Bang Bang, parte 03 e última

[continuação de ontem]

O dia estava a cair. Havia gente a ir embora da praia. Ela continuava deitada na cama de borracha a ondular ao sabor da maré. Eu, farto de mergulhar naquele mar chão, saí da água e fui sentar-me na esplanada de uma casa de pasto espetada no meio da praia. Pedi Una cerveza e calamares. E assim foi. Veio uma imperial e uma caixinha de latão com calamares.
Ela levantou a cabeça à minha procura. Eu acenei-lhe da praia, da esplanada da praia. Ela viu-me e sossegou. E deixou-se estar a baloiçar naquelas águas quase paradas.
Eu fiquei ali a apreciar o que parecia o paraíso. Tínhamos dinheiro. Estávamos apaixonados. Fazia bom tempo. A água do mar estava quente. A cerveja fria e os calamares eram saborosos. Precisava de guardar aquele tempo o máximo que me fosse possível. Sorvi tudo gulosamente como se o fim do mundo estivesse a espreitar. Os bons tempos estavam prestes a terminar. Eu sentia-o.
Naquela noite haveríamos de alugar um quarto de hotel com varanda e vista sobre o mar. Aquele mar. Faríamos amor na varanda. Faríamos amor a olhar a Lua reflectida no mar. Depois ainda fumaríamos uns cigarros e haveríamos de ter uma grande conversa. Uma conversa onde falaríamos de tudo. De nós e do nosso futuro. Haveríamos de falar do nosso futuro, do nosso fabuloso futuro, um futuro partilhado a dois, com filhos, dois, talvez três, duas raparigas e um rapaz, talvez ao contrário, mas antes iríamos conhecer a Europa, conhecer o Mundo, abrir os olhos e a mente, olhar para além dos horizontes e perceber que não éramos as únicas pessoas neste planeta, um planeta espectacular à espera de coisas espectaculares feitas por pessoas como eu e ela, pessoas espectaculares.
No dia seguinte iríamos passear por Torremolinos, os dois, os dois de mãos dadas, felizes com o que a vida nos estava a proporcionar, e ela haveria de sofrer um acidente. Seria atropelada numa passadeira por um grupo de miúdos ingleses, bêbados, a conduzir um carocha cor-de-rosa, que não conseguiam perceber o conceito de conduzir à direita. Ela iria morrer antes mesmo de chegar ao hospital para onde seria levada e eu acabaria por andar perdido pela Costa del Sol, solitário, de calções e chinelos nos pés, sem tomar banho nem lavar os dentes, à procura dela, à procura de uma ideia dela, a tentar perceber a minha vida sem ela.
Haveria uma pergunta que me iria acompanhar nesses dias que se aproximavam: O que é que irei fazer sem ela? O quê?
Acabaria por voltar para casa. Pegaria no Peugeot que o meu pai me tinha dado e regressaria a Leiria, mas ainda demoraria algum tempo. Iria fazer toda a costa sul. Entraria por Vila Real de Santo António e iria fazer o Algarve e depois começaria a subir o litoral alentejano e demoraria dois meses a chegar a casa, dois meses que demoraria o meu luto por ela e durante todo esse tempo iria deitar-me com todas as miúdas que se quiseram deitar comigo, sem escolha, aberto a tudo e a todas, e choraria no regaço de muitas delas, que me tratariam sempre bem, com carinho, dar-me-iam colo, e muito amor, até que finalmente haveria de chegar a Leiria, fechar-me-ia em casa e começaria a escrever, a escrever muito, a escrever estórias que tinha vivido, ou não, já não sabia o que era verdade ou mentira, o que tinha realmente vivido ou imaginado, mas escreveria tudo, tudo o que me lembrasse, tudo o que pensasse que era vagamente verdade, e depois iria depositar tudo numa gaveta e iria esquecer tudo outra vez, até que pudesse nascer de novo e ser outra vez uma pessoa, alguém completo a quem as estórias já não magoariam, o que me iria trazer até aos dias de hoje.
Mas então, naquele tempo, iria procurar trabalho e o primeiro trabalho que encontraria seria o primeiro trabalho que aceitaria, iria trabalhar por turnos numa fábrica de rações na periferia da cidade, fábrica onde ainda hoje trabalho, trabalho que me embruteceu a alma e as mãos, ásperas, grossas, grosseiras, mãos que nunca mais tocaram a seda de uma pele como a dela, mas que me foi aguentando a vontade de estar vivo e o poder pagar o preço desta vida que já não é querida, só suportada.
Ainda hoje trabalho na mesma fábrica de rações a fazer as mesmas coisas que comecei a fazer há quarenta anos. O meu olfacto não detecta mais nada que o cheiro daquelas rações para alimentar animais. Quando chego a casa escrevo estórias que ninguém me paga. Escrevo histórias que ninguém lê. Escrevo estórias que aconteceram ou não mas, escrevo estórias que são o legado da minha passagem por cá. Publico estas estórias nos redes sociais, não à espera de reconhecimento, mas à espera que fiquem aqui para sempre e que, de qualquer forma, me deem a imortalidade que não consegui de outra maneira. E evitaram o Bang Bang.
Mas isso ainda não aconteceu. Ainda está para acontecer. E neste momento, estou com uma imperial nas mãos e alguns calamares à espera para serem comido por mim. E ali ao fundo, no mar, no mar onde a noite já começa a cair, está o amor da minha vida com quem irei fazer amor esta noite. A nossa última noite. Mas eu ainda não sei disso e, por isso, deixem-me ser feliz mais umas horas, se fazem favor.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/08]

