A Minha Madalena

Cada um tem as suas madalenas. As minhas chegaram em forma de mensagem. Uma mensagem. Uma mensagem foi quanto bastou. A mensagem tornada máquina do tempo. E lá estava eu. Vinte anos mais novo. Alguns quilos a menos. Ou seriam a mais? E um sorriso idiota plantado na cara.
Vi-a surgir do nada. Como num gesto de prestidigitação. Primeiro o vazio, depois tudo. Como uma bomba nuclear a prometer um big bang. O início de tudo. O princípio do infinito. O nascimento da razão. E fez-se vida. Plim.
E, afinal, nada mais era que uma banalidade. A vida é uma banalidade. Encontra-se em qualquer esquina, dentro de uma loja dos CTT, numa igreja em hora de missa, ao balcão de uma pastelaria a destruir uma bola de berlim cheia de creme e de pequenas pedrinhas de açúcar que tombam sobre o prato, o guardanapo, a barba. A vida é, aqui na Terra, uma banalidade. E, no entanto, tão extraordinária era ela para me deixar assim, de sorriso parvo na cara a olhar para uma banalidade que era minha. Minha.
A banalidade depois foi à sua vida. Claro que sim. Que as vidas são únicas e autónomas. Ganham uma dimensão que são só delas. Mas há momentos que são só nossos. A banalidade ainda não era autónoma. E aquele momento, aquele momento ali, aquele momento preciso é só meu. Aquele momento em que o vazio se encheu de vida e eu vi o nascimento, vi o truque de prestidigitação feito à minha frente, o nada tornado tudo, aquele momento é só meu porque o vi, porque o vivi. Porque existiu só para mim.
E é por isso que vinte anos depois, a minha madalena abre as portas da memória e me faz recordar quando o mundo prometia mundos e eu era o mais feliz dos homens.
Nada mais importa, lembro-me de ter pensado naquele exacto momento. Nada mais importa. Depois de ter olhado e me ter apaixonado pensei que, naquele momento, depois de ter visto o meu big bang, podia morrer. Morrer feliz e cheio. Porque nada mais importava. E é verdade ainda hoje. Nada mais importa.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/28]

Os Dias do Segundo Turno na Fábrica

Eu chegava a casa, depois de oito horas seguidas do segundo turno na fábrica, colocava o Harvest do Neil Young na aparelhagem. Começava por uma primeira audição do Heart of Gold enquanto me despia. Depois colocava no início do Lado A e ia tomar um duche. Despir-me do cheiro da fábrica. Das horas da fábrica. Tirar a fábrica de cima de mim, de dentro de mim. Depois do duche, e como acabava por não ouvir quase nada do disco, voltava a colocar a agulha no início do Lado A. Vestia-me. Vestia-me de lavado. Sentava-me na mesa da cozinha, comia uns pedaços de queijo seco com azeite e uma fatia de pão alentejano e bebia um copo de vinho tinto. Às vezes ainda não tinha acabado de comer e beber e ia virar o disco. Ouvia o Lado B. Depois saía.
De banho tomado, roupa lavada e o Harvest a ressoar-me na cabeça, saía de casa. Descia as escadas. Mesmo se o elevador estivesse no meu andar, eu descia as escadas. Chegava à rua e acendia um cigarro. Deixava o fumo penetrar-me cá dentro. E começava a andar pela cidade. Umas voltas tontas. Sem destino. Misturava-me com as outras pessoas. Sentia-lhes a transpiração quando passavam por mim. Ou aquele cheiro acre de quem não tomou banho. Ou o excesso de perfume a queimar etapas. Algumas das pessoas cheiravam demasiado a tabaco frio. E eu pensava sempre Acho que nunca cheirei assim. E não, nunca cheirei assim. Os carros passavam ao meu lado, na estrada. Eu seguia pelo passeio de calçada portuguesa. Às vezes com pedras levantadas da calçada. As mãos nos bolsos. O cigarro na boca. Desviava-me das outras pessoas. Acusava o barulho dos motores, das buzinas, dos gritos das pessoas zangadas. Havia sempre muita gente zangada.
Às vezes contava as moedas e comprava um jornal. Ia até ao jardim e sentava-me num banco a ler o jornal. Às vezes as notícias já eram velhas. O jornal era da manhã. Entretanto o mundo já dera várias voltas ao mundo. As notícias frescas já tinham morrido e nascido outras. Algumas ressuscitavam, mas diferentes. O que importava ali era estar sentado no banco de jardim, a ver quem passava mas ocupado a ler um jornal, como quem não dava demasiada importância aos outros. Depois fumava mais um cigarro. Largava o jornal num caixote do lixo. Dava mais uma volta pela cidade. Às vezes bebia um café numa pastelaria. Comia um pastel de nata. Nos dias de maior calor sentava-me numa esplanada e bebia uma cerveja. Olhava os miúdos e as miúdas cheios de vida a circularem por ali, nas mesas em volta. Nunca estavam parados. Pareciam beija-flores entre uma mesa e outra, sempre aos saltinhos, sempre em movimento, sempre prontos para irem até outro lado, havia sempre outro lado, outra pessoa, outro beija-flor. Eu ficava sentado à minha mesa a beber a imperial a apreciar as voltas que a juventude dava. Pelo menos aquela ali, aquela que se sentava nas mesmas mesas que eu, nas mesmas mesas na mesma esplanada, onde entre vários rituais que executavam nunca se via um livro a ser lido que fosse. E depois? Eram felizes assim, não eram?
Com a luz a baixar depressa, acabava por me ir embora. Às vezes passava pelo Rei dos Frangos e levava meio-frango assado para comer em casa. Às vezes comprava umas latas de conserva num pequeno supermercado lá perto de casa. Houve uma altura em que comia umas latas de atum que já vinham com feijão frade misturado. E umas latas de bacalhau com grão também misturado. Depois passou-me esta vontade. Regressava a casa, voltava a ligar a aparelhagem com o Harvest e deixava-me adormecer no sofá, frente à televisão desligada e ao som do Neil Young a vaguear pela casa. Andei meses a ouvir o Harvest. Chegava da fábrica e punha o disco a tocar. Havia discos assim, que consumia até ao osso, antes de passar ao próximo.
Agora já não chego a casa. Agora já estou em casa. Já não dou voltas pela cidade. Saio para ir comprar alguma coisa que precise e regresso logo. Agora já só me restam as memórias desses dias, desses dias antes de ser despedido. Agora já nem me apetece ouvir música. Quando um dia quiser lembrar estes dias de confinamento, o que é que terei para recordar?

