Esgotado em Menos de Uma Hora

Estava há uma semana no Rio. Uma semana para cima e para baixo. A subir e a descer os morros. A percorrer a Avenida Atlântica a bater os chinelos nos pés. Ia à praia. Mergulhava. Deixava-me tostar um pouco naquele sol de Inverno. Sobrevivia aos camelôs da praia que me queriam vender de tudo. Regressava a casa para almoço. Antes de subir no elevador, tinha de limpar todos os grãos de areia presos no corpo, nas pernas, nos pés. Dormia a sesta. Depois voltava a sair. Percorria a Zona Sul toda a pé e debitava, de cor, entre dentes, a Puta de Rogério Skylab

Você vai ao samba.
Uma cabrocha: só no sapatinho.
Gostosa!
No final das contas vocês vão pro motel.
Transam a noite inteirinha.
Trinta dias depois ela volta. Grávida.
E quer ter o filho.
Conclusão: você vai pagar pensão pro resto da sua vida.
Ela te ama? Não!
O que é que ela é então?
Puta! É puta!
Mas você insiste.
Não entrega os pontos.
Vai ao shopping.
Quer comprar uma calça Lee.
Uma vendedora vem ao seu encontro.
E te trata pelo nome, como se fossem íntimos.
Gostosa!
E sensual! Provocante!…
Você não enxerga mais nada.
Compra calça, cueca, meia, sapato.
Conclusão: ela é uma vendedora? Não!
O que é que ela é então?
Puta! É puta!
Cidade do Rio de Janeiro.
Zona Sul.
Garota de Ipanema.
Gostosa!
Você quer morar lá.
Tem money? Não!
Então, não pode não.
Conclusão: essa cidade te ama? Não!
O que é que ela é então?
Puta! É puta!
Calma! Que é isso?
Você tá tão revoltado!, disse a psicanalista diante do meu delírio.
É que todas as coisas que eu via – criança, fábrica, escola… –, todas elas pareciam putas.
Trinta minutos depois, eu paguei a consulta.
E voltei sozinho pra casa.
Com aquela sensação:
Puta! É puta!

Parava nos botecos e bebia um chope. Comia um pastel. Frito. Enorme. Sentia o estômago crescer. Inchar. Uma gravidez psicológica. Então caminhava mais e mais. Caminhava até ao fundo da Zona Sul. Eu e Rogério Skylab. Até Ipanema. Até ao Leblon. Regressava. Um cigarro na mão. O olhar ao longo daquela enorme praia invernal, como se fosse um Verão na costa atlântica portuguesa.
Na Sexta-feira passei na Bienal do Livro. Comprei alguns. Romances. Ensaios. Poesia. Banda-desenhada.
E então, vi-os chegar. Uma trupe entroncada. Armada. As botas cardadas a pisar as havaianas. Os corpos musculados a fazer tremer os corpos lingrinhas e frágeis. A brigada dos bons costumes a passar sermão à multidão de costumes liberais. A Bíblia numa mão. O cassetete na outra. A vistoria aos sacos de plástico. Não pelo plástico. Pelos livros. Pela subversão. Pelo descaramento. O olhar fulminante. O olhar que mata. A mão nervosa a apertar o cassetete. A vontade. A vontade. A vontade de bater pau no miserável impróprio.
Eu não abri a boca. Agarrei os meus livros contra o peito. São meus. Circulei à volta das bancas. E vi. Vi gente a comprar livros. Livros impróprios. Um olho no burro e outro no cigano. Também quero! E é o quê? Um beijo! Um rapaz que beija outro. Um desenho de um rapaz a beijar outro rapaz. As editoras a vender. A despachar livros atrás de livros. Os bons, os maus e os impróprios. Venderam-se milhões de livros. Tudo servia para mostrar a falta de medo perante um poder que se sente estremecer nos seus alicerces.
Em casa vi o material impróprio. Um beijo. Dois rapazes, super-heróis da Marvel, trocam um beijo. Um simples beijo. E não são ungidos em nome de Satã. São só dois rapazes apaixonados que trocam um beijo. Uma boca de encontro à outra. Dois lábios que se tocam. Duas línguas que talvez se toquem. Um desejo que talvez desperte. Esgotou em menos de uma hora.
Puta! É puta!

