A Última Vez que Andei de Skate

Começava logo de manhãzinha, no meio da rua, a chamá-lo. Aos berros. Para se ouvir bem lá em cima, no terceiro andar onde ele vivia com os pais. Mas não o chamava pelo nome que os pais lhe tinham dado à nascença. Chamava-o pelo nome de rua. Era assim que ele era conhecido, era assim que o conhecíamos, e evitávamos que aos primeiros berros cá de baixo, do meio da estrada, os pais fossem logo à janela para ver quem eram os amigos malcomportados do filho. Eu não era malcomportado. E os pais dele conheciam-me. Até eram amigos dos meus pais. Nós chegámos a ir de férias um com o outro quando éramos mais miúdos. Agora já não íamos de férias juntos com os pais de um ou de outro. Agora já éramos demasiado crescidos e, bem vistas as coisas, demasiado insuportáveis. Mas nas férias, eu ia ali ao prédio dele chamá-lo, aos berros, e depois, pouco tempo depois, lá aparecia ele, a cruzar a porta de vidro de entrada do prédio, com o skate na mão e íamos por ali fora, a voar pelo asfalto, às vezes a descer até à cidade. Mas voltávamos sempre à hora do almoço. Íamos sempre almoçar a casa. Cada um almoçava na sua. Durante a semana não podíamos almoçar em casa dos outros porque os pais não tinham tempo para nos aturar. Só ao fim-de-semana. E não todos. E então, quando estávamos na cidade, regressávamos agarrados aos pára-choques dos autocarros urbanos e subíamos até casa. Às vezes a polícia passava e tínhamos de andar a fugir. Era sempre uma chatice porque corríamos o risco de chegar atrasados ao almoço e isso tinha sempre consequências. O confisco do skate. E da bicicleta. Às vezes uma multa pecuniária que se resolvia numa diminuição da mesada.
A última vez que descemos à cidade foi num dia assim como o de hoje. Um dia de Agosto. Quase meio do mês. Eu e ele estávamos a gastar os últimos cartuchos. Depois tínhamos quinze dias de martírio com os nossos pais no Algarve. Cada um no seu lado do Algarve. Ele em Lagos. Eu em Tavira. Ele numa casa que o pai tinha comprado há muitos anos em time-sharing. Eu a acampar na ilha de Tavira. Os meus pais eram assim um pouco freaks e gostavam da natureza. Eu não gostava muito. O chão fazia doer-me as costas, mas não tinha outro remédio. O que me causava maior confusão era ir à casa-de-banho onde ia toda a gente e onde havia sempre muita gente e onde se ouvia os barulhos de toda a gente. Um horror.
Era então um dia assim, um dia chocho de Agosto. Ameaçava chuva e acho que até acabou por chuviscar um pouco.
Nesse dia fui chamá-lo como chamava normalmente, cá de baixo da rua, chamando-o pelo nome de rua, e pouco depois ele apareceu, cruzou a porta de vidro do prédio com o skate debaixo do braço. Fomos andar pelas ruas do bairro, como fazíamos normalmente. Depois ele disse Bute até à cidade? E eu respondi Yeah! e fomos até à cidade, a descer em alta velocidade a estrada de asfalto que ligava o bairro ao centro da cidade. Depois passeámos pela zona histórica. Roubámos umas laranjas numa mercearia e fomos comê-las para a praça. Andámos de skate na zona nas praças de pedra lisa. Competimos com outros miúdos de outros bairros da cidade. Íamos andando ao estalo, mas não chegámos a tanto. À hora do almoço decidimos ir embora. Corremos até à paragem do autocarro e esperámos. Quando o autocarro chegou, engoliu as pessoas e partiu. Nós partimos com ele.
A meio da viagem, um carro da polícia apareceu por trás do autocarro, por trás de nós, e ligou a sirene. Eu, que estava junto ao passeio, larguei o pára-choques e fugi logo pelas ruas adjacentes. Ele tentou fazer o mesmo mas, estava no meio da estrada, tentou correr para o passeio do outro lado e, ao cruzar a estrada, com o skate debaixo do braço, foi abalroado por uma camioneta de distribuição de cigarros. Eu ainda me virei para trás e vi-o voar. Mas não parei. Não parei de correr. Não parei de correr até chegar a casa, ir à casa-de-banho lavar as mãos e a cara e olhar para mim no espelho da casa-de-banho e fazer-me acalmar, acalmar o meu coração que parecia querer saltar fora do corpo. Depois fui sentar-me à mesa da cozinha e almocei com os meus pais e a minha irmã. Acho que foi aí que vi que estava a chover. Mas não tenho a certeza.
Nessa tarde a minha mãe veio dizer-me que ele tinha morrido. Tinha sido atropelado e tinha morrido ainda na rua, antes de chegar a ambulância. Eu não disse a ninguém que estava com ele e que o vi ser atropelado. Dois dias depois fui para o Algarve com os meus pais. No regresso, arrumei o skate no meio das tralhas da garagem. Nunca mais andei de skate. Nesse ano, depois do começo das aulas, conheci a minha primeira namorada. Às vezes ainda penso nele. Mas já não me recordo do som da sua voz. Já não me recordo da sua cara. Já não recordo do seu nome de rua.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/16]

