Em Estágio

Entrei em estágio. Estou a vinte e quatro horas do último jogo do campeonato e entrei em estágio. Estou preparado para o que aí vem.
Sentei-me no sofá. Estou em frente à televisão. Agora está desligada porque não quero desconcentrar-me. Estou focado no jogo. No último jogo do campeonato. No jogo que pode definir o título.
Fui à Nazaré comprar tremoços. Subi a São Pedro de Moel para comprar pevides. Fui ainda um pouco mais acima, à Figueira da Foz, para comprar uns camarõezinhos. No regresso a casa passei pelo Modelo-Continente e comprei uma grade de minis Sagres. Um volume de Marlboro Soft Pack. E gasolina para o Zippo.
Vesti a minha camisola imitação dos anos ’60. Encarnada. Debruada, na gola e nas mangas, a branco. De algodão. Com o emblema cosido à esquerda, sobre o coração.
Estou sentado no sofá. A televisão desligada à minha frente. Bebo um copo de vinho. A cerveja é para amanhã. Fumo um cigarro.
Penso que ainda faltam vinte e três horas para o jogo. Queria ligar a televisão, para ver o que se passa. Mas não quero condicionar a vontade. Não quero ouvir as especulações. Não quero perceber o nojo. Mas estou a ficar cansado de estar aqui fechado dentro de casa. A olhar para nada. Penso em ir até à rua, mas tenho medo que me aconteça alguma coisa. Pode cair-me um raio em cima. Uma marquise pode despenhar-se sobre mim. Um cão pode morder-me. E pode estar com raiva. Pode chegar uma nave extraterrestre e levar-me para fazerem experiências.
Não!
Fico aqui. Se calhar ainda faço uma cafeteira de café. Para ajudar a passar a noite. É isso! Vou fazer café! Não posso adormecer. Posso não acordar. Não posso correr o risco de não acordar. Pode dar-me o badagaio durante o sono. Um ataque cardíaco. Um AVC. Não posso correr o risco. Tenho de estar acordado. Para chamar um médico. Ou o INEM. Se fôr caso disso. Espero que não. Mas tenho de estar atento. Acordado.
Desligo o telemóvel para não me interromperem. Se liga alguém de um Call Center? Para mudar a rede do telemóvel? Para mudar o cabo? Não, o cabo não que não tenho cabo. Para mudar a rede de internet? A internet! Tenho de desligar a internet para não me pôr a interagir no Facebook, no Twitter, no Intagram, no Tinder. Não quero desconcentrar-me. Quero estar atento. Quero estar atento ao último jogo do campeonato.
Faltam pouco mais de vinte e duas horas. Estou em pulgas. Estou nervoso.
Porra! Não posso desligar a internet. A minha televisão só funciona com internet. Não tenho cabo. Só internet. Vou voltar a ligar.
Estes dias são muito complicados. Demasiadas exigências.
Bebo outro copo de vinho. Fumo outro cigarro.
Apetecia-me ler um livro. Mas não consigo. Estou demasiado excitado. Não conseguia focar-me nas letras. Abro a boca. Bocejo. Mau! Estou com sono. Ora bolas!…

Abro um olho. Depois o outro. Lá fora é dia. Foda-se! Deixei-me adormecer. Que horas são? Olho para o telemóvel. Está desligado. Olho para a televisão. Não tem horas. Levanto-me. O corpo estala. Parece que os ossos se desmontam. Vou à cozinha. Olho para a porta do forno. Faltam pouco mais de dez horas. Aproveito para beber um café. Ponho uma caneca a aquecer no micro-ondas. Levo a caneca de regresso para a sala. Sento-me de novo frente à televisão desligada. Tenho de decidir a que horas a ligo. Mas ainda há tempo. Ainda é cedo. Acendo um cigarro. Levanto-me a abro a janela da sala. Olho para a rua. É incrível como as pessoas continuam nas suas vidas sem se aperceber da importância deste dia. Sem se aperceberem que o último jogo do campeonato está quase a começar. Com o podem ser tão alheadas?
Mando a beata do cigarro para a rua. Regresso ao sofá. Olho as pevides e os tremoços na mesa de apoio. Pergunto E os camarõezinhos da Figueira? E de repente lembro-me Ah! Estão no frigorífico. Com as minis. A minha perna começa a bater no chão. Com um ritmo rápido. Estou nervoso. O estágio deixa-me nervoso.
Nunca mais começa o jogo?

