Mundo Binário

Tudo começou quando o mundo ficou de risco ao meio. De um lado ficaram uns. Do outro ficaram os outros. O mundo tornou-se uma espécie de claques de futebol. Um Benfica x Porto. Ou um Real Madrid x Barcelona. Ou os Manchesters. O United de um lado. O City do outro. Ou uns EUA x URSS dos bons e seguros velhos tempos da guerra fria. Velhos x Novos. Homens x Mulheres. Brancos x Pretos. Heterossexuais x Homossexuais. Analógicos x Digitais. Enfim, tudo começou quando o mundo se tornou binário. Os contra e os a favor.
As pessoas barricaram-se. As cidades dividiam-se em duas. Normalmente separadas por rios. O campo voltou ao arame-farpado. A polícia vivia acantonada nas cidades e só saía dos seu quartéis em situações muito particulares. Os militares patrulhavam o campo, mas agiam como milícias. As pessoas do campo passaram a andar armadas para se defenderem uns dos outros e dos militares. Era normal haver picos de mortes violentas aos fins-de-semana e, em especial, nos finais de mês quando era dia de receber e metade do mundo embebedava-se. E acabava ao tiro. A outra metade ficava escondida em casa. Com medo.
Metade do mundo seguia a teoria da evolução. A outra metade era criacionista.
Metade do mundo estudava as profecias de Nostradamus. A outra metade estudava a Bíblia.
Havia ainda outra metade que estudava os livros do Divino Marquês, mas não havia muitas certezas sobre isso porque metades só há duas e esta vinha desestabilizar tudo e, sobre o que cada um faz na sua cama, em privado, não há garantias, se bem que alguns governos tentassem regular a actividade sexual por causa do rendimento produtivo e a poupança de energia. Mas nunca foram bem sucedidos nas suas tentativas. As pessoas, quando querem, são esguias e escapam. Mas só quando querem muito. Quando fazem por isso. Havia ainda quem não quisesse saber de nada e andasse por aí, um dia após o outro, sem se chatear muito.
Metade do mundo só comia carne de vaca e ficou obesa. A outra metade só comia vegetais e andava anémica. Metade do mundo fumava haxixe. A outra metade chutava cavalo. Havia ainda quem lambesse ácidos, mas havia quem dissesse que era só um mito. Um mito urbano.
Há poucos anos, quando se percebeu, finalmente, que o mundo estava nas últimas e já não havia nada a fazer para o salvar, já há muito que não voavam aviões, nem circulavam carros, carrinhas, camiões e motocicletas, e o homem movia-se de bicicleta, de skate e trotineta e só voavam alguns, poucos, aviões e só circulavam alguns, poucos, carros quando alguns dos dirigentes precisavam de se encontrar pessoalmente com outros e os telefones e a internet estava em baixo, coisa que acontecia com muita frequência porque a manutenção era muito difícil de executar num mundo sem mobilidade, onde o turista se extinguiu e só aparecia um ou outro viajante de vez em quando, de bicicleta, ou a pé, mas eram ignorados e já me perdi no raciocínio.
Ora, volto atrás e recomeço.
Há poucos anos, quando se percebeu, finalmente, que o mundo estava nas últimas e já não havia nada a fazer para o salvar, decidiu-se que tinha de se deixar a Terra e partir. Ora, com o tempo restante, tinha, toda a gente, de trabalhar em benefício geral para que se pudessem fabricar naves suficientes para levar toda a gente daqui para fora ou, pelo menos, a maior parte das pessoas, pois haveria de haver gente que iria querer ficar na Terra, onde tinha nascido queria morrer, e ficar na Terra não iria significar logo a morte, pelo menos era o que se dizia. Mas nunca se chegou a um acordo. Propôs-se Marte como destino. Mas houve logo quem se opusesse e lançasse a Lua como a única possibilidade real. O mundo voltou a dividir-se de novo, num outro risco ao meio.
