Para um Diário da Quarentena (Quarto Andamento)

Estou há uma semana em casa. Mas não estou completamente fechado. Tenho dado uns passeios. Vou ao pão. Às vezes vou ao minimercado onde não há filas de espera e onde, às vezes, sou o único cliente. Para além de mim, costuma estar uma empregada, a mesma que corta o fiambre em fatias fininhas e depois recebe na caixa o dinheiro da despesa.
Mesmo quando estou por casa estou pela rua. Pelo alpendre. Pelo quintal. Desço ao fundo da alameda. Vou até à estrada, ando uma centena de metros para um lado, depois para o outro, e não passa nenhum carro. Pareço ser o último homem na terra.
Ontem saí. Saí de casa, da terra, e fui à cidade. Fui levar mantimentos à minha mãe.
A minha mãe já tem oitenta e nove anos e vive sozinha no meio da cidade. Ela gosta de sair, de laurear-a-pevide, ir ao café, ao supermercado, de ir almoçar uma sopa de peixe à Quarta-feira, ao café da Avenida. Agora passeia-se maldisposta por casa. Vai até à varanda!, digo-lhe eu ao telefone. E ela vai. Passa todo o tempo possível na varanda, pelo menos até o tempo começar a arrefecer, mas depois diz Não é a mesma coisa. E agora já não passa quase ninguém na rua, e eu digo-lhe Tens de aguentar! e lá começa ela a desfiar todas as histórias das minhas adolescentes fugas de casa que, julgava eu, ela não sabia. Mas sabia. E agora penso se não me está a preparar para alguma asneira. E digo-lhe Porta-te bem. Ficas em casa e quando isto passar, vamos comer uma sardinhada à praia, na esperança que uma sardinhada na praia ainda tenha o mesmo efeito cativante de antigamente.
Comprei várias coisas para ela aqui pelo minimercado, pelo pequeno talho e pela senhora que ainda vem à aldeia, numa carrinha, vender peixe fresco. Assim evito as filas dos hipermercados e o contacto com outras pessoas.
O mundo, com as pessoas assim à distância, até nem me parece muito mau.
Fiz um pequeno cabaz com mantimentos para uma semana, mas talvez lá consiga ir mais cedo. Também não quero ter muito contacto com ela, por estes dias.
Levei um robalo que pedi à senhora que o amanhasse e cortasse em quatro partes (era grande, o rabalo), e que em casa iria colocar em saquinhos individuais, dois bifinhos de vaca, duas iscas e um chouriço caseiro. Levei batatas novas, grelos de couve e algumas cebolas e alhos. Uns iogurtes gregos, que ela gosta bastante, e um pacote de manteiga pequeno que ela queixa-se que nunca encontra, são sempre muito grandes, e ela não come muita manteiga, embora às vezes lhe apeteça um bocadinho, e depois fica muito tempo no pacote aberto e ganha ranço. Também levei uma meia-dúzia da ovos caseiros que uma quase-vizinha me ofereceu.
Passei pela padaria e comprei alguns papo-secos, que até aguentam mais tempo molinhos, e uma broa amarela. Passei também na farmácia para levantar uma receita da sua medicação habitual e foi o único sítio onde estive à espera. Mas lá fui aviado sem muitos problemas.
Entre entradas e saídas tenho lavado as mãos com álcool. Não uso máscara que não tenho nenhuma e nunca encontrei à venda.
Cheguei a casa dela. Olá, mãe! Olá, filho! E ela foi para a sala ver televisão enquanto eu desfiz o cabaz e deixei tudo em cima da mesa da cozinha para ela arrumar e saber o que tem lá em casa. Abri-lhe uma garrafa de vinho tinto para ela beber um copo se quisesse. Enchi a caixa dos comprimidos. Havia alguns que ela não andava a tomar. Tinha de lhe dizer que sabia que não os andava a tomar para ver se ela os tomava. Depois fui ao quarto dela e fiz a cama de lavado. Ia gostar de se deitar nos lençóis impecavelmente esticados e depois levei a roupa da cama para a máquina e deixei-a a trabalhar.
Fui à entrada da sala e disse-lhe Vou-me embora. Porta-te bem. Vai até à varanda. E vê lá se tomas os comprimidos todos. E ela começou a abanar a cabeça e respondeu, refilona Se não tomei os compridos todos foi porque não calhou, ora. Nunca te esqueceste de nada? E farta da varanda estou eu. Quando cá voltares e eu não estiver em casa é porque fui dar uma volta, ao que eu repliquei Vê lá, vê!…
Voltei para casa a pensar que na próxima ida teria de aspirar a casa. Dar uma limpeza à casa-de-banho. E que ela estivesse em casa. Ah, sim, que ela estivesse em casa. E ri-me.
Hoje o dia acordou de chuva. Vim para o alpendre onde ainda estou. Os gatos andam para aí a passear à chuva. Nunca percebi isto. Os gatos têm medo de água, cada vez que ligo a mangueira para regar as plantas e as couves, os tipo fogem, e depois andam à chuva. O cão está a dormir todo enrolado ao pé de mim. Eu fumo um cigarro e estou a ver as manchetes dos jornais online. Parece que já morreram doze pessoas. Em Itália já morreram mais de quatro mil.
Como a minha mãe costuma dizer, aqui estamos num cantinho do céu. Espero que continuemos.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/21]