O Acampamento

Os primeiros apareceram por aí está agora a fazer um ano. Vieram para o terreno aqui em frente. Um terreno abandonado. Acho que tem dono, mas nunca o vi por aqui. Cresce o mato. No Verão é um ninho de cobras. No Inverno impera a lama. De vez em quando vinha aqui um tractor cortar o mato. Mas ultimamente não tem vindo.
Os primeiros a chegarem foram as caravanas. Ao início pensava que eram caravanas a caminho das praias. Da Nazaré. Da Vieira. De Paredes de Vitória. Mas o tempo foi passando e elas não arredavam roda. Cada dia iam chegando mais. Depois começaram a aparecer as tendas. Primeiro as grandes, familiares. Mas depois também canadianas.
O baldio aqui em frente parecia ter-se transformado num parque de campismo selvagem. A GNR ainda aqui veio algumas vezes. Chegaram até a conseguir pôr toda a gente fora. No dia seguinte estava cá tudo outra vez. Isto aconteceu umas duas ou três vezes. Depois a guarda deixou de os incomodar. Passam por aí, entram lá dentro, dão uma olhada, e vão embora. Às vezes param o jipe. Saem. Dão uma volta a pé. Mão na coronha da arma. Ou no cassetete. Falam com um ou outro. E vão embora.
Foi quando começaram a chegar os que não tinham nada que percebemos o que é que estava a acontecer.
Começaram a surgir umas casas em cartão. Casas feitas com caixas de cartão, das grandes. Depois apareceram placas de esferovite. De contraplacado. Umas placas de zinco. Fizeram um poço. Colocaram uma torneira.
Nasceu um bairro. Nasceu um bairro aqui mesmo em frente. Um bairro espontâneo. Um bairro de deserdados. Gente escorraçada. Gente sem casa. Sem trabalho. Gente sem eira nem beira. Gente que não tinha mais para onde ir. Foram-se encostando uns aos outros, por aí.
No início tentaram saltar o muro aqui de casa para virem às maçãs e às laranjas. Mas o cão assustou-os. Deixaram de saltar o muro. Até porque há algumas árvores espalhadas por aí, pelos terrenos. Há muita árvore de fruta por aí. Fruta que se perdia pelo chão. Apodrecia. Agora não. Agora eles não lhes dão tempo para apodrecer. Eu quando tenho fruta penduro uns sacos no muro para eles levarem. E eles levam.
Alguns deles trabalham nas fábricas aqui à volta. Trabalham ao dia. À jorna, não é? Mas a maior parte passa os dias por aí, às voltas. Não há muito trabalho. Vão à taberna. Bebem um bagaço. Um café. Já houve alguma tensão. Umas conversas mais azedas. Mas nunca houve desacatos.
Às vezes vejo aí chegar uns carros. Estão lá parados, motor a trabalhar, e depois arrancam. Também já vi algumas pessoas da aldeia a ir dentro do acampamento. Não é muito difícil adivinhar o que é que lá vão fazer. Mas esta gente tem de viver de alguma coisa, não é?
A Junta de Freguesia já colocou lá umas casas-de-banho portáteis. É preciso é que lhes faça a manutenção.
Mas o terreno começa a rebentar pelas costuras. Cada vez chega mais gente. E a gente que chega está em piores condições que os que já lá estão. Há demasiada gente a viver mal num terreno cada vez mais pequeno. Um dia destes vão haver problemas. Em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão.
Há dois meses comprei uma caçadeira.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/11]