E estávamos assim, sem saber o que fazer. Como fazer. Para onde ir. Depois de cinco eleições mundiais as coisas mantinham-se na mesma. Não haviam acordos nem consensos quando, de repente, há seis meses, se descobriu um asteróide, com dois quilómetros de diâmetro, que vinha em trajectória de choque com a Terra.
Pânico!
Durante algum tempo ainda se pensou na hipótese de construir uns mísseis espaciais capazes de interceptar o asteróide mas, nunca se chegou a acordo sobre que tipo de misseis fabricar. Ou eram russos. Ou chineses. Ou americanos. Ou indianos. Mas os países nunca conseguiram entrar em conversas uns com os outros porque não queriam mostrar planos classificados uns aos outros. Tudo era segredo de Estado. E tudo se complicou quando se perguntou quem ia pagar a factura. Ninguém queria pagar.
Estamos, agora, a dois dias do impacto. Não se construiu nenhum míssil. Nem naves espaciais para levar as pessoas para outro lado. É verdade que saíram algumas naves privadas com meia dúzia dos mais ricos dos ricos mas, para onde é que vão? Em que condições?
Metade do mundo acredita que vamos morrer. Outra metade acredita que não. Muitos ainda dizem que Deus nos vai acudir. Outros dizem que Deus está farto de nos aturar.
Eu não sei em que acreditar. Escrevi estas palavras na esperança que me sobrevivam, se acaso eu morrer, e possam contar ao futuro este nosso passado.
Foi um prazer andar por aqui.
Talvez nos encontremos mais tarde se, por acaso, houver, afinal, renascimento como nos prometia a religião católica.
Adeus.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/26]

Respirar

Ar. Preciso de ar. Preciso de respirar.
Acordo com falta de ar. Sinto os pulmões cheios e não consigo fazê-los funcionar. Preciso de respirar. Inspirar. Expirar.
Está escuro. Não vejo nada.
Tento acalmar. Olho em volta. Foco. Procuro um tom mais claro. Tento encontrar uma janela.
Ar. Ar.
Descubro uma pequena claridade. Caminho até lá. É uma janela. Tento abri-la, mas não consigo. Parece fechada. Bloqueada.
Olho para fora e vejo que não há luz na rua. Não há luz na cidade. Não há luar. Há uma tonalidade um pouco mais clara.
Preciso de ar. Preciso de respirar.
Começo a entrar em pânico. Arranho o pescoço. O peito. Preciso de ar.
Fecho as mãos. Formo punhos. Soco o vidro das janelas. Tento partir o vidro das janelas. Magoo-me. Mas insisto. Soco o vidro. Insisto. Outra vez. E outra. Um murro. Com força. Outra vez. E sinto o vidro a partir-se. E ouço. Ouço os estilhaços. E sinto. Sinto as garras a rasgarem-me a pele. A rasgarem-me a carne. Os dedos feridos. Os dedos partidos.
Deixo entrar o ar pelo vidro partido. Aproximo a boca. Tento respirar mas não consigo. Continuo a não conseguir respirar. Sinto o fresco da rua a bafejar-me a cara mas não consigo respirar.
Levo de novo as mãos ao pescoço. Arranho-me. Tento encontrar abertura para o ar. Tento abrir caminho até aos pulmões. Mas não consigo. Bato no peito. No meu peito. Bato com força.
Levo os dedos à boca. Mordo-me. Aparo as unhas com os dentes. Arranjo navalhas. Agulhas.
Rasgo o pescoço. Rasgo o peito, mas nada funciona. Não consigo respirar. Começo a sentir a cabeça a fugir de mim.
Sinto que me estou a perder.
Rasgo os pulsos com as unhas afiadas pelos dentes. Rápido, mais rápido. Não consigo respirar. Não consigo pensar. Não consigo raciocinar.
Rasgo os pulsos com os dentes. Preciso de qualquer coisa. Qualquer coisa que me livre desta prisão. Rasgo. Rasgo com os dentes. Rasgo com as unhas.
