Os Dias do Segundo Turno na Fábrica

Eu chegava a casa, depois de oito horas seguidas do segundo turno na fábrica, colocava o Harvest do Neil Young na aparelhagem. Começava por uma primeira audição do Heart of Gold enquanto me despia. Depois colocava no início do Lado A e ia tomar um duche. Despir-me do cheiro da fábrica. Das horas da fábrica. Tirar a fábrica de cima de mim, de dentro de mim. Depois do duche, e como acabava por não ouvir quase nada do disco, voltava a colocar a agulha no início do Lado A. Vestia-me. Vestia-me de lavado. Sentava-me na mesa da cozinha, comia uns pedaços de queijo seco com azeite e uma fatia de pão alentejano e bebia um copo de vinho tinto. Às vezes ainda não tinha acabado de comer e beber e ia virar o disco. Ouvia o Lado B. Depois saía.
De banho tomado, roupa lavada e o Harvest a ressoar-me na cabeça, saía de casa. Descia as escadas. Mesmo se o elevador estivesse no meu andar, eu descia as escadas. Chegava à rua e acendia um cigarro. Deixava o fumo penetrar-me cá dentro. E começava a andar pela cidade. Umas voltas tontas. Sem destino. Misturava-me com as outras pessoas. Sentia-lhes a transpiração quando passavam por mim. Ou aquele cheiro acre de quem não tomou banho. Ou o excesso de perfume a queimar etapas. Algumas das pessoas cheiravam demasiado a tabaco frio. E eu pensava sempre Acho que nunca cheirei assim. E não, nunca cheirei assim. Os carros passavam ao meu lado, na estrada. Eu seguia pelo passeio de calçada portuguesa. Às vezes com pedras levantadas da calçada. As mãos nos bolsos. O cigarro na boca. Desviava-me das outras pessoas. Acusava o barulho dos motores, das buzinas, dos gritos das pessoas zangadas. Havia sempre muita gente zangada.
Às vezes contava as moedas e comprava um jornal. Ia até ao jardim e sentava-me num banco a ler o jornal. Às vezes as notícias já eram velhas. O jornal era da manhã. Entretanto o mundo já dera várias voltas ao mundo. As notícias frescas já tinham morrido e nascido outras. Algumas ressuscitavam, mas diferentes. O que importava ali era estar sentado no banco de jardim, a ver quem passava mas ocupado a ler um jornal, como quem não dava demasiada importância aos outros. Depois fumava mais um cigarro. Largava o jornal num caixote do lixo. Dava mais uma volta pela cidade. Às vezes bebia um café numa pastelaria. Comia um pastel de nata. Nos dias de maior calor sentava-me numa esplanada e bebia uma cerveja. Olhava os miúdos e as miúdas cheios de vida a circularem por ali, nas mesas em volta. Nunca estavam parados. Pareciam beija-flores entre uma mesa e outra, sempre aos saltinhos, sempre em movimento, sempre prontos para irem até outro lado, havia sempre outro lado, outra pessoa, outro beija-flor. Eu ficava sentado à minha mesa a beber a imperial a apreciar as voltas que a juventude dava. Pelo menos aquela ali, aquela que se sentava nas mesmas mesas que eu, nas mesmas mesas na mesma esplanada, onde entre vários rituais que executavam nunca se via um livro a ser lido que fosse. E depois? Eram felizes assim, não eram?
Com a luz a baixar depressa, acabava por me ir embora. Às vezes passava pelo Rei dos Frangos e levava meio-frango assado para comer em casa. Às vezes comprava umas latas de conserva num pequeno supermercado lá perto de casa. Houve uma altura em que comia umas latas de atum que já vinham com feijão frade misturado. E umas latas de bacalhau com grão também misturado. Depois passou-me esta vontade. Regressava a casa, voltava a ligar a aparelhagem com o Harvest e deixava-me adormecer no sofá, frente à televisão desligada e ao som do Neil Young a vaguear pela casa. Andei meses a ouvir o Harvest. Chegava da fábrica e punha o disco a tocar. Havia discos assim, que consumia até ao osso, antes de passar ao próximo.
Agora já não chego a casa. Agora já estou em casa. Já não dou voltas pela cidade. Saio para ir comprar alguma coisa que precise e regresso logo. Agora já só me restam as memórias desses dias, desses dias antes de ser despedido. Agora já nem me apetece ouvir música. Quando um dia quiser lembrar estes dias de confinamento, o que é que terei para recordar?

