O que o Gato Pensa de Mim

Hoje já acendi a lareira. Está frio. Já sinto frio.
Estou à janela de casaco de malha vestido. Fumo um cigarro e olho lá para fora. Vejo as chaminés da fábrica lá ao fundo. As chaminés deitam um fumo branco. Não sei o que é que aquela fábrica produz. Já lá passei tantas vezes e nunca lá vi muito movimento. Mas a fábrica está quase sempre a laborar. Deve ser automatizada. Não sei o que produz.
Está a chover, lá fora.
Há alguma neblina. Não consigo ver os cumes das montanhas lá à frente, depois da fábrica.
Um dos gatos vem para junto de mim. Roça-se nas pernas num movimento infinito a fazer oitos entre uma perna e outra. Depois dá um pulo e vem para o parapeito da janela. Fica ali a olhar para mim. Como se estivesse à espera que eu lhe dissesse alguma coisa. O que é que queres, gato? Mas o gato não quer nada. Vira-se para a rua e fica ali, como eu, a olhar a chuva a cair e à procura das montanhas escondidas entre a neblina que se instalou lá ao fundo.
Ouço o barulho da lenha a crepitar na lareira. Viro-me para trás. Gosto de ver as chamas a queimar.
Penso na semana que passou. O mundo todo condensado em meia-dúzia de linhas. Trump a caminho da destituição. A criança encontrada no caixote do lixo. A casa oferecida ao sem-tecto que encontrou a criança. A condenação generalizada da jovem mãe que deixou a criança no caixote do lixo. A derrota, mais uma, do Benfica na Liga dos Campeões. A libertação de Lula no Brasil. O silêncio ensurdecedor de Bolsonaro. A troca de palavras azedas entre Joacine e Daniel Oliveira. O Sérgio Conceição que se está a cagar. Assim, com estas letras todas Estou-me a cagar! Diz ele em directo e em conferência de imprensa. O mundo está doente. Eu também estou a cagar para muitas destas coisas. Mas eu estou aqui em casa e ninguém me paga para fazer outras coisas que não seja dizer que se está a cagar.
Viro-me de novo para a rua. O gato continua sentado no mesmo sítio a olhar a chuva lá fora. Agora chove mais. E com mais força. Agora não vejo as chaminés da fábrica. A chuva é muita. Mas vejo uma luz vermelha a piscar. A avisar que existe altura. Que as chaminés estão lá. Mesmo que eu não as veja.
Penso que vivemos tempos muito peculiares. Mas penso logo de seguida que sempre foi assim. Os tempos são sempre muito peculiares. Difíceis. Complicados. Mas é sempre assim. Todo o tempo. Nós é que tendemos a achar que é no agora que as coisas se complicam. Às vezes é.
O cão está lá fora à chuva a olhar para mim. Para mim e para o gato. Deve querer entrar. Mas agora está molhado. Chamei-o antes da chuva começar a cair. Para vir para dentro de casa. Os gatos vieram. Ele preferiu andar a laurear-a-pevide. Se calhar com alguma cadela da vizinhança distante. É um cabrão, este cão. Agora não te abro a porta, digo-lhe através do vidro duplo da janela. Ele não ouve o que digo. Mas percebe. Ele percebe que está molhado e não o vou deixar entrar. Não tarda vai deitar-se no chão, à chuva, a rebolar, de olhos tristes, para me fazer condoer. Mas eu não vou cair nessas brincadeiras emotivas, estás a ouvir, cão?
Viro-lhe as costas. Volto a olhar a lareira. Lanço para lá o resto do cigarro. E digo para mim, Vou abrir-lhe a porta. Ele vai querer vir deitar-se junto à lareira. E olho de relance o gato e percebo que me está a chamar Conas! Sim, eu sei o que é que o gato pensa de mim. Aquele gato em especial.
Continua a chover.
E já faz frio.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/09]