[escrito directamente no facebook em 2020/04/20]

A Companhia do Meu Primeiro Cigarro do Dia

Nunca tinha reparado nela e, agora, vejo-a todos os dias. Por volta das oito da manhã, acendo um cigarro na varanda, e vejo-a a caminhar ao longo da rua até desaparecer lá ao fundo, e virar à direita, na esquina da pastelaria agora fechada. Ela não sai aqui do prédio. Já vem de baixo. Do início da rua. Não sei se vive aqui ou se só passa por aqui mas, todos os dias, todos os dias desde que estou fechado em casa, vejo-a passar lá em baixo.
Logo da primeira vez chamou-me a atenção porque não passava ninguém aqui em baixo na rua. Eram oito da manhã e eu tinha saído da cama, vestido uns boxers, e vindo à varanda fumar o meu primeiro cigarro do dia. Estava calor, nesse dia. A rua estava deserta. Esta rua que, num dia normal está cheia de gente que a percorre para cima e para baixo, esta rua que, a partir das oito da manhã começa a carregar as suas baterias com a chegada das carrinhas da panificadora, os camiões da cerveja, o pessoal das entregas da DHL, os empregados das lojas que empurram as montras para o passeio, as esplanadas que brotam de novo com mesas e cadeiras e chapéus-de-sol todos os dias, a senhora das flores que coloca vasos na rua, a escola de condução que estaciona a motorizada frente à entrada a apelar às aulas, agora está deserta. Mesmo o pessoal da câmara que, às vezes, e com ajuda dos bombeiros, vinha aqui dar uma limpeza geral, com mangueira, varrer as misérias presas às pedras da calçada, não têm aparecido agora. Agora e desde aquele primeiro dia em que toda a gente, ou quase toda a gente, ficou em casa para evitar a contaminação. Foi nesse dia o primeiro dia em que a vi, a passar lá em baixo, sozinha, na rua deserta, a caminho de qualquer lugar. Provavelmente trabalhar. Num daqueles trabalhos essenciais à nossa vida. Se calhar é repositora de lineares. Caixa de supermercado. Técnica de farmácia. Médica. Enfermeira. Polícia não me parece. Pelo menos daqui de cima. Tem o cabelo loiro. E eu nunca conheci uma agente da polícia com o cabelo loiro.
Agora já não me levanto todos os dias para vir aqui à varanda fumar um cigarro. Agora levanto-me todos os dias para a ver passar lá em baixo. Vai sempre bonita. Bem arranjada. Eu, desde que estou para aqui fechado em casa, ando de boxers, às vezes nu, quando está frio visto um fato-de-treino, que é o que levo à rua se preciso de sair para ir ao supermercado ou à farmácia, ou então visto uma roupa velha, as calças de ganga de pernas largas, as t-shirts que usava para dormir, as sapatilhas rotas, as meias sem elástico, porque regresso a casa e vai tudo para lavar a quarenta graus, e eu de regresso ao duche. Ela não. Ela vai sempre elegante. Como se fosse para alguma festa, mas não será para uma festa porque agora não existem festas. É só uma miúda que gosta de se arranjar e ainda bem, porque gosto de a ver assim arranjada, às vezes de calças de ganga, sapatilhas All Star, outras vezes de saia e camisa, também já a vi de vestido, um casaco por cima, meias de vidro, tudo de várias cores, não sei se tem uma preferida que já lhe vi a colecção da Pantone. O meu guarda-roupa é essencialmente preto e cinzento e o azul das calças de ganga. Um guarda-roupa triste e melancólico. Ela é uma miúda alegre e que me alegra. Agora já preciso dela diariamente para me marcar o arranque do dia. Preciso de a ver. Começo a ter com ela, uma miúda com que nunca falei, mais afinidade que com as minhas ex-mulheres. Imagino-a cheirosa, o cheiro do banho acabado de tomar e talvez o aroma fresco de um perfume leve. O sorriso, que nunca lhe vi, plantado na cara. E uma conversa sem fim.
No outro dia pensei no dia em que não a vir passar. Pensei no dia em que chego à varanda, acendo um cigarro e ela não passa lá em baixo na rua. Nesse dia deprimi um pouco. Cheguei a ter vertigens na varanda. Espero não voltar a deprimir mais. Espero que ela continue a passar. Espero que continue a fazer companhia ao meu primeiro cigarro da manhã.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/18]

