Dia de Eleições

É dia de eleições.
Acordo ainda de noite. Acordo com o cantar do galo. É madrugada escura. Levanto-me e ponho café a fazer. Enquanto o cheiro a café fresco inunda a cozinha, vejo, pela janela, os contornos das montanhas que o sol, do outro lado, começa a fazer clarear.
Tenho tempo e opto por um banho de imersão. Há quanto tempo não o faço?
Enquanto encho a banheira de água quente, faço a barba. Quando me olho ao espelho não me reconheço. Rapei a barba. Desde os dezoito anos que trazia sempre uma pequena penugem. Hoje foi tudo abaixo. Pareço mais novo. Sinto-me mais feio. Não me pareço. Quem sou eu?
Entro na banheira. A água está quente, mas insisto. Entro aos poucos. Devagar. Vejo as pernas a ficarem encarnadas. Grito quando os testículos se queimam. Tenho comichão no rabo. Coço. Mas deixo-me ir. Finalmente estou deitado na banheira, coberto de água quente, e sinto-me bem. Sinto-me confortável. Descontraio. Fecho os olhos. Adormeço.
Acordo com frio. É já de dia. Deixei-me adormecer. A água na banheira está fria. Abro o ralo e deixo-a escorrer. Ligo o duche e tomo um banho rápido de água quente.
Seco-me. Visto uns boxers e uma camisola de alças e vou beber café. Está frio. Aqueço-o no micro-ondas. Torro uma fatia de pão saloio. Barro-lhe manteiga. Como e bebo.
Penso no que vestir. E decido pelo fato. Há anos que não o visto. Comprei-o para um casamento. Os noivos já se divorciaram e eu nunca mais vesti o fato. Mas vou vesti-lo hoje. Agora. Primeiro passo pela casa-de-banho e lavo os dentes.
Ponho uma camisa branca sobre a camisola de alças. Visto as calças. Ponho o cinto de cabedal. Calço os sapatos também de cabedal. Ainda me servem. Mas sinto os pés apertados. Ponho gravata. Casaco. Relógio no pulso. Carteira com os documentos e vinte euros no bolso das calças. Coloco os óculos escuros e saio de casa. Acendo um cigarro.
Está sol. Calor. Mas tenho de ir a pé. Desço o quintal. Viro à esquerda e faço a estrada até ao centro da aldeia. Entro no café. Peço uma Aldeia Velha. Viro-a de um trago. Largo uma moeda no balcão. Saio e dirijo-me à escola primária. Agora chama-se primeiro ciclo. O que importa são os nomes. Também tenho o meu. E preciso dele para descobrir onde votar. Não há muito por onde procurar. Três mesas de voto.
Entro na sala. Dou o cartão de cidadão. Dizem alto o meu nome e sinto alguma vergonha. Baixo os olhos para o chão. Quero passar despercebido. Mas sinto que errei ao vestir o fato. Sou o único de fato a votar. Coloco a cruz no sítio que me parece o certo. Sinto-me livre no meu dever que também é o meu direito. Dobro-o duas vezes. Coloco-o na urna.
Saio da sala. Acendo outro cigarro. Está calor. Sinto umas gotas de transpiração a cair pelas têmporas. A gravata enforca-me.
Vejo as horas. Meio-dia. Olho a carteira. Descubro os vinte euros. Decido ir almoçar um bitoque ao snack-bar. Um bitoque e uma imperial. Um pão para molhar no ovo a cavalo. O bife do bitoque será fino e rijo. Irei deslocar o pulso ao tentar cortar o bife. Irei partir um dente ao trincar um bocado de gordura. Irei deixar cair um pingo de cerveja na camisa branca e um bocado de amarelo do ovo sobre a gravata. Irei pensar no motivo de nunca usar gravatas. Irei beber um café queimado. Uma aguardente manhosa que me irá fazer azia. E irei pensar que teria feito melhor ter ido para casa, fritado umas salsichas, torrado um pão de véspera e comido um cachorro com mostarda, acompanhado pelo vinho tinto da cooperativa e bebido o café da avó feito de manhãzinha.
Coloco as mãos nos bolsos. E vou até ao snack-bar. Está a apetecer-me um bitoque, por mais ranhoso que seja. Com um pouco de sorte há azeitonas de entrada. E dias não são dias. E hoje é dia de eleições.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/06]

