Doce de Chila

Sentei-me na esplanada a beber um café e uma aguardente. O dia estava cinzento. Eu estava melancólico. O horizonte de prédios cinzentos não me recuperava. Descobri um pouco de verde com uma pequena árvore a fazer strip-tease e foquei-me nela. Tentei respirar-lhe o oxigénio. Abrir os pulmões.
Acendi um cigarro.
Ao meu lado, uma rapariga explicava a outra como se fazia doce de chila. A minha atenção foi deslocada do strip-tease da pequena árvore para a rapariga que dizia Agarras na abóbora chila e lavas com água. Mandas a abóbora ao chão para se partir. Se não se partir em muitos pedaços, ajudas a despedaçá-la com uma colher de pau. Depois de estar toda partida, tens de a limpar por dentro. Tirar as pevides. O ideal é usares uma faca de madeira, daquelas para se barrar manteiga em pão quente, acabado de fazer. Porque se usares facas de metal, a abóbora vai ficar preta. Se quiseres um doce de chila preto, usas a faca de metal. Mas se a queres com aquela cor dourada, brilhante, não uses metal. Depois voltas a lavar os pedaços em várias águas, até deixar de fazer espuma. Cozes num tacho, com água e sal, até a casca se separar, o mais possível, da polpa. Coas tudo. Depois, com as mãos, separas a polpa da casca. Puxas os fios da chila. A chila é muito fibrosa. Às vezes custa um bocado. Mas é esta textura que lhe dá a característica. Depois voltas a colocar outra vez a polpa da abóbora num tacho com água ao lume, juntamente com o açúcar, na mesma quantidade que a abóbora, paus de canela e cascas de limão. Isto é a gosto. Vais experimentando até que, um dia, consigas atingir o teu próprio gosto. Deixas ferver em lume brando até a preparação ficar em calda. Depois é guardar em recipientes onde possa ser preservado. Eu, normalmente, opto por frascos pequenos para que o doce não fique muito tempo aberto. Mas tu fazes como achares melhor. Tu é que sabes.
Eu já não aguentava mais aquela conversa. Até porque há várias maneiras de fazer o doce de chila. A minha avó fazia em tacho de barro e ficava três dias e três noites de molho. Mas cada um faz como achar melhor. Levantei-me, deitei fora a beata do cigarro, e fui ao interior do café. Olhei a montra. Bolas de Berlim. Pastéis de Nata. Pastéis de Tentúgal. Brisas do Liz. Duchaises. Éclairs. Nada disto. E depois vi. Uma tartelete de Chila. Um Pastel de Chila. E agora? A-na-ni-a-na-não-fi-cas-tu-e-eu-não! Olhe, se faz favor!
Voltei para a esplanada. Aguardei o meu bolo com chila. As raparigas do lado tinham-se ido embora. Despejei o resto da aguardente e esperei. Enquanto esperava ia salivando. Até que pensei Mas eu nem gosto de bolos!
Acendi outro cigarro.
Começou a chover. Molhou-me o cigarro. Deitei-o fora. Disse Foda-se!, mas baixinho. Para mim. Para a minha melancolia.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/20]