Com Vontade de Partir a Cabeça

Mando a garrafa vazia contra a parede ali em frente. Vejo-a estilhaçar-se em pedaços. Vejo os pedaços espalharem-se pela cozinha. Ouço os pedaços que deslizam pelas lajes do chão da cozinha. Alguns pedaços enfiam-se debaixo do frigorífico. Outro vêm para aqui, para perto de mim. Para debaixo de mim. Estou descalço.
Foda-se!
Acho que estou com os copos.
Vejo a parede em frente com uma mancha. Não, um rasgo. Um rasgo na pintura. Devia colocar azulejo.
Levo o copo à boca. Está vazio. Onde está a garrafa? Levanto-me e viro-me para trás, à procura da garrafa. Mexo os pés. Piso alguma coisa. Sinto que um pedaço de vidro entra dentro de mim. Berro! Dou um berro! Sinto dor. Olho para baixo e vejo sangue no chão. Vejo sangue no pé. Vejo um pedaço de vidro espetado no pé. E digo A garrafa!…
Baixo-me e retiro o pedaço de vidro espetado no pé. Sai mais sangue. Tento estancar o sangue com um pano de cozinha. Sento-me de novo e faço pressão sobre o golpe no pé com o pano de cozinha. Penso A garrafa está vazia! Tento pensar se tenho outra garrafa de whiskey e não consigo lembrar-me.
Acendo um cigarro. Olho para o copo vazio. Dou uma passa no cigarro. Vejo o rasgão na tinta da parede em frente. Olho para o copo vazio à minha frente. Dou uma passa no cigarro. Afasto o pano de cozinha do pé e vejo que ainda deita sangue. Volto a fazer pressão. Dou uma passa no cigarro. Olho para o copo vazio. Dou uma passa no cigarro. Levo a mão com o cigarro ao copo e, lentamente, empurro o copo vazio pela mesa, até à borda da mesa e forço-o a cair. O copo cai no chão. Vejo-o partir-se. Ouço-o partir-se em contacto com o chão. E vejo-o partir-se. Os pedaços partidos do copo voam por todo o lado. Fazem companhia aos pedaços da garrafa. Estou descalço.
Porque é que estou a partir coisas? Porque raio é que estou a partir vidros na cozinha? Estou descalço. Vou ter de apanhar os vidros. Todos os pedaços. Mesmo os pequenos. Até aqueles que nem vejo.
Porque é que estou a partir coisas?
Acho que estou com os copos. Estou com os copos?
Acho que estou zangado.
Devo estar zangado com qualquer coisa. Não me lembro.
Levanto-me. Abro a porta de um armário. Há ali várias garrafas. Descubro uma garrafa de Yamazaki de 12 anos. Como é que veio aqui parar? Não tenho dinheiro para isto. Abro a garrafa. Bebo um gole pelo gargalo.
Um néctar, digo. Ninguém me ouve.
Volto à mesa. Sento-me. Não tenho copo. Nem gelo. Vejo os vidros no chão. O chão com sangue. Sinto uma queimadela nos dedos da mão. descubro um resto de cigarro queimado numa das mãos. Largo a beata no chão. Ergo a garrafa e volto a beber pelo gargalo. Penso É mal empregue estar a beber assim.
E depois? Estou com os copos. Sem copo. Estou zangado.
Olho em volta.
Acho que estou perdido. Estou perdido.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/03]

