Noventa Anos

A minha mãe tem quase noventa anos. Mas ainda está aí para as curvas. Pelo menos para algumas delas. Vive sozinha num apartamento no centro da cidade. Nunca quis ir para um lar e eu sempre concordei com ela. Ainda cozinha. Ainda vai à rua sozinha. Quer dizer, ia. Ia à rua sozinha. Agora, quando vai à rua, vai comigo. Mas já não é a mesma coisa, por mais que lhe dê especial prazer passear de braço dado comigo na rua.
A minha mãe tem quase noventa anos e é ainda bastante autónoma. Eu dou-lhe alguma ajuda. Aspiro-lhe a casa. Faço-lhe a cama de lavado. Dou-lhe banho. Ultimamente sou eu que lhe vou às compras mas, normalmente, no mundo normal antes desta anormalidade, era ela que ia às compras.
A minha mãe tem quase noventa anos e é uma galdéria. Adora andar na rua a passear. A ver montras. Cruzar o jardim. Caminhar ao longo do rio. Gosta de ir às compras ao supermercado. Aqui há uns meses ficou muito zangada com o Pingo Doce, onde normalmente vai, ia, às compras. Fecharam o café que existia à entrada do supermercado, mudaram-no para o interior da loja e retiraram-lhe as cadeiras e as mesas. Agora o café que existe é para gente com pressa, não tem cadeiras e as mesas são demasiado altas para gente pequenina como a minha mãe. Ela disse-me que as pessoas do Pingo Doce foram malandras porque trataram mal um grande grupo de clientes daquela loja, que são as pessoas de idade que habitam ali à volta, para darem preferência às pessoas mais novas que entram e saem mais depressa e não fazem sala. Também me disse que só não ia a outro supermercado porque não havia lá mais nenhum ao pé. Senão, ia, ameaçou. E ainda me disse A liberdade de escolha do capitalismo é uma mentira. Quando só há um supermercado, não podes escolher. E tem razão, ela.
A minha mãe tem quase noventa anos e já não tem paciência para muitas coisas que acontecem na vida das pessoas. O que se passou com o Pingo Doce foi uma delas, porque separou os velhotes que se encontravam lá e se dispersaram e agora andam a ver se se voltam a encontrar. Ou andavam. Antes do vírus. O vírus é outra das suas zangas. Maldito vírus! costuma dizer, Mandou os velhos todos para casa. Quantos já terão morrido? pergunta-me, mas sei que é uma pergunta retórica.
A minha mãe tem quase noventa anos e zangou-se comigo por eu não querer que ela fosse à rua sozinha, quando começou o confinamento. Agora anda zangada comigo porque eu quero que ela saia comigo para não estar tanto tempo fechada em casa. Disse-me para eu me decidir Então, é para ficar em casa ou para sair? Explicou-me que não estava para se vestir, o que implica vestir cinta e soutien e as meias de vidro, o que lhe custa, e tem o cabelo numa lástima e precisava de ir ao cabeleireiro, tudo para ir dar uma simples volta ao quarteirão sem poder entrar no supermercado e nos cafés onde costumava ir antes de estarem fechados ou em regime de café em copo de plástico para beber em andamento na rua, quando ela nem bebe café, senão não dorme, gosta de um carioca fraquinho depois de beber um Compal de Pêra e um Pastel de Nata, um pão com manteiga (pouca manteiga, se faz favor, ó menina!) ou uma Brisa do Liz em dias de festa. Quando ia comigo ao café gostava de partilhar uma torrada e deixava-me sempre as fatias do meio para mim, e ainda dizia para as miúdas do café É jeitoso o meu filho, não é? e eu ficava encavacado, ruborizava e dizia-lhe baixinho Já não tenho dezasseis anos, mãe!, mas ela não ouvia, ou fingia que não ouvia.
A minha mãe tem quase noventa anos e agora fica muito contente quando eu me lembro de lhe levar grelos de couve que ela adora, mas refila comigo porque não sei comprar peixe Isto é tudo congelado! e eu desunho-me à procura de peixarias antigas onde ainda é possível descobrir peixe fresco e do mar sem que me enganem. Descobri uma peixeira da Nazaré que me arranja jaquinzinhos que dão sempre para arrancar um sorriso rasgado à minha mãe. Agora diz-me que está à espera do dia em que lhe leve também umas petingas e uma broa de milho para acompanhar.
A minha mãe tem quase noventa anos, gosta de beber o seu copinho de vinho tinto, e está quase a comemorar mais um aniversário. Geralmente convido-a para almoçar fora nesse dia. E este ano também gostaria de a levar a almoçar fora. Mesmo contra todos os vírus. Que a minha mãe precisa de sair à rua, ver gente, recuperar os amigos, aqueles que ainda estão vivos, pelo menos, e caminhar pelo meio da agitação barulhenta da cidade.
A minha mãe tem quase noventa anos e uma vontade enorme de viver o tempo que lhe resta.