Para um Diário da Quarentena (Sétimo Andamento)

Não estava a fazer conta sair de casa. Levantei-me a meio da manhã, vesti umas calças de fato-de-treino, uma t-shirt, calcei os chinelos e fui para a cozinha espremer laranjas para um sumo. Fui para o alpendre beber o sumo e ler as notícias nos jornais online.
Nada de muito substancialmente diferente, nas notícias. As mesmas coisas mas com os números a aumentar constantemente.
Enquanto lia os números assustadores de mortos, e lia esses números com uma indiferença que já me era transmitida pelos jornais e pelos responsáveis que todos os dias actualizam os números em conferência de imprensa, carregando nos números para aliviar as pessoas, deixando que as pessoas se tornem números e, dessa forma, perderem um pouco da carga emocional que transportam, pensei que podia guisar o coelho que a vizinha, que mora duas casas mais abaixo, veio cá oferecer.
Tocou o telemóvel. Era a minha mãe. Olá, mãe!, disse. E ela começou Vens cá logo? Preciso de ovos e de sumos de manga para o pequeno-almoço. Já não tenho nenhuns. E sacos do lixo… Ah, e antes que me esqueça, preciso de álcool que já não tenho nada cá em casa. E eu respondi Oh mãe!, mas eu não posso ir ao supermercado dia sim, dia não, e senti-a em silêncio lá do outro lado. E continuei Está bem. Vou aí depois de almoço. E damos um passeio à volta do quarteirão. E alegre, ela respondeu Está bem.
E onde é que vou arranjar álcool? pensei.
Troquei os chinelos por umas sapatilhas. Vesti uma camisola. Fui a uma vizinha na aldeia e comprei uma dúzia de ovos. Passei na farmácia, mas não havia álcool. Passei na mercearia mas não havia sumos de manga. Voltei a casa para ir buscar o carro. Já não ia cozinhar o coelho. Levei-o para a minha mãe. Ela até gosta mais de coelho que eu.
Saí com o carro. Ainda tinha combustível. Passei no Pingo Doce. Estava fechado. Só abria mais tarde. Fui ao Lidl. Uma fila enorme. Mais à frente o Modelo-Continente. Aberto. Sem fila. Comprei dois packs de quatro garrafas pequenas de sumo de manga. Um rolo de sacos do lixo de trinta litros. Procurei álcool. Não havia. Lembrei-me do sabão azul e branco. Também não. Procurei luvas e máscaras. Nada.
Fui até casa da minha mãe. Antes de subir fui à pastelaria comprar-lhe pão fresco. Estava fechada. Novo horário. Este será o maior problema destes tempos. O conhecimento dos horários de funcionamento de lojas onde precisamos de ir porque cada uma funciona com o seu próprio horário.
É uma porra, é o que é!
Subi a casa dela. Estava na sala. Larguei as coisas na cozinha. Aspirei a casa. Depois passei uma esfregona molhada na cozinha e na casa-de-banho. Pedi-lhe para ir para a cozinha arrumar as coisas que já íamos sair e aspirei a sala.
Ficou muito contente com o coelho. Ficou triste pela falta de álcool.
Saímos. Descemos no mesmo elevador. Mas ela ia ao fundo. Eu mais próximo da porta. Eu é que ia abrindo e fechando tudo o que precisava de ser aberto e fechado. Na rua começamos a andar ao longo do passeio. Não havia vivalma. Ela sentiu-se triste. E disse-me Eu sei que as pessoas estão em casa mas ver a cidade assim é diferente. Mesmo visto da varanda é diferente. É uma cidade muito triste.
Sim, era uma cidade muito triste. A cidade quase deserta. Quase vazia. Quase silenciosa. Irreal. Mais à frente vimos algumas pessoas. Ela conhecia algumas delas. Sorriu-lhes e cumprimentou alguns conhecidos à distância de um aceno com a mão, ou com um adeus. Andámos à velocidade dela. Distantes um do outro mas próximos o suficiente para ele conversar. Ela é que fazia a maior parte da despesa da conversa. Estava há muito tempo fechada. Precisa de ser ouvida. Ela falava. Eu ouvia. E respondia. Às vezes parava a ver uma montra. Eu dizia-lhe para ter cuidado e não se encostar. Demos a volta ao quarteirão e regressámos a casa dela. Levei-a a casa. Eu ia abrindo e fechando tudo o que precisava de ser aberto ou fechado. Dissemos adeus. Pedi-lhe de novo, e a saber que não valia de nada pedir, para me ir dizendo o que precisava com antecedência para eu anotar tudo e tratar das coisas todas de uma vez. Ela disse que sim, claro. Como diz sempre. Mas acho que já nem se lembra com o que é que está a concordar. Levei o lixo dela para baixo.
Fui embora.
Ao despejar o saco de lixo no caixote, na rua, reparei que haviam luvas e máscaras espalhadas pelo chão. Perguntei-me de onde vinha aquilo. E porque raio estava espalhado pelo chão em vez de estar dentro de sacos dentro do caixote.
No carro, ainda parado, pensei que não tinha luvas, nem máscaras, muito pouco álcool e só um pequeno pedaço de sabão azul e branco. Não conseguia arranjar em lado nenhum. Também não ia de propósito à procura das coisas mas, em todo o lado que ia para comprar outras coisas, procurava e nunca havia. Via muita gente com estes produtos na rua. Se calhar açambarcaram logo no início. Se calhar têm tido sorte em apanhar as novas remessas. Eu não gosto de açambarcar coisas. Não encho jerricãs de combustível. Limitei-me a ter o depósito cheio. E só o enchi uma vez. Não comprei papel-higiénico. Não mais do que o que compro normalmente. Não comprei conservas para além das habituais. Não comprei álcool porque tinha uma garrafa em casa, e é com essa garrafa que me tenho desinfectado antes de entrar em casa da minha mãe e no regresso à minha. Quando tentei comprar máscaras e luvas, percebi que já era tarde. Não havia nem para os profissionais de saúde que estavam na linha da frente do combate e eles precisam mesmo destas protecções, haveria para mim? Mas via muitas pessoas na rua com máscaras.
Depois de chegar a casa, fui lavar as mãos. Despi-me. Tomei banho. Lavei a roupa que tinha utilizado. Depois cortei umas peças de fruta, uma laranja, uma maçã, uma pêra e um kiwi, era o que tinha em casa, despejei um iogurte numa tigela e coloquei a fruta em pedaços à volta. E fui para o alpendre comer. Hoje não via as montanhas. Não estava sol. O cão estava a dormir enrolado nele próprio e nem me ligou. Os gatos olharam-me à distância mas nenhum me veio incomodar. Comi sozinho no alpendre.
Chegaram umas mensagens ao telemóvel que não quis ler.
Deixei-me adormecer.
Acordei com frio e com um arrepio nas costas. O cão continuava no mesmo sítio. Agora também lá estavam os gatos. O telemóvel voltou a acusar a recepção de uma mensagem. Pus o telemóvel no bolso e entrei em casa.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/26]

