Sim, Mãe

Faltam quatro dias. Faltam quatro dias para o dia Um de Novembro. O Dia das Bruxas, do Bolinho e de Todos os Santos. Especialmente o Dia de Todos os Santos. O dia em que se veneram os mortos. Os mortos queridos ao lado dos Santos. Não que os mortos sejam Santos. Ou tivessem sido. Que porra de conversa, a minha.
Acordo ainda de noite. É quase de manhã mas ainda é de noite. Acordei antes da hora. Ando agitado. Aproxima-se o dia. E eu fico assim. Nervoso.
Já consigo distinguir algumas formas no quarto com a pouca luz que entra pelas janelas abertas.
Estou deitado na cama. O edredão tapa-me. Deixa-me a cabeça de fora. Os olhos circulam pelo quarto a tentar visualizá-lo através da pouca luz. Vejo uma massa escura sobre a cadeira ao fundo do quarto. Sei que são as calças que lá larguei mas, visto daqui, assim, com esta luz, parece uma massa disforme, talvez uma forma de vida alienígena. Um pouco de sugestão e parece-me que se mexe. Parece deslizar pelas costas da cadeira. Mas nunca chega ao chão.
A minha mãe vai telefonar-me hoje. Daqui a pouco. Quando estiver a sair do duche. Encharcado. Com frio. E o telemóvel a tocar. E eu vou atender e ela vai perguntar-me se eu vou ao cemitério. Se eu vou ao cemitério no dia Um de Novembro. E eu vou dizer que sim, que Vou sim, mãe. E ela vai perguntar se quero que vá comigo. E eu vou dizer que não. Que prefiro ir sozinho. Prefiro ir sozinho, mãe. E ela vai fingir que acredita. E eu vou fingir que ela não sabe que vou ficar na cama. Que vou ficar o dia e a noite, inteiros, na cama, a imaginar que ela não morreu, que está aqui, aqui ao pé de mim, a rir-se comigo de tudo isto. E vai telefonar amanhã com a mesma conversa. E todos os dias até ao dia Um para ver se consegue que eu saia de casa e vá ao cemitério levar-lhe umas flores e dizer-lhe adeus. A minha mãe acha que eu devo dizer-lhe adeus. Mas eu não consigo. Não consigo dizer-lhe adeus. Porque ela está aqui, aqui ao meu lado, na cama, quentinha, quentinha como ela estava sempre debaixo do edredão, e eu tinha de me chegar a ela para me aquecer, que tenho sempre os pés frios e ela gritava comigo quando eu lhe tocava com os pés frios, mas ficavam logo quentes mal lhe tocavam porque ela estava sempre quente, a ferver, e fervia-me a mim ao mínimo contacto com o seu corpo branco, limpo, cheiroso e quente. Um cheiro a conforto. Um cheiro de colo. E ainda baloiço no seu colo. No seu colo quente e acolhedor. Um colo-casa. Uma casa que não quero perder.
Não posso dizer adeus. Não quero dizer adeus.
E a minha mãe vai telefonar-me para saber e eu vou dizer-lhe que sim. E ambos sabemos que estarei a mentir mas que não posso fazer de outra maneira.
Apetece-me um cigarro.
Ponho a mão fora do edredão. Agarro num cigarro. Agarro no isqueiro. Acendo o cigarro. Sinto o fumo a encher-me os pulmões. Sinto a cabeça a andar à roda. Fico um pouco mal disposto. Olho o fumo a sair da minha boca, olho o fumo a sair do cigarro incandescente, e subir até ao tecto do quarto e depois espalhar-se em mil e um pedaços de fios e desaparecer da minha vista. Fica lá o cheiro. O cheiro enjoativo do tabaco fumado de manhã, antes de comer, antes de beber café, antes ainda de tomar banho e penso que ando parvo. Ando a fazer parvoíces. Nunca tinha fumado na cama. Não gosto de fumar na cama. E no entanto… Penso que esta solidão a que me forcei nestes últimos anos me está a deixar parvo.
E é então que sinto o cheiro das torradas e do café acabado de fazer, que se sobrepõem ao cheiro acre do tabaco, e vejo-a entrar radiante, um sol de Inverno que entra pelo quarto dentro, deposita uma pequena bandeja como o café, umas torradas já barradas com manteiga e um solitário com uma rosa escura roubada já hoje de manhã no jardim da vizinha. Depois dá-me um beijo na face e volta a desaparecer de novo. Levando o brilhante sol de Inverno com ela. E regressa o cheiro do tabaco.
Cai um pouco de tabaco incandescente na cama e fura o edredão. Eu olho para o buraco. Não tenho reacção. Podia dizer Foda-se! podia dizer Que merda! mas não digo nada. Limito-me a olhar para o edredão queimado e ver o buraco a alastrar. Até parar. Estou indiferente.
Acabo de fumar o cigarro. Apago-o. Levanto-me da cama. Abro a janela. Está frio na rua. E deixo o frio entrar no quarto. E vou para a casa-de-banho tomar o duche e preparar-me para o telefonema da minha mãe. E exercito a voz. Sim, mãe. Estou acordado, sim. Sim, vou ao cemitério. Não, mãe. Prefiro ir sozinho. Sim, mãe.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/28]

