O Prego

Eu olhava o pé e via o prego lá espetado. Havia sangue a escorrer para os lados.
A minha mãe tinha-me avisado Não andes descalço, rapaz! e eu, enfadado, dizia Estou de chinelos, mãe! ao que ela respondia É a mesma coisa!
Ela tinha razão. Nos sítios por onde eu andava, naquele Verão quente e solitário, o único miúdo da rua a ficar em casa nas férias, não havia dinheiro para os habituais quinze dias na praia da Vieira, andar com aqueles chinelos de borracha de enfiar no dedo era o mesmo que andar descalço.
E era.
Quando pisei a tábua com o prego, comprovei. O prego furou a borracha e o meu pé como se cortasse manteiga quente. Só dei por ela quando o prego estava já todo enfiado.
Nem percebi.
Andava pelos estaleiros da rua. Tempos de prosperidade no país. Novas casas. Novos prédios. Novas ruas. Nunca se tinha visto nada assim ali na zona.
Nós, eu e os outros, subíamos ao alto dos prédios e voávamos para os montículos de areia que estavam por ali, como pequenas dunas, à espera de fabricarem cimento. Quem não voasse era medricas. Quem é que não voava?
Naquele Verão solitário vagueava por lá, a fazer tempo, a queimar dias até à chegada dos outros miúdos, parceiros da bola.
De manhã ficava em casa a ler. Li muito nessas férias. Depois de almoço, saía de casa e aventurava-me sozinho pelas ruas novas. Os calções a cair pelo cu abaixo, os chinelos a bater na planta dos pés, chlep-chlep.
Procurava tubos de PVC para fazer cornetas. Martelos perdidos. Cheguei a trazer uma porta de madeira, dois cavaletes e uma plaina.
Já me tinha arranhado. Nunca tinha espetado um prego no pé.
Agora já tinha um. Olhava para ele. O prego espetado no pé. O sangue a cair. Comecei a sentir náuseas. Dor de cabeça.
Pensei Puxo o pé de uma vez.
Tentei, mas não consegui. Não consegui sequer mexer o pé.
Lembro-me da primeira vez que voei para um monte de areia. Saltei do primeiro andar. De uma varanda aberta de um primeiro andar. Lembro-me de me sentir o Super-Homem enquanto voava da varanda para cima do monte de areia. Um pássaro. Um avião. Eu!
Baixei-me para ver o tamanho do prego. O tamanho do buraco. A quantidade de sangue. Senti o olhar fugir. A cabeça começou a rodar numa espiral. O sangue desapareceu. O prego desapareceu. O buraco não existia. Doía-me a barriga. Chegaram os vómitos.
Eu disse, baixinho Mãe!
E ouvi-a dizer Eu avisei-te! mas se calhar imaginei.
Vomitei. E depois senti que o chão já não existia debaixo de mim e o mundo era uma mancha preta no vácuo.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/30]

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Dez de Junho

Sinto-me preso. É o dez de Junho, o Dia de Portugal, o Dia de Camões, o Dia das Comunidades Portuguesas pelo mundo e eu sinto-me preso.
Estou num pântano. À minha volta charcos de água choca, mal-cheirosa. Pedaços de árvores caídas, partidas. Folhas a voarem. E lixo. Sacos de plástico. Sacos de plástico com motivos de supermercados. Sacos de plástico que custam dez cêntimos a unidade a voar, entre as folhas, como as folhas, de charco para charco, à procura de pouso.
Puxo um pé enterrado no lodo. Custa puxar o pé. Tirá-lo cá para fora. Tirá-lo cá para fora com botas e meias. Mas consigo. E mal o tiro, volto a enterrá-lo todo de volta nesta lama viscosa que me tenta engolir.
Não ouço um pássaro. Não vejo um animal. Não há um peixe aos meus pés. Nem um crocodilo que me queira puxar para as profundezas do charco e deixar-me apodrecer até querer ferrar-me o dente.
Estou preso e estou sozinho.
É o dez de Junho.
É o Dia de Portugal e estou sozinho neste país. Já ouvi muita gente falar. Agora está tudo em silêncio. Não há ninguém para dizer o que quer que seja. Não há ninguém que tenha qualquer coisa para dizer. Já se disse muito. As palavras perderam sentido. Nada queria alguma coisa. E tudo desapareceu. O país desintegrou-se. Entre as elites corruptas e a população desinteressada, foram todos atrás do flautista e lançaram-se ao mar no Canhão da Nazaré. Fiquei cá eu. Sozinho. Porque estava preso na lama. Com os dois pés presos. E sempre que conseguia tirar um, voltava a enterrá-lo. O caminho foi duro e cheguei tarde ao mergulho no Atlântico. Fiquei sozinho, não porque era mais inteligente que os outros, mas porque mais lento, mais parvo, mais idiota.
É o dez de Junho.
É o Dia de Camões e só me recordo da Taprobana, das ninfas do canto nono que não quiseram que eu lesse na escola e na pála negra no olho morto que recordo do filme de Leitão de Barros. Valha-me a memória do cinema tão mal-amado para me recordar uma vida morta e esquecida em compêndios que ninguém quer ler.
Que interessa o Luís Vaz de Camões e Os Lusíadas a uma terra queimada deserta de gente, de povo, de ideias?
Onde se enfiou toda a gente?
É o dez de Junho.
É o Dia das Comunidades que estão todas por aí, espalhadas pelo mundo. São estes os que foram à procura de mundo porque não encontraram cá nada para eles. Este mundo expulsou-os lá para fora como enteados.
Este é um país que não é pai. Este é um país que já não existe.
Ou sou eu que não o compreendo?
Estou sozinho.
Estou sozinho neste dez de Junho a tentar não sucumbir ao que vejo. E o que vejo eu? Um litoral a tombar no mar. Precipícios, penhascos, florestas, apartamentos, hotéis, campos de golfe à beira-mar que se separam do continente, se desfazem e caiem à água. Provocam ondas gigantes e levam um tsunami à América de Donald Trump.
Estou sozinho neste pântano mal-cheiroso. Estou sozinho e preso. Preso na lama que resta. Preso na lama que restou deste jardim à beira-mar plantado.
E para onde foi toda a gente? Para onde foram as pessoas? Caíram realmente todas no Canhão da Nazaré?

[escrito directamente no facebook em 2019/06/10]