Ordem Cósmica

Dia 02 do mês 02 do ano 2020. Não acredito muito em conjugações cósmicas nem cabalas para me dobrar o destino mas, há momentos em que parece que o mundo se une para me ser simpático e para me compensar, com alguma pequenas sortes, todos os azares com que tem pautado a minha vida aqui pela Terra. Hoje é um desses momentos.
Começou logo de manhãzinha. Acordei quando acordei e não fui despertado por nenhum despertador. Abri a janela do quarto e vi o sol em todo o seu esplendor, num belo céu azul, o que afastou para longe toda a neura que os últimos dias, cinzentos e de chuva, tem cultivado. Não queimei o café nem as torradas. O pão não caiu no chão com a manteiga para baixo. Não faltou gás durante o duche. Nem acabou o champô nem o sabonete. Já antes me tinha apercebido que não me iria faltar papel-higiénico por mais que eu o gastasse. A toalha com que me limpei, estava seca e limpa.
Tinha as cuecas lavadas. As meias agrupadas aos pares. As camisas passadas a ferro. As camisolas dobradas. As calças penduradas. Tinha toda a roupa disponível e a dificuldade foi só em escolher o que vestir para ir à rua.
Antes de sair fumei um cigarro à janela. Ainda tinha cigarros no maço e gasolina no isqueiro. Enquanto fumava o cigarro à janela pensava que o Benfica já tinha jogado há dois dias, portanto não havia a possibilidade de perder o jogo. Sorri.
Ia a sair de casa quando tocou o telemóvel que estava com a bateria carregada. Não me tinha esquecido de colocá-lo à carga na véspera. Era a minha mãe a convidar-me para almoço. Tinha feito feijoada. Aceitei logo. Não tinha nada para almoçar e há muito tempo que não comia uma feijoada à transmontana, cheia de couves, feita pela minha mãe.
Saí à rua e entrei na pastelaria do bairro. Pedi um café. Não estava queimado. Depois um favaios. Estava fresquinho. Apareceu um amigo de longa data. Alguém que já não via há anos. E pensei que, afinal, ainda tinha alguns amigos. Conhecidos, vá lá. Pedimos um Martini branco com uma pedra de gelo e um bocado de gin. Repetimos a dose. Ele pagou a despesa. A despesa toda.
Dei um passeio a pé pela cidade até casa da minha mãe. Não fui atropelado. Não tropecei nas pedras levantadas da calçada. Não caí nos buracos do asfalto.
A feijoada estava boa. Não é de admirar. A minha mãe tem boa mão para a cozinha. Repeti. Não me engasguei com nenhum osso nem a minha mãe com as couves – a minha mãe tem historial com engasgar-se com couves. Havia vinho para acompanhar a feijoada, que foi todo para mim. A minha mãe desculpou-se com o facto do corpo não lhe estar a pedir vinho e acompanhou a feijoada com um panaché que fez ao misturar uma mini com um bocado de Seven Up.
Depois do almoço a minha mãe foi fazer uma sesta. Eu também me sentia sonolento, mas não fui dormir. Levantei à mesa e lavei a louça. Não parti nenhum prato nem nenhum copo. Depois saí de casa sem fazer barulho.
Voltei a cruzar a cidade. Enquanto caminhava pensei que era Domingo. Não iria receber nenhuma carta com contas para pagar. Não iria receber nenhuma carta de nenhum advogado a reclamar a pensão de alimentos de nenhuma das minhas ex-mulheres. Não iria ouvir nenhum raspanete de nenhum chefe, director nem patrão.
Passei pelo jardim e não fui assaltado. Cruzei várias vezes a estrada e não fui abalroado por nenhuma trotineta. Encontrei uma nota de vinte euros perdida no passeio. Fui tirar tabaco a uma máquina e estava lá um maço. Precisamente a marca que eu fumo. Mas até poderia ser outra.
Passei ao lado de um estaleiro e não me caiu nenhum andaime em cima. Não me cruzei com nenhum credor nem ex-namorada zangada e maldisposta. Não levei com nenhuma cagadela dos pombos que invadiram a cidade.
Andei por ruas que não conhecia e não me perdi. Comprei castanhas na senhora das castanhas e contei três a mais que a dúzia que tinha pago.
Ao chegar a casa dei conta que tinha começado a chover na rua. Sentei-me no sofá. Liguei a televisão. Estava a dar um filme do 007. Fiquei a ver até adormecer. Quando acordei, fui comer uma maçã. Não tinha bicho. Lavei os dentes e não fiz sangue nas gengivas.
Deitei-me. E enquanto estava deitado, de barriga para cima a ver o rasgo de luz projectado do exterior pela janela mal fechada, pensei como o dia me tinha corrido bem. Não me tinha acontecido nenhuma desgraça.
Não acredito nas sorte e nos azares do destino. Mas este dia 02 do 02 de 2020 foi um dia muito simpático para comigo.
Às vezes penso que faço parte de uma certa ordem cósmica que me quer preservar para além dos problemas do dia-a-dia desta vida comezinha. Mesmo que não acredite em nada do que estou para aqui a dizer.
Amanhã já sei que vou torcer o tornozelo mal coloque o pé no chão ao sair da cama. Se calhar é melhor não me levantar.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/02]