Amanhã Haverá Sempre por Quem Chorar

Olho para trás e não gosto. Não gosto do que vejo. Não gosto principalmente do que acho que vejo. O meu olhar está condicionado pelo meu presente, mas tenho a arrogância de pensar que o passado é um erro e que tenho de o emendar hoje, à distância de várias vidas. Acabo por me contentar em tentar endireitar o presente. Dentro do possível.
Tenho uma barriga enorme. Uma barriga enorme adornada com um umbigo à proporção da minha barriga. Eu sou o centro do Universo. Tudo gira à minha volta. Eu sou a lâmpada que ilumina as vidas dos outros e encandeia os pobres coitados que ousam ter uma linha de pensamento discordante. Tocam-me. Morrem. Desaparecem.
Esqueço-me que o presente de hoje é o passado de amanhã. Um outro eu, na posse de outra linha civilizacional, vai olhar para mim, e para os meus erros, para os meus arrogantes erros, e mandar-me para o lixo. Como eu fiz.
Mas não. Não sou assim. Não tenho a arrogância de pensar como se fosse o único. Como se a minha concepção fosse a única. Como se estivesse, sempre, repleto de razão. Mesmo que esteja. É difícil perceber. É difícil compreender. É difícil ver para além do horizonte da minha barriga e do meu bonito umbigo. É assim que querem que eu pense. Mas não consigo. Eu sei que preciso do outro. Dos outros. Do passado com todos os seus erros. Do presente com todas as minhas dúvidas. A desejar ainda ter um futuro.
Preparo um gin. Lá está. Uma bebida da moda. Mas eu já gostava de gin antes dele ser inundado de coisas esquisitas a boiar em copo do tamanho de piscinas em vivendas da periferia. Gosto de um gin muito clássico. Um Bombay Sapphire. Ou um Tanqueray. Num copo alto. Também pode ser redondo, mas não precisa de ser muito grande. Com bastante gelo. Limão exprimido. Ou lima. Não sou esquisito. E água tónica. Schweppes. E mexo com uma colher comprida e fina. Para misturar tudo bem.
Acendo um cigarro. E atenção, estou em casa. Mas está bem, estou sozinho. Fumo o cigarro em casa. Sinto o fumo invadir-me os pulmões e penso Faz-me mal, mas sabe-me bem. O futuro que me castigue. A mim e à minha bronquite.
Pego no copo de gin tónico sem frescuras modernistas e vou até à janela. Vejo as pessoas passar. Apressadas. Preocupadas com o seu tempo presente. Preocupadas com o trabalho onde não podem faltar. Preocupadas em ter trabalho que lhes garanta um salário. Um sustento. Uma miséria que possam trocar por umas migalhas de pão de véspera.
Vejo as pessoas passar. Atarefadas. Vão buscar os filhos ao Jardim de Infância. Cada minuto mais é um extra na conta no final do mês. Uma conta que pagam já com dificuldade. Uma conta que pagam com dificuldade para garantir gente a um país envelhecido e que destrata os seus filhos. Depois ainda vão buscar as filhas à Escola C+S e levá-la ao ballet. Porque precisam de actividades extra-curriculares. Gastar energia. Estarem ocupadas enquanto os pais trabalham em prol da nação.
Vejo as pessoas passar. Ensimesmadas. Que fazer para o jantar? Tenho de fazer uma máquina de lavar roupa. Tenho roupa para passar a ferro. Qual é a novela que sigo? Já as confundo todas. Também não interessa muito. O que é que hei-de preparar para o almoço de amanhã? Que se lixe. Nada. Como uma sopa e um rissol no café do lado. Ele que se amanhe. E os miúdos comem na escola.
Vejo as pessoas a passar. E onde vão elas? Ao cinema? Ao teatro? A um concerto? A uma poetry-slam? À ópera? A uma esplanada relaxar, beber uma cerveja e ler um livro?
As pessoas passam rápidas a caminho dos seus afazeres e não têm tempo para serem cidade e a cidade não quer saber delas. Envia-as para a periferia. Para os subúrbios. Para distâncias longínquas que têm de refazer todos os dias. Cansadas ou não. Com vontade ou não.
Algumas destas pessoas estou a vê-las pela última vez. Umas vão pendurar-se numa corda no final do dia. Encharcar-se em barbitúricos. Ligar o gás do fogão e sentar-se no sofá a respirar a eternidade. Algumas delas vão levar os filhos. Algumas delas vão levar os seus amores. Amanhã iremos chorá-las. Depois esquecemos. Haverá mais por quem chorar. Depois de amanhã. Depois de depois de amanhã. Depois… Sempre. Enquanto estivermos vivos.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/11]