Acordo às 07:30′

07:30’.
Acordo com o besouro do despertador. Ultimamente não tenho paciência para as novelas noticiosas.
O despertador toca e eu levanto-me. Está frio. Sinto um arrepio no corpo. Caminho, descalço, pela casa. Vou até à cozinha. O chão está gelado. Olho pela janela da cozinha, como faço todos os dias. Está um pouco escuro, lá fora. O dia ainda não acordou por completo. Está como eu. Mas não vejo nada para além da janela. Um nevoeiro cobre o vale. Não vejo as montanhas lá ao fundo. Não vejo as oliveiras. Nem o carro que está parado aqui mesmo em frente. Se eu estivesse na rua não via a ponta do meu nariz. É um nevoeiro cerrado.
Faço café.
Deixo o cheiro do café acabado de fazer acordar a casa. Qual casa? A casa sou eu. Estou acordado. E estou à janela da cozinha, com uma chávena de café na mão, duas colheres de açúcar, a olhar para a rua e a ver um nevoeiro branco-sujo que parece mover-se à minha frente, mas pode ser ilusão.
Ao fundo, no meio do branco-sujo, vejo o que parecem ser umas luzes. Provavelmente os carros a passarem lá em baixo, na estrada.
Não ouço barulho.
Bebo o café. Está quente. Tenho os pés frios. Vejo uma sombra escura a mover-se no branco do nevoeiro. Quem será? Demasiado cedo para o carteiro.
Uma das luzes que cruza o meu olhar, lá ao fundo, uma das luzes que passam na estrada, faz uma curva de noventa graus para cima e sobe. Sobe! Vai para cima! Para o céu! Não pode ser um carro. Porra!
A sombra está mais escura. Sobe a ladeira. Vem cá para cima e… O quê?
Desapareceu. Desfez-se. Desfez-se no nevoeiro!
É só nevoeiro.
Ouço umas vozes. Viro-me para trás. Largo a chávena de café na mesa da cozinha. Vou pelo corredor. Sigo as vozes. Percorro o corredor. Descalço. Os pés nus nas lajes frias. O som das vozes está mais alto. Aproximo-me do meu quarto. Há gente lá dentro. Estão a falar. Não entendo o que dizem. Quantos serão? Coloco a mão na porta. Empurro-a devagar. Tento não ser descoberto. Tento ver quem é sem que me vejam. Empurro a porta mais para trás. Enfio a cabeça pela frincha. Espreito lá para dentro. As vozes estão num crescendo. Olho.
Abro os olhos e olho.
Vejo o tecto. O tecto da casa. O tecto do meu quarto visto da cama. Estou deitado.
São 07:30’.
Acordo com as notícias no despertador.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/15]