Por Onde Anda a Minha Vida?

São nove da manhã. Já passa das nove da manhã. Passeio-me pela marginal. Passam umas carrinhas de mercadorias. Vêm abastecer as lojas dos retalhistas. Mas são o único sinal de vida que se vê. Os cafés da marginal estão já a funcionar, vê-se as luzes acesas no interior, mas as esplanadas estão fechadas. Não há ninguém a entrar nem a sair. Do interior não se percebe nenhum movimento, nenhuma forma de vida. Está frio e ameaça chover. Não vai haver clientela para as esplanadas.
Páro na calçada e olho para o mar. Está bravo. Ouço, ao longe, o terrível barulho que as ondas fazem ao bater na areia. Suspiro. Chego o casaco mais ao pescoço. Avanço pelo areal. A praia está deserta de gente. Há algumas gaivotas. Passo ao lado delas mas ignoram-me. Estão encolhidas. As cabeças enfiadas dentro do corpo. Deve ser do vento. Do frio. Talvez do temporal que se antecipa no mar. Chego-me mais à frente. Mas não muito. O vento traz até mim pingos das ondas. Pingos salgados das ondas estilhaçadas em milhares de pequenas gotículas. Sinto-as nos lábios. A língua vai lá automaticamente. Sento-me na areia. Sento-me numa espécie de pequena duna sobre o mar. Vejo, e ouço, o concerto das ondas a baterem na praia. É um barulho ensurdecedor. O mar pode ser violento. Mete respeito. Gosto muito do mar. De lhe mergulhar. De alongar braçadas e nadar acima-abaixo nas suas ondas de carrossel. Mas tenho-lhe respeito. Por vezes pode ser muito assustador. Já alguma vez estiveram à beira-mar, na costa atlântica, durante uma noite de Inverno, em plena tempestade? É lindo , lindo de se ver, mas ao mesmo tempo, terrível. É um sinónimo do medo. Um belo-horrível.
Lá mais ao fundo vejo as rochas a serem fustigadas pelas ondas gigantes. Imagino que, do outro lado do cabo, já devam andar alguns surfistas à cata das boas ondas.
Sinto uns pingos a tombarem-me em cima. Não é a maresia nem as gotas das ondas do mar. Olho para o céu cinzento e percebo que está a começar a chover. Há uma gota que me cai em cheio num olho. Praguejo. Coloco o carapuço do casaco sobre a cabeça. Levanto-me da areia. Deixo o mar nas minhas costas e regresso à calçada da marginal. Passo aos lado das gaivotas que continuam como estavam, mas agora parecem bonecos de decoração. Estão muito quietas com a chuva a cair-lhes em cima e o olhar fixado no mar. Mais uma vez sinto-me ignorado e percebo que é uma constante na minha vida. Eu sou um tipo ignorado. O tipo que passa ao lado de tudo e de todos como se não existisse. Penso muitas vezes que, se morresse, morria sozinho e ficava lá, onde quer que ficasse, até ser descoberto por um acaso, por alguém que passasse por lá. Imagino o meu funeral, feito numa carrinha a alta velocidade pela cidade, sem cortejo, sem companhia. Imagino o meu caixão a ser enterrado numa cova rasa sem nenhuma palavra de conforto à minha alma, sem nenhuma palavra de agradecimento às sementes que fui lançando à Terra na minha passagem por aqui. Imagino uma cena triste e muito pobre. Uma cena muito solitária. Uma cena muito filme neo-realista italiano. E um velho, magro e cansado, de respiração ofegante, a mandar-me terra para cima do caixão para impedir que eu retorne a uma vida que nunca me quis. Estes dias cinzentos e chuvosos de Inverno têm tendência a deprimir-me.
Chego à calçada da marginal já a chuva vem com toda a força. Sinto o jipe da capitania a passar atrás de mim. Levam as luzes ligadas a girar no tejadilho do carro. Onde irá? Olho para trás e vejo as gaivotas ainda paradas, imóveis, debaixo deste enorme chuveiro. Não percebo porque é que não fogem da chuva e do jipe e não se vão abrigar. Onde irá o jipe?
Olho para o outro lado da estrada e vejo a luz interior da Batel. Cruzo a estrada em passo de corrida, não para fugir aos carros, que não passam, mas para escapar à chuva que cai abundantemente.
Entro na pastelaria e sopro duas ou três vezes com força para me livrar do cansaço da pequena corrida. Sacudo o casaco. Molho o chão à minha volta. Vou ao balcão e peço Um café e uma sardinha, se faz favor. Mas não me corte a sardinha. Gosto dela inteira. E depois sento-me junto ao vidro da grande montra e fico a olhar lá para fora. E vejo a chuva, as gaivotas, as ondas furiosas do mar. O jipe da capitania desapareceu. E pergunto-me onda anda a minha vida.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/16]

