A Primeira Vez que Saí à Rua de Mãos-Dadas

A primeira vez que saímos para a rua de mãos-dadas, eu fiquei com dois metros de altura, peito inchado, percebi a cara ruborizar e senti-me a pessoa mais importante do universo.
Estava em casa dela. Tinha acabado de lhe dar um beijo nos lábios. Ela tinha aberto a boca. Senti a língua húmida dela a procurar a minha. Os nossos dentes bateram uns nos outros, desajeitados. E depois sorrimos um para o outro.
A minha mão procurou a dela. Encontraram-se e não mais se largaram. Foi difícil abrir a porta da rua e fechar a porta à chave sem largarmos as mãos. Depois saímos, de mãos-dadas. Era a primeira vez que saía para a rua de mãos-dadas. Estava nervoso mas sentia-me muito importante. A pessoa com mais sorte do mundo. Sentia-me nas nuvens e olhava as outras pessoas lá em baixo, aos meus pés. Senti vertigens e, por momentos, enjoei e pensei que ia vomitar. Mas agarrei-me à mão dela. O coração batia tanto e tão alto que tinha medo que ela ouvisse. E, de vez em quando, engasgava-me a respirar e tossia. Sentia-me a ficar com a cara vermelha e muito quente. Piorou quando parámos no passeio, junto à passadeira, à espera de cruzarmos a estrada para o outro lado, e ela encostou a boca ao meu ouvido e disse Gosto de ti! e os lábios dela a mexerem-se na construção fonética fizeram-me cócegas na orelha e senti um arrepio pela espinha, a minha mão começou a transpirar, a dela também, e mesmo com a estrada vazia de carros não conseguimos cruzá-la pela passadeira para o outro lado. Ficámos ali presos aquele momento, a tentar recuperar a lucidez mas sem fazer muito por isso, até que fomos acordados pela buzina de um automóvel que parou para nos dar passagem. Eu pus o pé na estrada e esperei que ela viesse comigo mas a minha mão e a dela escorregaram, tão transpiradas que estavam, e desatámos os dois a rir e ela começou a correr para o outro lado da estrada e eu segui-a e, já no passeio, a rir, ela abraçou-me e ou voltei a beijá-la, enquanto a minha mão agarrou a dela, mas com força, como uma tenaz, para não mais a deixar largada num sítio qualquer onde eu já não estivesse e ela se pudesse perder.
Às vezes penso no que é que mais gostava de voltar a sentir pela primeira vez. E nunca é no primeiro beijo, na primeira relação sexual, no primeiro filho, na vez em que recebi a Palma de Ouro em Cannes ou quando acertei no Euromilhões. Não. O que eu penso sempre que gostaria de voltar a sentir outra vez pela primeira vez era sair de mãos-dadas com ela à rua. Voltar a sentir-me um gigante, a pessoa mais importante do universo, mesmo com o nervosismo, o rubor e as borboletas na barriga, afinal, vem tudo no mesmo pacote.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/26]