Desconfinamento

Ia a meio do percurso quando percebi que estava sozinho. Onde é que se teriam metido? Voltei para trás à procura deles. Andei durante algum tempo no sentido inverso, a refazer o caminho, mas não via ninguém. Depois tive de parar. Havia bifurcações e eu já não sabia de onde é que tinha vindo. Os caminhos pareciam-me todos iguais. As árvores eram iguais. Os movimentos sinuosos dos caminhos também me pareciam todos iguais. Tudo parecia a mesma coisa, mas não o podia ser. Por momentos tive medo de me perder. Estava sozinho no meio do mato. Sentia-me perdido mas, ao mesmo tempo, ainda não tinha saído do caminho que começara a fazer com todos eles.
Recomecei a caminhar em frente. Haveria de ir dar a algum lado. Talvez ao sítio onde queríamos ir quando começamos a caminhada, lá atrás.
O horizonte não tinha mais que cinco, dez metros de cada vez. Sempre na próxima árvore. Sempre na próxima curva. A vista nunca estava desafogada. Estava no meio do mato. Um mato quase-cerrado. E eu continuava a palmilhar terreno à espera de chegar onde devia chegar e, com um pouco de sorte, talvez encontrar quem tinha perdido.
Era preciso não desmotivar.
Continuei sempre em frente. Sempre a caminhar sem parar. Sempre à espera de chegar a algum lado. Porque a algum lado deveria ir dar.
Até que cheguei. Finalmente! pensei.
A luz estava a cair. Ali à minha frente, o mar. A areia. A praia. A festa. A festa estava a acontecer. íamos para uma festa, afinal? Já não me lembrava. Teria chegado a tempo? A tempo da festa?
E eles? Onde é que eles estavam?
E pus-me às voltas pela areia à procura deles. A circular pelo meio dos outros, os que já lá estavam.
Enquanto circulava, ia percebendo que a festa já tinha acontecido. Garrafas vazias caídas pela areia. Embalagens de alumínio com pequenos ossos e restos mastigados de frango assado. Caixas gordurosas de pizzas, com restos de massa roída. Rodas de fogueiras a morrerem e a serem atiçadas ao mesmo tempo que a noite se fazia adulta e eu começava a ter mais dificuldade em perceber quem era quem no meio daquelas pessoas. Havia grupos de gente reunida à volta de tocadores de djambés e de guitarras. Havia grupos de gente à volta de fogueiras a partilhar charros, pequenas conversas, adivinhas, anedotas. Havia quem lesse a mão, as linhas-da-mão. Havia quem divagasse acerca da astrologia e do valor dos signos. Havia grupos de gente a dançar à volta de pequenas e potentes colunas que cuspiam metros de música colorida. Havia gente solitária parada a olhar para o mar; para as ondas do mar; para as fogueiras a arder; para os corpos entrelaçados e caídos na areia. Havia gente a mergulhar no mar. Havia gente a cantar. Havia gente a foder.
Não reconhecia ninguém.
Afastei-me para um canto e sentei-me numa pequena duna, encostado a uma árvore. Não sei que árvore era. Era uma árvore. Puxei de um cigarro e, quando o ia a meter na boca, entre os lábios, percebi que estava de máscara, de máscara social. Lembrei-me do vírus. Lembrei-me que estávamos a desconfinar, mas que devíamos manter distância. O vírus estava activo. Não havia vacina. Ainda nos infectávamos. Estávamos a desconfinar, mas devíamos ter cuidado. Muito cuidado. E então lembrei-me que não vira nenhuma máscara entre toda aquela gente que estava ali na festa, uns em cima do outros, uns encostados aos outros, uns dentro dos outros.
Ouvi uma sirene. Vi umas luzes azuis e vermelhas a varrerem o ar. A noite já tinha ganho o espaço. Vi a chegada do que me parecia ser a polícia. As pessoas começavam a desmobilizar. Sem grandes dramas. Levantavam-se e iam embora. Saíam do mar, molhados, e continuavam pelo mato dentro. Talvez em direcção aos carros. À estrada. Alguns iam abraçados. Outros iam amparados. A polícia ficara para trás a apanhar os que estavam tombados na areia. Os que estavam a dormir. Os que estavam em êxtase. Os que estavam mortos.
Eu fiquei ali mais um pouco. Ninguém deu por mim. Fiquei a fumar um cigarro atrás do outro. A perguntar-me Onde raio é que eles se enfiaram? e sem conseguir resposta.
Então, estava sozinho na praia. Já não havia festeiros nem polícia. Já não havia ninguém. As fogueiras já tinham morrido ou sido apagadas pela polícia. O que restava era o lixo da festa. Uma festa a que cheguei tarde e não encontrei ninguém conhecido e acabei por não estar com ninguém que não conhecesse.
Dois dias mais tarde soube que o número de infectados pelo coronavírus tinha aumentado drasticamente por causa daquela festa. Semanas mais tarde houve gente a morrer. Gente que nem tinha estado na festa.
As pessoas com quem tinha ido, nunca mais as vi. Não sei se estão vivas ou mortas. Nem sei já quem eram.
Hoje pergunto-me se realmente tinha ido com alguém ou se tinha ido sozinho. Já não me recordo de nenhum deles. De um nome. De uma cara. De qualquer relação. De uma pequena estória. Nada. Não lembro de nada nem de ninguém. Só me lembro de mim, sozinho, a caminho de uma festa onde cheguei tarde e que foi o melhor que me podia ter acontecido.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/22]

Regressar a Casa

Já lá não ia desde a morte dos meus pais. Agora precisava de ir. Não precisava mesmo. Podia não pensar em tudo o que está semeado por lá, tudo o que foi semeado por lá ao longo dos anos, dos meus anos também, durante a minha infância e adolescência, todos os segredos que fui guardando em cofres impossíveis de serem encontrados, em caixas do tempo que iria abrir alguns anos depois e que esqueci, ou perdi o interesse, não sei, há alturas na vida em que somos parvos e fazemos gala dessa parvoíce, como as cidades que deitam casas antigas, casas com história, abaixo, ou as árvores, que estão sempre doentes, nunca vi árvores para adoecer como as árvores da cidade e ao longo do rio, coitadas, sempre doentes, sempre a apodrecer, sempre a fazerem tudo para serem serradas, podadas, deitadas abaixo, às vezes também é porque tiram a vista a alguém importante, ou sujam a calçada, e para que é que interessa a sombra que fazem nas pedras de basalto da cidade quando se percorre as ruas da cidade de automóvel com motorista?
Na verdade não precisava de ir lá a casa. Podia deitar fora a chave, vender a casa a quem quisesse comprar, com ou sem recheio, segredos, livros, poemas escritos aos dezasseis anos, contos que se arrastavam em folhas soltas e que um dia iriam fazer um livro, um Epitáfio à Loucura, um nome assim pomposo na arrogância da minha adolescência, e depois largados por lá, perdidos em gavetas, no meio de livros que nunca mais abri, ficaram a apanhar pó que a minha mãe nunca mexia nas minhas coisas, era eu que limpava sempre o pó aos livros, aos discos, às prateleiras que ia enfiando no quarto, era preciso acomodar sempre mais livros que apareciam assim, às carradas, nasciam do dinheiro das senhas de almoço que não comprava, dos trabalhos que prometia à vizinhança, à minha mãe, ao meu pai, para poder ler quando descobri que havia mais gente no mundo que eu e que tinham histórias fantásticas de vidas absurdas, tão longe da minha para me contarem, e são ainda alguns destes livros que ficaram por lá, Os Cinco, os Sete, As Gémeas no Colégio de Santa Clara, O Colégio das Quatro Torres, a colecção Mistério, livros que guardei para os meus filhos e foram ficando por ali, eles cresceram, não ganharam hábitos de leitura, nunca lhes cheguei a dar os livros e eles agora não servirão para mais ninguém, nem para mim que não tenho vontade de regressar à infância, uma infância em que a vida ainda podia ser uma aventura nos Rochedos do Demónio, mas ainda por lá estarão outros livros, livros para alguém mais crescido, como os livros do Harold Robbins que devorei na cama noites dentro, de lanterna em punho e a porta encostada para os meus pais não verem a luz acesa tão tarde em dias de aulas, e cadernos inteiros com desenhos e riscos e palavras soltas e nomes de miúdas, miúdas de quem gostava, algumas já nem saberei quem são, quem foram, mas devem ter sido importantes que as miúdas sempre foram importantes na minha vida, mesmo as que não me ligavam nenhuma que eu sempre gostei das miúdas mesmo as que não gostavam de mim, algumas delas vieram a gostar anos depois mas já era tarde, não era?, que o comboio só passa uma vez na estação, li esta frase estúpida não sei onde e sempre pensei que a iria utilizar um dia e ainda estou à espera desse dia.
Quantos anos passaram desde que aqui entrei pela última vez?
Lembro-me de ver a minha mãe ali à janela, naquela janela ali, a janela da cozinha, onde ela ia chamar-me, chamar-me pelo meu nome em diminutivo, em altos berros para toda a rua e todo o bairro saberem que ela andava à minha procura, malandro, e onde é que eu andaria? Por aí, mãe, por aí.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/19]