Led Zeppelin

Era Verão. Eram as férias de Verão.
Era uma guitarra acústica nas mãos de um gajo qualquer. Era o Stairway to Heaven nos ouvidos das miúdas. Eram as miúdas enroladas, na areia da praia, à noite, nas mãos dos gajos que tocavam, mal e porcamente, aquelas notas.
Era a praia à noite. Talvez em São Pedro de Moel. Mas também podia ser na Nazaré. Ou no Pedrogão. Era a praia à noite. O barulho das terríveis ondas atlânticas a fustigar a praia. Não via o mar. Mas via a fogueira a arder na areia da praia. As meninas de longos cabelos aloirados pelo sol. Os meninos loiros de Wax. As camisolas coloridas da Benetton penduradas pelas costas, atadas num frágil nó ao pescoço. E um cabeludo. Um cabeludo de caracóis e guitarra na mão fascinava as miúdas com uma música xaroposa. Daquelas para o coração. Daquelas de paixão. Daquelas capazes de abrir as portas do paraíso a qualquer imbecil.
Era Verão. Era a praia à noite. E eu não sabia tocar guitarra.
Ainda tinha cabelo. Cabelo comprido. Aos caracóis. Castanhos. Era magro. Bastante magro. A minha mãe dizia, num determinado período, que eu era pele-e-osso. Podia ser um músico. Um gajo dos Led Zeppelin. Podia ser uma estrela rock. Podia!
Não sabia tocar guitarra. Nem mais nada. Talvez a porra da campainha da casa dos vizinhos em quem me vinguei por não saber tocar mais nada. Não sabia cantar. Nem sei. Desafino. Desafino!? Não chego sequer a desafinar porque a voz foge-me antes de desafinar.
Estava na praia. Numa praia qualquer destas cá para cima. Para cima do Tejo. Para baixo do Mondego. Estava na praia, sentado na areia, a fogueira a arder, a ouvir um tipo a tocar o Stairway to Heaven e a assar umas chouriças e a fazer tempo para ir à padaria comprar pão fresco, quente-e-fofo, que iria barrar com Planta roubada no supermercado do Parque de Campismo. Alguém passou um cachimbo de prata. Um pequeno cachimbo feito com a prata dos maços de cigarros. Os maços de hoje não dão para isso. Na altura dava. E eu fumei. Enchi os pulmões de fumo. Prendi-o. Inspirei mais. Rebentei em tosse. Passei o cachimbo ao lado. A uma mão qualquer ao lado. Deitei-me na areia. Ouvi as notas do Stairway to Heaven e desatei a rir. E disse Mas isto é uma merda! Uma merda do caralho! e mal cheguei a casa, no fim das férias, fui a correr comprar o duplo álbum em vinil, The Song Remains de Same para ouvir, até à exaustão, a tal música de praia que punha as miúdas a rebolar na areia.
No Natal acabei a pedir uma guitarra ao Pai Natal. Ele não me ouviu. Nunca aprendi a tocar guitarra. Mas continuei a ouvir Led Zeppelin.
Anos mais tarde, refiz a colecção toda dos Led Zeppein em CD’s especiais com discos extra, gravações ao vivo e assim. Não voltei a comprar The Song Remains the Same.
É Inverno. É Inverno e chove lá fora.
Estou à lareira. A ver a lareira a arder. A ouvir o crepitar da madeira a queimar que se mistura com o Black Dog. Cresci. Envelheci. Ainda tenho cabelo. E cada vez gosto mais dos Led Zeppelin. Mas nunca mais ouvi o Starway to Heaven. Amores de Verão enterram-se na areia. E eu estou no meu Inverno. Rock and roll.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/19]