Cristina Ferreira

Hoje acordei e era a Cristina Ferreira.
Não me assustei.
A primeira coisa que fiz foi olhar dentro dos lençóis. Costumo dormir nu. Ela também. Toquei-me. Nas mamas. Nas ancas. Nas coxas. Foda-se! Sou mesmo boa.
Senti-me feliz. Pela primeira vez desde há muito tempo, sentia-me feliz. Empurrei os lençóis para os pés da cama. Levantei-me nua da cama. Olhei para o espelho grande. Gostei de me ver. É estranho ver-me no feminino. Mas ao mesmo tempo, não desgostei. É o que eu sou agora. Uma mulher. Uma mulher gira. Boa. Sexy. E cheia de sucesso.
Primeira preocupação. O que fazer? Telefonei para a SIC. Avisei que estava derreada dos Globos de Ouro, afinal a gala tinha sido eu, e que chamassem o Cláudio Ramos para fazer o Programa da Cristina.
Eu tinha um dia para viver.
Tomei um duche morno e gostei de passar gel pelo corpo. Vesti uma roupa simples. Um vestido leve e esvoaçante que uma antiga namorada por cá tinha deixado. Gostei de me sentir dentro do vestido e do fresco que me subia pela pernas acima. Calcei uns chinelos de salto alto. Eu não me saberia equilibrar naquilo. Já ela!… Observei as pernas. As pernas em cima dos saltos. Sou muito bem desenhada.
Saí de casa e fui ao café aqui da rua. Senti em mim o olhar dos homens. E das mulheres. Pela primeira vez na vida não era uma pessoa ignorada. Agora olhavam cada pedaço do meu corpo. Os passos que dava. O esvoaçar do cabelo solto e caído sobre os ombros. Os meus olhos brilhantes. O gloss nos lábios. O sorriso maroto.
Pedi um croissant folhado e uma bica. Pensei se um croissant faria bem a este corpo, mas depois pensei que, na realidade, não era meu. Comi o croissant folhado. Bebi a bica. A rapariga do café não quis receber. Disse que era por conta da casa e sorriu-me muito. Acho que me piscou o olho, mas pode ter sido só um tique.
Passeei-me pela cidade. As buzinas andavam activas. Ouvi algumas travagens bruscas. Chapa a bater em chapa. Oh, boa!, ouvi eu gritar lá do fundo e aposto que era para mim.
Entrei no quiosque onde nunca entro e comprei todas as revistas sociais que encontrei. Não paguei nenhuma. O rapaz pediu-me para referir o quiosque lá no programa. E eu disse Está bem!
Cruzei-me na rua com o presidente da câmara. Há muito tempo que não o via a pé pela cidade. Mirou-me de alto a baixo. Malandro! Parei numa montra e vi toda a gente do outro lado da rua a olhar para mim.
Entrei numa livraria e comprei uma edição de Os Maias. Ofereceram-ma em troca de uma fotografia com as meninas da loja. Mais tarde vi a fotografia na montra. Devia ter trazido mais livros.
Sentei-me numa esplanada da Praça e dei uma vista de olhos pelas revistas. Nada de especial. Mexericos. Deixei-as em cima da mesa.
Apanhei um táxi e fui até São Pedro de Moel. O taxista não quis receber. E esperou que eu quisesse regressar. Estava nevoeiro. Não fui ao mar. Mas tive pena. Gostava de ter mergulhado em São Pedro de Moel só de fio dental. Contentei-me em molhar os pés. Reparei nas unhas pintadas de vermelho-sangue. Gostei de ver os meus pés a enterrarem-se na areia molhada.
Não comprei pevides nem tremoços que a senhora não estava lá. Regressei. Dei mais uma volta a pé pela cidade. Entrei em boutiques mas não comprei nada. Quiseram oferecer-me coisas. Alguns homens vieram ter comigo. Prometeram-me a Lua. Eu ri-me. Conhecia alguns deles. Homens de família. Com filhos. Com responsabilidades na cidade. Com a língua de fora a salivar. Como cães. Cães com cio. Fartei-me de rir. Parvalhões.
No final do dia fui jantar ao Salvador. Chamaram-me Catarina e trataram-me muito bem. Também quiseram uma fotografia. Acedi. Depois voltei para casa. Sentia-me cansada. Não era fácil ser a Cristina Ferreira.
Quando entrei em casa fiquei apreensiva. Depois de dormir como acordaria? Seria eu? Ou seria ela?
Fui para a cama. Por via das dúvidas, despedi-me da Cristina. Masturbei-me, em jeito de adeus. Gozei a pensar em mim, a pensar nela, a pensar em tudo aquilo que me tinha acontecido.
Agora estou à espera que o sono me leve. Amanhã, logo se vê.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/30]