[escrito directamente no facebook em 2019/05/17]

O Ensaio do Corso

Comprei tremoços e pevides. Um euro de cada. Comprei às senhoras do Sítio. Aquelas senhoras de Sete Saias que me tratam por Querido. São muito simpáticas essas senhoras. As pevides não são tão boas como as da Senhora das Pevides de São Pedro de Moel.
Sentei-me na esplanada altaneira. A beber uma imperial. A comer os tremoços. A descascar as pevides. A ver o ensaio do corso a passar lá em baixo, na marginal.
Havia muita gente apanhada desprevenida e de carro preso nos ensaios da multidão mascarada para o entrudo. Porque isto do ensaio era treta. Na verdade é um quase-cortejo só com menos espectadores nos passeios e mais carros de populares presos entre as bailarinas e os carros alegóricos.
As bailarinas estão muito vestidas, este ano.
Eu via tudo aqui de cima. Aqui do balcão da esplanada do Sítio.
A imperial fresquinha escorria garganta abaixo.
As pevides enfiavam-se nos buracos dos dentes partidos. Tinha que lá ir com o dedo, enfiar a unha, e libertar a massa produzida pelo mastigar na boca.
O sol batia-me com força na cabeça. Não tinha trazido chapéu. Devia ter trazido.
Fechei os olhos. Embalei-me.
Comecei a ouvir o som ambiente muito distante. O corso já não estava na marginal da Nazaré, mas em São Martinho do Porto. A Nazaré inteira estava em São Martinho do Porto. Distante. Para lá do horizonte.
Pensei Devia ter posto uma máquina a lavar roupa.
Pensei Tenho de fazer a cama de lavado. Gosto do cheiro de alfazema dos lençóis lavados de fresco. Acho que é de alfazema, o cheiro do amaciador, não é? Olha, não me lembro! Já não me lembro do que lá tenho. Mas deve ser isso. Alfazema. Se não é de alfazema é de outra coisa qualquer e eu gosto do cheiro na mesmo porque é o cheiro de lavado. Gosto do cheiro a lavado. Gosto quando ela sai do banho. Gosto de a beijar quando ela sai do banho. O cheiro do champô. Do sabonete de ervas. Gosto de lhe cheirar o corpo quando ela sai do banho e ainda vem a pingar gotas de água. E eu pego numa toalha e seco-lhe o corpo. Aos poucos. Sem esfregar. Suavemente. Como um mata-borrão a secar a tinta da caneta. E limpo os pingos que escorrem pelas pernas. Pelo peito.
Estou a ficar excitado. É este sol.
Abri os olhos. O sol continuava lá em cima. Mas o lá em cima agora era um pouco mais em baixo.
O horizonte tinha desaparecido. Uma nuvem compacta tinha-se formado em toda a volta. Vinha desde as rochas do Forte e continuava para a esquerda, formando uma pequena baía de neblina. Depois entrava pelo vale nas traseiras da Nazaré e já só lhe via o coruto por cima da colina.
Despertei.
O corso ainda estava lá por baixo
Pensei Hoje há Festival da Canção. Hoje é o dia da Surma. Hoje quero ver.
Pensei É melhor ir embora.
Olhei para o mar. Estava com forte ondulação e a rebentar com força na praia. Mas ainda era de dia. E estava calor. Mesmo se se aproximava o nevoeiro.
Pensei Vou beber outra imperial. E levantei o braço.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/23]