Nunca Mais a Vi

Tinha os olhos semicerrados. Via uma vasta linha horizontal. Água. O mar. O mar calmo. O reflexo do sol pontilhado ao longo do mar até se perder no horizonte. Muita claridade. Era difícil ter os olhos abertos.
Tinha ido aos Capuchos, em Leiria. Tinha ido ter com uns amigos a casa deles. Uns amigos que não via há muito tempo. E que continuei sem ver. Cheguei ao bairro e não arranjei lugar para o carro. É mais difícil encontrar estacionamento nos Capuchos que acertar nos números do Euromilhões. Fui andando, andando, andando à procura de lugar para estacionar e, quando dei por mim, estava na Nazaré.
Fui à praia.
Sentei-me na toalha. Semicerrei os olhos e olhei o horizonte. Depois deitei-me e deixei-me adormecer.
Acordei com os gritinhos de uma criança. Maldita criancinha.
Ergui-me na toalha e olhei para o mar. Estava calmo. Convidativo. A criancinha brincava com outra. Gritava muito. Gritava de alegria. A outra era mais calma. E depois vi-a. A mãe.
Uma mãe que ainda era uma rapariga. Bonita. Muito bonita. Ela viu-me a olhar e sorriu. Eu, apanhado de surpresa, sorri, mas senti-me corar. Estava sol. Ninguém iria perceber que eu estava corado.
Levantei-me e fui ao mar. Passei por ela. Voltei a sorrir. Ela sorriu, mas foi logo puxada pela criancinha que a levou lá para onde estava a brincar.
Mergulhei. Nadei com força até até lá à frente. Voltei. Saí da água. Procurei-a. Não a vi.
Semicerrei os olhos para focar melhor a vista. Dei uma volta com o olhar pela beira-mar. Nada. Evaporizara-se.
Peguei na toalha e fui embora da praia.
Passei pela Batel e bebi um café e comi uma sardinha.
Fui andando para casa.
Já tinha subido a estrada de saída da Nazaré, já tinha passado o corte para o Sítio, já estava perto do Parque de Campismo quando me lembrei. O carro. A merda do carro. Eu vim de carro.
Voltei para trás e voltei a descer a estrada até à Nazaré. Ao fundo o mar. Continuava calmo.
Fui olhando para os condutores dos carros que se cruzavam comigo. Fui olhando para as pessoas com que me cruzava a pé. Fui olhando para toda a gente que estava na Nazaré até pegar no carro e ir embora.
Não a vi.
Nunca mais a vi.
Pensei em voltar aos Capuchos. Vi as horas e achei que já era tarde.
Fui para casa.
Fiz uma caipirinha. Fiz várias. E deixei-me adormecer na varanda.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/08]

Um Corpo Áspero

Ela puxou-me para dentro da tenda e eu fui. Por que raio haveria de não ir?
Estávamos os dois já muito bebidos. Eu talvez mais que ela. E deixei-me levar. Ela levou-me e eu fui.
Entrámos ruidosos na tenda. O parque estava em silêncio. No mais silêncio que um parque de campismo em pleno Agosto consegue ficar. Era tarde. Já de madrugada. Para além dos pinheiros já se adivinhava a chegada de uma pequena claridade. Entrámos na tenda e fechámo-nos lá dentro.
Ela agarrou-se a mim e começou a beijar-me onde calhava. Onde conseguia chegar com os lábio gretados. Pensei que precisava de baton hidratante.
Eu esforcei-me para conseguir descalçar as sapatilhas no pouco espaço que ela me permitia. Primeiro os beijos, depois as mãos pelo corpo e por fim a vontade de me tirar a t-shirt, coisa que fui eu que acabei por fazer.
Tirei-lhe também a dela. Passei a minha mão pelos braços, pelas costas, pela barriga e senti um corpo áspero.
A minha primeira reacção foi de repulsa. Mas tentei esconder-lha.
Insisti.
Voltei a passar as minhas mãos pelo corpo dela e não conseguia não pensar na pele que ia descobrindo. Uma pele áspera. Pele de anfíbio. Réptil. Às escamas.
Larguei-a.
Encostei-me ao fundo da tenda.
Tentei olhar para ela mas não consegui vê-la bem. Estávamos na penumbra.
Ela tentou aproximar-se, mas repeli-a. Gaita. Tinha aquela sensação nas minhas mãos. E não conseguia deixar de pensar na pele que não via, mas sentia. E não gostava do que sentia.
Era doentio. Eu estava em pânico. Precisava de sair dali.
Disse-lhe Não és tu, sou eu. Claro que ela percebeu que era uma desculpa. Mas não fez nada para me contrariar.
Parou.
Parou a olhar para mim. Ou para onde eu supostamente estava naquela penumbra.
Peguei na t-shirt e nas sapatilhas, disse Desculpa! e saí da tenda.
Na rua vesti a t-shirt. Calcei as sapatilhas. Acendi um cigarro e saí do parque.
Fui até à praia.
Caminhei junto ao mar.
E pensei no que se tinha passado.
Pensei nela. Na pele dela. E pensei em mim. E pensei no que tinha experimentado. Pensei no corpo dela e no que senti. No que achava que tinha sentido. E, depois, no que eu lhe podia ter provocado. E pensei que o problema não era a pele dela. Claro. Burro. Eu é que era o problema.
Ela tinha-se arrepiado com o meu toque no seu corpo e eu não percebera isso.
Voltei para trás.
Corri.
Entrei no parque de campismo a transpirar e fui procurar a tenda dela.
Não encontrei.
Nunca mais a encontrei.
Ainda hoje a procuro.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/02]

