Era Natal e Bateram na Porta dos Fundos

E foi na noite do amor, na noite do amor ao próximo, na noite da família, na noite em que (quase) toda gente se reúne à volta de uma mesa a comer, a beber e a partilhar boas experiências e se enterram machados de guerra, dores e invejas e se anunciam cessar fogos, na noite mais cristã de todas as noites, na noite que se celebra o nascimento do Cristo que morreu para nos salvar, o Cristo que pregava o amor, a dádiva, e a redenção, que cristãos saíram do conforto dos seus lares, do conforto das suas famílias do conforto das suas amizades para executarem uma reles vingança contra um pequeno grupo de comediantes que têm como função fazer rir as pessoas, ilustrando o mundo com o ridículo das nossas vidas, da nossa fé, do nosso amor, das nossas convicções políticas, das nossas crenças, um pequeno grupo de comediantes que não apela ao crime, nem à morte, ou à desgraça alheia, nem à vingança, e não fazem pistolas com os dedos da mão, não garantem estar, temerosos, debaixo das leis de Deus, não matam nem achincalham ninguém, só expõem ao ridículo todos os nossos ridículos e foram atacados pelos filhos da fé, do amor, da paz e da sabedoria.
Mas o pior nem estava na garrafa do cocktail molotov que rebentou na fachada do prédio da Porta dos Fundos, mas nos comentários abjectos que se espalharam pelas redes sociais em defesa do indefensável:

“Toda a merda respeita a merda toda… Que morram, esses porcos…”
João Paulo in Expresso;

“Mas qual violência? Então agora só a esquerdalha é que se pode manifestar pelas artes? Trata-se de liberdade de expressão religiosa e estavam apenas a expressar gratidão pela homenagem.”
Flávio Costa in Expresso;

“És um ignorante de primeira, as cruzadas foram uma resposta dos cristãos a quase 300 anos de agressão muçulmana à Europa, os cruzados foram importantes na formação de Portugal, D. Afonso Henriques sem a ajuda dos cruzados nunca teria conquistado o território nacional. Falas de alianças com os fascistas porque o mundo ocidental estava ameaçado pelos comunistas, ninguém matou mais gente que a religião comunista, em meio século mataram mais que todas as religiões juntas. Falas também na inquisição, há quem fale que foram mortos 300 mil mas documentado não chega aos 30 mil, e a inquisição tem de ser posta no seu contexto histórico, as acusações eram feitas por pessoas normais.
Falas também em pedofilia, caso não saibas há mais professores pedófilos que padres, vês alguém a querer deitar as instituições de ensino abaixo?
Vergonha devias ter tu.
A igreja católica tem defeitos mas não deixa de ser a instituição que mais pessoas ajuda no mundo.”
Vasco Gomes in Observador;

“A paneleiragem que arranje assunto para fazer humor com eles próprios, quando é ao contrário vêm logo a correr feitos histéricos a reclamar com tudo e não venham com comparações, se fosse outra religião se calhar já tinham as cabeças penduradas á porta.”
Rui Santos in Observador;

“Eles se dizem ateus e atacam a religião do próximo por motivos políticos, são militantes comunistas que desejam acabar com símbolos da sociedade ocidental como família e religião…”
Márcio Dinis in Jornal de Notícias;

“Os que atacaram a Porta dos Fundos serão os mesmos que perdoam os padres que procuram introduzir o pénis no intestino grosso de criancinhas?”
Pedro Nuno in Público;

“A liberdade de expressão não é mais sagrada que Deus.
Amor não é deixar que escarneçam de quem amamos.
Se preparem agora, pois os muçulmanos não serão mais os únicos que lhes colocará no lugar.”
Helena de Carvalho in Público;

“Auto atacam-se para gerar pena e alertar as autoridades! Um Charlie Hebdo no Porta dos Fundos, por favor!!!”
Samuel Charrano in Correio da Manhã;

“O que é que vocês pretendem com provocações? Falam em liberdade de expressão, mas pelos vistos é só para vocês que conta. Será que em vez de liberdade vocês queriam dizer Libertinagem? Ora se não simpatizam com a religião católica, só têm é que respeitar para também serem respeitados. Ah, mas pelos vistos olhando bem para vocês, só querem é confusão. Não sabem que a liberdade de cada um termina onde começa a liberdade do outro? Ai não sabem o que é Democracia, Liberdade com Responsabilidade? Olhem, vão para a escola aprender na disciplina de Cidadania os direitos, deveres, tolerância e bom senso comum que cada cidadão deve ter? Vocês querem é carnaval todo ano, porque trabalhar e estudar dá trabalho.”
Maria Marques in Correio da Manhã.