Às Vezes Falo Comigo em Voz Alta para Ouvir uma Voz e Escutar uma Conversa

Às vezes penso que não devia ter feito o que fiz.
Às vezes penso que as decisões que tomei talvez não tenham sido as mais acertadas. Foram correctas. Mas impulsivas. Talvez não tenham sido as mais acertadas.
Às vezes sinto-me enlouquecer no meio de todo este silêncio. Estou na cozinha. Olho a rua através dos vidros duplos e não ouço nada da vida que corre lá fora. Acendo um cigarro, o meu último cigarro, para ouvir o raspar da roda-lixa na pedra do isqueiro e a chama acender, flush, entre as grades de alumínio que me protegem do pavio que se incendeia. Aproximo o cigarro e ouço o tabaco queimar na chama do isqueiro. Puxo o fumo e sinto-o a invadir-me os pulmões. E a bronquite? Que se lixe a bronquite. Gosto de sentir o fumo dos cigarros a entrar rápido por mim dentro. Abro a janela para que o fumo fuja para a rua e levo um estalo do barulho exterior que entra quando o fumo sai.
É isto que estou a perder?
Às vezes sinto forte, no fundo do estômago, esta solidão a que me votei.
Às vezes gostava de abrir a porta da rua e voltar ao convívio de quem abandonei. Coloco a mão transpirada sobre a maçaneta da porta e é tão pesada, tão forte, que não consigo abrir a porta.
Às vezes esqueço-me. Depois lembro-me.
Agarro no Ventilan. Dou duas bombadas. Acabo o cigarro. Mando a beata pela janela para irritar a vizinha de baixo. Fecho a janela. Regressa o silêncio ensurdecedor.
Sei que tenho de ir à rua. Não tenho aqui nada para comer. Podia mandar vir uma pizza. Mas decido sair. Compro uma pizza e cigarros. E uma garrafa de vinho tinto.
Falo comigo. Falo alto comigo para não me sentir tão só. E vou sublinhando os meus passos em jeito de conversa de amigos.
Saio da cozinha. Cruzo o corredor. Agarro na carteira. Nos óculos escuros. Tiro a chave da fechadura e saio. Olho para a porta do elevador. Escolho as escadas. Vou descendo as escadas. Chego à rua. Caminho ao longo do passeio. Junto à estrada. O barulho dos carros abafa-me um pouco a voz. Já quase não me ouço. Alô! Alô! Sou eu. Ainda aqui estou. Chego à pizzaria. Escolho uma Siciliana. Uma Siciliana, se faz favor. Demora vinte minutos. Pago. Recebo troco. Conto as moedas. Vou ao quiosque. Peço um maço de cigarros. Cigarros, se faz favor. Aqueles ali. Pago com dinheiro certo. Saio para a rua. Abro o maço. Acendo um cigarro. Encosto-me à montra do quiosque, em frente às notícias do dia. Marega. O que é o Marega? Fumo o cigarro. Largo a ponta incandescente no chão. Piso-a. Vou ao supermercado e compro uma garrafa de vinho. Escolho uma garrafa barata. Regresso à pizzaria. Está pronta. Regresso a casa pelo mesmo caminho mas agora com uma caixa achatada e quente nas mãos e uma garrafa de vinho debaixo do braço. Entro no prédio. Olho para o elevador. Opto pelas escadas. Subo. Chego ao meu andar. Estou cansado. Preciso de outra bombada de Ventilan. Ou de mais um cigarro. Entro em casa. Coloco a chave na fechadura da porta. Largo os óculos e a carteira no aparador à entrada. Cruzo o corredor. Entro na cozinha. Largo a caixa achatada e a garrafa de vinho na mesa. Abro a gaveta. Tiro o saca-rolhas. O cortador de pizzas. Tiro um copo do armário. Um copo de vidro. Abro a garrafa. Deito vinho no copo. Bebo um gole. Abro a caixa achatada. Corto a pizza em triângulos. Sento-me à mesa. Pego numa fatia triangular de pizza. E calo-me.
Finalmente calado, frente a um copo de vinho e uma pizza, volto a pensar na minha vida e nas opções que tenho tomado.
Às vezes penso que gostava de não ter de falar comigo para poder ouvir uma voz.
A pizza está boa. O vinho aquece.
Tento projectar o que virá depois da pizza. Vou ler um livro? Talvez o Berta Isla do Javier Marías que anda para aí ao deus-dará à espera de ser lido. Talvez um bocado de televisão. Passar pela CMTV. Ouvir uns berros. Gosto de ver gente irritada e aos berros na televisão. Às vezes gosto de me irritar. De me irritar um pouco. Lembrar-me porquê.
Vou guardar o resto da pizza para amanhã. O vinho não vai resistir até lá.
Às vezes penso que só queria ouvir dizer o meu nome em voz alta e que não fosse dito por mim.
Às vezes penso que só queria poder tocar, levemente, numa mão que não fosse a minha.
Às vezes penso que, para desenfastiar, eu não devia ser eu.
Às vezes penso que devia livrar-me de mim.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/17]