Para um Diário da Quarentena (Décimo Andamento)

Hoje acordei cedo. Eram oito da manhã quando me levantei. Na rua, nem chuva nem sol. Um dia assim-assim. Olhei-me ao espelho. Cabelo muito grande. Olheiras. Cara macilenta. Barba mal aparada. Vesti um fato-de-treino, calcei as sapatilhas e saí de casa. Fui dar uma corrida ali à volta. De início, e por falta de hábito, respirei pela boca. Dez minutos depois estava cheio de azia. Fechei a boca e comecei a respirar pelo nariz. Um quarto de hora mais tarde parei para dar uma bombada de Ventilan e fui a passo no quarto de hora seguinte. Recomecei a correr no regresso a casa. Transpirei. Cansei-me.
Na casa-de-banho peguei numa tesoura e, olhando-me ao espelho, dei uns cortes no cabelo. Não importava ficar bem cortado. Tinha de desbastar. E foi o que fiz. Desbastei. Não ficou assim muito mal. Acho que fiquei mais novo. Também aparei a barba
Tomei banho.
Vesti-me.
Bebi café. Não comi nada.
Eram dez da manhã. Peguei no carro e fui ao supermercado. Uma luva numa mão. um pequeno frasco com álcool. Levei saco de casa. Peixe. Pedi para amanhar e cortar em pedaços pequenos. Algum frango. Umas iscas de vaca. Algumas conservas. Vinho. Sumos. Legumes. Fruta. Duas broas. Pão. Paguei com multibanco. Marquei as teclas com a borracha de um lápis.
No carro separei as compras por dois sacos. Tirei a luva e coloquei-a no lixo. Passei álcool nas mãos, no cartão multibanco e na borracha do lápis. Passei em casa da minha mãe. Um dos sacos era para ela. Não almoças?, perguntou-me. Pode ser, disse. Comemos uma sopa de feijão que ela tinha feito. Depois partilhámos um resto de massada de peixe da véspera. Eu não gosto de massada de peixe, mas comi e não disse nada. Já não se lembra que nunca gostei de massada de peixe. Acompanhámos com um copo de vinho tinto. Eu descasquei uma maçã e foi metade para cada um. Polvilhei com um pouco de canela e ela gostou. No fim de almoço ela tomou os comprimidos e eu lavei a louça. Reabasteci-lhe a caixinha dos comprimidos. Disse-lhe que o Xanax estava esgotado. Ela disse que ainda tinha uma caixa. Menos mal. Ela foi até à sala ver as notícias. Eu aspirei-lhe a casa num instante. Depois perguntei-lhe se queria ir dar uma volta à rua. Ela começou a rir e disse Está a chover! Pois está! pensei eu. Não tinha reparado. Fica para a próxima! disse-me com um sorriso. Ela foi deitar-se um pouco. Eu vi-me embora.
Eram duas da tarde. Regressei a casa. Despi a roupa e pu-la a lavar. Tomei banho. Voltei a vestir um fato-de-treino.
Fiz um chá verde. Sentei-me à mesa da cozinha a fumar um cigarro, a beber o chá e a ler as notícias online. No Facebook descobri mais gente que me dá nervos. Havia uma petição contra a Organização Mundial de Saúde por erros grosseiros e defesa da China. E perguntei-me o que é que aquela gente sabia? E se aquela seria a melhor altura para fazer o que se propunham fazer?
Quatro da tarde. Abri uma página do Word. Escrevo. Escrevo durante muito tempo. Escrevo tanto que esqueci as horas e a passagem do tempo.
Quando dou por mim, são oito da noite. Já é quase noite lá fora. Páro de escrever. Abro uma garrafa de vinho. Olho para o fogão mas não me apetece cozinhar. Rasgo um pedaço de pão para ensopar o vinho. Vou até à janela. Acendo um cigarro. Não há ninguém na rua.
Logo mais à noite irei ver um filme. Não sei ainda o que é que me apetece ver. Há-de ser qualquer coisa. Qualquer coisa há-de servir. Qualquer coisa de ficção há-de ser melhor que esta realidade. Depois do filme irei para a cama. Irei ler um livro como leio todas as noite. Talvez uma novela gráfica. Reler uma das novelas gráficas. Tenho poucos livros aqui comigo, mas não consigo dormir sem ler. Releio.
Quando estiver para me deitar hei-de lembrar-me do dente que se quebrou ontem e do qual estive esquecido durante todo o dia. Na altura de apagar a luz e deitar a cabeça na almofada, a língua há-de passar pelo dente quebrado e eu hei-de lembrar-me que está quebrado, embora não me doa, e que nos próximos tempos não vou poder ir ao dentista e então irei pensar se os meus outros dentes irão resistir a estes dias ou quebrar-se como este se quebrou e irei deprimir um bocado até adormecer.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/16]