Sinto o sangue a sair de mim. A sair em golfadas.
E sinto o ar a entrar. Finalmente sinto o ar a começar a entrar. O peito a esvaziar. A desinchar. A permitir começar a respirar. Sinto o ar. Ar. Sinto o ar a entrar. A entrar lá dentro. Dos pulmões. Devagar. Aos poucos. Ar.
Sinto-me a ir. Sinto a cabeça a perder-me. Sinto-me desfalecer.
Sinto o sangue a correr para fora de mim. Sinto o ar a entrar dentro dos meus pulmões. Sinto-me acalmar.
Estou a desfalecer, mas estou calmo.
Sinto-me ir. Deixo-me ir.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/20]

El Eternauta

Chego a Buenos Aires. Estou de rastos. Cansado. Foi uma viagem longa e não consigo dormir no avião. Não consigo dormir com tanta gente desconhecida à minha volta. Nem consigo ir à casa-de-banho. Sinto-me desconfortável. Vi filmes. Ouvi música. Tentei ler um livro mas não consegui concentrar-me. Há sempre um ciciar de uma voz. Um pigarrear do catarro. Todos aqueles barulhinhos parecem ampliar dentro de mim tiram-me a atenção e desconcentram-me.
Coloco a máscara cirúrgica na cara. Estamos no auge do H1N1. Não quero arranjar problemas. Os aeroportos são grandes propagadores de gripe. De doenças transmissoras. Protejo-me. Não estou em casa e tenho de ter cuidado. Mas não gosto de andar com isto na cara.
Saio do avião. Recupero a mala. Apanho uma fila enorme para passar a fronteira e entrar no país. Depois vejo que há uma outra fila para mim. Mais pequena. Que anda rápido. Para cidadãos da União Europeia. Dou graças. Sinto-me um privilegiado. Mostro o passaporte. Sigo. Olho para trás. Para os outros em passo de caracol. Sou europeu. Tenho privilégios. Sinto-me bem. E, ao mesmo tempo, sinto-me mal. Estou cansado.
Peço um Táxi na ilha à saída do edifício do aeroporto.
Aí vou eu. Estrada fora.
Quilómetros e quilómetros a voar por cima das casas. Os subúrbios de Buenos Aires estão aos meus pés. Só vejo telhados. Terraços nos telhados. A ponta de arranha-céus. Estou nas nuvens. Numa auto-estrada que nunca mais acaba. Acima das casas.
Há quanto tempo estou na estrada?
Vejo muito trânsito parado lá mais à frente. Houve um acidente. Ou qualquer outra coisa esquisita. Há fogo. Há fumo da estrada. Mas o motorista parece não abrandar. Vamos a grande velocidade. O trânsito está parado. Há gente a fugir por todo o lado. Há gente a lançar-se dos viadutos abaixo. Estou assustado. Começo a gritar. Chego-me à frente no banco. Tento tocar no motorista. Alertá-lo. Ele não me liga. Continua a acelerar estrada fora. Como se a estrada estivesse livre. Eu grito. Salto para o banco da frente. Agarro no volante. O motorista ignora-me. Continua na sua corrida imparável. Dou-lhe dois murros. Mas ele nem pestanejou. Acho que nem me sentiu. Puxo o travão de mão. Puxo o travão de mão do carro com força. O carro bloqueia as rodas e começa a deslizar. Flui de lado. O motorista larga o volante. Deixa-o rodar à vontade. A carro vai livre. Eu estou em pânico. Agarro-me ao volante e tento bloqueá-lo, não sei bem para quê. Porque acho que é o que devo fazer. Aproximamos-nos dos carros parados a arder na auto-estrada. Mas o carro desliza por conta própria. Vai por onde quer. Leva de arrasto algumas pessoas. E vai direito aos rails de protecção. Vai a toda a velocidade. Bate nas protecções, quebra-as e voa. Faz-se silêncio, como no cinema. Só ouço a minha respiração. O carro voa por cima das casas dos subúrbios de Buenos Aires. Olho para baixo e só vejo telhas. Telhas vermelhas. Telhas laranjas. Um telhado verde. Terraços. O carro voa. Começa a perder velocidade. Até que pára. Pára no ar. Está uns micro-segundos parado do ar. E eu antecipo a queda. Ouço-me a respirar. Recomeça o som. O som dos caos. E ele cai. Cai do céu sobre Buenos Aires.