O Falhado

Sou um falhado.
Nunca consegui fazer nada que se visse da minha vida. A única coisa que um falhado faz bem é reconhecer outro falhado.
Cruzei-me com ele à entrada do café. Estendi-lhe a mão. Ele estendeu-me a dele. Apertámos. Sacudimos. Então? Como estás? Tudo bem? e as cabeças a acenar que sim, como a cabeça daqueles cães-bonecos que se abanavam nas traseiras dos carros de antigamente quando a auto-estrada começava no Carregado e antes de lá haver Campera e de podermos comprar roupas de marca a preço de saldo, num ritual sem sentido nenhum. Um ritual falso. Um ritual que é só mesmo isso, um ritual oco e mentiroso que se cumpre porque sim. Um automatismo. Na verdade nem eu nem ele queríamos estar ali. Mas estávamos. É o que acontece aos falhados. Estão lá. Estão sempre lá.
E então, dois falhados entram no café.
O que é que faz de mim um falhado? Talvez o nunca ter feito nada de jeito da minha vida. Pelo menos nada que seja traduzível em euros, honrarias e reconhecimentos.
Acabei um curso superior que não me levou para lado nenhum.
Fui abandonado por todas as mulheres que amei.
Fui despedido de todos os empregos onde trabalhei.
Perdi todos os amigos que fiz ao longo da vida.
Não estive presente na morte dos meus pais.
Não estive presente no nascimento dos meus filhos.
Todos os convites que tenho é para fazer algo à borla. Quando há orçamento não é a mim que chamam.
Tenho uma única conta no banco e, invariavelmente, está a zeros.
O meu cão mordeu-me.
O meu gato arranhou-me.
O preservativo estava roto.
Os números da minha chave para o euromilhões são sempre ao lado. Literalmente ao lado. Um número acima ou um número abaixo dos números vencedores.
Nunca ganhei nenhum prémio. Nunca ganhei nenhum concurso.
Nunca recebi nenhum subsídio.
Nunca plantei uma árvore. Nunca escrevi nenhum livro.
Escrevi poemas de merda adolescentes sobre problemas existenciais.
Antigamente era a mim que saía a fava no Bolo-Rei. O brinde, quando me calhava em sorte, ficava preso na garganta e engasgava-me. Ainda bem que os Bolos-Rei deixaram de trazer favas e brindes. De qualquer forma, não gosto de Bolo-Rei. Nunca gostei.
Aposto sempre no cavalo errado.
Todas as empresas que tentei erguer nunca saíram do chão.
Se o Benfica estiver a perder, num jogo que esteja a ver, é só deixar de ver para dar a volta ao marcador.
A canção que mais gosto na Eurovisão nunca ganha.
Nunca consegui comprar um carro e uma casa com uma cerca branca e uma casota para o cão que agora dorme na varanda.
Não tenho onde cair morto.
Sou mesmo um perdedor. Um falhado.
Mas reconheço os que são como eu. Os falhados.
Cruzei-me com ele à entrada do café. Estendi-lhe a mão. Ele estendeu-me a dele. Apertámos. Sacudimos. Então? Como estás? Tudo bem? e reconheci-me nele. Ele era eu antes de eu ser o que sou. Na altura ainda não sabia que era um falhado. Como ele ainda não sabe. Mas virá a saber. Porque vai aprender. Porque lhe vão dizer. Várias vezes. Alguns até lhe vão cuspir na cara És a merda de um falhado! como se fosse uma gripe e um tipo tivesse culpa de ter gripe.
E então, dois falhados entram no café.
Ele foi beber a sua bica. Eu acabei por voltar para trás e ficar na rua a fumar um cigarro e a pensar como a vida nos trucida. Rimos uns para os outros mas sentimos, cá dentro, o azedume que nos consome. Mentimos para que não nos julguem falhados. Rimos. Está tudo bem! Despenteamos o cabelo. Desalinhamos a roupa. Não fazemos a barba. Fumamos um cigarro. Bebemos um copo de vinho tinto. Está sempre tudo bem! Mesmo que estejamos a morrer de fome, com os bolsos cheios de comprimidos e uma navalha afiada.
Eu sou um falhado porque não consigo ser outra coisa. Eu sou um falhado porque não consigo ser um filho-da-puta.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/15]