O Último Almoço de Páscoa em Casa dos Meus Pais

Foi num Domingo como o de hoje. Um Domingo de Páscoa.
A minha mãe tinha passado o Sábado a tratar do cabrito. A temperá-lo. A assá-lo. A limpar a loiça das cerimónias, a louça que só via a luz do dia duas vezes por ano, no Natal e na Páscoa. O meu pai tratava de escolher o vinho ideal para o almoço de Domingo. Entre todas as garrafas sem rótulo que tinha guardadas na garagem onde faziam companhia ao carro que tratava como se fosse um dos filhos, ele sabia de que produtor era cada uma delas e qual a mais indicada para a ocasião.
Nesse Domingo, ainda de manhã, já quase hora de almoço, cheguei a casa dos meus pais. A minha mãe ainda estava a cozer uns grelos. O meu pai estava a preparar um Martini branco com um pouco de gin para mim. Ele gostava de preparar umas bebidas mas, raramente bebia. Um copo de tinto em algumas refeições mais especiais. Era provável que bebesse um copo de vinho tinto naquele Domingo de Páscoa. Já a minha mãe, acompanhava-me quase sempre. Só não me acompanhava na quantidade. Ela sabia quando parar. Eu ainda não sei.
Naquele dia agarrei o Martini que o meu pai me estendeu e fui até à cozinha dar um beijo à minha mãe. Fizemos um brinde. Ela estava a beber um vinho branco. Eu comi umas azeitonas. Um pedaço de broa. Provei uma das batatinhas assadas, e a minha mãe acabou por me pôr fora da cozinha porque a estava a estorvar no meu deambular de um lado para o outro a depenicar coisas apetecíveis.
Voltei para a sala onde estava o meu pai. Ele estava a pôr um disco de vinil da Amália a tocar na aparelhagem. Lamentámos a ausência de jogos de futebol no Domingo de Páscoa. Lamentámos não podermos ver um jogo do Benfica. Ele perguntou-me como é que eu ia. Eu menti, como mentia sempre. Ele percebia que eu mentia, mas não dizia nada. Depois fui à rua fumar um cigarro.
Passeei-me pelo quintal da casa dos meus pais, uma casa que também tinha sido a minha, e fui até à figueira que ainda existia. A figueira que eu subia até ao coruto. Olhava para ela, olhava lá para cima, e perguntava-me como é que eu subia aquilo? Como é que eu subia aquilo e nunca tinha caído, nem partido a cabeça ou um braço? Ainda estava lá pendurado o baloiço que o meu pai tinha posto para mim e para a minha irmã. Sentei-me e baloicei-me um pouco, mas sem tirar os pés do chão. Um suave ondular com o rabo enquanto fumava o cigarro. Já não havia cão. Dantes, na minha infância e depois adolescência, havia sempre um cão naquele quintal. A maior parte das vezes, cães rafeiros que davam aos meus pais. Cães que a minha mãe encontrava perdidos na rua, especialmente no Verão. Chegou a haver lá três cães de uma vez. Agora já não havia nenhum cão. Acabei por descobrir um gato deitado em cima do muro a olhar para mim. Não o conhecia. Nem sei se era ali de casa ou da vizinhança. Chamei-o, mas o gato ficou onde estava.
Acabei o cigarro e voltei para dentro de casa. O meu pai estava a levar umas travessas para a sala, para a mesa na sala. Eu voltei à cozinha. A minha mãe perguntou-me A tua irmã? e eu não sabia. Nunca sabia. E disse-lhe Deve estar a chegar. E foi nesse momento que o meu telemóvel tocou.
Atendi.
Era o namorado da minha irmã.
Eu fiquei calado a ouvir o que ele dizia. O que ele tentava dizer.
A minha mãe parou o que estava a fazer e ficou a olhar para mim. Para a minha cara. E acho que percebeu primeiro que eu o que tinha acontecido.
O meu pai voltou a entrar na cozinha e perguntou Quem é? e a minha mãe pousou a mão no braço dele para que ficasse quieto. Quieto e atento. Para o acalmar. Para lhe dizer que ela estava ali. Mas o meu pai era pior que eu. Não tinha grande intuição. E quando desliguei o telemóvel e senti os olhos a ficarem molhados, e vi a minha mãe levar a mão à boca para impedir um grito de sair, o meu pai voltou a perguntar Quem era?
Naquele Domingo já não almoçámos. A minha mãe foi despejar o tabuleiro com o cabrito na tigela de comida do cão da vizinha que lhe perguntou o que se passava e a quem ela não respondeu. Nunca mais a minha mãe voltou a cozinhar cabrito. Nunca mais houve almoço de Páscoa em casa dos meus pais. Naquele dia o meu pai deixou de falar e assim continuou até morrer. A última vez que ouvi a voz do meu pai foi quando ele me perguntou Quem era? Naquele dia a tristeza entrou naquela casa e nunca mais se foi embora. Eu continuei a mentir aos meus pais porque não queria que eles também se preocupassem comigo.
Hoje, Domingo de Páscoa, continuo a mentir, agora a mim, para me enganar e fazer-me crer que a vida é bela e que depois da tempestade vem sempre a bonança. Mas não é verdade. Quando a tempestade assenta arraiais, nunca mais se vai embora.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/12]