O Dia Dois. O Dia de Hoje

É o dia dois.
É o dia de hoje.
Uma semelhança fonética transforma o segundo dia do ano no dia presente. No dia de que se fala. No dia de todas as desilusões. É hoje. Agora.
Não houve nenhuma transformação. Nenhuma metamorfose. Nenhum milagre operado num estalar de dedos.
Os problemas não se resolveram. A vida não se tornou bestial. A conta no banco continuou a zeros. As contas continuam a acumular-se à entrada de casa.
Afinal, passar de ano é o mesmo passar do dia à noite e de regresso ao dia de todos os dias. Com falso glamour. Sempre uma justificação para nos extravasarmos. Beber até cair. Comer até rebentar. Drogar até deixarmos de ser quem somos. Ou passar a sê-lo.
Afinal, a vida continua a rolar da mesma maneira como rola todos os dias.
Afinal, uma porra! é o que é.
São sete e trinta quando o despertador toca. Abro os olhos. Desligo o despertador. Penso que é hoje que recomeço. Ganho coragem. Afasto o edredão. Sinto o frio mas ignoro-o. Levanto-me. Abro a janela. Um dia ainda por nascer. Pouca ou nenhuma luz. Uma hora mágica.
Vejo o carro do vizinho a sair. Sai cedo para o trabalho. Ainda não leva os miúdos para a escola. Ainda não há escola. Ainda são férias de Natal. Os miúdos já estão levantados a ver televisão. Vejo-os pela janela da sala. Amanhã não vão levantar-se a esta hora.
Espreguiço-me. Arrepio-me. Vou para a casa-de-banho. Urino. Tomo um duche. Visto-me. Faço café. Uma torrada com pão do ano passado. Isto antigamente era uma piada. Porque não se podia comprar nada no dia um de Janeiro. Estava tudo fechado. Com excepção de um ou outro café. Que vendia bicas. E uns chupa-chupas. E pastilhas. Agora já não faz muito sentido. Já há muita coisa aberta. Cafés. Restaurantes. Farmácias. Padarias. A massa já está feita. É só colocá-la naqueles fornos eléctricos. Pão-borracha. Bom na primeira hora. Uma desgraça logo depois. Ah, as saudades das panificadoras e do papo-seco!
Há um ano que não te vejo, dizem. Uma piada velha e gasta. Mas há sempre quem a diga.
Vou à janela fumar o primeiro cigarro do dia. Do dia dois. Do dia de hoje.
As coisas nunca mudam. Mantêm sempre a mesma caminhada, dia-após-dia. Ano-após-ano. De manhã, fumo sempre o primeiro cigarro do dia. Logo depois do café. E da torrada. Todos os dias. Todos os anos.
Não há rupturas. Não há transformações. Tomam-se resoluções que se esquecem com o primeiro copo de espumante barato mal tocam as doze badaladas. Que se perdem nos lábios quentes e pastosos que nos oferece o primeiro segundo do primeiro dia do novo ano. Mas é tudo ilusão. Os lábios são os mesmos. O batom é que é novo. Talvez um Red Tango. Promessas. Promessas de novidade. Promessas de desejo. Promessas de promessas.
Mas desta vez já decidi. Desta vez é a sério.
Desta vez as coisas mudam.
Sento-me frente ao computador. Abro o Word. Crio uma nova pasta: Boa-Sorte, Lá Fora.
E começo a escrever Capítulo I:
Estás bem, pai?
Se ele estava bem? Achava que sim, mas não tinha a certeza…
Desta vez vou abrir esta pasta todos os dias. E todos os dias vou contar a estória deste homem. Não sei ainda como se chama, este homem. Mas vou saber. O homem que nasceu no dia dois. No dia de hoje.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/02]