Tenho a Pistola na Mão

Estou a olhar para a pistola. A pistola que tenho na mão. Uma herança do meu pai. A herança do meu pai. A única coisa que me deixou, coitado. A vida não foi muito simpática com ele. Comeu-o até ao osso e depois, no fim, cuspiu-o fora.
A pistola é pesada. Bonita. Não muito grande. Cabe na palma da minha mão. O cano é que sai um pouco para fora. As minhas mãos não são muito grandes.
Acabei de ver a final da Liga dos Campeões. Vi o Liverpool regressar ao convívio dos grandes. Acho que assisti ao mudar de uma época. Acho que acabou, por uns anos, a época de glória do Real Madrid.
Vi gente a gritar de alegria. Vi gente a chorar de tristeza.
A vida é assim. Boa para uns. Má para outros.
Acendi um cigarro. Fui à janela. Abri-a. Fiquei lá debruçado a fumar e a olhar as gentes que chegavam para a noite na cidade.
Não me sentia bem.
Não tinha nada a ver com o jogo. Com a Liga dos Campeões. Com o Liverpool. Nem sequer com a cidade. Acho que tinha a ver comigo. Mas nem sei bem o quê.
Sentia a cabeça pesada. O corpo agitado. Uma certa angústia. A vida também não tem sido muito simpática comigo. Lembrei-me do meu pai. E foi por isso que fui buscar a pistola. Revi-me na vida do meu pai. Prendi um soluço na garganta. Não o deixei ir adiante. E fui buscar a pistola.
A pistola estava num cofre pequenino que tenho no fundo do guarda-fatos. Abri-o. Peguei na pistola. E fui sentar-me no sofá. Com a pistola na mão.
E aqui estou. Sentado no sofá. O jogo já terminou. Gostei que o Liverpool tivesse ganho. A pistola está carregada. A pistola está sempre carregada. Cada vez que a limpo, deixo-a carregada.
A minha mãe não sabe que eu tenho a pistola. Ela tinha-a escondido. E depois, perdeu-se. Foi assim o fim oficial da pistola do meu pai. A minha mãe escondeu-a. Escondeu-a de mim. E depois perdeu-a. Esqueceu-se onde a tinha escondido. Mas eu encontrei-a. E fui eu que a escondi. Fui eu que a encontrei e escondi. Fui eu que acabei por ficar com a pistola que era do meu pai. Foi a minha herança.
Estou com a pistola na mão. Estou sentado no sofá com a pistola na mão. O Liverpool ganhou a Liga dos Campeões. A minha mãe não sabe que eu tenho a pistola que era do meu pai.
Eu tenho a pistola na mão e não sei o que é que hei-de fazer.
Tenho o corpo a tremer. Sinto uma certa ansiedade. A boca seca. A perna a abanar. O pé a bater no chão. Tenho uma vontade enorme de chorar. Tenho a pistola na mão. A pistola que era do meu pai. E que a minha mãe queria esconder de mim.
Tenho a pistola na mão e medo do que possa fazer.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/01]