E eu acordo. Acordo na parte de trás do Táxi. O motorista debruçado sobre o banco. Está a olhar para mim. E diz, San Telmo.
Eu estou estremunhado. Arranco a máscara cirúrgica da cara. Tento falar, mas tenho a boca seca. Mastigo um pouco. Engulo em seco. Crio saliva. E consigo balbuciar, Bárbaro!
Fico aqui. Algures em San Telmo. Tenho uma morada no bolso das calças mas esqueci-me de a mostrar ao motorista do Táxi. Estou aqui e não sei que aqui é este. Estou ao pé de uma Bomba de Gasolina. Uma Bomba de Gasolina entre prédios. Não estou mesmo na Europa. Estou na Rua do Chile.
Ao lado da Bomba de Gasolina há um quiosque de jornais. Aproximo-me e vejo, pendurado, um livro que procuro há uma eternidade, El Eternauta.
Estou em San Telmo. Não sei para onde ir. Preciso de ajuda. E já comprei uma banda-desenhada.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/21]

A Mulher Triste

Estava a jantar aqui no restaurante da rua. Era Natal e, como quase sempre nestes últimos anos, janto sozinho por aqui. O Natal é, para mim, uma noite igual às outras. Quase igual às outras. É difícil arranjar um restaurante aberto. E os que estão abertos oferecem orgias gastronómicas. Eu só preciso de um bife. Mal passado, se possível. Umas batatas fritas. Uns legumes. De preferência, brócolos. Mas também pode ser umas couves.
No restaurante aqui da rua já me conhecem. Fico numa mesa um pouco mais arredada para o canto para fugir à fúria natalícia familiar. E não fico ao balcão para não estar no meio do furacão. O sítio onde fico permite-me olhar para a televisão e liberta-me o telemóvel. E dali também consigo ver a sala. Observá-la.
Há sempre umas criancinhas cheias de energia aos berros por todo o lado. Uma vez uma delas veio comer um chupa-chupa para ao pé de mim. Acho que foi o ano passado. Sentou-se à minha frente. A olhar para mim. Entre lambidelas perguntou-me o nome. Hambúrguer McDonald’s, respondi. Ela arregalou os olhos e disse Não és nada! Mas por via das dúvidas, e ficando ali a encarar-me, perguntou, esticando a mão com o chupa-chupa Queres? E eu acenei a cabeça. Ela esticou-se mais. Eu agarrei no chupa-chupa. Pu-lo na boca. Trinquei-o. Mastiguei-o. Ouvi o barulho dos meus dentes a triturar o chupa-chupa. Ela também. Tirei o pauzinho e devolvi-lho. Ela agarrou no pauzinho sem o chupa e começou a fazer beicinho. Começaram a cair umas lágrimas pela face abaixo. Ia começar a chorar. Ia começar aos berros. Rápido, pedi ao empregado do restaurante para lhe dar um chupa-chupa. Ele trouxe-mo. Eu agarrei-o e estendi-o à criancinha. Ela olhou-o na minha mão. Novinho em folha. Inteiro. Ainda embrulhado. Agarrou nele. Desembrulhou-o. Colocou-o na boca. Fungou. Limpou as lágrimas e o ranho com as costas da mão. Levantou-se da minha mesa. E foi embora, sempre a olhar para trás. Para mim. Depois encontrou outras criancinhas e esqueceu-me. Mas nunca mais veio ter comigo. Nem ela nem outra.
