pedófilo?
E se eu fosse Bispo evangélico? Devia receber dízimo?
E se eu fosse Pastor protestante? Devia foder?
E se eu fosse ateu? Devia não ter direito a viver em paz?
E se eu fosse mulher? Devia acusar um homem de assédio?
E se eu fosse homem? Devia assediar uma mulher?
E se eu fosse deputado português? Devia ir a Serralves ver as pilas do Mapplethorpe?
E se eu fosse deputado português? Devia legislar em causa própria?
E se eu fosse deputado português? Devia ser leal ao partido? Devia ser fiel ao povo que me elegeu?
E se eu fosse Santana? Devia fazer mais um partido igual aos outros a fingir que é diferente?
E se eu fosse Aníbal? Não, eu não podia ser Aníbal!
E se eu fosse professor? Devia gostar do Mário Nogueira?
E se eu fosse PSP? Devia pagar a farda?
E se eu fosse GNR? Devia pagar a farda?
E se eu fosse Comando? Devia morrer na recruta?
E se eu fosse parvo? Devia levar um par de estalos?
E se eu fosse Índio norte-americano? Devia pôr o Donald Trump fora dos Estados Unidos?
E se eu fosse o Donald Trump? Devia assediar mulheres? E homens? E gabar-me de ser único? E grande? E enorme? E espectacular? E devia levar dois pares de estalos?
E se eu fosse Alexandre Frota? Devia fazer anal técnico?
E se eu fosse Jair Bolsonaro? Devia dar um tiro nos cornos?
E se eu fosse Povo? Devia ser estúpido?

[escrito directamente no facebook em 2018/10/05]