[escrito directamente no facebook em 2020/04/20]

I Feel Lois

Entrei dentro da sala e ouvi Bom-dia! Balbuciei qualquer coisa que nem eu ouvi. Depois disse o meu nome. E ouvi Desculpe? e pensei Desculpar o quê? mas vi a interrogação na cara da rapariga e repeti o meu nome. Ela sorriu e disse Peço desculpa mas ainda não percebi, e eu voltei a repetir o meu nome. Mais alto. Ela voltou a sorrir-me, olhou para o ecrã, tocou numa teclas e disse Aguarde na sala, por favor, e eu acenei silencioso com a cabeça e fui sentar-me na sala.
Estava nervoso. Fico sempre nervoso.
Há muitos anos, a caminho do exame de matemática do nono ano, estava tão nervoso que a barriga refilava comigo. Sentia a barriga revolver-se. Ouvia-a resmungar. Baixava aos intestinos e tudo por ali parecia estar em revolução. Tudo dentro de mim parecia vivo e com vontade de sair. Eu ia a pé, a caminho do colégio. De vez em quando tinha de parar. Parava e ficava muito direito, quieto. Para tentar dominar a dor e o mal estar que me consumiam. A vantagem é que enquanto pensava na barriga, não pensava no exame. A desvantagem é que enquanto pensava na barriga não conseguia pensar na matemática. Já não sabia nada. Nada de nada. Estava num terrível dilema. A que é que eu devia dedicar a minha atenção? Aos nervos que me afectavam os intestinos? Ou aos nervos que me impediam de pensar na matemática?
Tudo acabou por ser resolvido. Não por mim. Mas também por minha causa. Ao chegar ao colégio para fazer o exame, fui mandado de volta a casa porque não podia entrar de calções na sala de exame. Aquele tempo não era como o tempo de hoje. Aquele tempo requeria uma certa ordem no caos civilizacional. Naquele tempo o respeito tinha normas. Uma rapariga não podia ir fazer o exame de cai-cai e, um rapaz, não podia ir fazer o exame de calções. Calções eram para crianças do ensino básico. Um rapaz já é um homem e um homem não anda de calções.
Não sei o que é que isso diz de mim mas, hoje em dia, no Verão, só uso calções. Talvez tenha regredido. Talvez esteja a regressar à infância. Talvez esteja a viver a minha versão muito pessoal de Benjamin Button.
Voltei a casa. Tirei os calções. Vesti umas calças de ganga. Umas Lois. Naquele tempo era a marca que vestia. Lois…
Ooh, I feel love, I feel love
I feel love, I feel love
I feel love
Era o que a Donna Summer cantava no anúncio das Lois e que a fonética transformava em…
Ooh, I feel lois, I feel lois
I feel lois, I feel lois
I feel lois
As Levis chegariam mais tarde.
Eu vesti as calças de ganga Lois e regressei ao colégio. Ainda cheguei a tempo. Já estava toda a gente na sala mas o exame ainda não tinha sido distribuído. E com tudo isto, esqueci-me dos nervos. Sentei-me. Fiz o exame. Respondi sem pensar muito no assunto. Fui o primeiro a acabar. Fui o primeiro a entregar a folha com as respostas. Fui o primeiro a sair da sala. Vim a ter a melhor nota do colégio nesse ano. Com direito a um postal de parabéns assinado pela freira que tinha sido minha professora de matemática e que sabia que, o que tinha acontecido, fora um milagre. Eu tinha-me esforçado. Mas devo ter tido ajuda do divino. Ainda hoje não sei realmente o que aconteceu. Talvez os nervos. Ou a sua ausência. E então, fui levantado em ombros com toda a gente a gritar o meu nome. O meu nome. O meu nome.
Afinal era só a rapariga da clínica a chamar-me. Olhei-a, interrogativo, e ela disse Já o chamaram várias vezes, e eu levantei-me e pus-me a percorrer o enorme corredor labiríntico que levava a várias salas até chegar à sala que me estava destinada.
Entrei. O médico-dentista estendeu-me a mão para me cumprimentar e eu vi-o de alicate na mão a enfiar-me o alicate na boca e a arrancar-me os dentes à força, e o sangue a jorrar da boca, e eu a chorar, cheio de dores a pensar que nunca mais iria poder pão alentejano torrado com manteiga, quando percebi que já tinha sido tratado. Afinal, tudo acontecera rapidamente e de forma indolor. A primeira fase do tratamento já tinha acontecido. O médico-dentista estava a mostrar-me um raio-X e a explicar o que me tinha feito. E eu estava orgulhoso de mim. Aguentara estoicamente a bárbara invasão da minha boca para tratar dos meus dentes, quando percebi que, afinal, ainda faltavam mais duas fases.
Voltaram as dores de barriga.
Despedi-me do médico-dentista.
Paguei na rapariga à entrada da clínica. E ela disse, Depois telefonamos a marcar a próxima fase. E foi nessa altura que decidi deixar de pagar a conta do telemóvel.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/11]