Setenta e Cinco Anos

E então?
É noite, embora fosse ainda dia. Fumo um cigarro à janela e ouço a telefonia na cozinha.
Hoje é dia de memórias. Passam setenta e cinco anos da libertação do campo de Auschwitz. Mas parece que ninguém aprendeu nada.
Continuamos a cuspir-nos ao espelho.
Espelho meu, espelho meu, existe alguém melhor que eu?
O trabalho liberta.
Soares é fixe.
O partido é sexy.
Diferentes mas iguais.
#MeToo.
Fumo o cigarro cá em cima, à janela. Lá em baixo passam as pessoas apressadas. Para o trabalho. Para casa. Fazer o jantar. Lavar a roupa. Passar a ferro. Fazer os TPC. Aspirar o pó. Cerzir as meias. Mudar a roupa da cama. Apanhar as batatas. Plantar milho. Cozer as couves. Assar um frango. Amanhar o peixe. Pintar as unhas. Cortar o cabelo. Lavar o carro. Ver o jogo. Corrigir as provas. Coçar um olho. Coçar os dois. Abrir a boca num bocejo. Que horas são?
Fumo o cigarro cá em cima, à janela. Lá em baixo passam as pessoas apressadas.
Uma voz grita Bebes um copo? As cabeças abanam. Todas as cabeças abanam. As pessoas estão atrasadas. Estão sempre atrasadas para irem fazer o que têm de fazer.
O trabalho liberta. Liberta quem?
Continuo a fumar o cigarro à janela enquanto ouço a telefonia na cozinha.
A mulher mais rica de África, ouço.
A mulher é uma ladra, ouço,
As provas não têm legalidade no país, ouço.
O trabalho liberta, lembram-me.
Não. O dinheiro liberta.
Setenta e cinco anos da libertação de Auschwitz. Não aprendemos nada.
Continuamos no ódio. Ao judeu. Ao árabe. Ao cristão. Ao preto. Ao amarelo. Ao vermelho. Ao comunista. Ao fascista. À mulher. Ao homem. Ao velho. Ao novo. Ao careca. Ao cabeludo. Ao albino. Ao cigano. Ao transmontano. Ao alentejano. Ao vizinho. A ti. A mim.
E então?
Está escuro e é já quase noite. Acabo de fumar um cigarro à janela e ouço a telefonia na cozinha.
Hoje é dia de memórias. Passam setenta e cinco anos da libertação do campo de Auschwitz. Mas parece que ninguém aprendeu nada.
Mando fora a beata do cigarro. Fecho a janela. Desligo a telefonia.
Silêncio.
Não estou.
Não estou para ninguém.
Tenho o jantar por fazer. A roupa por lavar. As camisas por passar. Os TPC por fazer. O pó por aspirar. As meias por cerzir. A roupa da cama por mudar. As batatas por apanhar. O milho por plantar. As couves por cozer. O frango por assar. O peixe por amanhar. As unhas por pintar. O cabelo por cortar. O carro por lavar. O jogo para ver. As provas por corrigir.
Foda-se!
Visto o casaco. Apanho o maço de cigarros, o telemóvel e a carteira. Saio de casa. Preciso de rua. De ar fresco. De gente. De conversar. Beber um copo. Rir. Dançar.