O Brinco

Todos os dias era a mesma coisa. Antes de entrar, tirava o brinco da orelha. Depois, mais tarde, ao final do dia, quando saía, voltava a colocá-lo.
Era estranho. Eu não contactava com o público. Aliás, eu não contactava com ninguém. Mas tinha de tirar o brinco. Não podia entrar na empresa de brinco na orelha. Brinco na orelha era coisa de bicha, paneleiro, pirata ou marginal. Nenhum destes poderia trabalhar ali onde eu trabalhava.
Para além de mim só havia mais outro como eu, com o qual me cruzava por duas ou três horas por dia, que eram as horas em que os nossos turnos se sobrepunham. Depois havia um velhote, o chefe, que já estava por ali quando a empresa começou, e que nos dava algumas ordens, o que é que poderíamos fazer quando aquilo para o qual tínhamos sido contratados estava feito. Era um velhote simpático com o qual almocei algumas vezes e com quem acabei por ter algumas conversas interessantes. Não tinha muitos estudos, mas compensava com uma vida cheia.
Passava a maior parte do meu horário de trabalho fechado numa cave a contabilizar senhas de refeição. Era impressionante a quantidade de senhas que entravam diariamente. Nunca teria imaginado que circulava tanta senha de refeição pelo país. Todos os dias havia sempre uma quantidade de senhas suficientes para me dar trabalho a mim e ao meu colega, trabalho que fazíamos em turnos diferentes e alternados. Havia uma máquina que contabilizava as senhas e o valor que elas tinham. Nós só tínhamos de organizar pequenos grupos, bem alinhados, sem dobras, nem agrafos, e metê-los na passadeira da máquina que os ia ler electronicamente.
Aquilo tinha sido um trabalho arranjado. Alguém conhecia alguém que conhecia alguém que conhecia a minha mãe. E foi assim que fui contratado. Não foi por causa das minhas competências, boas, nem por causa dos meus estudos, superiores. Foi um trabalho que arranjei porque conhecia alguém e alguém precisou de fazer um favor a alguém e eu fui o favor. Mas era um trabalho de cão. Não era necessário grandes competências.
Aquele era um trabalho quase solitário. Ninguém me via e eu não via ninguém. Um dia o chefe, o velho, mandou-me ao escritório, dois andares acima, para ajudar uma secretária a fazer não-sei-o-quê. Subi dois andares de escadas. Abri a porta e entrei num escritório. Eram só mulheres. Novas e velhas. Todas giras. As mulheres são sempre todas giras. Também gostava de ser mulher para ser gira. Bom, mas fui lá para ajudar uma das secretárias a levar uma grande quantidade de folhas para um outro escritório, três andares mais acima, este já com janelas panorâmicas sobre a cidade, e que era ocupada por um homem. E foi nessa altura que pensei porque é que não podia usar brinco. Para poder subir todos estes andares da empresa e não chocar ninguém com as minhas modernices. Os tempos eram outros. Os homens não usavam saias. As mulheres ganhavam menos que os homens. Os meninos usavam bibe azul e as meninas usavam bibe rosa. E depois lembrei-me do colégio católico onde estudei, um colégio de freiras, colégio misto, em que todos os alunos usavam batas brancos e não havia distinção entre meninos e meninas. E foi então que pensei que fui um miúdo com sorte. Na verdade, a minha vida era uma merda, mas não me podia queixar de ter tido uma má vida. Antes pelo contrário. Sempre tive uma boa vida que foi olhando por mim e teve o cuidado de me manter sempre no lado correcto. Da vida, percebem? Não da morte. Não do ódio. Não da competição. Não do ter de ser melhor que os outro. Da vida! Fui um filho da vida. Da boa vida.
Habituei-me a tirar o brinco da orelha que já fazia em andamento, metros antes de entrar pela porta da empresa. Não era um grande brinco. Era uma simples argola de prata. Uma argola nem muito pequena, nem muito grande. Uma argola que eu já nem veria se não tivesse de a tirar da orelha todos os dias.
No último dia em que trabalhei naquela empresa fui de brinco. Subi ao andar das secretárias. E fui muito elogiado pelo brinco. Especialmente pelas mais velhas. Algumas convidaram-me para almoçar. Lanchar. Jantar. Na tasca lá ao lado. Numa pastelaria da baixa da cidade. Em casa delas. Eu sorri. Agradeci. Mas declinei todos os convites. Disse que tinha namorada, que ela era muito ciumenta e que elas eram todas demasiado bonitas para que a minha namorada não fizesse uma cena de ciúmes. Passaram a gostar ainda mais de mim. Eu ouvi os suspiros que foram largados.
Quando me fui embora, e eu estava no turno da manhã, por isso todas elas estavam ainda a trabalhar, vieram despedir-se de mim. Fizeram um corredor e fui obrigado a beijá-las a todas antes de sair. A maior parte delas nunca me tinha visto antes daquele dia. Mas isso não serviu de nada. Todas quiseram o seu beijo. E eu beijei-as todas.
Nunca mais na minha vida tive de tirar o brinco. Nem sei se ainda o consigo tirar da orelha.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/26]