Tudo É Perigoso

Fui ao supermercado. Com lista. Para não me perder. Tenho tendência a encher o carrinho das compras com coisas boas mas que me rebentam a carteira. Hoje fui com lista. É claro que vigarizo um pouco a lista. Acabo sempre por trazer mais uma ou outra coisa que não consta da lista. Mas é um começo. E é só uma ou duas coisas a mais.
Aproveitei as promoções. Agora ando atento. Há coisas que, entre hoje e amanhã, podem baixar quase cinquenta por cento. Agora leio os panfletos. Tomo atenção aos descontos. Tenho poupado muito dinheiro.
Voltei para casa. Arrumei as compras.
Fui apanhar laranjas numa das laranjeiras que tenho aqui no quintal. São um pouco azedas mas, espremidas, com um pouco de açúcar ou a acompanhar um vodka, a meio da tarde, fazem milagres.
Estava a voltar para o interior de casa quando vi passar uma procissão, ao fundo da rua. Primeiro ouvi uma vozes. Uma ladainha. Percebi uma oração. Depois vi um andor. E um mar de gente atrás do andor, a ladainhar.
Fiquei ali parado por momentos. A olhar a procissão a passar lá ao fundo. A ouvir a oração. O cesto com as laranjas nas mãos. A pesar.
Perguntei-me Que procissão é esta? E não soube responder.
A procissão acabou por passar. Deixei de ver pessoas. Deixei de ouvir vozes. Entrei em casa.
Coloquei as laranjas no frigorífico. Finalmente percebi a funcionalidade das gavetas de plástico. Servem perfeitamente para guardar as laranjas.
Ouvi um estrondo. Depois um burburinho. Um burburinho ao longe. Fechei o frigorífico. Saí de casa. Espreitei para a estrada, lá ao fundo. Não vi nada. Desci o quintal até ao muro. Olhei para um lado. Depois para o outro. Vi algumas pessoas no fundo da estrada. Pareciam agitadas. Estava lá um carro parado, no meio delas. Havia gente a correr à volta do carro. Pareceu-me ouvir alguns gritos.
Saí pelo portão do quintal. Fui para a estrada. Acendi um cigarro. Vi uma miúda a correr na minha direcção. Perguntei-lhe O que houve? E ela, cansada, cansada da corrida, um pouco assustada disse Um carro foi para cima da procissão!, passou por mim e continuou a correr estrada fora.
Deixei-me estar ali. Encostei-me ao muro a fumar o cigarro. Fiquei a olhar para a confusão que se adivinhava lá ao fundo, na estrada.
Não voltou a passar mais ninguém à minha frente.
Fiquei ali um momento, hesitante, entre entrar em casa ou ir ver o que se passava ao fundo da estrada. Mas não gosto de confusões.
Voltei a entrar pelo portão. Subi o quintal. Entrei em casa. Abri o frigorífico. Espremi duas laranjas. Juntei um pouco de vodka. Fui para o alpendre.
Estava a sentar-me no alpendre quando ouvi a sirene dos bombeiros.
Acendi outro cigarro. Beberiquei um pouco do vodka com laranja. E pensei Os carros são perigosos. Olhei para as montanhas lá à frente. De manhã não as conseguia ver com o nevoeiro com que nasceu o dia. Agora estão bem nítidas e verdes. E ainda pensei As procissões também podem ser perigosas. Puxei uma passa do cigarro. E voltei a pensar Tudo é perigoso.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/15]