Tenho jantado em sossego. Bebo uma garrafa de vinho tinto. Como um queijinho fresco com sal e pimenta. Às vezes um rissol ou um croquete, quando há. E depois o bife. Umas vezes na frigideira, com um ovo a cavalo e molho. Outras vezes no prato. Mais seco. Normalmente termino com uma salada de frutas ou uma fatia de pudim. Bebo um café e uma aguardente velha. Depois vou para casa. Vou para casa fumar um cigarro à janela e ver o nevoeiro a tombar sobre as luzes da cidade e a torná-la feérica, mágica.
Mas desta vez chamou-me a atenção uma mesa, não muito grande, só de mulheres. Cinco mulheres. Várias gerações. Pelo menos três. Não descobri as relações. Mas eram familiares. Talvez um casal. Talvez uma avó. Uma neta. As diferenças entre a mais velha e a mais nova levava-me para aí. Estavam a usufruir do jantar de Natal. O menu especial do restaurante para aquela noite. As farripas de presunto de entrada. As azeitonas com alho. A manteiga caseira. O polvo. O bacalhau cozido. As filhoses. O Bolo Rei. Só o vinho não era o do menu. Era um vinho bom. Era gente de posses. Via-se pelas roupas. Pelos objectos discretos que as ornamentavam. Trocaram presentes entre si. Percebi alguns deles. Coisas com gosto. Requintadas. Caras.
Uma das mulheres, contudo, estava ausente. Estava ali, mas não estava. Sorria quando era o centro das atenções, mas depressa tentava fugir. Tentava que não reparassem nela. Tinha uns olhos tristes. A boca descaída. A cabeça sempre pendente. Era bonita. Todas elas eram bonitas. Esta, talvez um pouco mais. Mas estava triste. As outras não. Havia sempre conversa na mesa. Ela às vezes respondia. Parecia que não podia não responder. Era educada. Eram todas educadas. Ela era única que não bebia vinho. Ela e a criança. Levantou-se várias vezes para ir à casa-de-banho. Da primeira vez ia distraída e acabou a entrar na cozinha. Ficou encarnada de vergonha. Pediu muitas desculpas. Os olhos no chão.
Às vezes eu ouvia algumas frases. Nada completo. As vozes. Palavras sem sentido. A ela não conseguia ouvir a voz. Falava muito baixinho. Como se pedisse desculpas. Acho que se anulava. Acho que queria desaparecer. Acho que gostava de estar ali mas ao mesmo tempo gostava de não estar. Estar ali talvez fosse uma obrigação.
Ela comeu pouco. Depenicou mais do que comeu. Remexeu muito a comida no prato. Talvez para dar ideia de estar a comer. Eu via. Via-a a remexer a comida no prato. Mas quase não a vi levar o garfo à boca. A meio do jantar percebi que tirou discretamente um comprimido da bolsa e enfiou-o na boca. Parecia em sofrimento.
Eu, entretanto, acabei o café a aguardente velha. Levantei-me e fui ao balcão pagar para facilitar as coisas no meio da confusão em que os empregados estavam. Ao sair, passei ao lado da mesa das mulheres. Passei mesmo ao lado daquela que tinha estado a observar e me parecia triste. E ao passar ao pé dela, cheguei-me um pouco mais, baixei-me ao seu lado e dei-lhe um beijo na cara. Ela assustou-se com a acção e o meu atrevimento. Por instantes pareceu-me mesmo ver um certo pânico nos olhos dela. Coloquei-lhe a mão no ombro e disse-lhe Peço desculpa se a assustei. Só lhe queria desejar um feliz Natal. Pareceu-me triste. Pareceu-me precisar de um beijo, e ergui-me e segui o meu caminho até à porta da rua. Ao sair ainda olhei para trás e vi que ela tinha a mão na cara, onde a beijei, e acho que lhe vi um pequeno, suave e imperceptível sorriso a nascer entre os lábios e os olhos que, e isso eu tinha a certeza, estavam brilhantes.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/19]

Um Acidente no Sítio da Nazaré

O Instituto Português do Mar e da Atmosfera avisou-me. Vinha aí a Beatriz. Uma depressão. Vento forte e chuva. O mar agitado.