Ao Sábado Chegava o Citroën 2CV com Peixe Fresco

Sempre que ouvia a buzina da carrinha, sabia que era Sábado e que ia almoçar peixe.
Naquele tempo ainda não havia frigoríficos. Quer dizer, haver havia, lá é que ainda não. As pessoas preservavam algumas coisas no gelo ou no fundo dos poços, em cestos pendurados por cordas que puxavam quando queriam alguma coisa do cesto. Mas nem toda a gente tinha poços. E pouca gente podia pagar o gelo.
Lá em casa a carne era salgada e colocada nas salgadeiras. O fumeiro ficava pendurado por cima da lareira. O peixe, com excepção de algum carapau seco que durava algumas semanas lá por casa, tinha dia fixo e era ao Sábado, dia em que a carrinha Citroën 2CV dava a volta pela zona e chegava à praça onde aguardava as mulheres que vinham comprar o que houvesse. E o que havia nunca era muito variado. Mas essa talvez fosse a percepção de um miúdo que até não gostava muito de peixe mas tinha de o comer porque a mãe o obrigava. Me obrigava. Eu era o miúdo.
Eu estava por casa. Aos pontapés na bola. Ou a brincar com o Tejo, o pequeno rafeiro que tomava conta do quintal e comia os restos que ninguém queria. Ouvia a buzina a anunciar a chegada da carrinha. Às vezes ficava mal humorado ao pensar que teria de almoçar peixe. Às vezes ficava contente porque a minha mãe levava-me com ela e a senhora da carrinha era simpática comigo e, juntamente com os carapaus que vendia à minha mãe, dava-me sempre um rebuçado. Às vezes uma pastilha. Foi numa dessas pastilhas que ganhei o meu primeiro cromo de futebol. Um jogador do Benfica, claro. Acho que o Vitor Baptista. Esse cromo acompanhou-me a vida toda. Depois perdi-o numa das minhas inúmeras mudanças de casa.
Com o peixe numa cesta, regressávamos a casa. Eu acabava quase sempre por regressar sozinho porque a minha mãe estava sempre a parar para falar com as amigas dela. Porta sim, porta não. Conversas à janela. Nas esquinas das ruas. No adro da igreja. À porta do café.
Eu regressava a casa e sentava-me na mesa da cozinha a ler uma banda-desenhada da biblioteca móvel. Às vezes lia esses livros duas, três, quatro, cinco vezes, ou até mais, dependia do tempo que a carrinha-biblioteca demorava a passar.
A minha mãe finalmente chegava. Amanhava o peixe. Fazia as brasas. E assava-o. O meu pai chegava sempre a tempo de abrir uma garrafa de vinho, servir dois copos, sentar-se à mesa e começar a comer.
O meu pai passava a semana fora. A viajar pelo país fora. Vendia coisas. Às vezes também trazia coisas. Coisas que eu nunca tinha visto. Uma vez apareceu lá em casa com uma caixa de aguarelas. Dei cabo delas rapidamente. E toda a gente percebeu que não tinha jeito para pintar. E não tenho. Ao fim-de-semana o meu pai aproveitava para tratar de uma pequena horta no quintal lá de casa. Era a sua horta. Fazia tudo sozinho. Não era muito grande, a horta. Mas, na altura, aquilo parecia-me uma selva. Brinquei lá muito ao Jim das Selvas. A minha mãe ia lá buscar as verduras que me obrigava a comer.
Sentados à mesa, o meu pai e a minha mãe comiam o peixe assado com umas batatas e umas couves cozidas. Eu comia as batatas temperadas com azeite. O peixe, andava lá com o garfo a remexer, a fingir que comia sem o levar à boca, a dizer que já estava cheio, não conseguia comer mais, e o meu pai, invariavelmente, a dizer-me que não saía da mesa sem comer o peixe todo. E tinha de comer. Mas às vezes demorava muito tempo.
Quando o meu pai apareceu lá em casa com uma televisão, foi muito mais fácil mandar-me comer o peixe ao Sábado. Sem o peixe comido não havia televisão nem desenhos-animados. E, nesta altura, já estava agarrado aos desenhos-animados.
Ainda hoje, quando ouço um buzina assim mais aguda, penso na carrinha Citroën 2CV e no peixe que a minha mãe assava. Mas agora gosto bastante de peixe.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/17]

