Tinha Quatorze Anos e Ia Fazer Quinze

Tinha quatorze anos. Ia fazer quinze. Ia fazer quinze anos mas ainda não os tinha feito. Tinha quatorze anos e ia a conduzir a motorizada, uma acelera que não andava muito mas andava o suficiente para ir de casa à cidade sem estar a depender dos meus pais e da carreira que não funcionava nos horários pretendidos, quando fui abalroado por um carro que vinha a sair de um parque de estacionamento à entrada da cidade, e não olhou à esquerda, de onde eu vinha, só terá olhado à direita, que lhe dava mais jeito e tinha a vista desafogada, e levou-me à frente, deitou a motorizada a baixo, eu fui abaixo com a motorizada, andei a deslizar pelo asfalto, a motorizada acabou por ser pisada pelas rodas do carro e quando voltei a acordar estava no hospital e era o meu dia de anos.
No meio daquele azar também tive alguma sorte. Foi mais o susto que outra coisa. Não morri. Nem tive grandes danos.
A motorizada foi para a sucata. O carro passou-a a ferro e mandou-a para a sucata.
O meu pai disse que o homem do carro ia ter de me dar uma motorizada nova.
Eu desmaiei. Devo ter batido com a cabeça no chão e desmaiei. Mas não tive nenhuma contusão nem nenhum traumatismo. Queimei as mãos e os joelhos quando deslizei pelo asfalto. O capacete protegeu-me. Mas não me livrei do susto.
Fiz os quinze anos na cama do hospital. A minha mãe levou-me um Bom-Bocado com uma vela, às escondidas dos enfermeiros, e cantou-me os parabéns baixinho para eles não ouvirem.
No dia seguinte, quando saí do hospital, já tinha quinze anos e não tinha motorizada.
Já passei uma semana inteira com quinze anos e continuo sem motorizada. O meu pai disse-me que o homem do carro ia ter de me dar uma motorizada nova, mas ainda não deu. Estou há uma semana em casa. Sem sair de casa. Sem ver a minha namorada. A minha mãe ofereceu-se para me ir levar a casa da minha namorada mas eu não quero lá aparecer com a minha mãe.
Tenho quinze anos e estou há uma semana à espera da minha independência na forma de uma motorizada que nunca mais chega. O meu pai disse que sim. A minha mãe não diz nada. Eu não sei.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/26]