A Volta dos Tristes

Em dia feriado promove-se a Volta dos Tristes.
A Volta dos Tristes vem do tempo dos meus pais. Se calhar era-lhes anterior. Se calhar aprenderam com os pais deles e eles com os avós dos filhos. Mas eu aprendi com os meus pais. Nos dias de feriado, como em alguns Domingos, promovia-se a Volta dos Tristes. E agora também. Em dia feriado promove-se a Volta dos Tristes.
A Volta dos Tristes é um passeio, geralmente de automóvel, a um sítio onde se vai normalmente, nos outros dias, mas com outro espírito e com roupinha de feriado, ou a um sítio sem jeiteira nenhuma.
Em Leiria havia muitos trajectos para a Volta dos Tristes.
Um desses trajectos era ir de carro até à Praça Rodrigues Lobo. Os carros ainda podiam circular na Praça que, então, era uma rotunda. O Francisco Rodrigues Lobo ainda estava no centro da Praça, da rotunda. Eu jogava à bola na Praça. Para além de fintar os adversários, também tinha de fintar o Francisco que estava mesmo no meio do campo, e tentar acertar na parte de baixo dos bancos da Praça para marcar golo. As balizas. Os pais dos jogadores dividiam-se pelos dois cafés com pequenas esplanadas que existiam ao longo das Arcadas. Os carros eram estacionados em frente às Arcadas. E à volta da Praça, na rotunda. Às vezes acontecia um vidro partido. Lanchávamos uma torrada. Bebíamos um galão, uma Laranjina C ou uma Superfresco. Depois os carros arrancavam para casa e estava feito o dia. O dia especial. Feriado. Ou Domingo.
Outra Volta dos Tristes era ir de carro até ao Estádio Municipal Dr. Magalhães Pessoa, quando ainda havia dois campos, um relvado, no estádio, outro pelado, ao lado, verdadeiro campo da bola, aberto às pessoas, e um Pavilhão Gimnodesportivo, onde se realizavam os desportos de pavilhão. Joguei lá andebol pela União Desportiva de Leiria. Mas nunca fui grande jogador. Portanto as pessoas iam de carro até à zona dos campos ver que jogo é que havia. Porque às vezes havia jogos dos juniores, dos juvenis, dos iniciados. Às vezes havia torneios de futebol das escolas. Às vezes havia outras coisas. Os homens iam ver a bola. As mulheres, algumas, ficavam nos carros a fazer renda. A minha mãe, não, que gostava de bola. Depois, no fim, voltavam para casa. Ou iam lanchar à Praça. Ou fazer um lanche ajantarado na Barreira ou nas Cortes.
Ainda havia outra Volta dos Tristes mais completa, e que eu gostava mais, que era ir de carro até ao Pedrogão, a praia do concelho. Parar na marginal. Comprar uns tremoços e umas pevides. Esperar que o vento não fosse muito e não nos enchesse a boca e o nariz de areia. Havia quem fosse à Praia da Vieira ou a São Pedro de Moel, mas era gente sem noção de cidadania: Praia da Vieira e São Pedro de Moel pertenciam à Marinha Grande. Era a Volta dos Tristes dos outros.
Hoje, dia feriado, Dia dos Mortos, de Todos-os-Santos, do Bolinho, do Pão-por-Deus, manhã seguinte à ressaca do Halloween, fiz a minha Volta dos Tristes. Saí de carro, depois de almoço (uma verdadeira Volta dos Tristes é feita à tarde, depois de almoçar), e fui até à praia. Fui até uma arriba onde via o mar. O mar estava cinzento-escuro. O céu também. Mas eram cinzentos diferentes. Não chovia. Estava um pouco de vento. E frio. E fiquei dentro do carro a ouvir os noticiários na TSF. Quando a luz começou a cair, voltei para casa. Acabou a volta.
Agora estou com a neura. Coisa que me acontece muito, em adulto, depois da Volta dos Tristes. Mas não consigo não a fazer.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/01]

Ir à Bola com o Meu Pai

Era miúdo e ia ao futebol com o meu pai.
Pegava na bandeira, com ripa de madeira que ninguém proibia de entrar no Estádio que ainda era Campo da Bola, numa almofada para sentar o rabo suavemente nas bancadas de cimento, passávamos na senhora dos tremoços e comprávamos um saquinho de tremoços e outro de pevides e, em dias de festa, uma fiada de pinhões que eram caras como o raio.
Antes de entrar no Estádio passávamos no Lagoa. O meu pai bebia um copo de três ou uma mini e eu bebia uma Superfresco de laranja ou um Canada Dry. Isto foi antes das imperiais e do bagaço. Agora já ninguém me deixa ir com o bagaço para a bola.
Lembro-me de uma época no Estádio da Luz, em jogos da UEFA, jogos que eram à noite mas em que entrávamos no Estádio a meio da tarde, armados de Tupperwares com rissóis e croquetes e pastéis de bacalhau e torresmos que depois embebíamos em cerveja adquirida nas bancadas que havia sempre gente a vender as coisas necessárias à nossa satisfação.
Nessa altura não havia claques de futebol. Os adeptos eram toda uma claque que incentivava os jogadores, chamava ladrão ao árbitro e cabrão ao jogador adversário.
Havia sítios onde as coisas eram mais perigosas. Acompanhar a União de Leiria aos Marrazes, à Marinha Grande, à Nazaré ou à Vieira de Leiria poderia ser perigoso. Especialmente se fôssemos uns adeptos daqueles que nunca se calam. E éramos. As Caldas também era grande rival mas nunca rivalizou grande coisa.
Nessa altura A Bola saía três vezes por semana, havia dois canais de televisão e só um tinha um programa sobre bola e o indicativo do Domingo Desportivo era o Blue Monday dos New Order.
Era normal encontrar nas imediações dos Estádios vários carros onde as senhoras esperavam os seus maridos fazendo renda ou tricot.
Tudo mudou com a chegada da morte.
Com a chegada da morte do meu pai, deixei de ter companhia para os jogos e deixei de ir com tanta frequência. Com a morte de um adepto no Estádio e depois a ascensão das claques de futebol, deixei mesmo de ir.
O futebol é somente a porra de um jogo. Gosto de me empolgar, mas é só um jogo. Não quero que a minha vida seja posta em causa por causa de um jogo. Gosto de me sentir livre.
Continuo a gostar de futebol, mas o futebol para mim é já um jogo de televisão. Um jogo de televisão e em casa. Em casa posso comer e beber o que quiser. Em casa posso ter bandeiras com paus, ripas ou o que for. Em casa posso ver o jogo nu. Em casa posso desligar a televisão quando as coisas não correm de feição. Em casa posso mandar toda a gente para o caralho que ninguém se sente ofendido. Em casa mando eu. Em casa mando eu quando a minha mulher me deixa mandar.
Mas tenho saudades. Saudades de ir livre a um Estádio ver um jogo de futebol.
Acho que é isto a velhice. A saudade de um tempo que já não é.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/11]