Alguns destes perfis são falsos, criados para defender posições políticas, religiosas e de grupos de influência. Mas outros são bem reais e mostram como nos tornámos tão boçais, intolerantes, estúpidos e mesquinhos.
Mostram também que somos todos muito corajosos escondidos atrás do ecrã do computador e de nomes falsos e fotografias forjadas.
Mostra como estes tempos de prosperidade e crescimento, económico e social, pós-Segunda Grande Guerra, deixou-nos intelectualmente anémicos e desejosos de um caos que, no fundo, não podemos realmente querer.
Enquanto a ciência corre para o futuro, o pensamento tende a fechar-se no passado. Num passado ignorante e obscurecido. De livros censurados. De ideias proibidas. De raças menores. De porcos mais porcos que todos os outros porcos.
E, afinal, devíamos era estar a celebrar o Natal. Lembram-se do Natal, antes de toda esta fúria consumista nos ter atacado?
E fala-se de amor…

[escrito directamente no facebook em 2019/12/25]

Eu Sei!

Estou no carro. Vou a descer a estrada em direcção à Batalha. Ao fundo, sobre a montanha o céu está negro.
Estou a descer a estrada e sinto cair-me em cima uma enorme opressão sobre o peito. Não sei de onde veio. Caiu assim. Sobre mim. Entristeço. Largo por momentos o volante.
Esqueço-me que estou na estrada.
Pareço ter uma ninhada de ratos a roer-me as entranhas. A furar dentro de mim. A morder-me. A moer-me.
Ponho as mãos na barriga. Dói-me lá dentro. Mas não sinto nada. Não me dói nada físico. É só qualquer coisa lá dentro. Uma impressão. Que sobe até ao pulmões e os aperta. Dificulta-me a respiração. Respiro devagar. Respiro.
Tenho a cabeça a rebentar. Pende do pescoço. Quer cair e rebolar por mim abaixo.
Não cai. Mas eu queria que caísse. Que a cabeça caísse eu deixasse de pensar nos ratos que me comem cá por dentro.

queria fumar um cigarro beber um copo de vinho tinto ver o carmina burana pelos la fura dels baus o jogo sem interesse da selecção nacional contra a lituânia comer uma língua de vaca uma salada de orelha de porco uma salada de polvo com um molho de vinagrete beber uma cerveja belga blanche ir para a cama com a ana com a bela com carla com a dora com elas todas em separado ou juntas não importa quero mijar tomar um ben-u-ron caff contra a enxaqueca que me cega uma bombada de ventilan para respirar melhor usar preservativos para me proteger das intempéries ouvir o novo disco do devendra banhart ou ver o parasitas de bong joon-ho mas esse afinal já vi já vi e gostei bastante foda-se tanto cinema e análise social lá dentro um filme sobre a luta de classes já transportada para outro nível agora é a sobrevivência a qualquer custo e o salário mínimo é miserável e o médio não é grande merda e o salário do antónio mexia é pornográfico mas que se foda o antónio mexia e a edp e o antónio costa e o antónio saraiva e são todos antónios estes cabrões que já me chateia e agora até uma torrada de pão caseiro e barrada com manteiga milhafre dos açores ou primor meio-sal e um chá já me alegrava e podia levar para longe esta amargura que tenho dentro de mim que não sei de onde veio mas podia para lá voltar e deixar-me em paz de papo para o ar a apanhar banhos de sol na praia de são pedro de moel onde o sol nunca nasce antes do meio-dia e beijar a minha mãe o meu pai a minha filha o meu filho a mim num espelho onde me vejo de barba feita e cabelo penteado num eu que não sou mas que deveria ser dizem-me e beber uma garrafa de vinho branco talvez um verde alvarinho a acompanhar umas pernas de rã que comi uma vez e jurei que voltaria a comer porque gostei tanto mas tanto e nunca mais as vi as pernas de rã em lado nenhum e um pastel de tentúgal e um esquimó que dantes havia em todo o lado e agora em lado nenhum ou uma morcela de arroz que acho que ganhou um prémio qualquer que deve ter sido importante e eu só penso em comida não sei porquê que nem fome tenho mas ia ver o concerto do nick cave que afinal é só em abril e no altice arena que tem uma merda de som nunca lá vi nenhum concerto que me agradasse e agarrava agora na eliete da dulce maria cardoso para ler e porque é que não agarro no livro e o leio porquê porquê porquê porquê

