A Vida Não Basta

Eu estava a ver-me. Eu estava a ver-me ali sentado, na poltrona baixa, atrás daquela pequena mesa aos meus pés, cheia de livros vários, muitos deles de poesia. E os tipos ao meu lado. O Manuel António Pina. O Afonso Cruz. O Luís Mourão. Eu via-me ali, no meio deles. No meio da conversa deles. O Manuel estava a falar. O Afonso replicava. O Luís sugeria. Eu tentava intervir, mas via-me a balbuciar qualquer coisa de inaudível. Gesticulava. Parecia um boneco daqueles articulados que, dantes, viajavam no vidros traseiros dos carros, assim, a abanar a cabeça, os braços, mas só pelo movimento do carro, não por vontade própria ou com sentido. Mas ninguém via. Ninguém me via. Só eu. Só mesmo eu é que me via ali no meio deles.
Eu estava lá, mas não estava lá. Já não estava lá.
E depois percebi.
Ainda tentei levantar a voz. Pus-me a gritar. Levantei-me da poltrona baixa para dizer ao Manuel como tinha comprado o meu primeiro livro dele por acaso. Por puro acaso. Como uma paixão à primeira vista. Sem saber quem ele era. Sem saber que o livro era dele. E que era tão bom. Oh, porra, se era maravilhoso! Queria dizer-lhe que tinha comprado aquele livro por ter como título o poema mais bonito que já tinha lido
Ainda Não É o Fim Nem o Princípio do Mundo
Calma
É Apenas um Pouco Tarde
Mas ele não me ouvia. Ninguém me ouvia. Nem eu próprio, a ver-me à distância, me conseguia ouvir.
E, então, vi.
Não fui eu que vi. Foi ele. Ele que era eu. Vi os olhos frios de réptil que me observavam do meio da plateia. Os olhos frios de réptil que não estavam a ligar à conversa do Manuel, do Afonso, do Luís. Não. Os olhos frios de réptil estavam cravados em mim. Assim, meio cerrados. Como se me focassem. Como uma faca espetada no coração. Empurrando a lâmina fria cada vez mais para dentro. Devagar. Muito devagar. Com tempo. Com prazer. A fazer doer. Como uma vingança. Como uma vingança que se consome tranquila. Com calma.
Os olhos frios de réptil levantaram-se da cadeira, no meio da plateia atenta ao debate. Uma garra empunhava um revólver apontado na minha direcção, e eu vi o projéctil sair disparado do cano de metal e percorrer brevemente o espaço que nos separava, num tempo presente que logo se tornou passado, e trespassar-me o corpo, bem no meio do coração, e eu vi uma mancha vermelho escuro, quase castanho, a alastrar vagarosa pela camisa clara, vincada de véspera para estar ali, engomada, ao pé deles, à frente de toda a gente, como uma cidade do SimCity original em expansão, comendo centímetros, metros, quilómetros de vida. Assim, aos poucos, mas imparável.
Eu vi-me a ir. E então, percebi.
Percebi porque ninguém me escutava. Porque ninguém me via. Só então percebi que era porque a vida, por si só, não bastava. Não me bastava.
Percebi que, às vezes, é preciso a morte para dar razão à vida.
Sintonizei os ouvidos. Pus-me à escuta. E ouvi
“Os tempos não vão bons para nós, os mortos…”

[escrito directamente no facebook em 2019/01/28]