Peguei na câmara e fui até à Nazaré. Ao sítio da Nazaré. Ao farol. Mas não fui o único. Acho que toda a gente teve a mesma ideia que eu. Locais. Passeantes. Estrangeiros. Estava tudo de braço no ar a fotografar. Câmaras. Tablets. Telemóveis. Tudo servia a objectiva. As gaivotas. As ondas. A espuma das ondas. O Forte. O veado de pedra. A areia. Estava toda a gente à procura do melhor ângulo para o melhor objecto com a melhor objectiva.
Eu encostei-me a uma rocha e fiquei por ali um bocado a ver a agitação. A do mar e a das pessoas.
Acendi um cigarro. Com dificuldade. O vento já era muito. Mas eu tinha um Zippo.
Os carros continuavam a insistir a ir até ao Forte. Era uma fila compacta. Num pára-arranca mais parada que a andar. Já não havia lugares vagos nas bermas. Já não havia lugares vazios em lado nenhum. Mesmo para as selfies os auto-fotografados tinham que fazer palhaçadas para se destacarem dos demais. Estava tudo ao monte. Gente, gente, gente. Tudo à espera da Beatriz.
Mas a Beatriz não chegou. Pelo menos não enquanto eu lá estive. E eu estive lá algum tempo. Até ao acidente.
O acidente aconteceu enquanto eu estava sentado na rocha a fumar um cigarro. Outro cigarro. Não o primeiro.
Uma miúda estava a tentar tirar uma selfie com o mar de fundo. À frente dela, um rapaz que estava a tentar tirar uma fotografia da miúda a fotografar-se. Eram estrangeiros de um estrangeiro que não reconheci mas cuja língua arranhava bastante, mas não aquele arranhar alemão ou holandês. Talvez fossem nórdicos. Ou eslavos. Não percebi nada do que arranhavam um para o outro.
A miúda ia procurando o melhor fundo, o melhor ângulo, a melhor luz, quando passou uma rajada de vento forte, ela escorregou no lodo da rocha onde estava, desequilibrou-se à beira do penhasco, e caiu no vazio. Eu não estava a olhar para ela no momento. Mas senti-a fugir pelo canto do olho. E ouvi o grito do rapaz.
Virei-me. Vi o rapaz chegar-se à beira do penhasco e olhar lá para baixo, aos berros. Eu também olhei lá para baixo. Só vi as ondas a baterem nas rochas. A baterem com violência nas rochas.
As pessoas começaram a aproximar-se do rapaz. A aproximar-se do penhasco. A aproximar-se do vazio. Todos queriam ver. Quase todos tiravam fotografias do rapaz em pânico. Alguém do Forte, acho que um segurança, foi ver o que se passava. Pegou no telemóvel e fez uma chamada. Acumulou-se lá tanta gente à volta que já era difícil passar. Mas havia gente a rir. Gente a conversar aos berros. Gente a fotografar. Gente a filmar. Gente e espreitar do penhasco para baixo. Para ver as ondas a baterem nas rochas.
Saltei do sítio onde estava e fui abrindo passagem à bruta entre todos aqueles mirones em festa. Furava literalmente entre câmaras e telemóveis. Fiz cair dois ou três. Alguém gritou para mim mas nem me virei. Segui em frente.
Sentia-os a aproximarem-se demasiado da beira do precipício. Queriam selfies com o sítio onde a miúda caíra.
Tinha de sair dali. Tinha mesmo de me ir embora. Demasiada gente junta. Demasiada gente junta à beira de um precipício. E com vontade de conseguirem fotografias extremas, radicais, populares. Gente louca.