Os Almoços com a Minha Mãe

Não era só aos Domingos. Nem era sempre aos Domingos. Mas era muitas vezes aos Domingos. Eu telefonava de véspera à minha mãe e dizia-lhe que a ia buscar no dia seguinte para irmos almoçar fora. Ela gostava de almoçar fora. E gostava muito mais ainda de almoçar fora comigo. Gostava de se amparar no meu braço, como fazia com o meu pai. E depois dizia às moças dos restaurantes que eu era o namorado dela. É bonito, não é? perguntava às moças, que riam, e eu corava de vergonha e dizia baixinho Oh, mãe!
Às vezes ia com ela à Barosa e partilhávamos uma picanha. Uma dose de picanha vinha com quatro fatias jeitosas de picanha, batata-frita, arroz branco, feijão preto e uma salada de tomate, a que a minha mãe acrescentava sempre o pedido de Um bocadinho de alface, se faz favor! Uma dose de picanha, que era para uma pessoa, chegava para nós os dois. Às vezes a minha mãe ainda conseguia levar uma fatia de picanha para o jantar. Ali, na Barosa, mas não só, também à volta da cidade era assim, em quase todo o lado ali à volta, as doses eram cavalares e enfartavam brutos.
Nesses dias em que almoçávamos no D. Duarte, na Barosa, sentados frente-a-frente, eu bebia uma imperial e ela bebia um panaché. Comíamos uns bocadinhos de pão tostado com pasta de atum enquanto esperávamos pela picanha, que demorava sempre mais que o franguinho que estava sempre a sair porque também vendiam para fora e era uma fila que se juntava ali no parque de estacionamento a partir das onze da manhã que quem não conhecesse o local julgava tratar-se da missa das onze.
Nunca fazia reserva de mesa. E, no entanto, a partir do meio-dia já era difícil arranjar. Ao meio-dia já havia gente a almoçar. As mesas das duas salas ou estavam ocupadas ou reservadas, com as mesmas mesas reservadas para horas diferentes e lá tinha eu de fazer o choradinho, Só para duas pessoas, somos rápidos, e a mesa a ser desencantada com um passe de mágica, junto à enorme janela que dava para o campo e que a minha mãe se arregalava de olhar. Principalmente em dias de chuva Chove, chove que é necessário, coitadas das hortaliças.
Enquanto trincávamos os pedacinhos de pão tostado com pasta de atum e azeitonas banhadas em azeite e alho, eu despejava a imperial e pedia outra e ela dizia Mas será que é possível? Já bebeste tudo? Não sei a quem sais! A mim não é, de certeza! E ao teu pai também não que ele não era muito de beber. E depois contava-me as peripécias da semana. O que se passava na novela que andava a ver, mas andava a ver sem grande entusiasmo que os actores eram sempre os mesmos e as histórias também. Que se deitava cedo porque tinha frio e na cama estava mais quentinha principalmente porque encontrara o cobertor castanho, grosso e muito fofinho que já não se lembrava onde é que o tinha guardado. Ou que se levantara a meio da noite para ir à casa-de-banho e acabou a sentar-se um pouco à janela a ver quem passava lá em baixo, na rua, sob as iluminações de Natal Tão bonitas, este ano, devias ver! e eu a acenar a cabeça, sim-sim, enquanto empinava a segunda imperial debaixo do olhar reprovador que me lançava.
Vinha a picanha. Eu servia um prato. Cortava a picanha aos bocadinhos. Ela dizia para deixar a gordura, se ela fosse fininha, que gostava do sabor da gordura e sim, era fininha e eu deixava a gordura nos pedaços de picanha que ela comia devagar e cheia de prazer. Tínhamos duas fatias para cada um. Às vezes ela só comia uma fatia e levava a outra para casa e dizia Assim já tenho jantar! e assim já tinha jantar, cortava a fatia também aos pedaços, punha dentro de uma carcaça, acompanhava com um copo de vinho tinto e ficava satisfeita e pronta para voltar à sua dieta semanal de peixe, principalmente cozido.
Por vezes, a meio do almoço, lembrava-se de algo e dizia-me para que eu me lembrasse mais tarde Lembra-te quando lá fores a casa, abre-me a garrafa de vinho que eu não consigo, e eu dizia Sim, mãe, mas esquecia-me que a minha cabeça estava pior que a dela, mas invariavelmente ela acabava por se lembrar quando eu lá estivesse em casa e pedir-me-ia que abrisse a garrafa.
Depois perguntava-lhe se queria sobremesa mas já sabia a resposta Não me apetece doces. E tenho fruta em casa, e então eu pedia um café para mim, um carioca para ela, que o descafeinado deixava-a maldisposta e eu ainda lhe perguntava, a brincar, se ela queria uma aguardente ao qual ela me respondia Queres ver-me a dançar a valsa, é? e ria-se da sua resposta ao meu atrevimento.
No fim de almoço levava-a a casa. Normalmente levava-a por um caminho mais comprido para que visse as alterações da cidade e para que se recordasse do que era e como está. Ela ia descansar um pouco. Sentar-se no sofá, se calhar adormecer e passar pelas brasas frente a qualquer filme de acção que ela gostava de ver e que ia vendo aos pedaços que não se preocupava muito se perdia o fio à narrativa, o que ela gostava mesmo de ver eram as cenas de acção, principalmente se fossem com o Jackie Chan com quem, dizia, Farto-me de rir!