Led Zeppelin

Era Verão. Eram as férias de Verão.
Era uma guitarra acústica nas mãos de um gajo qualquer. Era o Stairway to Heaven nos ouvidos das miúdas. Eram as miúdas enroladas, na areia da praia, à noite, nas mãos dos gajos que tocavam, mal e porcamente, aquelas notas.
Era a praia à noite. Talvez em São Pedro de Moel. Mas também podia ser na Nazaré. Ou no Pedrogão. Era a praia à noite. O barulho das terríveis ondas atlânticas a fustigar a praia. Não via o mar. Mas via a fogueira a arder na areia da praia. As meninas de longos cabelos aloirados pelo sol. Os meninos loiros de Wax. As camisolas coloridas da Benetton penduradas pelas costas, atadas num frágil nó ao pescoço. E um cabeludo. Um cabeludo de caracóis e guitarra na mão fascinava as miúdas com uma música xaroposa. Daquelas para o coração. Daquelas de paixão. Daquelas capazes de abrir as portas do paraíso a qualquer imbecil.
Era Verão. Era a praia à noite. E eu não sabia tocar guitarra.
Ainda tinha cabelo. Cabelo comprido. Aos caracóis. Castanhos. Era magro. Bastante magro. A minha mãe dizia, num determinado período, que eu era pele-e-osso. Podia ser um músico. Um gajo dos Led Zeppelin. Podia ser uma estrela rock. Podia!
Não sabia tocar guitarra. Nem mais nada. Talvez a porra da campainha da casa dos vizinhos em quem me vinguei por não saber tocar mais nada. Não sabia cantar. Nem sei. Desafino. Desafino!? Não chego sequer a desafinar porque a voz foge-me antes de desafinar.
Estava na praia. Numa praia qualquer destas cá para cima. Para cima do Tejo. Para baixo do Mondego. Estava na praia, sentado na areia, a fogueira a arder, a ouvir um tipo a tocar o Stairway to Heaven e a assar umas chouriças e a fazer tempo para ir à padaria comprar pão fresco, quente-e-fofo, que iria barrar com Planta roubada no supermercado do Parque de Campismo. Alguém passou um cachimbo de prata. Um pequeno cachimbo feito com a prata dos maços de cigarros. Os maços de hoje não dão para isso. Na altura dava. E eu fumei. Enchi os pulmões de fumo. Prendi-o. Inspirei mais. Rebentei em tosse. Passei o cachimbo ao lado. A uma mão qualquer ao lado. Deitei-me na areia. Ouvi as notas do Stairway to Heaven e desatei a rir. E disse Mas isto é uma merda! Uma merda do caralho! e mal cheguei a casa, no fim das férias, fui a correr comprar o duplo álbum em vinil, The Song Remains de Same para ouvir, até à exaustão, a tal música de praia que punha as miúdas a rebolar na areia.
No Natal acabei a pedir uma guitarra ao Pai Natal. Ele não me ouviu. Nunca aprendi a tocar guitarra. Mas continuei a ouvir Led Zeppelin.
Anos mais tarde, refiz a colecção toda dos Led Zeppein em CD’s especiais com discos extra, gravações ao vivo e assim. Não voltei a comprar The Song Remains the Same.
É Inverno. É Inverno e chove lá fora.
Estou à lareira. A ver a lareira a arder. A ouvir o crepitar da madeira a queimar que se mistura com o Black Dog. Cresci. Envelheci. Ainda tenho cabelo. E cada vez gosto mais dos Led Zeppelin. Mas nunca mais ouvi o Starway to Heaven. Amores de Verão enterram-se na areia. E eu estou no meu Inverno. Rock and roll.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/19]

O Carrossel em Andamento

Vivemos tempos difíceis.
Mais que difíceis, parvos.
Vivemos tempos parvos.
À minha frente, na fila de um hipermercado gigante de subúrbio, uma chinesa queixa-se não sei bem do quê nem de quem, mas que a culpa era dela ser chinesa porque se fosse portuguesa o problema nunca se poria. Seria um caso de racismo se por ventura ela tivesse pronunciado a palavra. A verdade é que a palavra nunca foi dita. Ao contrário do Foda-se! para aqui, e do Foda-se! para ali, dito com todos os preceitos de um falante de mandarim que falava, e percebia, na perfeição, a língua de Camões. Foda-se!
Passado o desabafo e sobrevivendo à Demo-Crácia chinesa que muito tem para ensinar ao mundo, descubro, no telemóvel, através do sempre prestável serviço noticioso do DN, a estória de um homem que se lançou do alto do terceiro andar do Centro Comercial Colombo directamente para o Hades através dos braços doces de Thanatos.
Tudo isto depois de ter passado a noite em branco à espera das resoluções twitais do Presidente Americano sobre mais uma guerra que muito vai encher os cofres de quem os tem já bastante cheios. Guerras e mais guerras mantêm o carrossel em funcionamento. O problema são os químicos. A sério? As armas químicas? Não a morte? As armas? A merda em que este mundo está atolado, não? O problema são mesmo as armas químicas? Como dizia a chinesa no seu perfeito português continental, Foda-se!
Pelos vistos, banqueiros e madeireiros há-os em todo o lado.
E nem vou falar nos suicídios motivados por toda esta mistura azeda de gente com falta de carácter. Irrita-me é que numa grande parte das escolas seja o que se está a ensinar. Por causa dos ratings (adoro estas palavras – gostaria de poder utilizar também por aqui o alavancar que é uma expressão de que gosto muito também).
E no meio disto tudo, desta merda toda, lembro-me do post do Rui Pedro Dâmaso sobre um dos melhores álbuns de sempre dos Sonic Youth e quase que faço as pazes com a vida. Voltei a ouvir o Washing Machine e é mesmo uma álbum do caralho, talvez um dos melhores de uma das minhas bandas preferidas.
Acabei, realmente, por fazer as pazes com a humanidade quando tive a oportunidade e a disponibilidade de ler o enorme texto do Rui Poças sobre as coisas boas da vida que se vão perdendo, que se vão deixando lá para trás e que tantas e tantas saudades nos trazem, como as velhinhas cassetes de plástico (as sonovox eram feitas na Marinha Grande), com mixtapes feitas com muito gosto e com faixas escolhidas a dedo, numa sequência única e pensada sobretudo para a pessoa a quem, por ventura, se destinava.
Muito longe estávamos da competição desenfreada, má-educação e desespero que fundamentam os dias de hoje.
Não estou enterrado no passado, não sou um passadista, sou amante das novas tecnologias, mas continuo a achar que um Homem é um Homem.
E o toque, o colo, o carinho, o amor, uma festa, uma lágrima de gratidão fazem bem mais por este mundo que toda esta economia merdosa baseada na ultrapassagem pela direita aos valores, à paixão e à camaradagem.
Obrigado Rui Pedro Dâmaso e Rui Poças por ainda me fazerem acreditar.

[escrito directamente no facebook em 2018/04/14]