E descubro-me dentro do carro a descer a estrada em direcção à Batalha e o céu está escuro como breu e começa a chover torrencialmente e eu vejo as mãos, as minhas mãos, a tremer por cima do volante que está solto, e baixo-as e agarro o volante e o carro e tomo a vida, a minha vida, nas minhas próprias mãos.
Sinto uma angústia enorme a consumir-me. Cá dentro. Cá dentro do peito. Do meu peito. Quero gritar mas não consigo. Tenho o volante nas mãos.
Vejo um camião TIR a vir no sentido contrário. Vem depressa. Eles andam sempre depressa nestas estradas. Eu conduzo na minha faixa. E, no último segundo, viro o volante do carro. E quero mesmo que seja o último segundo. E nesse último segundo ainda penso Eu sei.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/14]

A Ansiedade Ataca-me Quando Tenho de Sair de Casa

Fico ansioso cada vez que tenho de alterar as minhas rotinas. Preciso de equilíbrio. Preciso do equilíbrio de uma vida previsível para poder estar bem.
Levanto-me sempre à mesma hora. Às vezes tenho de antecipar. Raramente fico na cama para além do que é normal. Mesmo em dias de noites mal dormidas. Levanto-me. Faço café. Torradas. Sento-me na mesa da cozinha e como. E bebo. Às vezes vou beber o café para a janela e olhar a rua. As pessoas na rua. O tempo que está. A chuva. O sol. Os vizinhos no prédio em frente. A rapariga em camisa de dormir. A senhora que todos os dias estende roupa no estendal. A senhora que todos os dias põe o edredão a arejar. O rapaz que todos os dias vai fumar um cigarro à varanda. É nesta altura que me lembro que também fumo. E que gosto de fumar. Pego num cigarro e vou para a varanda. Quando está de chuva ou muito frio, abro a janela da cozinha e fumo ali mesmo. Já aconteceu ir nu para a varanda. Esqueço-me que é assim que durmo. Levantar e vir para a cozinha fazer café é automático. Esqueço-me de vestir uns boxers. Não tenho cá ninguém em casa para olhar para as minhas vergonhas. Esqueço-me da rua. E vou nu para a varanda. Muitas vezes.
O dia decorre sem sobressaltos. Faço o que tenho de fazer. Vou onde tenho de ir. Escrevo. Leio. Como e bebo. Vejo as notícias na televisão. Leio os jornais online. Às vezes compro um jornal ou outro em papel. Gosto de sujar os dedos com tinta da impressão. Gosto do cheiro. Do cheiro da tinta e do papel. Normalmente compro A Bola. Às vezes o Público. O Expresso já só muito raramente. As revistas nacionais não me chamam a atenção. As estrangeiras de que gosto, tenho de mandar vir. É difícil de encontrar por cá. Já os livros, não me queixo. Há de tudo. É uma questão de procurar e não me deixar vencer pelos lineares dos hipermercados.
Esteja onde estiver, quando tenho de sair de casa, sei que mais hora menos hora regresso. Aos meus cheiros. Ao meu canto. À minha paz, por vezes até, bastante barulhenta.
Hoje vou ter de sair de casa. Da cidade. Uma viagem. Tenho de ir uns dias para outro lado. Outra cidade. Outra casa. Outra cama. Outros cheiros. Conhecer pessoas que não conheço. Ter de falar com elas. Ver-lhes os dentes sujos. A caspa sobre os ombros. O cheiro a transpiração. Os lábios rugosos pintados com bâton, as senhoras. Os pêlos da barba mal cortada, os homens.
Levantei-me mal disposto. Passei uma hora na casa-de-banho. Acordei com o estômago às voltas. São os nervos. A ansiedade desta quebra de rotina. Já vomitei. Não consegui comer nada. Não bebi café para não agravar a tempestade que sinto nas entranhas. Transpirei muito. Fui à rua comprar desodorizante que já não tinha. Tive de ir a três farmácias. Não gosto de desodorizantes de álcool. Nem de spray. Nem com cheiro. Tive de ir a três farmácias. Só encontrei o que queria na última. Isto fez-me atrasar um pouco. Tive de correr para apanhar o expresso para o qual já tinha comprado o bilhete com antecedência.
Já estou dentro do expresso.
Vou aqui encafuado num espaço para anões. Não posso estender as pernas porque levo companhia na cadeira do lado. Já tentei ligar o iPad mas o wireless é intermitente. Vai e vem. E quando vem aguenta pouco. Tentei ler mas comecei a ficar enjoado. Parei antes de ter de vomitar novamente. Fumava um cigarro mas não se pode fumar nos autocarros. Tenho o estômago às voltas mas acho que o autocarro não tem casa-de-banho. E mesmo se tivesse. Não sei se conseguia lá ir. Aqui, à frente de toda a gente. E se fosse pedir ao motorista para parar numa Estação de Serviço? Toda a gente ia perceber que tinha sido eu a pedir. Não quero isso. Não quero que ninguém saiba. Não quero que ninguém olhe para mim. Tenho de aguentar.
Tenho de aguentar estes dias longe da minha casa. Do meu sofá. Da minha cama. Da varanda da minha cozinha onde gosto de fumar os meus cigarros a olhar as rotinas dos meus vizinhos do prédio em frente.
Estou nervoso. Trinco as peles nos cantos dos dedos. Não gosto de expressos. Não gosto de conhecer pessoas que não conheça. Não gosto de sair de casa. Não gosto de sair da minha vida.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/01]