As Pessoas São Porcas

Estou atrás da velha e olho-a a comer o gelado. Ela agarra o pau do gelado com o papel que o embrulhava para não se sujar se começar a derreter. E eu estou à espera. Estou à espera para ver o que é que ela vai fazer. Mas não tenho muitas dúvidas.
As pessoas são porcas. Porcas e más. E só pensam nelas. As que pensam. Há quem simplesmente nem pense. As coisas são assim porque sempre foram assim. Nem é por mal. É só por rotina ou, como é costume dizer-se nos dias que correm, por tradição.
Eu estou muito irritado. Por isso estou atrás da velha à espera para ver qual o fim daquele prazeroso gelado que lhe refresca as goelas.
Estou no Sítio da Nazaré e estou muito irritado.
Comecei a irritar-me logo de manhãzinha a caminho da cá.
Antes de chegar a Pataias apanhei um Renault Clio com a chapa toda comida pela ferrugem. Nem percebi qual a cor do carro. Que cor estaria no Livrete? Deitava uma nuvem de fumo. Pelo cheiro, óleo queimado com certeza. Obrigou-me a fechar os vidros do carro e a ligar o ar-condicionado. Coisa que nem gosto de utilizar, que me faz constipar.
Primeiro foi um pedaço de papel de alumínio que saiu pela janela do lado esquerdo e esvoaçou estrada fora até se perder no interior do Pinhal. Logo depois foi uma embalagem de iogurte lançada pela janela do lado direito. Esse caiu a pique e andou a rebolar pela estrada, passei-lhe por cima e perdi-o de vista.
Espremi a buzina. Bati várias vezes com a mão no centro do volante para chamar a atenção ao interior do Clio. Debalde.
Continuei atrás do carro.
Ainda vi sair uma casca de banana que atingiu a berma da estrada e sobre a qual pensei É biodegradável.
À chegada a Pataias parámos num semáforo vermelho. Eu atrás do Renault Clio. Um braço, na janela esquerda, cuja mão segurava um cigarro que entrava e saía do interior do carro. Quando o semáforo passou a verde, antes de arrancar, a mão largou a beata acesa que caiu no asfalto.
Irritei-me ainda mais. Acelerei atrás do carro e, no meio da vila, com traço contínuo, ultrapassei o Clio e, no momento em que estava mesmo ao lado do condutor disse Porca!, para a mulher que descobri a conduzir. Não vi quem ia ao lado da Porca.
E tive de guinar, rápido, o volante para a direita que me ia espetando na carrinha Renault Trafic que vinha no sentido contrário e que teve de se chegar à esquerda e fartou-se de apitar para mim e com razão. E eu, enquanto voltava à minha faixa só conseguia pensar Só há Renaults na estrada, hoje? É que, até eu próprio conduzia um Renault Twingo comprado através do OLX.
Continuei em frente. Deixei o Renault Clio com cor confusa para trás e segui para a Nazaré. Zangado. Furioso com esta gente. Gente porca e estúpida. Gente egoísta.
Não desci logo à Nazaré. Subi primeiro ao Sítio para comprar uns tremoços e umas pevides. E foi aí que a vi. A velha. A velha a comer o gelado junto ao penhasco. E percebi o que ia acontecer.
E está a acontecer. A velha chupou o gelado todo. Resta-lhe o pau e o papel, a envolver o pau, na mão. Olha em volta. Imagino à procura de um caixote do lixo. E não há nenhum. Sim, a velha tem razão. Mas então, larga o papel do gelado sobre o penhasco. Um penhasco cheio de lixo, de outros papéis de gelados, garrafas de plástico de água, raspadinhas, sacos de plástico das pipocas.
Estico o braço com força e empurro a velha do penhasco abaixo. E digo Porca! Ouve-se um pequeno grito abafado pela queda. Espreito para baixo e ainda a vejo a cair.
Vou-me embora. Vou à Batel comer uma sardinha e beber um café antes de ir para a praia. Ainda é época balnear? Olha, nem sei!