Os Anos Passam Rápido

Passaram os anos. Passaram à velocidade da luz. Ainda ontem apanhei a minha primeira bebedeira. Lembro-me de me sentir a morrer, a cabeça à roda, o corpo atrás da cabeça, o mundo a fugir de mim e eu enjoado. Vejo-me a vomitar. A vomitar para cima de mim. A vomitar-me a camisola, as calças, as botas. A transpirar. Eu todo um nojo de suor e restos líquidos vermelhos com qualquer coisa pastosa que se arrastava para fora da boca e rolava pelo peito abaixo com um cheiro azedo à volta, e a miúda a meu lado, a mão quente na testa fria, a aguentar aquele cheiro a podridão e a dizer, numa ladainha, Está tudo bem! Vais ficar bem! Isto vai passar! E eu a querer que ela se calasse. A sentir que ia morrer. Morrer para sempre. Morrer sem ter visto uma miúda nua. Sem ter tocado uma pele de seda do corpo nu de uma miúda, que o álcool apareceu primeiro que o sexo e está resolvida a questão do ovo e da galinha: mais tarde foi a bebedeira que desbloqueou o caminho para a cama de uma outra miúda, a primeira, agora já rapariga, mais crescida, assim como eu. Adolescentes, contudo. E foi ontem. Foi ontem que aconteceu. E aconteceu muitas vezes. Todas elas ontem. E recordo-as a todas. E eu não morri. Ou morri e ressuscitei de todas as vezes necessárias para me satisfazer e ficar com aquele sorriso parvo na cara, aquele sorriso parvo que tem quem se sente desfalecer nos braços de uma mulher.
Passaram os anos. Passaram rápido. Tão rápido que perdi tudo o que tinha. Perdi tudo o que tinha sem me aperceber. Todos os meus amigos. Todas as minhas amantes. Todos os meus filhos. Os meus pais. Ainda hoje aqui estavam, ao meu lado. Ainda hoje aqui estavam todos, na conversa. Na brincadeira. Nas conquistas. No amor. E depois, e depois nada, que nada se pensa quando estamos a girar loucamente, a acompanhar a rotação da Terra, e não queremos acreditar que deixámos coisas para trás, mas tão só que as largamos momentaneamente porque quisemos correr livremente de encontro a expectativas que se abriram no mundo e Eu volto! Eu volto!, ouço-me dizer e sei que não volto porque o tempo não volta, nem o tempo nem eu nem mais nada, a não ser a memória e isso é o pior de tudo porque fica aqui e tudo aconteceu agora e é sempre impossível fugir e esquecer o agora porque o agora está a acontecer e é o momento da eternidade e de quando tudo mais dói e não queremos que algum dia deixe de doer.
Passaram os anos. Tantos anos e tão rápido. Agora percebo o quão rápido tudo passou. Não houve tempo para corrigir os erros. Emendar a mão.
Agora só há tempo para este cigarro. Para este copo de vinho. E esperar que não doa mais do que tem doído. E que passe muito mais rápido do que o que já passou.
Sento-me no alpendre a olhar o horizonte. Um cigarro numa mão. Um copo de vinho na outra. A pensar que no meio de tudo isto houve muita beleza. Como este verde-azul que tenho pincelado à minha frente, a tentar deixar gravado na memória como a última imagem, como se fosse uma canção de amor eterno que irá perdurar para além de mim.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/25]

Onde Estás?