O Meu Primeiro Beijo

Eu estava a lançar bolas ao cesto. Estava sem camisola. Transpirado. E lançava uma bola atrás da outra. Não era grande jogador de basquetebol. Errava a maior parte das bolas. Mas gostava de estar ali, no ringue ao ar livre, onde me chegava o cheiro da maresia, misturado aos cheiros dos vários jantares que se confeccionavam ali no parque, a lançar bolas ao cesto, sozinho, sem ter em que pensar, sem ter que conversar, sem ter de enfrentar um olhar.
Ela chegou ao ringue e subiu para o muro que o circundava. E ficou ali a olhar para mim. Errei todas as bolas seguintes.
Fui ao muro, ao pé dela, acender um cigarro. E fiquei lá. Ficámos os dois. Lado a lado. Sem nos falarmos. Depois ela também puxou de um cigarro. Pediu-me lume. Era estrangeira. Acendi o isqueiro. As mãos dela agarraram a minha, para proteger a chama de um vento imaginário, que não existia, mas que podia apagar a chama. E aproximou o cigarro. E enquanto puxou a chama para acender o cigarro, enquanto mandou umas baforadas para manter o cigarro aceso, manteve os olhos nos meus. E eu comecei a tremer. A ficar com a boca seca. A esquecer-me do inglês aprendido nas aulas. E deixei cair o isqueiro.
Ela sorriu.
Ficámos ali os dois. Ela sentada em cima do muro. Eu encostado. Fumámos os cigarros e fomos encetando uma pequena e ingénua conversa. A minha voz teimava em fugir. Quando aparecia era muito pequenina e tímida. Gaguejava. Tropeçava constantemente nas palavras. Utilizava vocábulos errados. Juntava algum francês, parecia-me. E ela sorria. Ela sorria-me muito. E quanto maior a minha parvoíce, maior o seu sorriso.
Depois ela desceu do muro, aproximou-se de mim, lançou fora a beata do cigarro, pôs-se em bicos dos pés, aproximou a sua boca da minha e senti-lhe o odor mágico de pasta dos dentes misturado com tabaco e outra coisa que não identifiquei mas que deu comigo em doido.
Vi-a aproximar-se de mim enquanto todo o espaço de afastava de nós. O ringue estava já no meio do mar e dela já só lhe via a boca, os lábios e a língua. A boca movia-se, mas não ouvi nada. Não sei o que disse e se disse alguma coisa.
E a boca dela colou-se à minha e eu senti-me a dar um pequeno enorme passo no espaço sideral, a voar pelo mar adentro, a dançar uma valsa num palácio em Viena, a rebolar dunas abaixo e acabar a furar uma onda de água tépida no mar. A boca dela estava húmida. E minha estava seca. A língua dela entrou dentro da minha boca e brincou com a minha língua. Trincou-me levemente os lábios. E com a língua sarou-me as mordidelas.
De repente acenderam-se as luzes fortes do ringue. Já era de noite. Afastámos a cara um do outro e olhámo-nos. E sorrimos, tímidos. E eu disse-lhe que tinha de ir tomar um banho.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/13]