[escrito directamente no facebook em 2019/09/17]

Invasão no Campo da Bola

Estava sentado numa almofada, em cima de uma bancada corrida de cimento no Estádio Magalhães Pessoa, em Leiria, versão pré-obras, quando a bancada era só uma e no lado oposto e nos topos era tudo peão.
Estava sentado na bancada e lá em cima, em frente e ao fundo, o imponente Castelo de Leiria olhava para mim.
Entre umas pevides e uns tremoços, um olho no jogo e outro no castelo, dividia as minhas atenções que não conseguiam fixar-se só num acontecimento. Havia bruxas no castelo?
Por vezes saía do meu lugar, entre o meu pai e a minha mãe, largava a bandeira da União de Leiria no chão, e descia as escadas da bancada até à caixa de areia dos saltos em comprimento e ia jogar à bola com outros miúdos como eu que tinham dificuldade em dar atenção à mesma coisa por muito tempo.
Naquele dia estava sentado na almofada, em cima da bancada de cimento, entre o meu pai e a minha mãe, os tremoços e pevides já comidos, bandeira levantada na mão e o vizinho de trás a queixar-se que não via nada Oh miúdo! Baixa a bandeira! quando a União de Leiria marca golo, os jogadores festejam e, do outro lado, frente a mim, do lado do peão, saltam umas pessoas para o meio do campo e começam a correr atrás não-sei-de-quem porque não percebi bem, mas parecia que toda a gente corria atrás de toda a gente, espectadores, jogadores, treinadores, apanha-bolas, dirigentes, polícias, todos a correrem campo relvado fora, alguém apanha a bola e foge com ela enfiada debaixo da camisola, dois homens enfrentam-se ao murro, um polícia levanta o cacetete mas não vejo onde cai e puxo o casaco do meu pai e pergunto Como é que sabemos que são nossos ou dos outros, quando não têm bandeiras? e o meu pai olhou para mim e não soube responder, agarrou-me e encostou-me a ele.
Espreitei por entre o braço do meu pai e ainda vi o árbitro a apitar e jogadores de equipamentos diferentes a parar pessoas e mandá-las para fora do campo e a polícia levar uns rapazes agarrados pelos braços, e acho que vi alguém com a cabeça partida e sangue a escorrer e depois toda a gente se foi embora e o campo ficou vazio, veio o silêncio e o meu pai sentou-se. Eu sentei-me.
Havia gente à volta do campo. Polícias. Também militares. O campo estava vazio. Esperámos.
Virei-me para o meu pai e perguntei O que é que estamos à espera? e o meu pai respondeu Espera!
Olhei em frente, para o campo vazio, para o burburinho que havia ali na bancada e no peão do outro lado de campo, com a polícia e os militares à volta do relvado, na pista de tartan, a olhar para os espectadores e não percebi nada do que estava a acontecer.
Virei-me para a minha mãe e perguntei O que é que estamos à espera? e a minha mãe disse Que o jogo recomece!
E cinco minutos depois, as equipas e os árbitro voltaram ao campo e o jogo recomeçou. O castelo continuava lá em cima a olhar cá para baixo. Estaria a ver uma bruxa? Numa das janelas escuras?
A União ganhou o jogo. As pessoas de Leiria, que estavam na bancada, ficaram contentes e festejaram. O meu pai também e então disse, para mim e para a minha mãe Vamos lanchar ao Jota!