[escrito directamente no facebook em 2019/12/01]

Estava uma Velha Sentada numa Cadeira de Praia

A velha estava sentada numa cadeira de praia, pernas estendidas, pés descalços, os chinelos ali ao lado, a olhar os carros que passavam. Quando eu passei, também olhou para mim. Os olhos dela nos meus. Senti-os. E acompanhou-me enquanto eu a olhei. Depois voltei-me de novo para a estrada, aproximei-me da rotunda, abrandei e acabei por parar. Não tinha prioridade e tive de esperar.
E pensei na velha. A velha sentada na cadeira de praia. O mato atrás dela. Ainda terá clientes?
E depois pensei que aquilo era o Calhau. Uma terra às portas da Nazaré. Do outro lado da estrada já havia muitas casas com tabuletas Alojamento Local. A velha devia estar a vender estadia. Arrendar quartos, rooms, chambres, habitaciones e zimmers. Não o corpo. Não o corpo deitado na caruma à sombra dos pinheiros que sobreviveram ao incêndio de dois mil e dezassete. Aquele corpo queimado do sol e do sal, do peixe transportado à cabeça, vendido na lota e comido nos restaurantes da marginal no Verão, É de aproveitar!
Desci à Nazaré e vi outras como aquela. Farandol no cabelo em falsas ruivas. Algumas vestidas com as sete-saias. Aldrabadas, claro, que o calor não permite tanto trapo sobre trapo sobre a pele. E as nazarenas acompanham a modernidade. Já não arrendam casas, partes de casas, quartos ou anexos. Agora é tudo Alojamento Local. Assim, paredes meias com as pevides, os tremoços, os nougat, as pinhoadas, as bolachas de amendoim e as gomas de mil-e-um-sabor e feitio que afinal sabem todas ao mesmo. Todas não, que algumas são bastante ácidas que eu já provei e até gostei. Já lá vai o tempo em que vendiam percebes e navalheiras que agora já são proibidos por causa do bem estar público, não vão estar estragados debaixo desta torreira de sol e provocar alguma intoxicação alimentar e depois não há médicos porque nesta altura nunca há porque vão todos de férias para o Algarve ou para o Club Med com pensão completa para não saírem do resort e conhecer o país miserável onde estão feitos reis de papo para o ar a beber piñas-coladas.
Parado com o carro no trânsito, numa enorme e já habitual fila do pára-arranca a pensar Mas por que raio é que me meto aqui se já sei que é sempre assim quando chega o Verão, quando passou uma nazarena com as suas aldrabadas sete-saias a rodar na cintura, farandol no cabelo, vários colares grossos de ouro ao pescoço, e estes não são falsos que o orgulho das nazarenas não permite mentir quanto ao ouro que trazem pendurado no pescoço nem nas orelhas nos pulsos e nos dedos, pôs a cabeça dentro do carro e perguntou Não querem um quarto? E saiu-me assim, rápido e sem anestesia, automático Não, não é preciso que nós fodemos no carro. A nazarena apanhada de surpresa desatou a rir, a rir, a rir tanto que se ia engasgando e eu ainda saí do carro para executar a manobra de heimlich, mas já não foi preciso que a nazarena regulou a respiração e, a chorar de tanto rir, ainda colocou a mão dela no meu braço e disse Aproveita, filho! Aproveita que isso não dura para sempre!