I Feel Lois

Entrei dentro da sala e ouvi Bom-dia! Balbuciei qualquer coisa que nem eu ouvi. Depois disse o meu nome. E ouvi Desculpe? e pensei Desculpar o quê? mas vi a interrogação na cara da rapariga e repeti o meu nome. Ela sorriu e disse Peço desculpa mas ainda não percebi, e eu voltei a repetir o meu nome. Mais alto. Ela voltou a sorrir-me, olhou para o ecrã, tocou numa teclas e disse Aguarde na sala, por favor, e eu acenei silencioso com a cabeça e fui sentar-me na sala.
Estava nervoso. Fico sempre nervoso.
Há muitos anos, a caminho do exame de matemática do nono ano, estava tão nervoso que a barriga refilava comigo. Sentia a barriga revolver-se. Ouvia-a resmungar. Baixava aos intestinos e tudo por ali parecia estar em revolução. Tudo dentro de mim parecia vivo e com vontade de sair. Eu ia a pé, a caminho do colégio. De vez em quando tinha de parar. Parava e ficava muito direito, quieto. Para tentar dominar a dor e o mal estar que me consumiam. A vantagem é que enquanto pensava na barriga, não pensava no exame. A desvantagem é que enquanto pensava na barriga não conseguia pensar na matemática. Já não sabia nada. Nada de nada. Estava num terrível dilema. A que é que eu devia dedicar a minha atenção? Aos nervos que me afectavam os intestinos? Ou aos nervos que me impediam de pensar na matemática?
Tudo acabou por ser resolvido. Não por mim. Mas também por minha causa. Ao chegar ao colégio para fazer o exame, fui mandado de volta a casa porque não podia entrar de calções na sala de exame. Aquele tempo não era como o tempo de hoje. Aquele tempo requeria uma certa ordem no caos civilizacional. Naquele tempo o respeito tinha normas. Uma rapariga não podia ir fazer o exame de cai-cai e, um rapaz, não podia ir fazer o exame de calções. Calções eram para crianças do ensino básico. Um rapaz já é um homem e um homem não anda de calções.
Não sei o que é que isso diz de mim mas, hoje em dia, no Verão, só uso calções. Talvez tenha regredido. Talvez esteja a regressar à infância. Talvez esteja a viver a minha versão muito pessoal de Benjamin Button.
Voltei a casa. Tirei os calções. Vesti umas calças de ganga. Umas Lois. Naquele tempo era a marca que vestia. Lois…
Ooh, I feel love, I feel love
I feel love, I feel love
I feel love
Era o que a Donna Summer cantava no anúncio das Lois e que a fonética transformava em…
Ooh, I feel lois, I feel lois
I feel lois, I feel lois
I feel lois
As Levis chegariam mais tarde.
Eu vesti as calças de ganga Lois e regressei ao colégio. Ainda cheguei a tempo. Já estava toda a gente na sala mas o exame ainda não tinha sido distribuído. E com tudo isto, esqueci-me dos nervos. Sentei-me. Fiz o exame. Respondi sem pensar muito no assunto. Fui o primeiro a acabar. Fui o primeiro a entregar a folha com as respostas. Fui o primeiro a sair da sala. Vim a ter a melhor nota do colégio nesse ano. Com direito a um postal de parabéns assinado pela freira que tinha sido minha professora de matemática e que sabia que, o que tinha acontecido, fora um milagre. Eu tinha-me esforçado. Mas devo ter tido ajuda do divino. Ainda hoje não sei realmente o que aconteceu. Talvez os nervos. Ou a sua ausência. E então, fui levantado em ombros com toda a gente a gritar o meu nome. O meu nome. O meu nome.
Afinal era só a rapariga da clínica a chamar-me. Olhei-a, interrogativo, e ela disse Já o chamaram várias vezes, e eu levantei-me e pus-me a percorrer o enorme corredor labiríntico que levava a várias salas até chegar à sala que me estava destinada.
Entrei. O médico-dentista estendeu-me a mão para me cumprimentar e eu vi-o de alicate na mão a enfiar-me o alicate na boca e a arrancar-me os dentes à força, e o sangue a jorrar da boca, e eu a chorar, cheio de dores a pensar que nunca mais iria poder pão alentejano torrado com manteiga, quando percebi que já tinha sido tratado. Afinal, tudo acontecera rapidamente e de forma indolor. A primeira fase do tratamento já tinha acontecido. O médico-dentista estava a mostrar-me um raio-X e a explicar o que me tinha feito. E eu estava orgulhoso de mim. Aguentara estoicamente a bárbara invasão da minha boca para tratar dos meus dentes, quando percebi que, afinal, ainda faltavam mais duas fases.
Voltaram as dores de barriga.
Despedi-me do médico-dentista.
Paguei na rapariga à entrada da clínica. E ela disse, Depois telefonamos a marcar a próxima fase. E foi nessa altura que decidi deixar de pagar a conta do telemóvel.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/11]