Uma Gota de Transpiração

Este tempo bipolar tomou conta da minha vida. Todos os dias espreito pela janela para saber se posso ir mijar nu ou se tenho de vestir qualquer coisa. Entre o calor de Verão e o frio do Inverno têm passado vinte e quatro horas. Começo a pensar que o verdadeiro problema não é o Covid-19 mas estas misturas temporais que nos empurram para a praia e acabamos a fazer ski na neve, duna abaixo em direcção a um mar gelado vindo directamente da escrita de um argumentista de série B.
Ontem estava calor. O céu azul belenenses. Levantei-me nu da cama e foi assim que fui mijar à casa-de-banho depois de ter espreitado pela janela do quarto para a rua.
Enquanto esperava pelo café, fui tomar um banho de mangueira ao quintal. Os gatos fugiram. O cão andou a ladrar à minha volta mas acho que era para a água que saía da mangueira.
Dei duas voltas a correr à volta da casa para secar. A pila dançava para cima e para baixo. Ainda a consigo ver. Não engordei assim tanto. Fiquei com os pés sujos. Voltei a lavar os pés e calcei umas havaianas de imitação velhas que andam sempre perdidas pelo quintal, às vezes os gatos mijam-lhes em cima, às vezes o cão deita-se a roê-las, ficam ao vento e à chuva, mas dão sempre jeito. Como ontem.
Depois de beber o café e de fumar um cigarro no alpendre, a melhor parte da casa, vesti uns calções e uma t-shirt e fui dar uma volta pela aldeia. Estava deserta. Demasiado calor para os velhos andarem na rua. Demasiado cedo para os mais novos saírem da cama. Optaram todos pelo confinamento. Pelo menos ontem. Ontem de manhã. Tudo em casa. Tudo? Tudo não, que uma moça da aldeia, filha dos donos do Minimercado, estava num terreno que têm para os lados do ribeiro a cavar terra para plantar batata-doce. É o tempo dela. Da batata-doce. Estava de camisa aberta, transpirada, a saia rodada presa à cintura cruzada por baixo das pernas tornada calções. Vi a transpiração a escorrer pelo decote aberto no peito. Ela viu-me. Parou de cavar. Aproveitou para descansar daquele calor e apoiou-se no cabo do sacho, a olhar para mim. E depois levantou o braço numa saudação. Eu também a saudei. Levantei o braço e gritei-lhe Bom-dia! que não deve ter ouvido porque me engasguei e a voz saiu fininha. E pensei Se não fosse o distanciamento social…
Hoje já está frio. O céu cinzento, daquele cinzento urbano-depressivo que me fazia as delícias quando tinha dezasseis anos. Mas já não tenho mais dezasseis anos. Chove. Chove uma pequena e irritante chuva tocada a vento. Visto umas calças de fato-de-treino e uma sweat antes de ir mijar. Mijo. Faço café. Fumo um cigarro na cozinha enquanto leio as últimas notícias sobre os milhares de mortos que continuam a acontecer por todo o lado e aos quais já parecemos imunes.
Com o tempo que está e as notícias matinais que leio chega-me a melancolia de Domingo, mesmo que seja ainda só Sábado.
Largo a chávena vazia na mesa da cozinha e volto para o quarto. Volto para a cama. Tapo-me com o edredão e desejo voltar a adormecer e só voltar a acordar quando o tempo regressar em bom. Quando o tempo regressar em formato de Verão, com sol forte e quente e umas nuvens à Simpsons. Desejo adormecer e sonhar com a gota de transpiração a percorrer o peito branco da filha dos donos do Minimercado.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/04]

Para um Diário da Quarentena (Quinto Andamento)