Choro-lhe a Ausência

Não sei que voltas ele deu que se enrolou na própria trela e acabou por se enforcar.
Já passou uma semana. Já consigo falar disto. Mas custou-me. Custou-me muito ultrapassar a sua ausência e a forma como foi.
Eu sei que ele não estava habituado a estar preso. Mas tive de o fazer. As coisas não podiam continuar daquela maneira. Estava a dar em doido. Já não aguentava o gajo da quinta e as suas queixas.
Prendi-o enquanto colocava uma rede à volta do quintal para ele não ir lá para fora. Mas ele não aguentou. Não aguentou estar preso ou não aguentou a falta de liberdade. Acho que ficou zangado comigo. Eu, que era o seu melhor amigo.
Conhecemo-nos há sete anos.
Ele apareceu por aqui. Devia de andar perdido. Não tinha coleira, mas estava bem tratado. O pêlo lustroso. Forte mas não gordo. Sentimo-nos logo atraídos um pelo outro.
Ele apareceu aí, subiu o pequeno caminho do quintal até ao alpendre e veio ter comigo.
Eu estava lá sentado a beber um copo de vinho e a fumar um cigarro enquanto lia A Bola. Ele subiu até ao alpendre e parou a olhar para mim. Eu olhei para ele. Estudámo-nos. Percebi que ele tinha sede. E fome.
Fui à cozinha buscar uma tigela de água. E trouxe-lhe um tacho com um resto arroz, a única coisa para comer, já feita, que tinha cá em casa. Ele bebeu e comeu. E depois foi deitar-se ao pé de mim. Colocou o focinho em cima do meu pé. E ali ficou. E foi ficando. Nunca apareceu ninguém à procura dele e acabou por ficar por cá.
Ele não era puro. Mas era uma mistura bem interessante. Parecido com um labrador. Era muito meigo e intuitivo. Íamos juntos para todo o lado. Portava-se bem. Era intrépido. Lançava-se alegremente às ondas do mar, mesmo nas marés vivas. Eu assustava-me mais que ele. A única coisa que o irritava eram as namoradas que eu trazia cá para casa. Nunca gostou de nenhuma. Devia achar que eu era dele, que a casa era nossa e tudo o resto eram intrusos. Não sei, mas era o que parecia. Nunca mordeu ninguém. Mas arreganhou os dentes algumas vezes.
Tudo mudou há cerca de 2 meses.
Não sei o que se terá passado. Começou a sair de casa e do quintal de madrugada e, quando voltava, às vezes vinha com sangue na boca.
Um dia descobri que as ovelhas da quinta ali em baixo andavam a ser mortas. Não demorou muito até que o tipo da quinta viesse cá acusá-lo. Prometi que não se repetiria. Não consegui cumprir a promessa.
Há cerca de quinze dias resolvi vedar o quintal para ele não sair daqui e deixar as ovelhas do homem em paz. O homem chegou a vir aqui com uma pressão-de-ar. Tive de o ameaçar com um podão com que estava a cortar uns ramos. Foi aí que resolvi vedar o quintal. Isto era suficientemente grande para ele dar aso às suas necessidades de liberdade.
Prendi-o com uma trela enquanto acabava de concluir a vedação para não ir mais às ovelhas do homem. Mas ele não aguentou estar ali preso. Uma casota e dois metros de autonomia. Não era o suficiente.
Um dia levantei-me e ele estava enrolado na trela.
Não sei o que se terá passado.
Tenho saudades. Era uma companhia. Um amigo.
Choro-lhe a ausência.