O Dia em que Não Vi o Meu Pai em Cannes

Nunca fui muito de lembrar os mortos. Nem de lembrar os mortos nem de pensar neles quando ainda não eram mortos. Quer dizer, sempre fiz um luto às pessoas mais próximas, um luto muito meu mas, depois, depois era só uma sinalização na linha da minha vida.
Foi assim com o meu pai. Quando morreu, morreu. Chorei. Chorei baba e ranho. Arranhei-me. Fiz sangue. Ainda fiquei com uma cicatriz. Fumei um volume de cigarros numa noite. Embebedei-me. Fui para a rua gritar caralhadas. Andei aos murros, ou tentei, com um desconhecido, a descer a Cruz d’Areia, frente ao portão da Prisão Escola. Cheguei nu a casa. Lembrei momentos. E, depois, segui em frente.
Nunca fui ao cemitério visitar-lhe a campa. Não senti necessidade de olhar para algo que não me dizia nada. Uma pedra. Que não era ele. Não era dele. Não tinha sido escolhida por ele. Uma pedra que não tinha nenhuma relação com ele, a fazer dele. Um marco para o futuro. Qual futuro? Futuro de quem? Percebo que se marque. É uma identificação. Talvez como um Cartão do Cidadão para memória futura. Para quem precisar. Eu não preciso.
Mas naquele dia… naquele dia pensei nele. Não pensei na falta que me fazia. Nem nas saudades que tinha dele. Pensei que devia ter estado ali, ali naquele sítio, naquele momento, para me ver agarrar na Palma de Ouro e poder receber o agradecimento que eu lhe iria fazer. E que não fiz.
Fiz a passadeira vermelha em Cannes. Sentei-me no meu lugar no Teatro. Rodeado de gente que me dava os parabéns por estar ali. Já era uma vitória, diziam. Conheci gente. Muita gente. Muitas raparigas. Ofereceram-me bebidas. Convidaram-me para festas. Propuseram-me sexo, a três, a quatro, em grupo, com gajas, com gajos, com gajas e gajos, numa Villa, na praia, num iate. Deram-me drogas. Levei algumas à boca. As mais coloridas. Fumei coisas de que nunca tinha ouvido falar. Vomitei. Tive espasmos. Alucinei. Tive partes do corpo dormentes. Pensei que ia morrer. Pensei mesmo que ia morrer. E, depois, chamaram-me para me darem a Palma de Ouro pela minha versão de A Vida Depois de Deus do Douglas Coupland. Ao princípio nem percebi que era eu. Que era para mim. Que me estavam a chamar.
Foi enquanto subia as escadas para o palco que me virei para trás e olhei para a Plateia. Para o Balcão. Para todo aquele auditório à procura do meu pai. Sabia que não estava ali, mas procurei-o na mesma. Para lhe agradecer. Não a Palma de Ouro. Não o facto de ser cineasta. Um cineasta premiado. Mas o ser eu. O ter-me dado a hipótese de ser o que era.
E gostava de ter saído dali e não ir para festas privadas nem públicas. Não ir tomar mais drogas nem foder todas as mulheres do mundo. Mas sair dali e ir com ele beber uma cerveja de pressão e comer uns amendoins torrados sentados ao balcão de um bar qualquer e falar de banalidades das nossas vidas comezinhas. O que estavam a fazer à memória do seu Sá Carneiro. As ruas da amargura por onda andava a União de Leiria. Os fabulosos rissóis de peixe da mulher dele, minha mãe. E depois eu ia à rua fumar um cigarro e ele acompanhava-me, não que fumasse, que não fumava, mas para me dizer Isso faz-te mal, rapaz! Olha a bronquite! e dávamos um abraço e ele ia embora e eu regressava lá não sei para onde, não sem lhe garantir que iria a casa nas férias de Verão e poderíamos ir comer umas sardinhas com salada de pimentos à Vieira.
Mas não foi o que aconteceu. Agarrei na Palma de Ouro. Disse Obrigado! E vim-me embora do palco que sou muito tímido e não gosto de me sentir assim, nu, à frente de tanta gente cujo o olhar não me larga.
Depois ainda pensei que, se fosse de me lembrar dos mortos, ia visitar a campa do meu pai para lhe mostrar a Palma de Ouro do Festival de Cannes. Afinal, era a única pessoa da Cruz d’Areia com uma Palma de Ouro. Mas não fui.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/28]

Um Corpo Flácido e Enfraquecido

Convivo mal com a decadência do meu corpo. Os anos passam por mim, na sua cadência segura, e vão deixando um rasto de velhice que se aproxima perigosamente da morte.
Sinto-me dividir em dois. Os anos passam, a cabeça continua arrogante e lúcida mas o corpo está flácido e enfraquecido. Sou dois homens num corpo só. E o que me entristece é que sinto a decadência do corpo a ganhar vantagem sobre a lucidez da cabeça.
Levanto o braço para agradecer os parabéns e sinto os músculos dos braços a abanar, descaídos, sem forma, sem força.
Urino na casa-de-banho e começa a ser normal pingar os pés, as calças. Às vezes sinto vergonha quando saio da casa-de-banho todo pingado. Por vezes sinto que não deitei fora tudo o que devia deitar e percebo que o perigo se alastra pelo algodão suave das cuecas. Trago uma mancha colorida. Sinto vergonha pelo cheiro que devo arrastar comigo. Sinto vergonha por aquilo que me estou a tornar.
Descobri um quisto sebáceo nas costas. Não lhe conseguia chegar. Foi crescendo. Mas cresceu tanto que foi alargando a pele e a pele tornou-se mais fraca. Rebentou sozinho. Um cheiro fétido saiu-me pelas costas, junto com uma massa pastosa. Só o consegui expurgar debaixo do duche. Não sei quantas horas lá estive. Com a água a lavar o meu nojo. E depois… E depois o buraco nunca mais se fechou. O meu corpo já não se regenera. O que perco, fica perdido. Já não recupero nada do que fui perdendo. Foram-se os dentes. Foi-se o cabelo. Foi-se a vista. Tenho de actualizar constantemente as lentes. As unhas partem-se. A barba está branca. Tenho manchas no corpo. Saem-me pêlos por todos os buracos. Ouço mal. Coxeio.
Hoje o meu corpo já mal reage a estímulos. Fujo ao contacto físico com outros corpos para não me envergonhar. Tenho medo do que possa acontecer. Ou melhor, do que possa não acontecer.
É um cansaço constante. E de físico também passa a intelectual.
A preocupação com a perca das qualidades do corpo começa a tomar conta da minha cabeça. Não consigo não pensar nisso.
Evito ir à praia. Vestir calções. Despir a camisola. Tenho vergonha da barriga que tomba sobre os calções. Das veias que ganham dimensão nas pernas. São as varizes. Já nem o moreno do sol as esconde. Agora tenho de usar um factor pelo corpo. Senão, queima. Faz-me mal. Perigo dos melanomas, diz o médico. Sim, agora passo a vida no médico. Colecciono mazelas. Algumas vêm dos excessos da juventude. Outras, porque sim.
Doem-me as costas. Doem-me sempre as costas na cama, por causa do colchão. Doem-me as costas a caminhar porque tenho o vício da postura. O vício de anos com as costas tombadas sobre os pés. Não posso acartar pesos. Não consigo dobrar-me. Não posso fumar. Não devo beber vinho. Nem cerveja. Muito menos café. Tenho de ter cuidado com o açúcar. Fugir dos fritos. E das gorduras. Carne vermelha só muito raramente. Mas não é difícil que não a posso pagar. Devia comer mais peixe cozido. E enfardo cavala, o mais barato. Mas já estou enjoado.
Chega uma altura em que o corpo começa a dizer à cabeça que já chega. Já chega de aventuras. A cabeça resiste. Mas sente-se a ser perfurada. Aos poucos a cabeça começa a ceder ao corpo. Aos poucos começa a perceber que, se calhar, já não vale a pena continuar a lutar por algo que já não regressa. A juventude do corpo ficou no passado. Hoje é só uma memória. E a cabeça começa a cansar-se de memórias. Começa a sentir que isso é viver por procuração.
Tomo vários comprimidos repartidos ao longo do dia. Há dias em que não os tomo. Há dias em que quero parar a marcha inevitável do tempo. E regressar ao passado.
Mas esta não é uma história de ficção.
Sinto o meu corpo a morrer. E a cabeça com ele.
E é nessa altura que regresso à varanda. Com um copo de vinho numa mão e um cigarro aceso na outra. E digo baixinho, para mim É sempre inevitável.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/26]