O Medo

Ando com medo. Não reconheço esta gente.
Espreito pelo óculo da porta. Há pouca gente na rua. É, talvez, a melhor altura. Abro a porta. Os olhos no chão. Não podem cruzar outros olhos. Outros olhares. Os olhos em baixo. No chão. Caminho, nem devagar nem depressa. Em passo decidido. Faço os quinhentos metros que me separam do café de olhos no chão. Não posso cruzar-me com ninguém. Não posso conhecer ninguém.
Entro no café e sigo até ao balcão. Olho para o cesto do pão e peço Quatro papo-secos, se faz favor!, à rapariga que senti, pelo canto do olho, abeirar-se de mim do outro lado do balcão.
Atrás de mim ouvia-os falar, alto e bom som. Os novos senhores. A arrogância de quem manda. Estavam a beber. Notava-se que alguns já estavam ébrios. Estavam em casa. Em todo lado estavam em casa. Tudo era casa. Deles.
Agarro o saco do pão estendido por cima do balcão. Largo umas moedas. E saio. Quero sair. Ir embora dali. Voltar para casa.
Viro-me. Largo o balcão. Os olhos no chão. O saco de pão na mão. Linha recta até à porta da rua. Depois mais quinhentos metros até casa. Vou andando. Um pé à frente do outro. Um passo e outro passo. E, a meio do café, a meio do caminho, uma perna esticada. Uma perna esticada à minha frente. E caio. Caio no chão do café. O saco salta-me das mãos. Abre-se. Os papo-secos espalham-se pela sala. E eu caído. De quatro. O silêncio. No café, o silêncio. Até eles, os novos senhores, em silêncio. Aguardavam. Eu levanto-me. De olhos no chão. Desculpe! Foi culpa minha, disse. Procurei os papo-secos. Apanhei-os. De volta para o saco.
E então desatam a rir. Os novos senhores, donos do espaço e do tempo, desatam a rir, satisfeitos com a situação. Quem pode, manda. E retomam as suas conversas. Alto e bom som. Mostram quem manda. Quem obedece. O café inteiro reconhece a ordem das coisas e ri. Ri sem vontade, mas ri. Sabe que amanhã, qualquer um deles, um aleatório, pode ser o centro de alguma acção como aquela, ou pior, mas ri. Tem de rir.
Saio do café.
Mantenho os olhos no chão. Acelero o passo naqueles quinhentos metros até casa. Abro a porta e entro. Fecho a porta nas minhas costas. Largo o saco de pão no chão e corro para a casa-de-banho. Abro o tampo da sanita e vomito. Na cabeça o riso. A gargalhada. Deixo-me ficar ali tombado, agarrado à sanita. A ouvir o riso. A ouvir a merda do riso.
Até quando? Até quando, o medo?

[escrito directamente no facebook em 2018/10/26]