Como fazer para sair do comboio em andamento?
Como fazer para sair de onde não devia ter entrado?
Como fazer para voltar atrás? E escolher diferente?
Saio do quarto de hotel. Saio atrás dela. Não. Saio à procura dela.
Eu devia ter percebido. Não hoje. Não agora. Não há minutos atrás quando aconteceu. Mas há muito tempo. Quando a conheci. Quando percebi.
Os olhos. Os olhos vítreos. Os nervos. A impossibilidade de estar parada. Quieta.
Saio do hotel. Direita ou esquerda? Estou numa cidade que não conheço. Que não conhecemos. Viro à direita? Viro à esquerda?
Viro para um lado qualquer. Sigo as pessoas. Vou na direcção do vento. Olho para todo o lado. Olho para todas as pessoas. Tento vê-la. Tento vê-la nos outros.
Onde estás?
É fim-de-dia. Hora de ponta. Confusão nas ruas. As esplanadas cheias de gente que bebe. As lojas cheias de gente que compra. Turistas. Gente como eu. Como nós. Como encontrá-la aqui, no meio desta confusão de gente toda igual? Mas ela não é igual. Não, não é.
Entro e saio de cafés. De bares. Salas de jogo. Lojas. Geladarias. Passo ao lado de um Cinema. Um multiplex. Mas não vale a pena. Ela não conseguia estar dentro de uma sala de cinema, às escuras, sossegada.
Passo na zona das putas. Olho-as sem as olhar. Tento vê-la lá. Nas outras. Mas com a esperança de não a encontrar ali. Não estar ali. Mas quero encontrá-la.
Onde estás, porra?
Ao lado das putas, os dealers. Não vale a pena procurar ao pé deles. Não precisa de drogas. Não destas. Não usa destas. Tem as suas. Legais. Compradas às caixas. Em lamelas. Não precisa destas.
Aventuro-me um pouco mais longe. Vou a sítios onde ainda não tínhamos ido. Mas começo eu a ficar nervoso. Não a encontro. Mas tenho de encontrar. Não a posso perder. Não a posso deixar perder. É minha responsabilidade. É da minha responsabilidade.
Mas não quero. Não quero mais essa responsabilidade.
Foda-se! digo alto. Mas ninguém me percebe.
Páro. Estou sem forças. Sinto-me desfalecer. Encosto-me a uma parede. A uma parede de uma loja. Numa rua de lojas. Lojas de sapatilhas. De perfumes. De óculos. De roupa de mulher. De jovem senhora. De criança. Onde estou? Onde estou eu, agora? Não reconheço nada. Sim, percebo. Nunca tinha estado aqui. Nem eu, nem ela.
Tento concentrar-me. Foco o meu olhar nas montras. Nas portas. Nos letreiros que começam a acender. Néons. Cores. Muitas cores vivas. Olho as pessoas. Sigo-as. Passo o olhar de uma para outra. Recupero a calma. Acendo um cigarro.
E se ela voltou para o hotel? pergunto-me.
Olho em volta. Tento perceber onde estou. Não é fácil. Não é fácil, para ninguém. Percebo o caminho. Começo a andar de regresso ao hotel. À espera que ela esteja lá.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/25]

Eles Parecem Sempre Bem

Cruzámo-nos na passadeira. A meio da passadeira. Eu ia para lá, ele vinha para cá. Praticamente chocámos um com o outro.
Então, pá? perguntei-lhe. Então? respondeu-me.
Já não o via há uns meses. Tínhamos sido muito amigos mas, a certa altura, o destino separou-nos.
Tinha ouvido dizer que tinha passado por alguns problemas. Psicológicos e assim. Químicos para o equilíbrio. Mas parecia-me bem.
Eles parecem sempre bem.
E perguntei-lhe Estás bem? Que sim, que estava bem e eu, se eu também estava bem e eu disse que sim e disse também que tinha saudades das nossas conversas, o tipo era culto, tinha boa cultura geral, lia bastante, era um bom orador que dava prazer em ouvir e disse-lho, e ele sabia-o, e também ele respondeu que eu também era um bom conversador e que sim, claro, também tinha saudades das nossas conversas.
O tipo parecia-me mesmo bem. Melhor que eu.
Os carros começaram a apitar e nós ainda ali estávamos, a meio da passadeira. Voltei para trás com ele. Convidei-o para um café. Que não, que estava com pressa. Pois, eu também, pensei, mas não queria perdê-lo, não queria voltar a perder-lhe o contacto. Queria agarrá-lo.
Ainda tínhamos o mesmo telefone. Eu e ele. E podíamos combinar um tempo, um jantar, um copo, um motivo. Que sim, pois claro. E sorriu-me.
O sorriso claro de quem está bem e leve.
Acabou por ir-se embora. Fiquei ali parado no passeio a vê-lo afastar-se e com a estranha sensação que era mesmo a última vez que o via.
Gostava mesmo dele.
Tínhamos vivido juntos as nossas adolescências.
Tínhamos crescido juntos.
Tínhamos namorado as mesmas raparigas.
Na semana seguinte vi numa notícia do Correio da Manhã que ele tinha morrido. Suicídio. Navalha da barba nas veias. Em casa da mãe. Estava separado. Sem trabalho. Afastou-se dos amigos e aproximou-se do abismo.
Mas parecia-me mesmo bem.
Eles parecem sempre bem.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/06]