Os Camarões da Figueira da Foz

Fim de dia e fui até à praia beber um copo e ver o mar.
A cidade estava agressiva. Caótica. Barulhenta. Toda a gente com pressa de chegar a algum lado e acabava por não chegar a lado nenhum. Ficavam presos dentro dos seus carros em filas de trânsito intermináveis.
O mar também estava agressivo. Caótico. Barulhento. Mas a praia estava deserta. Ninguém com vontade de ver e ouvir as ondas a bater nas rochas.
Sentei-me cá fora, numa esplanada, a olhar a fúria do mar. Pedi um copo de vinho branco. Nem sei porquê. Não gosto de vinho branco.
Comecei a beber o vinho, enquanto as ondas batiam furiosas lá em baixo e lembrei-me que o meu pai é que gostava de vinho branco. Nem bebia muito mas, quando bebia, era branco.
Ainda me lembro de umas férias de Verão, mas com o tempo assim, cinzento, o sol não aparecia, não íamos à praia, e acabámos numa sardinhada. Fui com ele ao mercado comprar as sardinhas e os pimentos. A minha mãe ficou a preparar a casa. Vinham amigos. Amigos deles. Vinham almoçar connosco.
Quando regressámos a casa, fui eu que comecei a acender as brasas, lá fora, no quintal.
Não sei quantas sardinhas comi naquele dia. Mas lembro-me de ter arrotado muito por causa dos pimentos e de o meu pai me ter feito beber um pouco de vinho branco do copo dele para me ajudar à digestão. Foi a primeira vez que bebi vinho branco. Vomitei.
O homem do café trouxe-me um pequeno pires com uns camarões pequeninos. Da Figueira da Foz, disse. Faço anos. Dei-lhe os parabéns. E provei uns camarões.
Uma vez cruzei o Guadiana com os meus pais, em Vila Real de Santo António, e fomos a Ayamonte. Passeámos por lá. O meu pai comprou uma garrafa de Marie Brisard, anis, acho eu, coisa que não bebia, nem ninguém lá em casa, mas vinha sempre uma de Espanha. Não sei para quê. Acumulavam-se em casa. Ninguém lhes pegava. Ainda por lá estão.
Umas mulheres vendiam camarão na rua. O meu pai comprou um saquinho de camarõezinhos pequeninos, e andámos pela rua a comê-los, como se fossem tremoços ou pevides.
Nesse noite voltei a vomitar.
Enquanto o sol desaparecia lá no horizonte e a noite chegava, acabei com o pires de camarões da Figueira e acabei o copo de vinho branco.
Recostei-me na cadeira e inspirei profundamente. E depois larguei o ar devagarinho. Esperava não vomitar. Gostava de estar ali. Gostava do mar. Gostava da maresia.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/17]