A Vida Corre às Golfadas

Recomeçou a chover.
Fiquei com a roupa lavada molhada toda enrolada numa bacia à espera de melhores dias.
Tive de recuperar as botas. O casaco comprido. O chapéu-de-chuva, um elemento que perco à média de dois por semana. Às vezes basta só uma tarde de chuva, com uma ligeira aberta, para eu deixar o chapéu esquecido em qualquer lado. Mas já me rendi aos chapéus-de-chuva chineses, que são feios, duram pouco, deixam entrar água pelas costuras, mas são baratos e, quando os deixo esquecidos em qualquer lado, não fico chateado.
O chão de casa também sofre. É de uma espécie de mosaico vidrado que com a humidade fica molhado e muitas vezes parece estar mais água no chão de casa que na rua. É por isso que acabo por lavar muitos tapetes e toalhas que passo a vida a espalhar pelo chão lá de casa.
Mas hoje resolvi não sair.
Tinha um texto para entregar que podia mandar por e-mail. Iria ficar a trabalhar em casa. Não precisava de calçar botas, nem usar o chapéu-de-chuva nem iria molhar o chão de mosaico vidrado.
Ainda tinha pão de véspera. Uma lata de atum em óleo vegetal. Dois tomates. Um bocado de esparguete. Não ia morrer de fome. Ainda tinha um pacote de vinho e um maço de cigarros quase cheio. Combustível não me faltava.
Sentei-me à mesa da cozinha, frente ao computador, de cigarro na mão e comecei a escrever o texto. As palavras fluíam-me com naturalidade. Encontravam nexo e faziam sentido quando juntas. Estava a ficar contente com o que estava a sair dali quando a electricidade se foi.
A bateria do computador já não funcionava muito bem e ele tinha de estar sempre ligado a uma tomada. O ecrã ficou preto. No início não percebi muito bem o que estava a acontecer. Acendi um cigarro e esperei. Depois reparei que as luzinhas que pululam lá por casa tinham desaparecido. O despertador-rádio da minha mesa-de-cabeceira estava desligado. Não havia nenhuma luz e percebi que não havia electricidade e que o trabalho teria morrido.
Fiquei desmoralizado.
Calcei as botas. Vesti o casaco comprido. Coloquei o computador dentro da mochila e saí de casa.
Havia luz no prédio. Voltei a casa e verifiquei os fusíveis. Depois reparei numa carta da EDP caída em cima de um móvel à entrada de casa. Não paguei a conta.
Peguei na carta, voltei a sair de casa e fui até ao café.
Instalei-me. Pedi uma bica. Agarrei um cigarro apagado entre os dedos e liguei o computador.
Afinal não tinha perdido o que já tinha feito. Era só continuar.
Eram horas de almoço. O café estava cheio. Havia uma grupo de raparigas novas, empregadas de escritório, que não paravam com os risinhos e conversas tolas e gargalhadas, todas muitos contentes e a falar muito e muito alto e levantavam-se e sentavam-se tocavam umas nas outras para chamarem a atenção e eu sem conseguir concentrar-me.
Desliguei o computador. Paguei o café. Fui ao multibanco da rua pagar a conta da EDP. Já não aceitava o pagamento por multibanco. Tinha de ir a um balcão. Estava a chover. O chapéu-de-chuva chinês não me protegeu muito, mas ajudou-me a chegar a um balcão da EDP. Uma hora de espera. Paguei e voltei para casa. Continuava a chover. Agora com vento. O chapéu-de-chuva chinês virou-se ao contrário e partiu as varetas. Fui o resto do caminho debaixo de chuva, resignado. Cheguei a casa e não pude tomar banho. Não tinha electricidade para o esquentador. Despi a roupa. Sequei-me com uma toalha húmida e vesti um fato-de-treino. Sentei-me na mesa da cozinha a fumar um cigarro e a olhar para o relógio a pilhas que estava pendurado na parede. Pus-me à espera que me ligassem a electricidade. Esperava que os cigarros que me restavam no maço fossem suficientes. Mas não quis pensar muito sobre isso.
O dia ia ficando mais escuro e a noite ia caindo. A minha cabeça ia tombando dobre o peito. E tinha o texto para escrever e enviar.

[escrito directamente no facebook em 2018/01/25]