Vida em Desequilíbrio

Ando desequilibrado. Para vestir as calças, tenho de me sentar na cama ou encostar ao guarda-fatos. Quando levanto uma perna para enfiar na perneira, perco o equilíbrio e caio. Da primeira vez que aconteceu caí sobre a mesa-de-cabeceira e trilhei a orelha. Fez muito sangue. Tive de ir ao hospital. Levei pontos. A minha orelha já não é tão bonita como era. Por outro lado, ganhou personalidade. A cicatriz dá-me um falso ar de rufia. Como se fosse um troféu de guerra.
Também ouço um zumbido constante nos ouvidos. E, com muita frequência, uma valente dor de cabeça que me obriga a fechar os olhos e só acalma com Clonix.
Eu já estou habituado à desgraça. Contudo, evito ir ao médico. Não gosto de médicos, de hospitais e das contas finais. Contudo, tenho de lá ir por causa dos outros.
O meu pai fugiu de casa há dois dias. Deve ter-se perdido. Tem Alzheimer. Já avisei a polícia. Já percorri todos os hospitais, clínicas, lares e casas de putas da região. Nada. Se calhar apanhou o expresso para um lado qualquer no mundo e desapareceu de vez.
A minha mãe está com demência. Vive com o meu pai. Quer dizer, vivia. Ele agora não sei por onde anda. Não está com ela, isso de certeza. Ela é que organizava tudo da vida deles. Ainda cozinha. Faz a lida da casa. Toma banho sozinha. Dava banho ao meu pai. Mas depois, encetava inúmeras discussões com umas gajas que, dizia ela, lhe entravam lá por casa, para lhe roubarem o ouro, para além de andarem a construírem uma meia-casa no tecto, entre a casa deles e a dos vizinhos de cima, para abrirem uma discoteca que era também uma casa de putas onde o meu pai queria ir, mas nunca conseguiu dar com ela, isto segundo a minha mãe.
A minha filha foi embora. Casou, disse que estava farta de circo, e foi embora não sei para onde que não disse. Já não nos falamos há cerca de cinco anos. Acho que já sou avô. Mas não tenho a certeza.
Amanhã tenho um trabalho. Vai durar três dias. É para fazer um inventário. Chamam-me sempre para estes trabalhinhos de merda. Mas eu até gosto. Ando por lá sozinho. Não tenho de falar com ninguém. Na verdade, é o meu tipo de trabalho preferido. Espero que esta noite não venha a dor de cabeça. Senão, não poderei ir trabalhar amanhã. E eu preciso de ir trabalhar. Preciso do dinheiro. Hoje era o último dia para pagar a renda da casa. Vou ter de esperar até receber por este inventário para a pagar. Ao que me reduzi. A inventários! Mas tenho de pagar a renda da casa, a água, a luz, o gás, o telemóvel, a internet, o cabo, os seguros, a gasolina… Pareço estar vivo para pagar contas!
Vou deitar-me. Beber um copo de vinho. Fumar um cigarro. E deitar-me. E vou rezar. Para amanhã não ter dor de cabeça e poder fazer o inventário. Para poder pagar a renda da casa.
Devia ir à procura do meu pai.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/08]

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