Esquecer as Palavras

Pus-me a olhar lá para fora, através do vidro da janela fechada e pensei que o tempo estava como eu: cinzento, frio, chuvoso e furiosamente ventoso.
Voltei para a cozinha e procurei entre os restos de pão os que não tinham bolor e coloquei alguns pedaços a torrar. Fui fazer café, mas descobri a lata vazia. Nem um vestígio de pó. Abri a porta do frigorífico e vi uma garrafa de cerveja de litro já encetada. Abri-a e levei o gargalo à boca. E cuspi, subitamente, para a pia do lava-louça. Estava morta. Totalmente morta. Sabia a urina, se é que a urina sabia assim. E pensei num chá, e sim, era o que ia fazer. Procurei um limão. Só encontrei uma laranja. Que seja. Pus água ao lume e descasquei duas lascas da casca da laranja. Nunca tinha provado chá de laranja. Há sempre uma primeira vez para tudo.
Peguei no telemóvel e telefonei para o trabalho. Avisei que estava com dores reumáticas na perna e não podia mexer-me. O meu trabalho obriga-me a estar o dia inteiro em pé a andar de um lado para o outro. Com dores na perna, não me poderia mexer e não poderia trabalhar, o melhor mesmo era ficar em casa. E fiquei. Na verdade não me doía a perna. Mas doía-me a alma. Esta semana de Natal tinha-me ferido de morte. As ausências, as faltas, as percas, tudo tinha contribuído para a morte do meu, já de si fraco, coração.
As torradas começaram a queimar e fui a correr tirá-las da torradeira. A água ferveu, saltou do púcaro e sujou o fogão.
Acabei por deitar o pão queimado fora e despejar o resto da água pelo cano do lava-loiça abaixo. Que porra de vida a minha.
Sentei-me na mesa da cozinha a pensar no que havia de fazer e olhei para uma caixa de Ferrero-Rocher que jazia lá em cima. Tinha sido a minha única prenda de Natal e dada pelo amigo secreto lá do trabalho. Abri-a e comi um chocolate. Eu nem gosto de chocolate. Quando dei por mim a caixa estava vazia e eu um pouco enjoado.
Acendi um cigarro. Levantei-me e fui abrir a janela da cozinha e pensei nas horas que ali passava a fumar e a ver as pessoas lá em baixo. Podia dar algumas estórias se eu tivesse paciência para as escrever. Não tenho.
O que é que tenho afinal?
Nada.
Não tenho nada.
Ou uma vontade de me deixar estar, ali, sem me mexer, sem pestanejar, sem coçar o nariz nem o rabo, sem precisar de me levantar para urinar, reduzir a minha existência ao estar, assim, ali, com um cigarro aceso no canto da boca e a cabeça a pensar em coisas inócuas que não fizessem doer, não pensar na falta de gente na minha vida, na falta de amigos, namoradas ou namorados, na falta de sexo, nada, nada, nada, nem sequer querer saber dos jogos do Benfica das selfies do Marcelo ou da lei de financiamento dos partidos. E de onde é que saiu esta? O que é que eu sei disto? Que mania esta de mimetizar o que sai da rádio ou da televisão. Mas acho que nem o Correio da Manhã quero ler. Não, não quero nada, nem comer, nem beber, nem foder, nem ver, nem olhar, nem cheirar, nem respirar. Não querer viver. Estar só ali assim, de cigarro na mão e ser o nada. Esquecer as palavras. Deixar de saber o sentido e significado. Perdê-las. Assim bndmsiaf neidd jhwbx…

[escrito directamente no facebook em 2017/12/26]