[escrito directamente no facebook em 2018/05/30]

Matilde na Praia

Ela não me dava um segundo de descanso.
Eu bem tentava passar pelas brasas, de cabeça enfiada na toalha, com A Bola dobrada, e ainda por ler ali ao lado, debaixo do sol abrasador, a torrar, a trabalhar para o bronze, mas ela não me deixava em paz.
Os pés cheios de areia passeavam-se pelas minhas costas. Até que gostava. Soavam a uma massagem radical. Leve, suave, mas picante. Os pés arrastavam a areia como se fosse lixa. Unhas que se passeavam por mim. Mas unhas ou lixa fofinhas. Que produziam mais cócegas que dor.
Virei-me sobre mim e ela tombou na minha barriga. Ninguém se magoou. A barriga era grande o suficiente para lhe aparar a queda e, a mim, para me proteger do tombo.
Da barriga rebolou para a areia e caiu de cara com as pernas no ar. Quando se levantou estava com cara cheia de areia. Mulher-Areia, disse-lhe. És uma super-vilã cheia de super-poderes maléficos para me super-chateares.
Ela começou por chorar, ao sentir a boca cheia de areia e ao não conseguir abrir os olhos. Mas depois de me ouvir falar desatou a rir. Peguei nela e sacudi-lhe a areia da cara. Limpei-lhe a boca e os olhos e ela olhou para mim a sorrir.
Depois disse-lhe Vamos ao mar dar um mergulho e tirar o resto da areia, e levantei-me.
Estendi-lhe a mão e ela agarrou-me o dedo indicador. E lá fomos os dois, praia fora, a descer até ao mar.
À beira do mar agarrei-a ao colo e entrei com ela dentro de água. Fomo-nos molhando com cuidado. Mas ela era aventureira, apaixonada pelo mar, e pulava no meu colo, com vontade que a largasse. Dei um impulso para cima e deixei-me afundar com ela ao colo. Quando me levantei ela começou a tossir. Tinha engolido um bocado de água. Começou a fazer beicinho mas não chorou. Recomeçou aos pulos. Eu agarrei-a pelos braços e fui baixando-a à água e fazendo-a subir. À velocidade da luz. Acompanhando os risos e as gargalhadas que dava. Fazia-a voar sobre as ondas. Pu-la num carrossel. Brincamos um bocado por ali. Depois fiquei cansado. Ela queria mais, mas eu fiquei cansado. E saímos do mar.
Sentámo-nos à beira-mar. As ondas rebentavam à nossa frente e ainda vinham lamber-nos o rabo sentado na areia. Íamos ficando com areia nos calções. Cada vez com mais areia nos calções. Mas que importava? Estávamos os dois à beira-mar, debaixo de um belo e quente sol, a ver passar as pessoas que iam mergulhar e voltavam cheias de frio. A vida era simples. Simples e bela.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/23]