Um Corpo a Boiar no Rio

Vi o corpo a boiar no rio. Uma massa disforme. Estava preso nuns ramos mais baixos das árvores. Uns ramos que roçavam o leito do rio. Parecia-me o corpo de uma mulher, mas não tinha a certeza. Não conseguia aproximar-me mais do corpo. Só se entrasse dentro de água. Mas não quis molhar-me.
Caminhava ao longo das margens do rio quando vi o corpo a boiar. Parei. Espreitei. Aproximei-me o mais que pude, o que não era muito, e confirmei que era um corpo. Um corpo a boiar no rio Liz.
Telefonei para o Cento e Doze.
Chegou a polícia. Os bombeiros. O INEM. Mais tarde a equipa forense da polícia judiciária.
Eu mantive-me lá por perto. A observar tudo. Disse aos primeiros polícias a chegar que tinha sido eu a lançar o alerta sobre o corpo. Os polícias esperaram os bombeiros para puxarem o corpo para a margem.
Acendi um cigarro. Os bombeiros puxaram o corpo. O INEM confirmou a morte. Alguém da equipa forense mandou-me sair dali e apagar o cigarro. A polícia estendeu uma fita de plástico a demarcar área. A equipa forense montou uma tenda de plástico na margem desnivelada a cobrir o corpo.
Juntou-se gente. Curiosos.
Mas já não se via nada de interessante. Só gente a acotovelar-se junto à fita de plástico demarcadora. Polícias de olhar acutilante. Os bombeiros foram-se embora. O INEM também. Agora tudo pertencia à equipa forense.
Tudo o que interessava estava a acontecer dentro da tenda em desnível na margem. Fora dos olhares curiosos.
Olhei em volta. Não se passava nada. Não se passava mesmo nada.
Fui embora. Fui até aos Jardins do Liz beber um café. Já eram oito e meia da manhã. A cidade já estava acordada e a funcionar.
Pedi uma bica curta e percebi que, entre os empregados, havia algum desagrado. Tinha faltado uma empregada. A empregada que devia ter aberto a pastelaria. E que não abriu. Não apareceu. Não atendia o telemóvel. Ninguém sabia onde estava.
Eu sabia.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/28]