Hoje dei corpo à expressão da directora geral de saúde. Saltei o muro do vizinho e fui lá buscar dois frangos. Hoje ou ontem. Era de noite. Talvez já depois da meia-noite. Ou talvez não. Os dias e as noites, as horas, o tempo está um labirinto onde me sinto perdido. Tenho a noção do agora que é onde estou. Depressa me perco em relação ao tempo passado. Mas acho que foi hoje que já devia ter passado da meia-noite e que devo lá ter ido de madrugada para ninguém me ver.
Hoje, portanto, dei corpo à expressão da directora geral de saúde e saltei o muro da casa do vizinho, que está em França, e fui lá buscar dois frangos ao galinheiro. O vizinho tem lá em casa alguma criação que um velho da aldeia cuida. Galinhas, coelhos, perus. Até lá tem umas cabras que o velho põe a aparar a relva da casa e eu próprio já pensei em pedi-las emprestadas para me virem comer as ervas que crescem desgraçadamente ao deus-dará e para as quais não tenho paciência de andar a cortar quase de dois em dois meses.
Foi um escarcéu dos diabos quando entrei no galinheiro. Mas a casa fica longe da aldeia e o galinheiro fica no lado sul da casa e que serve de bloqueio à propagação do som. Acho que ninguém ouviu o barulho das galinhas a cacarejar e o irritante cocó que não me largava as pernas e, por duas vezes, bateu asas e de um pulo tentou bicar-me o nariz até que lhe dei um pontapé que o fiz dançar e vi-o a fugir para dentro de uma capoeira, talvez para as asas confortáveis de alguma galinha poedeira.
Torci os pescoços aos dois frangos e trouxe-os pendurados nas mãos até casa. Levei-os para a cozinha para o cão e os gatos não se armarem em parvos. Cortei-lhes os pescoços e deixei-os pendurados a derramarem todo o sangue para um alguidar. Pus uma panela grande, a maior panela que tenho em casa e que nunca uso senão para isto, cheia em dois terços de água e deixei-a ao lume em cima do fogão. Enquanto esperava fui para o alpendre fumar um cigarro. Era de noite. Madrugada, já. Via ao longe as luzinhas da aldeia. Não conseguia ver as montanhas lá ao fundo. Não ouvia nenhum barulho. Nem a coruja que costuma pôr-se para aí a assobiar e que às vezes me acorda e me obriga a levantar pois já não consigo voltar a adormecer depois de ter acordado. Ia deitar o sangue fora, claro. Depois de apanhar todo o sangue dos dois frangos, ia deitá-lo fora. Se soubesse fazer arroz de cabidela, guardava-o, mas não sei. Era um segredo da minha mãe que ela própria já esqueceu. No outro dia ainda foi comprar dobrada e fez-me uma dobradinha como eu me lembrava que ela fazia. Falei-lhe da cabidela e ela desculpou-se com as galinhas de agora que já não são boas para a cabidela e eu percebi.
Acabei o cigarro e voltei a entrar na cozinha. A tampa da panela saltitava em cima da água a ferver. Retirei a tampa. Enfiei lá um frango inteiro. Contei mentalmente dois minutos, três minutos e retirei-o e larguei-o no lava-loiças. Fiz o mesmo com o outro. Voltei a contar dois, três minutos. O cheio das penas cozidas dos frangos agoniava-me, mas aguentei. E no fim, atirei o segundo frango para cima do outro, dentro do lava-loiças.
Parei por momentos a tentar pensar no passo seguinte. E agora? perguntei em voz alta. Fechei os olhos e tentei ver a minha mãe a tratar das galinhas que tinha num pequeno galinheiro atrás da garagem onde o meu pai guardava o carro todas as noites para não apanhar o cacimbo nocturno e percebi que era altura de fazer a depenagem.
Arranjei um outro alguidar e levei um frango lá para fora. Sentei-me no alpendre. Uma pequena luz iluminava-me o trabalho. Comecei a depenar o primeiro frango. As penas saíam com facilidade mas, ao mesmo tempo, era preciso usar de uma certa força. Aquela porra estava bem agarrada. O cão e os gatos aproximaram-se de mim. Deitaram-se todos a olhar para o que eu estava a fazer. A olhar para o frango a ser depenado. Um dos gatos saltou para dentro do alguidar cheio de penas molhadas e tive de o enxotar. Depois fui buscar o segundo frango e repeti as acções. No final tinha os frangos depenados e um alguidar cheio de penas. Primeiro acendi um dos bicos do fogão, peguei num dos frangos pelas patas e pelo pescoço e passei-o sobre as chamas para queimar a pequena penugem. Repeti com o outro. Depois despejei as penas dos frangos num saco de lixo e fui levar o lixo ao caixote que está na estrada lá em baixo. Acendi um cigarro e fui a fumar. Larguei o saco no lixo. Parei na estrada. Tentei ouvir barulho, mas não ouvia nada. Parecia que não havia ninguém. O mundo estava silencioso. O céu era uma cúpula cheia de pequenas luzinhas a tremelicar. Do outro lado da estrada, na casa de um outro vizinho, vizinho ausente que tinha ido para a cidade, para a casa do filho para o ajudar, ele e a mulher, mesmo depois de todos os avisos para as pessoas mais velhas evitarem todos estes contactos com os mais jovens e possíveis fontes de contágio muito mais graves para eles, quer dizer, nós, estava uma laranjeira carregada de laranjas. Saltei o muro, que nem era muito alto, tirei a camisola e utilizei-a como saco e trouxe vários quilos de laranjas para casa.
Gostei dessa ideia da horta do vizinho da directora da saúde, mesmo que não seja para ir buscar brócolos.
Regressei a casa. Quando voltei a entrar na cozinha senti o cheiro enjoativo dos frangos passados por uma pequena cozedura, misturado com o queimado da penugem. Abri uma das janelas da cozinha e deixei-a aberta. Tinha rede mosquiteira e os gatos não iriam lá entrar.
E fui-me deitar.
Há pouco, hoje ainda porque o dia ainda é o mesmo que ontem à noite que já era hoje, mas depois de ter acordado, depois de ter feito café fresco e espremido umas laranjas para um saboroso sumo e de ter torrado duas fatias de pão saloio que comi barradas com manteiga, cortei um dos frangos em pedaços pequenos, comecei com uma faca mas depois tive de ir buscar um cutelo, para fazer um guisado.
Já tenho o primeiro frango cortadinho aos bocados. O outro está no frigorífico à espera de uma ideia. Depois irei cortar uma cebola, uns alhos e umas cenouras, juntarei um tomate e um pouco de concentrado, sal, pimenta, um pouco de vinho branco, juntarei o frango em pedaços e, mais tarde, quando o frango estiver quase no ponto, hei-de juntar um bocado de esparguete.
Entretanto estarei aqui pelo alpendre a fumar mais um cigarro. A ouvir o silêncio que me cerca e a ganhar coragem para ir ver quantos são já os mortos de hoje. Mas daqui, desta distância onde estou, tudo me parece irreal. Tenho de ir a mais hortas dos meus vizinhos. Ajuda-me a passar o tempo e a sentir-me vivo, apesar da reclusão. Não tarda é Agosto e eu quero ir à praia. Ou queria. O tempo não está para estes desejos tão mundanos.
Como é que se mata uma cabra?