Eu já vinha cá em cima quando ouvi um bruá. Vários gritos histéricos. Desesperados. Provavelmente tinha caído mais alguém ao mar.
Já estava a chegar ao Sítio quando passou por mim a ambulância e um carro da polícia. As luzes ligadas, a girar, a girar. As sirenes a apitar.
Cheguei ao carro. Arranquei para casa e maldizer a Beatriz e o Instituto Português do Mar e da Atmosfera que prometem muito e não acontece nada. Ou acontece, mas outras coisas. Outras coisas terríveis.
E a única depressão que apareceu por lá acabou por ser a minha.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/10]

Uma Onda Gigante Veio das Colunas de Hércules

Estou no colchão de ar. Vou acima e abaixo seguindo a pequena ondulação do Mediterrâneo. Estou de olhos fechados e deixo-me embriagar naquele sobe-e-desce suave.
Ouço o barulho que me cerca, ao fundo, muito longe, como se estivesse a afastar-me dos outros. É a minha sonolência. Estou a dormitar em cima do colchão. O sol bate-me em força. A ondulação adormece-me. Os barulhos circundantes afastam-me. Afastam-se.
Sinto uma gaivota a passar. As suas pás junto a mim, distante, lá muito ao fundo. Os pés a pedalar. Esforçados. Ouço a respiração acelerada dos miúdos que saltam das borrachas da gaivota para o mar. E repetem. Sobem de novo para a gaivota e mergulham. Uma e outra vez.
O colchão ondula mais quando passa alguém a nadar forte perto de mim, bate os pés com fúria e agita as águas calmas onde estou deitado, em comunhão com a natureza preguiçosa que me embala.
Abro um pouco os olhos pesados e vejo lá no alto alguém pendurado num pára-quedas, mas não vem a cair, está a voar, como se fosse o Super-Homem ou a Mulher-Maravilha. Risca o azul do céu. Uma corda prende-o a um barco que, imagino, o puxa cá de baixo, do mar.
Volto a fechar os olhos. Estão pesados. O barulho da água a bater no colchão fazem-nos pesar. Querem adormecer-me. Querem justificar-me as férias.
Alguém diz Gosto deste mar.
Alguém diz Amo-te.
Alguém diz Sabes quanto nos vai custar estas férias?
Alguém pergunta O que é aquilo?
Alguém ri.
Alguém diz Vai à merda!
Alguém chama Maria!
Alguém diz E logo à noite?
Alguém pergunta O que é aquilo?
Alguém diz Já não tenho paciência para ela.
Alguém diz Para o ano vou para outro lado.
Alguém chora.
Alguém pergunta O que é aquilo?
Silêncio.
Abro os olhos.
Silêncio.
Olho o céu e já não vejo o Super-Homem.
Algo se passa.
Tento virar-me no colchão para ver o que se passa e o colchão vira-se. Sou deitado ao mar. Mergulho. Fecho os olhos. Sinto alguém a passar à minha volta enquanto estou mergulhado no mar. Sinto alguém a nadar ao pé de mim. Alguém a andar. A forçar um andar, pé-ante-pé junto a mim.
Agarro o colchão. Dou um impulso e puxo-me para cima do colchão. Abro os olhos. E ouço.
Confusão.
Gritos.
Choro.
Desespero.
Alguém pergunta O que é aquilo?
Vejo gente a sair, em pânico, do mar. A correr praia fora. A esbracejar. A gritar.
Vejo o medo na cara das pessoas. Vejo o desespero.
Toda a gente foge.
E finamente vejo.
Vejo uma onda gigante vinda das Colunas de Hércules, ali, do Estreito de Gibraltar.
Vejo uma onda gigante que vem na minha direcção e que é cada vez maior.
Está cada vez mais perto.
Eu petrifico.
Não faço nada.
Continuo agarrado ao colchão enquanto vejo a onda gigante a aproximar-se de mim e toda a gente corre praia fora.
Tenho os olhos pesados. Querem fechar-se.
Estou sonolento.