Festival Eurovisão da Canção

Sentei-me no sofá, pronto para ver o Euro-Festival da Canção.
À minha frente, na mesinha de apoio, tremoços, pevides, uma pizza e uma garrafa de Solar dos Lobos.
Comecei pela pizza que estava com fome. Enquanto comia ia olhando as canções a desfilar no televisor.
Acabei a pizza antes de acabar o número de concorrentes. A pizza, que já não me lembro do que era, estava bem melhor que o Festival. A garrafa seguiu-lhe os passos. Despejei-a num instante.
Mas não queria acreditar nos espectáculos musicais que ia vendo. Agora percebia porque é que já não via o Festival há muitos anos.
Aquilo era mau, muito mau! Não, era terrível mesmo!
Agarrei nas pevides e nos tremoços, peguei numa garrafa de cerveja do frigorífico e saí de casa. Não conseguia aguentar mais lantejoulas. Fui para a Feira de Maio. A pista dos carrinhos-de-choque esperava por mim e tinha uma selecção musical bem melhor que o Festival da Canção.
Sentei-me naqueles varões que fazem de bancos altos à volta da pista e deixei-me lá estar a comer os tremoços e as pevides e a beber a cerveja enquanto via as gentes que circulavam pela pista, lutavam por um carro vago, as meninas à boleia, os meninos ao engate, os grupos em brincadeiras parvas, os namorados no idílio, os pintas de mangas arregaçadas e beata ao canto da boca, os empregados da pista sem trabalho para fazer que os carros estavam sempre, e todos, em andamento e o único afazer era vender bilhetes para a loucura da velocidade em ambiente controlado da pista e da boa vida que se desejava. A felicidade durava os três minutos da viagem.
Eu fiquei lá quase até ao fim. Fui embora um pouco antes do fim da Feira para ainda passar no Penim e comer uma fartura.
Agora estou na casa-de-banho, em casa, a vomitar. Não sei se foi da pizza, dos tremoços ou das pevides. Da fartura não foi, de certeza, que as farturas do Penim não fazem mal a ninguém.
Está a apetecer-me um cigarro. Tenho de despachar este vómito.
E em que lugar terá ficado a canção portuguesa? O jardim floriu?

[escrito directamente no facebook em 2018/05/12]

Zangado

 