[escrito directamente no facebook em 2019/09/02]

Estava uma Velha Sentada numa Cadeira de Praia

A velha estava sentada numa cadeira de praia, pernas estendidas, pés descalços, os chinelos ali ao lado, a olhar os carros que passavam. Quando eu passei, também olhou para mim. Os olhos dela nos meus. Senti-os. E acompanhou-me enquanto eu a olhei. Depois voltei-me de novo para a estrada, aproximei-me da rotunda, abrandei e acabei por parar. Não tinha prioridade e tive de esperar.
E pensei na velha. A velha sentada na cadeira de praia. O mato atrás dela. Ainda terá clientes?
E depois pensei que aquilo era o Calhau. Uma terra às portas da Nazaré. Do outro lado da estrada já havia muitas casas com tabuletas Alojamento Local. A velha devia estar a vender estadia. Arrendar quartos, rooms, chambres, habitaciones e zimmers. Não o corpo. Não o corpo deitado na caruma à sombra dos pinheiros que sobreviveram ao incêndio de dois mil e dezassete. Aquele corpo queimado do sol e do sal, do peixe transportado à cabeça, vendido na lota e comido nos restaurantes da marginal no Verão, É de aproveitar!
Desci à Nazaré e vi outras como aquela. Farandol no cabelo em falsas ruivas. Algumas vestidas com as sete-saias. Aldrabadas, claro, que o calor não permite tanto trapo sobre trapo sobre a pele. E as nazarenas acompanham a modernidade. Já não arrendam casas, partes de casas, quartos ou anexos. Agora é tudo Alojamento Local. Assim, paredes meias com as pevides, os tremoços, os nougat, as pinhoadas, as bolachas de amendoim e as gomas de mil-e-um-sabor e feitio que afinal sabem todas ao mesmo. Todas não, que algumas são bastante ácidas que eu já provei e até gostei. Já lá vai o tempo em que vendiam percebes e navalheiras que agora já são proibidos por causa do bem estar público, não vão estar estragados debaixo desta torreira de sol e provocar alguma intoxicação alimentar e depois não há médicos porque nesta altura nunca há porque vão todos de férias para o Algarve ou para o Club Med com pensão completa para não saírem do resort e conhecer o país miserável onde estão feitos reis de papo para o ar a beber piñas-coladas.
Parado com o carro no trânsito, numa enorme e já habitual fila do pára-arranca a pensar Mas por que raio é que me meto aqui se já sei que é sempre assim quando chega o Verão, quando passou uma nazarena com as suas aldrabadas sete-saias a rodar na cintura, farandol no cabelo, vários colares grossos de ouro ao pescoço, e estes não são falsos que o orgulho das nazarenas não permite mentir quanto ao ouro que trazem pendurado no pescoço nem nas orelhas nos pulsos e nos dedos, pôs a cabeça dentro do carro e perguntou Não querem um quarto? E saiu-me assim, rápido e sem anestesia, automático Não, não é preciso que nós fodemos no carro. A nazarena apanhada de surpresa desatou a rir, a rir, a rir tanto que se ia engasgando e eu ainda saí do carro para executar a manobra de heimlich, mas já não foi preciso que a nazarena regulou a respiração e, a chorar de tanto rir, ainda colocou a mão dela no meu braço e disse Aproveita, filho! Aproveita que isso não dura para sempre!

[escrito directamente no facebook em 2019/06/29]