A Noite em que Fugi de Casa dos Meus Pais

Quando fugi de casa dos meus pais, não fui longe. Enfiei-me no galinheiro e dormi toda a noite na companhia das galinhas. Era madrugada quando o galo me acordou. E foi o suficiente para sair de lá a tempo de ir roubar o pão que a padeira deixava na porta da vizinha, duas casas mais abaixo.
Naquela altura a minha mãe criava animais. Galinhas. Patos. Coelhos. Havia uns galos pequeninos que acho que se chamavam cocós. Eram muito chatos, impertinentes e, naquela noite que lá passei, foi o único bicho que andou em volta de mim a picar-me as pernas e a voar à minha volta para me azucrinar a vida. Os patos não me ligaram nenhuma e os coelhos, que eram enormes, pareciam umas raposas, tinham medo de mim e enfiaram-se no fundo das gaiolas onde as minha mãe os tinha colocado.
Eu sentei-me no chão, encolhido e encostado às gaiolas dos coelhos e fui recebendo o calor que emanavam. Alguns patos deitaram-se encostados a mim. Ignoraram-me, mas aproveitaram o meu calor.
Quando o galo começou a cacarejar, ainda noite, mas já com o horizonte a clarear, saí do galinheiro e pus-me a andar às voltas ali no bairro, a fazer não sei muito bem o quê, à procura de uma ideia, a tentar perceber o que fazer, até que vi a padeira a deixar o pão pendurado na porta da vizinha. Esperei que ela se fosse embora e fui lá buscar três papo-secos que me alimentaram a manhã.
Era meio-dia quando regressei a casa.
O meu pai não estava. Estava a minha mãe. Ela era doméstica, que era o que as mães que não trabalhavam fora, eram. Olhou para mim, como se eu não tivesse fugido na noite anterior e disse-me Onde é que andaste? Estás com um cheiro horrível. Vai tomar banho! Eu ainda argumentei que não era Sexta-feira, que ainda não era dia de banho, mas ela não quis saber.
Quando o meu pai chegou, para o almoço, eu estava lavadinho, penteado e muito bem cheiroso. O meu pai perguntou o que é que se tinha passado para eu estar assim a meio do dia e a minha mãe respondeu Está apaixonado!
Não sei de onde é que ela tirou essa ideia.
Uma semana mais tarde arranjei a minha primeira namorada.
Nunca mais fugi de casa.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/17]

O Pulsar da Cidade

Domingo. Num fim-de-semana de Black Friday, uma maneira estrangeira de fazer gastar dinheiro em pechinchas que não precisamos, não bastando a Sexta-feira, prolonga-se por Sábado e Domingo. E como estamos a caminho do Natal, há muita gente a aproveitar as pechinchas baratas.
Estive a trabalhar até ao final do dia.
Saí do trabalho e, antes de me ir enfiar em casa, dei um passeio pela cidade. Não estava muito frio. E soube-me bem andar pelas ruas, cruzar-me com gente sem ter de as cumprimentar, ver as luzes da noite e os enfeites de Natal e pensar que mesmo não gostando, iria sentir a falta se não as houvesse. Já aconteceu isso. Não haver iluminações. E eu sentir a falta delas. É estranho sentir a falta daquilo que não se gosta.
Sentei-me num banco de pedra. Estava frio, o banco, mas precisava de me sentar um bocado. Fiquei sentado frente a uma loja muito concorrida, de grandes montras muito luminosas e coloridas. Havia sempre muita gente a entrar e a sair. Entravam com muitos embrulhos, mas saiam com muitos mais.
Vi muitos carrinhos de bebé. Crianças pequenas com balões coloridos pelas mãos. Uma criança comia um gelado de um copo de plástico. Uma outra chorava e ia puxada pela que devia ser a sua mãe, que refilava e, de quando em vez lhe mandava um berro. Fui seguindo-os com o olhar até desaparecerem de vista.
Quando regressei com o meu olhar para a frente da loja, reparei que havia uma miúda pequenina a comer pipocas de um saco, mesmo à minha frente, e que aguardava a minha atenção. E ofereceu-me pipocas. E eu aceitei e retirei uma mão-cheia. Depois ela sorriu e fugiu a correr para ao pé de um casal adulto que também sorriu para mim em jeito de desculpa.
Na porta em frente, as pessoas continuavam a entrar e a sair. Sempre com sacos, muitos sacos. Havia um ambiente alegre e colorido. Risos e sorrisos. As mulheres tinham um ar leve. Os homens um ar pateta. Pareciam mesmo felizes.
Levantei-me e apontei o caminho de casa. Fui andando devagarinho, ouvindo o pulsar da cidade.
Passei por uma padaria aberta e comprei dois papo-secos.
Pensei que tinha uma lata de atum em casa. Migava um pouco de cebola e fazia duas sandes. E ainda tinha um restinho de uma garrafa de Borba tinto. Estava a ficar com fome e acelerei o passo.
Como as outras pessoas, eu também levava um saco pela mão. Um saco com dois papo-secos para o meu jantar.

[escrito directamente no facebook em 2017/11/26]