[escrito directamente no facebook em 2020/03/22]

Pulseira de Prata com Nome Gravado em Baixo-Relevo

Nunca tive uma pulseira de prata com o meu nome gravado, nem com o meu tipo de sangue ou com a morada dos meus pais caso fosse um filho perdido nas ruas do mundo. Via-as nos pulsos das outras crianças, crianças como eu e achava, então, que não era uma criança como elas. Elas eram portadoras de uma pulseira e eu não. Elas tinham algo que as distinguia e eu não. Elas tinham o nome escrito, gravado a baixo-relevo, pendurado nos pulsos, que abanavam, e agitavam quando jogávamos à bola, saltávamos à mocha e faziam prever o calduço na nuca quando entrávamos na estátua, quando queríamos atravessar o corredor do colégio e as paredes repletas de outras crianças como eu que, esperando que passasse, me batiam no cachaço e ficavam estáticos, serenos, a olhar para além de mim, ou arrogantemente directos para mim, de olhos nos olhos, e a pensarem Não fui eu, Não me viste, e eu a desejar estar no lugar de um deles, a desejar ver um deles mexer-se para ocupar o lugar e ser eu, estático, a bater no lombo de outro qualquer como eu mas não eu.
Porque é que eu não tenho uma pulseira assim?
Não sei se alguma vez o perguntei, mas sei que nunca recebi resposta. Nunca ninguém me disse porque é que eu não tinha direito a usar uma pulseira de prata, de corrente grossa e chapa identificadora no pulso, no direito ou no esquerdo, havia quem usasse num lado e quem usasse no outro. Quem já usava relógio no pulso esquerdo, e naqueles tempos não havia ousadia suficiente para usar o relógio no pulso direito, usava a pulseira no pulso direito. Mas agora que penso nisso acho que também vi usar relógio e pulseira no mesmo pulso. Menos eu. Eu nunca usei nenhuma pulseira em nenhum dos pulsos. Eu nunca tive uma pulseira como eles.
Porque é que nunca tive uma pulseira assim, pai?
Não tive pulseira mas tive um relógio. Um relógio que o meu pai me ofereceu quando terminei a quarta classe e passei para o ciclo. Era um Cauny, quadrado, simples, mas não tão simples assim, com três ponteiros, mas o ponteiro dos segundos circulava sozinho numa pista que era só dele, mais pequena, na parte de baixo do relógio, e um só botão para dar corda. Era preciso dar vida às horas. Elas não sabiam ser autónomas. Era eu que lhe dava vida todos os dias de manhã, a primeira coisa que fazia quando acordava, antes mesmo de ir fazer chichi à casa-de-banho, de cada vez que, com o polegar e o indicador, esticava a corda do relógio e o deixava contabilizar as horas de vida, e os minutos e os segundos, sentia-me importante, importante o suficiente para saber que aquele relógio dependia de mim para sobreviver.
Onde pára o Cauny?
Na cápsula do tempo que não tenho, na caixinha onde eu poderia guardar estas pequenas memórias da minha infância, que não guardei, poderia estar o Cauny, e a memória da quarta classe, e a minha passagem para o ciclo, um grande passo na minha adolescência, o início da minha vida como jogador medíocre de andebol e outras coisas que não fazia e passei a fazer porque já era crescido, crescido o suficiente para as poder fazer, e que o relógio marcou para sempre, e que agora já não recordo, porque me falta essa arca de memórias.
Onde está esse meu primeiro relógio? O relógio que o meu pai me ofereceu por ter terminado com distinção o meu percurso pela primária?
Estará perdido nalgum caixote que fui deixando atrás de mim nas casas por onde fui passando, ou foi vendido em tempos difíceis quando não havia dinheiro para mitigar a fome dos dias de chumbo?

[escrito directamente no facebook em 2020/02/29]

O Último Suspiro

E naquela tarde desejei que a vida fosse um dia de sol brilhante, quente e confortável, um mar ondulante e dócil de águas mornas onde poderia nadar crawl e que nadaria como ninguém, boiaria num colchão de ar e seria levado ao longo da costa até uma praia deserta e secreta onde encontraria uma sereia verdadeira com rabo de peixe, almoçaria um bife do lombo com batatas fritas e um ovo a cavalo, molharia um bocado de miolo de um papo-seco na gema amarelinha do ovo, beberia um pirolito e guardaria o berlinde de porcelana colorido que iria juntar ao atabafador, ao contra-mundo e ao olho-de-boi na caixinha das preciosidades onde também estaria o pin do Benfica, o cartão de sócio da União de Leiria, os cromos de futebol das pastilhas May e a fotografia da Cindy, uma inglesa de Bristol que conheci na Praia da Oura e com quem andei de gaivota, comi gelados de laranja da Olá e chorei baba e ranho quando me vim embora para Leiria e ela ficou mais uma semana, jurámos trocar cartas e só foi a primeira e só chegaram duas, e que depressa troquei pela Rita que conheci no colégio, mas a fotografia ficou para me lembrar as pequenas histórias que fazem toda a minha vida, e depois iria a uma matinée de cinema ver o Grease, a Guerra das Estrelas ou uma reposição da Fantasia que o meu gosto é eclético, passearia de bicicleta tipo chopper ao longo do rio e subiria a estrada até à nascente do Liz, às Fontes, logo ali acima das Cortes, e regressaria mais tarde até à descida do Seminário onde iria fazer a descida em carrinho-de-rolamentos e passaria pela caixa de água pública onde o Jorge um dia rebentou umas bombas de Carnaval que lhe iam arrancando os dedos da mão, mas não arrancaram e nós fartámos-nos de rir à conta dele que nunca mais pegou em bombas de Carnaval, só em bombinhas de mau-cheiro que partia nas aulas de matemática e a freira era obrigada a dar a aula por terminada porque o cheiro se tornava impossível e ninguém mais tomava atenção à matéria, e saíamos da sala e íamos jogar à bola para o campo pelado onde esfolei e esfolaria ainda mais vezes os joelhos e todos os finais de tarde seriam passados na Feira de Maio, na pista dos carrinhos-de-choque da feira, aos empurrões aos outros carros para impressionar as meninas que olhariam para mim e suspirariam, e eu veria os seus pequenos corações a baterem forte dentro dos seus frágeis corpos de adolescentes à minha passagem e iria passear à volta do mundo com uma dessas meninas e conheceria todos os países e todos os povos da Antártida ao Ártico, passando pela Austrália, a Ásia, a América do Norte, Central e do Sul, e toda a África, e teria todo o tempo do mundo para usufruir da vida de todos estes continentes e povos, e comeria das gastronomias locais e nunca ficaria maldisposto com nenhuma das iguarias que o mundo está cheio de maravilhas para comer e beber e ver e ouvir e tocar e sentir e apreender, e cada vez que regressaria iria rever os meus amigos que ainda seriam sempre os meus amigos porque os amigos seriam sempre para a vida, ao contrário dos amores que se enterram na areia da praia em cada fim de Verão, e mataria saudades dos meus pais e da escola onde andava mas já não andaria porque iria aprender pelo mundo fora a fazer surf no Hawai, mas poderia ser também na Nazaré ou em Peniche, a jogar futebol de praia em Copacabana, judo no Japão, a tocar didgeridoo na Austrália, percussão em África e kazoo… onde é que poderia aprender a tocar kazoo?… talvez em África também e ocarina com os descendentes dos maias e…
…e depois descobria, naquela tarde, que a vida afinal nunca seria assim tão boa enquanto assistia ao último suspiro do meu pai deitado na cama onde estava já há uns meses à espera de ser levado lá para onde vão as pessoas que respiram pela última vez e eu chorava como choravam todos os abandonados cá deste lado ao sentirem-se sozinhos e perdidos, à espera que a vida, mesmo assim, não me abandonasse como parecia ter abandonado naquele momento.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/15]