Sentado no Escuro da Plateia

Estou sentado na plateia. Escondido no escuro. Não propriamente escondido. Estou em silêncio, sentado no fundo de uma cadeira no meio da plateia, anonimamente plantado de forma a que se esqueçam de mim. Sabem que eu estou ali, mas devem perder-me. Devem ignorar-me.
Olho o palco iluminado. Ainda não é o desenho de luz da peça. Mas está iluminado. Os actores movimentam-se. Os actores, meio dentro do corpo das personagens que representam, movimentam-se pelo palco. Estão em casa. Na vida. Numa vida. São verdade e mentira. Existem e não. Mas existem sempre. Mesmo quando mentem e dizem que não existem. Que são ficção. O que é a porra da ficção senão retratos reais?
Um deles dá um berro.
Eu dou um pulo na cadeira onde estou enfiado.
O encenador, sentado perto do palco, vejo-o de perfil, está atento. Não lhe vejo nenhuma emoção. Não sei se está contente com o trabalho que está a executar. Não sei se está contente com a interpretação que os actores estão a fazer da sua escrita representativa. Mas está atento. É a única coisa que consigo perceber. Ele está atento. Muito atento.
Há duas miúdas que se abraçam. Sinto-lhes os peitos a saltar enquanto pulam no palco. Há uma terceira mas está afastada. Espera. Espera pelo nascimento da sua personagem na cronologia da peça. Aparecem dois rapazes. Falam alto. Gesticulam muito.
Sinto-me afastar da história. Do ensaio. Ainda vejo uma miúda beijar a outra na face. Vejo-a ruborizar? Os olhos fecham-se. Não é desinteresse. Estou cansado. Despertei muito cedo. Por vezes acontece-me. Acordo e não consigo voltar a dormir. Hoje aconteceu. Acordei eram quatro da manhã. Acordei a uma hora a que costumava deitar-me. Se calhar é isso. Tenho uma longa relação com as quatro da manhã. Antigamente deitava-me. Agora, levanto-me.
Sinto-me embalado. As vozes dos actores são uma balada que me embala para Slumberland.
E de repente Amigos da Revolução. Ouço perfeitamente dizer, alto e claro Somos amigos da Revolução. E desperto. Percebo onde estou. O que estou a ver. A peça. Os actores. O assunto. Fala-se de revolução.
Endireito-me na cadeira. Tento manter-me acordado. Tento tomar atenção ao ensaio da peça. No palco parece haver um happening. Actores felizes. Personagens positivas. Há festa. Uma festa revolucionária? Sorrio. Estou perdido na cronologia.
Chega um grupo de militares. Ou, pelo menos, militarizados. Um deles, talvez o mais graduado, cospe palavras azedas para o palco. Sinto muita veracidade no que vejo. Desperto completamente.
Os soldados cercam as personagens civis. Estão assustadas. Gosto destes actores. São viscerais. Um deles está completamente branco. Dir-se-ia morto de medo. E então, uma rajada de metralhadora para o ar. Umas placas de esferovite, colocadas no tecto para cortar a reverberação do som, são pulverizadas e chove bolinhas de esferovite sobre o palco. Sobre os actores. Sobre as personagens.
Assusto-me. Sinto tudo demasiado real. Os tiros pareciam mesmo tiros. Tiros a sério.
Um dos actores salta do palco, desesperado, e começa a correr pelo meio da plateia. Um soldado aponta uma metralhadora e dispara um rajada. O actor é atingido. Dá mais três ou quatro passos aos trambolhões. E vem cair ao pé de mim. Aos meus pés. E vejo o sangue que lhe sai de vários buracos do corpo. Ainda lhe vejo os olhos a olharem-me. A pedirem-me ajuda. E eu sem saber o que fazer. Como reagir. Vejo o sangue fluir em golfadas. Ouço os berros dos militares no palco. O medo estampado na cara dos actores que despiram as personagens. Agora as personagens são mesmo os actores. E representam-se a eles próprios. E sentem a vida fugir-lhes. E eu com eles. Como eles.
O que é que está acontecer? O que é que nos está a acontecer? Quero acordar!

[escrito directamente no facebook em 2019/04/26]