Um Casal no Aeroporto

08:00’
Estou no aeroporto. Vim esperar alguém. Alguém que tenho de levar a um sítio.
Embora a cidade estivesse deserta, as chegadas do aeroporto estão cheias de gente. Gente que espera. Gente que desespera. Há alguns voos atrasados. Mas há gente que chega. Encontros. Abraços. Choro. Muita alegria. Alegria carregada de malas de todas as cores e feitios.
Eu espero.
Vejo um rapaz, novo, com uma rosa amarela na mão. Vejo o rapaz olhar para uma rapariga que chega. A rapariga sorri, envergonhada. Ele vai ao encontro dela. Ela caminha para ele. Encontram-se. Abraçam-se.
Eu sorrio.
Ela coloca as mãos nos cabelos dele. Ele beija-lhe o pescoço. Prolongam a saudade. Aguentam o desejo. Agarram-se. Olham-se. Aproximam os lábios. Beijam-se. Beijam-se com sofreguidão.
Eu sinto um pingo de inveja.
Ele agarra nela e fá-la rodopiar ali no meio das chegadas do aeroporto. A rosa amarela cai no chão. Nenhum deles se apercebe. Já se esqueceram da rosa. Já só têm olhos um para o outro.
Param o beijo. Olham-se. Os olhos dançam. Os lábios, húmidos, sorriem. Ela cruza as mãos no pescoço dele. Levanta o pé direito enquanto lhe beija a cara em formato bilhete-postal. Ele agarra na mala dela. Estão de mãos-dadas. E partem a flutuar pelo pé-direito alto da nave das chegadas do aeroporto.
Ninguém os viu. Eu vi.

13:00’
Estou a almoçar à beira-rio. Levei quem fui buscar a comer um peixinho assado. Partilho o gosto. A mesma vontade. Peixe-assado para dois. Na companhia de uns brócolos. Um vinho branco. Da casa. Nem sei de onde é. É da casa e a casa escolhi eu. Ali à beira-rio. Junto ao fresco da maré.
Enquanto a fome devasta umas azeitonas embebidas em azeite e alho e umas fatias de pão alentejano, vejo-os chegar. O casal do aeroporto. Estão com a mesma roupa. Um e outro. Sem a mala dela. Sem a rosa deixada caída lá no aeroporto. Esquecida.
Não têm mesa reservada. Esperam. Esperam em pé. À entrada da esplanada. Junto ao rio. À beira-rio. Ao sol quente deste início de Primavera que promete ser um pequeno Verão.
Ele acende um cigarro e põe-se a olhar os barcos no rio. Ela está próxima dele. Ela passa-lhe a mão pelo braço. Afaga-o. Longamente. Depois vira-se para a esplanada. Vira-se para mim. E eu vejo. Vejo-lhe o olho negro. O olho negro que ela não tinha negro de manhã.
Eu sinto pena. Primeiro sinto pena. Depois sinto raiva.
E despejo um copo de branco de uma só vez.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/04]