Tenho uma Pistola

Tenho uma pistola.
A minha pistola era a pistola do meu pai. Foi a minha herança, esta pistola. Estava dentro do pequeno cofre que o meu pai me deixou. Dentro do cofre estavam umas acções da Torralta, que já não devem valer nada, aliás, acho que já nem há Torralta. Algum dinheiro. Euros e dólares. Não muito. Alguma poupança que deve ter feito. Talvez algum negócio mais esconso. O meu pai também não era um grande simpatizante dos bancos. Evitava-os o mais que podia. Dizia que eram uns tipos que enriqueciam com o dinheiro dos outros sem terem criado coisa alguma. Também lá estava um fio em prata com uma cruz, coisa estranha, que o meu pai não era religioso, e a ser católico era como quase todos nós, eu também, católicos por defeito, não praticantes e, no fundo, a pensar bem na coisa, ateu, mas permissivo com a religião. O seu passaporte. A licença de porte de arma. O cartão de sócio do Benfica, com data dos anos 50. Duas alianças. Dois conjuntos de botões de punho. Um alfinete de gravata. E a pistola. A pistola e umas balas.
A pistola não é grande. É pouco maior que a palma da minha mão. Mas é pesada. Não é um peso que não se suporte. Não. É um peso que nos faz pensar que temos uma pistola na mão. O cabo da pistola é de madrepérola. Não sei qual o calibre. Não percebo nada de pistolas nem de balas. Não fui à tropa. A pistola não está carregada, acho, porque já tentei disparar e não disparou. Na verdade nunca vi o carregador da pistola. Mas já a segurei. Já a apontei a mim próprio, ao espelho, e o braço não fraquejou. E a mão manteve-se segura. Fiz pam com a voz e não me assustei.
Há quem tenha pistolas de colecção. Outros de protecção. Para disparar. Tenho amigos que têm espingardas de caça. Um deles, de caça grossa. Nunca fui à caça. Mas eles vão. E já comi animais que eles caçaram. Sou cúmplice, sim. Mas não sei disparar nada. Não, sei disparar a funda. E ainda tenho uma que fiz em miúdo. Às vezes ainda vou para a varanda de casa mandar umas fundadas com pequenos seixos de rio. Já parti algumas janelas. O pára-brisas de um carro. Vários vasos que fiz tombar na rua. Sempre que alguma destas cosias acontece, fico assustado. Penso que a polícia virá cá a casa. Escondo a funda. Vou para a varanda fumar um cigarro e tentar perceber se acontece alguma coisa. Depois o tempo passa, eu esqueço que fiz asneira e a vida retoma o seu ciclo normal.
De tempos a tempos lembro-me que tenho uma pistola. Uma pistola pequena, pouco maior que a palma da minha mão. Uma pistola com o cabo em madrepérola. Uma pistola que era do meu pai.
O meu pai tinha licença de porte de arma. Eu não. Não quero andar com nenhuma pistola nas mãos. A polícia nem sabe que tenho esta pistola. A pistola que está no pequeno cofre é uma lembrança. Há quem tenha outro tipo de lembranças. A minha é esta pistola. Mas não sei disparar. Nunca disparei.
Tenho pensado em fazer um workshop. Um workshop de tiro. Aprender a disparar. Aprender a disparar uma pistola. Primeiro, aprender a carregar a arma. A destravar a segurança. A disparar um tiro. Disparar uma bala. Não é que eu queira andar para aí aos tiros. Mas já que tenho uma pistola, pelo menos tenho de saber o que fazer com ela. Quanto mais não seja, para não o fazer.
Mas tenho uma pistola. Era a pistola do meu pai. Agora é minha.

[escrito directamente do facebook em 2020/01/18]

Companheiros de Armas

Ela andava lá por cima. Em círculos. A planar.
Eu estava cá em baixo. Estava ao fundo da ribanceira, junto à estrada, a fumar um cigarro.
O cão andava comigo. Quer dizer, andava por ali a cirandar. A levantar a perna em tudo o que era sítio e largar uns pingos de mijo. Não sei onde vai arranjar tanto mijo. É que era mesmo em todo o lado. Nas árvores. Nas pedras grandes. No muro. No poste de electricidade. Até nos pneus da motorizada que estava parada lá mais à frente e no reboque que trazia atrelado.
O gato estava em cima do muro. Fingia que não era nada com ele, mas estava atento a tudo. As orelhas estavam sempre levantadas. Olhei para ele, deitado no cimo do muro, como o Humpty-Dumpty, a apanhar aquele sol quente de um falso Inverno. Sempre me fascinou o equilíbrio felino. Conseguem dormir nos sítios mais improváveis em alturas vertiginosas sem temer cair. Melhor ainda, sem cair de facto.
A águia continuava lá em cima no céu incrivelmente azul. Nem uma nuvem. Ela bateu as asas umas duas ou três vezes, naquele fundo croma, e lá continuou. Asas estendidas. Enormes asas estendidas a planar sobre mim.
Baixei a cabeça. Dei uma última passa no cigarro e deixei-o cair no chão. Pisei-o com a ponta da bota.
Senti um ligeiro movimento pelo canto do olho. Vi um vulto a deslocar-se rápido. Levantei a caçadeira. Fechei um olho. Foquei o outro na linha com a mira da arma. Vi o coelho. Tinha parado. Estava a roer qualquer coisa. Uma maçã, talvez. Deitei fora o ar dos pulmões. Fiquei leve. Ouvia o ranger dos dentes do coelho a roer, a roer. Estava focado, pelo meu olhar, na ponta da caçadeira. Puxei o dedo. Disparei. Ouvi o Pam do tiro ecoar à minha volta. O coelho foi projectado um pouco para a frente. Não se mexia. Fui buscá-lo. Fui buscá-lo rápido, antes que aparecesse a polícia. Não era época de caça.
Apanhei-o. Agarrei-o pelas patas traseiras. A caçadeira aberta, pendurada no meu ombro. Voltei para casa. Comecei a subir a ribanceira. O gato saiu do muro e começou a acompanhar-me mas do lado de dentro do mato. À distância. A olhar para mim disfarçadamente, como se eu lhe fosse indiferente. Mas eu sabia que não era. Esbocei um sorriso. Os cabrões dos gatos, pensei.
Virei-me para procurar o cão e vi a águia a descer lá do seu alto majestoso e cair picada sobre a terra, como um foguete, em aceleração e desaparecer entre as árvores.
O cão apareceu ao fundo da ribanceira e começou a correr para me apanhar.
A águia voltou a surgir do meio das árvores. Levava qualquer coisa na boca. Provavelmente um coelho.
Voltei a olhar o gato. Também tinha qualquer coisa na boca. Devia ser um rato.
Companheiros de armas. Vamos todos ter um belo jantar.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/16]