Estive ausente uma semana, duas semanas, sem escrever um conto no Facebook.
Estava zangado, zangado com tudo. Especialmente comigo. Estava zangando com quem estava zangado comigo. Estava zangado com quem me zurzia aos ouvidos. Estava zangado com quem tem certezas e razões e sabe tudo. Estava zangando com quem me obriga a fazer o que não quero fazer.
Passei noites sentado à secretária com um envelope aberto com 40 valium 10 e 9 valium 5. A olhar para eles. E dizia Não, não é para mim, eu gosto de viver, eu gosto de ir o cinema, ao teatro, ao futebol, de namorar, de passear no Marachão, fazer piqueniques na Ervedeira. Eu gosto de comprar pevides em São Pedro de Moel. De olhar do alto a falésia do Vale Furado. De beber café no Mad. De fazer amor na rua e sentir o frio a bater-me na costas. Gosto de ver os bunker horríveis da Praia da Vieira. Gosto de ver as construções feias da praia do Pedrogão e das suas festas de sardinha, e das suas festas Tecno à beira-mar (ainda existem?), dos chocos fritos de Setúbal, da melhor imperial do mundo no Lebrinha, em Serpa, da sopa de Cação no Lado de Lá que não sei se anda existe. Gosto dos filhos, das mulheres, ex-mulheres, amantes, namoradas, amigos, que ainda os há e tudo e tudo e tudo e acima de tudo, das memórias que, mesmo no mais horrível, sabem bem.
Volto vezes sem conta a sentar-me à secretaria com o envelope aberto. A olhar os valium. Mas as memórias não deixam fazer asneira. Já é tarde. É sempre tarde. Mas desisto.
Até um dia.

Chove lá fora. Estou sozinho. É de noite. Sei que tenho quem goste de mim. Mas não chega. A liberdade não existe sem dinheiro. Dinheiro para pagar a renda da casa, a água, a luz, o gás, o telefone, para poder comer um pão com manteiga, sustentar os filhos… Porra!, viver.
Peguei numa mão cheia de valiuns e meti-os na boca. Empurrei-os com água. Tenho pena de não ter vodka. Aceleraria o processo. Repeti o gesto três vezes até acabar com os valiuns.
Não senti nada, Não senti nada de diferente.
Levantei-me e imediatamente caí inerte no chão. Senti bater com o nariz nalgum sitio anguloso. Senti parti-lo.
E, então, apaguei.

[2018/04/02]

Os Camarões da Figueira da Foz

Fim de dia e fui até à praia beber um copo e ver o mar.
A cidade estava agressiva. Caótica. Barulhenta. Toda a gente com pressa de chegar a algum lado e acabava por não chegar a lado nenhum. Ficavam presos dentro dos seus carros em filas de trânsito intermináveis.
O mar também estava agressivo. Caótico. Barulhento. Mas a praia estava deserta. Ninguém com vontade de ver e ouvir as ondas a bater nas rochas.
Sentei-me cá fora, numa esplanada, a olhar a fúria do mar. Pedi um copo de vinho branco. Nem sei porquê. Não gosto de vinho branco.
Comecei a beber o vinho, enquanto as ondas batiam furiosas lá em baixo e lembrei-me que o meu pai é que gostava de vinho branco. Nem bebia muito mas, quando bebia, era branco.
Ainda me lembro de umas férias de Verão, mas com o tempo assim, cinzento, o sol não aparecia, não íamos à praia, e acabámos numa sardinhada. Fui com ele ao mercado comprar as sardinhas e os pimentos. A minha mãe ficou a preparar a casa. Vinham amigos. Amigos deles. Vinham almoçar connosco.
Quando regressámos a casa, fui eu que comecei a acender as brasas, lá fora, no quintal.
Não sei quantas sardinhas comi naquele dia. Mas lembro-me de ter arrotado muito por causa dos pimentos e de o meu pai me ter feito beber um pouco de vinho branco do copo dele para me ajudar à digestão. Foi a primeira vez que bebi vinho branco. Vomitei.
O homem do café trouxe-me um pequeno pires com uns camarões pequeninos. Da Figueira da Foz, disse. Faço anos. Dei-lhe os parabéns. E provei uns camarões.
Uma vez cruzei o Guadiana com os meus pais, em Vila Real de Santo António, e fomos a Ayamonte. Passeámos por lá. O meu pai comprou uma garrafa de Marie Brisard, anis, acho eu, coisa que não bebia, nem ninguém lá em casa, mas vinha sempre uma de Espanha. Não sei para quê. Acumulavam-se em casa. Ninguém lhes pegava. Ainda por lá estão.
Umas mulheres vendiam camarão na rua. O meu pai comprou um saquinho de camarõezinhos pequeninos, e andámos pela rua a comê-los, como se fossem tremoços ou pevides.
Nesse noite voltei a vomitar.
Enquanto o sol desaparecia lá no horizonte e a noite chegava, acabei com o pires de camarões da Figueira e acabei o copo de vinho branco.
Recostei-me na cadeira e inspirei profundamente. E depois larguei o ar devagarinho. Esperava não vomitar. Gostava de estar ali. Gostava do mar. Gostava da maresia.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/17]