As Papoilas Saltitantes

O jogo ainda não terminou, mas já ouço foguetes. Há foguetes um pouco por todo o lado. São morteiros. Como aqueles que anunciam as festas nas aldeias. Para que as gentes das aldeias vizinhas venham à festa. Para que os moços das aldeias vizinhas venham bailar com as moças da terra. E os moços da terra, ciumentos, com o mau vinho a transbordar na garganta, abrem as navalhas com que cortam o toucinho salgado e o pão duro nos almoços pobres no campo, para abrir as barrigas dos invasores.
No futebol como na vida.
Há sempre este grito de pertença. Um grito em uníssono. A mesma rua. O mesmo bairro. A mesma cidade. O mesmo partido. O mesmo clube.
O mesmo grito. Mas eu fujo do grito. Do grito unificado. Não gosto de unanimidades. Gosto de bailar com as moças da aldeia vizinha.
O árbitro apita. É o fim. O fim do jogo. A vitória garante a Vitória. Está muita gente alegre. Eu estou alegre. Levanto os braços ao céu. Ninguém vê. Posso fazer estas coisas. Estou sozinho. Ninguém me vê nestas manifestações de regozijo.
Olho à volta e vejo que mal toquei nos tremoços e nas pevides. Acabei por deixar os camarõezinhos no frigorífico. Nem me lembrei deles. Por outro lado, as cervejas já foram todas. Olho para as garrafas vazias caídas no chão e penso Tenho de as apanhar. Tenho de as apanhar e levar para o vidrão. Tenho de as apanhar mas não já. Não agora.
Levanto-me a custo do sofá. Quanto tempo estive aqui sentado? Olho para trás. Olho para o sofá. Para onde estive sentado. E vejo o sofá a recuperar, lentamente, a sua forma, depois de eu o ter esmagado durante, quantas horas? Nem sei. Muitas.
Vou até à janela. Acendo um cigarro. Olho para a rua. Vejo os carros a passar. Vai gente pendurada nas janelas dos carros. Nos tectos abertos dos carros finos. Nas caixas abertas das carrinhas populares. Rapazes, a transpirar, em tronco nu. Raparigas excitadas, com os peitos a dar-a-dar. Há bandeiras. Cachecóis. Braços esticados no ar. Mãos em V. Apitos. Buzinas. Tantas buzinas. A apitar. A apitar. Lembra-me o comboio Lá vai o comboio, Lá vai a apitar, mas aqui o comboio não apita. Aqui é a Linha do Oeste e o comboio não quer saber desta gente. Esta gente que se une para festejar a vitória como se fosse sua, e não mexe um dedo para exigir, sim exigir!, que o comboio chegue a esta cidade em condições. Com horários. Com rapidez. Com condições dignas de gente digna.
Eu? Eu já não tenho nem idade nem vontade. A cidade matou-me a vontade. E os anos ajudaram a calcá-la. Mas não deixa de me entristecer.
Estou contente com a vitória. Com a vitória do meu clube. Também a sinto um pouco minha. Aliás, muito minha. Mas não vou para a rua. Não gosto de multidões. Não gosto de grupos. As multidões tendem a deixar de pensar. Seguem sempre alguém. Perdem o controle. Eu fico aqui. Aqui na minha janela. A ver à distância. A ouvir os Olé! Olé! Os Esse Ele Bê! Esse Ele Bê! E a não perder o controle.
Vejo os morteiros a rasgarem o céu. Já é quase noite. Daqui a pouco há-de haver alguém a lançar fogo-de-artifício. A iluminar, com múltiplas cores, estas vidas tão pobres e vazias que só se alegram assim, nestes momentos de catarse em grupo.
Lanço a beata para a rua. Acendo outro cigarro. A festa continua. E vai durar até amanhã. Os canais de televisão não vão largar o osso tão depressa. Têm horas ilimitadas de gente a debitar opinião. É barato e garante audiência.
Eu volto a lembrar-me dos camarõezinhos e vou até à cozinha. Já não tenho cerveja. Ainda há vinho. Acompanho os camarõezinhos com vinho tinto. É o que há. Não me queixo. Lá de fora continua a chegar o som dos foguetes, as buzinas dos carros, o cheiro a gasóleo e a borracha queimada.
E alguém canta Ser benfiquista // É ter na alma a chama imensa // Que nos conquista // E leva à palma a luz intensa // Do sol, que lá no céu // Risonho vem beijar // Com orgulho muito seu // As camisolas berrantes // Que nos campos a vibrar // São papoilas saltitantes…

[escrito directamente no facebook em 2019/05/18]