[escrito directamente no facebook em 2019/06/29]

Dez de Junho

Sinto-me preso. É o dez de Junho, o Dia de Portugal, o Dia de Camões, o Dia das Comunidades Portuguesas pelo mundo e eu sinto-me preso.
Estou num pântano. À minha volta charcos de água choca, mal-cheirosa. Pedaços de árvores caídas, partidas. Folhas a voarem. E lixo. Sacos de plástico. Sacos de plástico com motivos de supermercados. Sacos de plástico que custam dez cêntimos a unidade a voar, entre as folhas, como as folhas, de charco para charco, à procura de pouso.
Puxo um pé enterrado no lodo. Custa puxar o pé. Tirá-lo cá para fora. Tirá-lo cá para fora com botas e meias. Mas consigo. E mal o tiro, volto a enterrá-lo todo de volta nesta lama viscosa que me tenta engolir.
Não ouço um pássaro. Não vejo um animal. Não há um peixe aos meus pés. Nem um crocodilo que me queira puxar para as profundezas do charco e deixar-me apodrecer até querer ferrar-me o dente.
Estou preso e estou sozinho.
É o dez de Junho.
É o Dia de Portugal e estou sozinho neste país. Já ouvi muita gente falar. Agora está tudo em silêncio. Não há ninguém para dizer o que quer que seja. Não há ninguém que tenha qualquer coisa para dizer. Já se disse muito. As palavras perderam sentido. Nada queria alguma coisa. E tudo desapareceu. O país desintegrou-se. Entre as elites corruptas e a população desinteressada, foram todos atrás do flautista e lançaram-se ao mar no Canhão da Nazaré. Fiquei cá eu. Sozinho. Porque estava preso na lama. Com os dois pés presos. E sempre que conseguia tirar um, voltava a enterrá-lo. O caminho foi duro e cheguei tarde ao mergulho no Atlântico. Fiquei sozinho, não porque era mais inteligente que os outros, mas porque mais lento, mais parvo, mais idiota.
É o dez de Junho.
É o Dia de Camões e só me recordo da Taprobana, das ninfas do canto nono que não quiseram que eu lesse na escola e na pála negra no olho morto que recordo do filme de Leitão de Barros. Valha-me a memória do cinema tão mal-amado para me recordar uma vida morta e esquecida em compêndios que ninguém quer ler.
Que interessa o Luís Vaz de Camões e Os Lusíadas a uma terra queimada deserta de gente, de povo, de ideias?
Onde se enfiou toda a gente?
É o dez de Junho.
É o Dia das Comunidades que estão todas por aí, espalhadas pelo mundo. São estes os que foram à procura de mundo porque não encontraram cá nada para eles. Este mundo expulsou-os lá para fora como enteados.
Este é um país que não é pai. Este é um país que já não existe.
Ou sou eu que não o compreendo?
Estou sozinho.
Estou sozinho neste dez de Junho a tentar não sucumbir ao que vejo. E o que vejo eu? Um litoral a tombar no mar. Precipícios, penhascos, florestas, apartamentos, hotéis, campos de golfe à beira-mar que se separam do continente, se desfazem e caiem à água. Provocam ondas gigantes e levam um tsunami à América de Donald Trump.
Estou sozinho neste pântano mal-cheiroso. Estou sozinho e preso. Preso na lama que resta. Preso na lama que restou deste jardim à beira-mar plantado.
E para onde foi toda a gente? Para onde foram as pessoas? Caíram realmente todas no Canhão da Nazaré?

[escrito directamente no facebook em 2019/06/10]