[escrito directamente no facebook em 2019/09/09]

Campo de Trevos

Em frente a casa há um pequeno terreno cheio de trevos. Todos os anos, por esta altura, está sempre tudo verde. Mas começa lá mais atrás, para o final do ano que ficou. Começa quando o tempo arrefece. Ou, pelo menos, a ficar menos quente.
É um manto de verde que se estende como um tapete, aqui em frente. Durante a noite, e até o sol nascer, os trevos são como uma seta, com as folhas recolhidas, transformando-se num triângulo aguçado, apontado a céu. Mal o sol desperta, as folhas também despertam e abrem-se para receber o dia.
Costumo deitar-me entre os trevos a fumar um cigarro. A olhar as nuvens a passar lá em cima. A ver formas. A descobrir animais. A reconhecer caras. Sinto as formigas a passar sobre mim. Há sempre uma formiga. São trabalhadoras. Estão sempre à procura de comida. Às vezes picam-me. Às vezes também passam por cima de mim outros bicharocos que não sei o que são. São besouros, acho. Talvez sejam outras coisas. Mas são descarados. Passeiam sobre mim. Sobre o meu corpo. Por cima da roupa. Pela cara. Já os apanhei a entrar-me pelas calças acima e a caminhar pelas pernas. Fazem-me cócegas. Só evitam a mão que agarra o cigarro. Acho que não gostam do fumo do tabaco.
Os gatos aqui de casa também gostam de vir para aqui brincar. Andam às turras uns aos outros. Às vezes também aparecem os gatos da vizinhança. Como ontem.
Não sei se é da Lua, se a gata-mãe anda com o cio ou se são os gatos que andam doidos. Vêm a gata-mãe a passear, a mover os quadris, de rabo levantado, focinho muito direito, arrogante, elegante, dona e senhora do seu nariz e ficam desvairados.
Ontem apareceu um siamês. Nem sei de onde é que ele veio. Não conheço nenhum siamês aqui perto. Abri a janela do quarto e o cabrão do gato estava em cima da gata-mãe. A gata miava. Olhou para mim, quando abri a janela, e miou. Fiquei furioso. Furioso que um gato, que não sei de quem é, me venha foder a gata e, ainda por cima, no meio do meu campo de trevos. O mesmo campo de trevos onde costumo estar deitado, em comunhão com a natureza enquanto me evado para sítios que não conheço. Saí de casa. Agarrei num seixo que estava no alpendre, corri para o campo de trevos e gritei Oh meu caralho! o que é que estás aqui a fazer? e ele olhou assustado para mim, saiu de cima da gata-mãe, que fugiu, e ficou parado a olhar para mim, sem saber o que fazer. Eu levantei o braço. Ele fugiu. Mandei o seixo e acertei-lhe no lombo. Andou um pouco de lado. Não lhe fiz mal. Mas devo tê-lo assustado. Espero que não volte aqui. Espero que não venha incomodar a gata-mãe. Espero que não me venha irritar outra vez. Ah, cabrão! Se te apanho!, gritei enquanto o via a fugir, lá ao longe.
A gata-mãe regressou. Roçou-se nas minhas pernas. Miou. Acendi um cigarro. Deitei-me entre os trevos. A gata deitou-se em cima de mim. Em cima da minha barriga. Acompanhava a minha respiração para-cima-e-para-baixo. Arranquei um trevo. Tinha três folhas. Nunca vi nenhum trevo de quatro folhas. Acho que não tenho sorte.
Tenho sorte, sim. Sorte de ter este campo de trevos debaixo de mim e de uma gata-mãe a fazer-me companhia. E um cigarro na mão.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/04]