Fome

Sobrevivo com o pouco que consigo roubar a esta gente já de si com tão pouco.
Hoje tiro um pão desta saca. Ontem tirei daquela ali atrás. Amanhã, vou tirar da saca daquela porta ali à frente. Aqui ainda se deixa uma saca de pano pendurada na porta para o padeiro encher na sua passagem madrugadora.
Ontem foram umas batatas nuns terrenos lá em baixo. Hoje já foram umas espigas de milho, aqui ao lado. Amanhã vão ser umas batatas doces que já vi lá mais em cima, para os lados do cemitério. Vou repartindo as minhas dores pelas dores alheias. No fim acabo por fazer um belo cabaz. Eles não dão por nada. E eu ainda acabo por ajudar quem ainda tem menos do que eles. Menos do que eu. E bem menos capacidade para roubar.
Sim, roubar é feio. Aprendi na catequese. Na escola. Em casa. Mas às vezes, é o que nos resta depois de nos roubarem, a nós, todo o pouco que temos.
E custa. Custa fazê-lo. Mas às vezes é isso ou a morte. E deixarmos-nos morrer, também é pecado.
Às vezes vou à caixa das esmolas da igreja. Especialmente nestas alturas. Nestas épocas de grande santidade. Como a Páscoa, agora. No treze de Maio. No Natal. Há sempre muitas contribuições. E eu só lá vou buscar alguma, pouca, ajuda financeira.
Custa-me ir à caixa das esmolas da igreja. Tenho sempre a sensação de Deus está a ver-me. Mas depois penso que se está a ver-me, sabe da minha condição. Sabe da minha necessidade. E sabe que também vou ajudar quem precisa. Quem precisa e não consegue estender a mão. Não consegue estender a mão para pedir ajuda nem para a enfiar na caixa da esmolas.
Normalmente levo as notas maiores. São as que foram dadas pelos abastados aqui da zona. Não farão falta a ninguém. Não estou a roubar de ninguém desesperado. E vou dar bom uso ao que levo. No fundo não acumulo nada. Não acumulo riqueza. Desfaço tudo no estômago. No meu e dos outros como eu. Quando morrer fica cá tudo. Não levo nada. Talvez o estômago aconchegado.
Às vezes vou à biblioteca. Trago alguns livros. Mas esses devolvo-os. Não os quero aqui para nada. Leio-os e devolvo-os para outras leituras. Outros olhos. Outras fomes.
Esta semana gostaria de deitar a mão a um folar. Mas isso é bem mais difícil. Estão debaixo dos olhares. Não quero arranjar problemas. Já me bastam os que me bastam.
É Segunda-feira Santa. É dia dos arrependimentos. Também tenho os meus. Mas não são os que pensam.
Há um cordeiro lá em baixo. No pasto. Acho que não vou arrepender-me de o ir buscar. Vai matar a fome a muita gente. E de onde vem este, há muitos outros. Eles às vezes perdem-se. O campo é grande. Do tamanho da minha fome.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/15]

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A Ficar com Fome

Contei o dinheiro que me restava. Não era muito. Na verdade, quase nada. Umas notas pequenas. Algum dinheiro no cartão de débito. Mas nem quis ver quanto para não ficar mais angustiado.
Precisava de ir até ao Algarve. Até Faro. Precisava de agarrar aquele trabalho. Não era muito, mas era o que havia. E tinha de o agarrar.
Ia tentar usar o cartão até dar e guardar o dinheiro vivo para comer alguma coisa. E ia ter de pedir ajuda.
Entrei na rodoviária. Pedi um bilhete até Lisboa. Consegui pagar com o cartão.
Sentei-me naquela corrente-de-ar, com o saco ao meu colo e esperei. Esperei uma hora. Fiquei com o rabo dormente daqueles bancos. Espirrei.
Enquanto esperei fiz um telefonema. Telefonei a um amigo e pedi ajuda. Pedi se me podia comprar um bilhete de comboio de Lisboa até Faro. Não precisei de pedir muito. Era alguém que sabia como as coisas eram. Alguém que já tinha passado pelo mesmo. Alguém que já precisou de ajuda.
Mandou-me esperar.
Esperei.
O telemóvel acusou a chegada de uma mensagem. Um bilhete digital de comboio de Lisboa para Faro. Uma hora depois de eu chegar a Lisboa no expresso.
Nova mensagem. Boa-sorte, dizia. Devolvi um agradecimento. Senti-me leve. Lavado da angústia.
Agora só tinha de esticar o resto do dinheiro que tinha para comer até receber o primeiro salário. O quarto já tinha. Vinha com o trabalho.
O autocarro chegou e entrei.
Durante a viagem tentei dormir. Não consegui. Estava um pouco excitado com o trabalho e a resolução do problema da viagem.
Enquanto pensava que as coisas se estavam a endireitar, senti o cheiro de pão quente. Pão quente e chourição. Alguém começou a comer uma sanduíche e eu percebi que estava a ficar com fome. Rapidamente comecei a pensar em comida. Desde a véspera que não comia nada. Não queria gastar dinheiro antes de ter o problema da viagem resolvido. Talvez, agora, conseguisse comprar algo em Lisboa. Se chegasse a tempo. Senão, só em Faro. Só no dia seguinte.
Depois pus-me a rezar para que o autocarro chegasse a horas a Lisboa e eu conseguisse apanhar o comboio.
E foi então que adormeci.

[escrito directamente no facebook em 2018/067/01]