A onda aproxima-se.
Ainda ouço, lá muito ao longe, no meio de toda a barulheira de gentes e natureza assustadas, perguntar E agora?

[escrito directamente no facebook em 2018/08/21]

A Viúva-Negra a Esticar as Suas Patas para Além do Meu Umbigo

A velocidade com que passámos do Inferno ao Inverno, foi como virar as página de um mau livro. Num momento está um calor diabólico. No outro faz vento e frio. Ameaça chuva.
Entre um e outro constipei-me.
Bebi um chá. Tomei um comprimido. Deitei-me.
Acordei a meio da noite assustado. Assustado e transpirado.
Estava a sonhar com aranhas. Eu, que nunca sonho.
Sonhei que estava em casa, sentado no sofá, a fumar um cigarro, a beber um copo de vinho tinto, quando começaram a sair aranhas da parede. De buracos que eu não via. Buracos na parede. Buracos como se fossem poros. Como se a parede fosse uma pele. A pele de um ser vivo coberta de poros. E de dentro dela, pelos poros, começaram a sair aranhas. Diferentes tipos de aranhas. E depois reparei que era de dentro de mim que elas estavam a sair. Mandei o cigarro para chão, larguei o copo de vinho que se derramou pela alcatifa da sala e comecei a sacudir as aranhas. Mas cada vez saíam mais e mais aranhas de todo o género e feitio. Entrei verdadeiramente em pânico quando vi que, do meu umbigo, começou a sair uma enorme viúva-negra. Uma barriga grande e redonda e umas patas enormes, compridas que se esticavam todas para fora de mim. Tentei gritar. Abri muito a boca. Mas não saía som nenhum. Levantei-me. Agarrei a viúva-negra com as mãos e puxei-a para fora de mim.
E foi então que acordei. Acordei assustado. A transpirar. Com lágrimas a cair pela cara abaixo. O coração a bater muito depressa. Ouvia-o a bater, como um tambor. As pernas a tremer. Um calafrio a subir coluna acima.
Sentei-me quieto na cama e deixei-me estar, a habituar os olhos àquela obscuridade, a recuperar forças e a acalmar os nervos.
Depois levantei-me e fui até à sala.
Não sabia nada de sonhos. Não costumava sonhar. Tinha a vaga ideia de ter ouvido, algures, que sonhar com aranhas era algo sexual. De frustração sexual. Sorri. No meio de tudo, sorri.
Despejei um bocado de whiskey num copo. Acendi um cigarro. Mandei umas baforadas. Bebi um grande gole. Tentei acalmar. Não liguei a televisão. Fiquei só ali assim, sentado no sofá, a beber, a fumar, a olhar para o vazio negro da televisão desligada.
E então senti uma impressão no braço. Cocei. Senti qualquer coisa a mexer-se em cima de mim. Eu não conseguia ver nada. Mas sentia que havia qualquer coisa a passear-se por cima de mim. Assustei-me. Levantei-me e fui acender a luz da sala.
E vejo-me coberto de aranhas que saem de dentro de mim, das paredes da sala, que vêm do corredor, entram pela janela, vêm de todos os lados e saltam-me para cima. Estou aqui na sala e estou coberto por aranhas. Espero estar a sonhar. Quero estar a sonhar. Que isto seja um sonho. E quero acordar. Quero despertar deste pesadelo. Quero despertar! Como é que tudo começou? Isto é um sonho. Um sonho terrível, mas só um sonho. Acho eu. E como é que tudo começou? Onde é que tudo começou?
A velocidade com que passámos do Inferno ao Inverno, foi como virar as páginas de um mau livro. Num momento está um calor diabólico. No outro faz vento e frio. Ameaça chuva.
Entre um e outro constipei-me.
Bebi um chá. Tomei um comprimido. Deitei-me.
Acordei a meio da noite assustado. Assustado e transpirado.
Estava a sonhar com aranhas. Eu, que nunca sonho.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/07]