Seis Dias

Não demorei muito a perder todas as esperanças depositadas na novidade. Seis dias, foi quando durou o Ano novo, vida Nova! o Agora é que é! Este é o meu ano! Desta vez vou cumprir todas as minhas resoluções! Sinto que este ano é que é o meu ano! Sou outro, o mesmo mas em novo!
Seis dias.
Entrou o Dia de Reis e foi tudo por água abaixo.
Estava com bastante esperança. Estava confiante. Até parecia maior, de corpo erguido, peito feito para enfrentar o futuro. Sentia-me bem, muito bem, grande, enorme. Era o sol, o calor, o mar, estes dias brilhantes de Primavera em pleno Inverno que me colocaram no caminho da boa disposição e de conquista do mundo. Os trevos no jardim lá em baixo. As azedas à borda da estrada. O chilrear dos pássaros logo pela madrugada.
Seis dias.
Hoje de manhã já me fora difícil levantar da cama. Sentia frio e qualquer coisa esquisita cá dentro, uma certa angústia de que não sei a origem. E alguma vez se sabe? Sim, às vezes sei a origem das minhas angústias, o final do mês, a falta de dinheiro, a chegada de contas para pagar, uma ida não programada ao dentista, a falta de trabalho. As ausências. As fugas ou a impossibilidade de as executar.
Levantei-me já com alguma dificuldade. Mandei o edredão para os pés da cama mas tive de me levantar logo de seguida que não aguentava o frio. Fui fazer café, mas tive de tomar banho enquanto esperava pela primeira chávena do dia para aquecer o corpo. Tinha as mãos e os pés gelados. E foi enquanto espalhava o champô pelo cabelo, e olhava para a rua através da janela aberta de par-em-par, e via aquele sol amarelado de gema de ovo de aviário que percebi que o dia, que até tinha nascido soleiro, estava sem brilho. Um dia de sol, mas baço. E perguntei-me Que raio estou a fazer aqui? E não queria estar ali. Ali no banho. Não me apetecia ter levantado da cama. Estava frio. O dia estava com sol que não aquecia nem me trazia boa disposição. Queria perceber porquê mas não entendia nada. Um aperto no peito. Uma vontade de chorar. Sem razão. Quer dizer, sem razão aparente, que razões tenho eu muitas, diariamente, mas já me habituei a viver com essas razões. Não havia nada de novo que me fizesse sentir assim, ausente, perdido, destroçado, um desgraçado de merda, que era como me estava a sentir enquanto enxaguava o cabelo.
Seis dias.
Saí do banho. Vesti uma roupa qualquer. Tirei à sorte do roupeiro uma camisola. Vesti as mesmas calças da véspera. Umas sapatilhas. As que estavam ali caídas na marquise, fora da caixa. Tirei uma caneca de café. Um cubo de açúcar. Não, dois. Acendi um cigarro. Olhei para a rua. Senti-me pequeno. Senti-me decrescer. Minguar. Senti falta do meu pai. Da minha mãe. Senti falta de poder dizer Não me sinto bem. E ter-lhes a atenção. E o meu pai dizer Vamos ao médico. E a minha mãe dizer Vou fazer-te uma tisana. E ter colo.
Deixei cair o resto do cigarro na caneca de café e larguei-a ali, no beiral da janela.
Dei duas voltas lentas à cozinha. O que é que vou fazer? O que é que tenho para fazer? O que é que me apetece fazer?
Saí da cozinha. Fui até à sala. Olhei para a televisão desligada. Sentei-me no sofá. Enterrei o cu no fundo do sofá. Acendi um cigarro. Olhei para a gaveta de cima do móvel. Tinha lá uma Glock. Uma sobrevivente do assalto a Tancos.
Já passaram umas horas. Já passou o dia. Já se foi a manhã e a tarde. Já cai a noite. Acendo um cigarro. Ainda estou sentado no sofá. A televisão continua desligada. Tenho uma Glock na gaveta de cima do móvel. São seis de Janeiro e o ano já me parece velho. Velho e cansado. Deixo cair um borrão incandescente do cigarro no chão da sala. Não consigo tirar os olhos da gaveta. Da gaveta de cima do móvel.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/06]