Arrasto-me

É Domingo e arrasto-me por casa. Vejo o sol muito amarelo a brilhar pouco na rua. Não sinto o calor que estava à espera de sentir. Já não sei se o Verão acabou se está para durar. O ano passado levei o Verão quase até Dezembro. Agora estou em Setembro e arrasto-me por casa com calças de fato-de-treino e camisola de mangas compridas. Não sinto o conforto que costumo sentir.
Acabei de comer umas torradas com pão de sementes, do Pingo Doce, e beber um chá frio de ibisco. Fiquei enjoado. Agora até o chá me enjoa. Pode ter sido o pão. A manteiga. A geleia. O frango assado que comi ao almoço com couve-coração regada com um fio de azeite.
Pensei em descer à rua e ir beber um café à pastelaria. Mas não me apetece sair de casa. Parece que o elevador avariou. Ouvi a campainha tocar bastante. Vozes zangadas. Tenho ouvido passos a subir e a descer as escadas ao longo do dia. Não me apetece descer à rua pelas escadas. Depois vou ter de as subir. Sinto-me demasiado cansado. A minha mãe, se fosse viva, haveria de perguntar Mas cansado de quê? Ao que eu haveria de responder Nem sei, mãe! Nem sei!
Vou à janela. Acendo um cigarro. Sabe-me mal. Mas continuo a fumar. Tusso um bocado. Mas aguento. Um homem aguenta tudo.
Acho que ando a perder cabelo. Tinha a almofada cheia de cabelos, hoje de manhã. E só podem ser meus. Ninguém mais lá tem dormido.
Fui mordido no braço. Talvez um mosquito. Tenho uma bolha que me provoca comichão. Tenho de pôr Fenistil gel. Tenho de ir ao quarto. Mas primeiro acabo de fumar o cigarro.
Ontem vi um bailado fantástico na RTP2. Foi por puro acaso. Giselle. Giselle de Akram Khan. Uma actualização da peça. Uma música assustadora. Doentia. Mas no bom sentido. A peça fez-me enervar, o que foi bom. Geralmente dá-me tédio. Ontem enervou-me. A música fez-me acelerar as batidas do coração. Demorei a adormecer. Revi a peça toda na cabeça. Acabei por adormecer no meio daquelas mulheres em pontas. A tremelicar. No meio daquele ambiente cinzento e muito triste. Gosto da tristeza. Acordei com a vontade de fumar um cigarro. E foi o que fiz. Vim para aqui onde estou agora. A fazer exactamente o que estou a fazer agora. A olhar triste para a rua a espreguiçar-se no seu Domingo.
Há muitos anos, neste dia, estaria, com o meu pai a ver um jogo de futebol da União de Leiria. Gostaria de voltar a esses tempos. Onde tudo era tão mais simples. Eu não me sentia cansado. Nem enjoado. O cabelo não estava a cair. E gostava dos Domingos.
Devia ir ler um bocado. Ir buscar o Fenistil e ir ler um bocado. Não sei o quê. Ler alguma coisa. Talvez os Cinco. Os Sete. Talvez um livro do Tio Patinhas em português do Brasil.
Mando o resto do cigarro para a rua. Sento-me no sofá e ligo a televisão. E deixo-me ficar por aqui. Já vou buscar o Fenistil. E o livro. Vou só descansar um bocadinho em frente à televisão. O que é que estará a dar na CMTV? Os Domingos são dias de gala televisiva, não?

[escrito directamente no facebook em 2019/09/22]

Caído no Chão sem Me Conseguir Mexer

Estou caído no chão da cozinha e ouço os cães a ladrar lá ao fundo.
Não me consigo mexer. Estou caído no chão da cozinha e não me consigo mexer. Vejo o fumo que o cigarro que tinha na mão ainda deita. Vejo-o subir pelo ar e desaparecer. Apetecia-me ter fumado aquele cigarro. Apetecia-me fumar um cigarro.
Não sei o que me aconteceu. Estava a fumar um cigarro aqui, à janela, e, de repente, fiquei paralisado, comecei a transpirar muito, senti muito calor, senti todas as gotas de suor que começaram a descer por mim abaixo, senti as pernas a tremer, a fraquejar, perdi a força nas mãos, deixei de sentir os dedos, o cigarro caiu para o chão e a seguir caí eu. Caí no chão.
Não consigo falar. Nem gritar. Não consigo mexer nada. Não, mentira, consigo mexer os olhos. É a única coisa que consigo mexer. Os olhos. E posso olhar em vários sítios, os sítios onde os olhos podem alcançar dentro das órbitas.
Não perdi os sentidos. Estou consciente. Assustado, mas consciente.
Agora começo a ouvir os carros na rua. É estranho como só ouvia os cães a ladrar e, agora, o barulho dos carros a passar na rua está a fazer-me deixar de ouvir os cães.
Já não vejo o fumo do cigarro a subir para o tecto. Já deve ter-se apagado. E eu não o fumei.
Queria fumar um cigarro.
Queria não estar aqui assim, caído no chão sem me conseguir mexer.
Queria não estar sozinho em casa para ser socorrido.
Queria estar à janela a fumar um cigarro e a olhar para as pessoas que entram e saem da pastelaria da rua.
Queria ir à Lua. Queria ir a Marte. Queria ir à Terra do Fogo.
Queria ter escrito o Space Oddity.
Queria ter escrito A Mancha Humana.
Queria ter pintado o No.301.
Queria ter dançado o Lago dos Cisnes.
Devia sentir as costas frias e húmidas da transpiração e do chão da cozinha. Mas não sinto nada. Continuo sem sentir nada. Continuo sem conseguir mexer-me. Pareço morto. Um morto consciente.
Não virá ninguém cá a casa.
Vão passar as horas.
Se calhar, os dias.
Vou sentir fome. E sede. E uma vontade diabólica de fumar um cigarro.
E eu vou estar aqui assim, caído, paralisado, consciente.
A luz mudou. A luz lá de fora mudou e alterou a luz aqui de dentro. Já é noite.
Agora ouço o som de conversas. As conversas sobrepõem-se ao barulho dos carros. A ruas devem estar cheias de gente a passear. A passear a pé.
As horas estão a passar. Gostava de me passear também pelas ruas da cidade. Gostava de me passear debaixo das luzes de néon da cidade. E fumar um cigarro.
Mas continuo aqui. Não sinto o meu corpo. Não sinto nada. Não… Sinto medo.
O que é que eu posso fazer?

[escrito directamente no facebook em 2019/09/19]