Em Estágio

Entrei em estágio. Estou a vinte e quatro horas do último jogo do campeonato e entrei em estágio. Estou preparado para o que aí vem.
Sentei-me no sofá. Estou em frente à televisão. Agora está desligada porque não quero desconcentrar-me. Estou focado no jogo. No último jogo do campeonato. No jogo que pode definir o título.
Fui à Nazaré comprar tremoços. Subi a São Pedro de Moel para comprar pevides. Fui ainda um pouco mais acima, à Figueira da Foz, para comprar uns camarõezinhos. No regresso a casa passei pelo Modelo-Continente e comprei uma grade de minis Sagres. Um volume de Marlboro Soft Pack. E gasolina para o Zippo.
Vesti a minha camisola imitação dos anos ’60. Encarnada. Debruada, na gola e nas mangas, a branco. De algodão. Com o emblema cosido à esquerda, sobre o coração.
Estou sentado no sofá. A televisão desligada à minha frente. Bebo um copo de vinho. A cerveja é para amanhã. Fumo um cigarro.
Penso que ainda faltam vinte e três horas para o jogo. Queria ligar a televisão, para ver o que se passa. Mas não quero condicionar a vontade. Não quero ouvir as especulações. Não quero perceber o nojo. Mas estou a ficar cansado de estar aqui fechado dentro de casa. A olhar para nada. Penso em ir até à rua, mas tenho medo que me aconteça alguma coisa. Pode cair-me um raio em cima. Uma marquise pode despenhar-se sobre mim. Um cão pode morder-me. E pode estar com raiva. Pode chegar uma nave extraterrestre e levar-me para fazerem experiências.
Não!
Fico aqui. Se calhar ainda faço uma cafeteira de café. Para ajudar a passar a noite. É isso! Vou fazer café! Não posso adormecer. Posso não acordar. Não posso correr o risco de não acordar. Pode dar-me o badagaio durante o sono. Um ataque cardíaco. Um AVC. Não posso correr o risco. Tenho de estar acordado. Para chamar um médico. Ou o INEM. Se fôr caso disso. Espero que não. Mas tenho de estar atento. Acordado.
Desligo o telemóvel para não me interromperem. Se liga alguém de um Call Center? Para mudar a rede do telemóvel? Para mudar o cabo? Não, o cabo não que não tenho cabo. Para mudar a rede de internet? A internet! Tenho de desligar a internet para não me pôr a interagir no Facebook, no Twitter, no Intagram, no Tinder. Não quero desconcentrar-me. Quero estar atento. Quero estar atento ao último jogo do campeonato.
Faltam pouco mais de vinte e duas horas. Estou em pulgas. Estou nervoso.
Porra! Não posso desligar a internet. A minha televisão só funciona com internet. Não tenho cabo. Só internet. Vou voltar a ligar.
Estes dias são muito complicados. Demasiadas exigências.
Bebo outro copo de vinho. Fumo outro cigarro.
Apetecia-me ler um livro. Mas não consigo. Estou demasiado excitado. Não conseguia focar-me nas letras. Abro a boca. Bocejo. Mau! Estou com sono. Ora bolas!…

Abro um olho. Depois o outro. Lá fora é dia. Foda-se! Deixei-me adormecer. Que horas são? Olho para o telemóvel. Está desligado. Olho para a televisão. Não tem horas. Levanto-me. O corpo estala. Parece que os ossos se desmontam. Vou à cozinha. Olho para a porta do forno. Faltam pouco mais de dez horas. Aproveito para beber um café. Ponho uma caneca a aquecer no micro-ondas. Levo a caneca de regresso para a sala. Sento-me de novo frente à televisão desligada. Tenho de decidir a que horas a ligo. Mas ainda há tempo. Ainda é cedo. Acendo um cigarro. Levanto-me a abro a janela da sala. Olho para a rua. É incrível como as pessoas continuam nas suas vidas sem se aperceber da importância deste dia. Sem se aperceberem que o último jogo do campeonato está quase a começar. Com o podem ser tão alheadas?
Mando a beata do cigarro para a rua. Regresso ao sofá. Olho as pevides e os tremoços na mesa de apoio. Pergunto E os camarõezinhos da Figueira? E de repente lembro-me Ah! Estão no frigorífico. Com as minis. A minha perna começa a bater no chão. Com um ritmo rápido. Estou nervoso. O estágio deixa-me nervoso.
Nunca mais começa o jogo?

[escrito directamente no facebook em 2019/05/17]