A Minha Imortalidade

Subi a pé até ao alto do monte. Até lá acima onde estava a torre eólica. Fazia frio e estava vento. Muito vento. As pás da torre giravam velozes, num ritmo estável e sereno, volta atrás de volta.
Sentei-me numa pedra sobre o vale e olhei lá para baixo. Para as diferentes cores que coloriam a paisagem. Para os pequenos muros de xisto que dividiam os terrenos e os tornavam peças de um enorme puzzle. Para as casas, pequeníssimas, que pontuavam perdidas, aqui e ali. Ao fundo ouvia um cão a ladrar. Mais perto ouvi o chocalho de um rebanho. Mas a mudança do vento levou o barulho. Fiquei novamente só. Eu e o vento.
Via toda aquela terra até à linha do horizonte e pensava na parábola da oferta de todos os reinos do mundo e a sua glória em troca de uma adoração. E sorri ao pensar nisso. Achava que o importante não era a adoração, mas a imortalidade. Para mim, esse era o ponto. Era por isso que aguentava todos os dramas, todas as provações. Era por isso que nunca ponderara o suicídio. Pensava na minha imortalidade.
Acendi um cigarro com alguma dificuldade, que o vento apagava sempre a chama do isqueiro. Depois fiquei ali assim, a fumar e a olhar toda aquela distância até ao horizonte e a pensar na minha solidão, e o quanto gostava dela.
Podia ter ido para Torres Vedras, para Alcobaça, até mesmo para a Nazaré, que os convites chegaram todos, a tempo e horas, para ir ver as matrafonas e aqueles desfiles pobrezinhos e tristes na sua esforçada alegria carnavalesca, mas preferi vir até aqui, sozinho, pensar na vida, na morte, na imortalidade ou em nada, e estar em silêncio. Eu e o espaço. Eu e o tempo.
Depois do esforço da subida, o fumo do cigarro pareceu adormecer-me. Senti-me tonto e percebi que estava a sair de mim e a ser levado por uma corrente de ar quente para cima. Passei ao lado das pás das eólicas, mas virei-me e vi-me ali em baixo, tranquilo, em paz, a fumar um cigarro e a olhar para lado nenhum em particular, porque tinha aquele olhar de quem sabia. E resolvi descer.
Voltei a mim, despertei, apaguei o cigarro contra uma pedra e desci o monte.
Voltei a casa, sentei-me frente ao computador, abri uma página e comecei a escrever as estórias da minha vida. Arranquei para a minha imortalidade.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/10]

Tempo de Mudanças

Acordei gelado. Acordei sozinho na cama. Ela saiu da cama cedo, e eu nem dei por isso.
Acordei por causa do frio. Tremia. Levantei-me, abri as persianas da janela e vi o belo sol lá no alto, o que me provocou um arrepio. Enfiei-me debaixo do duche quente e deixei-me ali estar a aquecer.
Vesti-me. Fiz a cama. Bebi um copo de leite frio e sentei-me ao computador a escrever.
Fartei-me de escrever. Escrevi muita coisa sobre várias coisas. Quando dei por mim, o sol já tinha ido embora, o céu estava cinzento escuro e caminhava para a noite.
Estava com fome. Percebi que estava com fome e fui preparar o jantar.
Desfiz uns hambúrgueres e meti-os numa frigideira onde já estavam cebolas e alhos. Juntei uma tiras de pimentos e feijão encarnado, de lata. Fiz um tachinho de arroz. Abri uma garrafa de vinho. Pus a mesa da cozinha e fui para a sala olhar para a televisão e esperar por ela.
Adormeci frente à televisão.
Já passava da meia-noite quando acordei, cheio de frio, cheio de fome, deitado no sofá.
Ela ainda não tinha chegado.
Telefonei-lhe para o telemóvel, mas estava desligado.
Pus-me a andar de um lado para o outro. Fui à janela olhar para a rua. Voltei para dentro. Tentei outra vez o telefone. Nada.
Fui à casa-de-banho. Olhei por acaso para o copo das escovas de dentes. A dela não estava lá.
Corri ao quarto e abri o guarda-vestidos. Estava vazio. Vazio das coisas dela. Tinha lá umas calças minhas e umas camisolas. Vazio, portanto.
Sentei-me na cama e fiquei ali um bocado. Fiquei ali um bocado parado. Para pensar. Mas não pensei em nada. Não sabia o que pensar. Não percebia se estava triste ou contente. Furioso estava, sim. Disso tinha a certeza… Ou achava que tinha a certeza. A verdade é que não barafustei, não gritei, não deitei nada ao chão…
Levantei-me e fui à cozinha. Despejei vinho num copo e bebi um gole. Levantei a tampa da frigideira e comi duas colheradas. Três. Quatro.
Agarrei no meu prato e pus lá carne picada com feijão e pimentos e um bocado de arroz por cima. Sentei-me na mesa da cozinha a comer. Estava em silêncio. Só me ouvia mastigar. Gostei daquele silêncio. Bebi um gole de vinho e ouvi-me a beber o vinho, ouvi-o a escorregar garganta abaixo e o meu ahh final.
Quando acabei de comer, peguei num cigarro e fui até à varanda. Estava frio. Mas eu não tinha. Sentia-me bem. Tranquilo. Em paz.
E enquanto fumava, ia pensando nas mudanças que ia fazer no quarto. Deitei a beata para a rua e fui tratar disso.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/07]