Atingido pela Fúria que a Consumia

Ela saltou para cima de mim e começou a bater-me. A bater-me com as mãos fechadas na cara, na cabeça, no peito, onde me conseguisse acertar. Não eram bem murros, que ela não saberia dar murros, coitada, mas eram uma espécie de socos mal paridos dados com as mãos fechadas e mandadas à sorte para cima de mim. Com toda a força que tinha que, não sendo muita, era potenciada pela fúria com que estava. O que é certo é que acabou por me magoar bastante enquanto me atingia o nariz, os lábios, os olhos, quando uma das suas unhas, que nem eram muito grandes por sinal, embora maiores que as minhas, mas eram verdadeiras, não eram brincadeiras parolas de gel, eram as unhas verdadeiras dela, tratadas, limadas e pintadas de vermelho-velvet, que me rasgaram a pele no pescoço e arrancaram dois sinais salientes que eu tinha e que a médica me tinha avisado para eu os vigiar (não sei muito bem o que é que a médica quis dizer com isso) e num olho, que não mo vazou por mero acaso, mas deu um rasgão e ainda tive direito a algumas veias oculares a romperem e a lançarem pequenos esguichos de sangue pelo branco dos olhos.
Eu só me limitava a encolher para me defender dos ataques dela. Encolhia-me para desaparecer e não ser atingido pela fúria que a consumia.
Depois parou de me bater, ficou assim sentada em cima de mim, eu estava sentado no sofá e ela sentada em cima de mim, virada para mim, e começou a chorar, desesperada, e eu vi as lágrimas que rebentaram dos olhos dela e largaram em debandada pelas faces abaixo enquanto gritava Foda-se! Foda-se! Fodassefodassefodassefodassefodassefodassefodasse… até a voz se extinguir e a cara dela se transformar numa massa disforme, com baba e ranho a escorrer dos cantos da boca e do nariz e os olhos raiados de sangue e molhados de tanto chorar, e ela colocar a mão na testa como se tentasse organizar as ideias, suspirar duas ou três vezes, sair de cima de mim a correr para o quarto e fechar a porta com estrondo nas suas costas, talvez mais pela corrente-de-ar que se fazia sentir que pela fúria que, naquele momento, acredito que já estivesse noutro nível, mais de saturação e cansaço que propriamente de zanga.
Ainda perguntei O que é que eu fiz?, mas perguntei em silêncio, só na minha cabeça, só para mim, para evitar mais problemas com ela, principalmente enquanto não soubesse o que é que se tinha realmente passado.
Suspirei. Acendi um cigarro. Pensei na derrota do Benfica anteontem na Grécia, frente ao PAOK, o que lhe tinha vedado a entrada para a Liga dos Campeões e, para agravar a história, o jogo difícil já agendado para amanhã à noite, em Famalicão, contra uma das grandes surpresas da época passada, para a jornada inaugural da Primeira Liga. Está tudo complicado para o Benfica! pensei.
Levantei-me do sofá, apalpei os bolsos das calças. Estavam vazios. Fui à carteira dela. Só tinha uma nota de cinquenta euros. Tirei-os, apanhei o casaco, vesti-o e saí de casa. No elevador vi a minha cara no espelho. Uma cara toda arranhada, com sangue num olho, um lábio rebentado, também a sangrar, e uns pingos já tombados sobre a t-shirt branca e que estavam a alastrar e já não eram umas pequenas manchas mas um desenho sinistro do resultado de um ataque terrorista.
Os meus anos de chumbo! pensei. Às vezes dá-me para o dramatismo. São muitos romances de Harold Robbins em cima.
Saí do prédio. Não sabia o que tinha acontecido ao cigarro que estava a fumar. Acendi outro. Era o último do maço. Fui a fumar até ao quiosque ao fundo da rua. Fiquei cá fora, encostado à montra, com a perna direita flectida e o pé no vidro, a acabar do fumar. Depois entrei. Cheirava a chouriço lá dentro. O dono do quiosque estava à entrada de uma pequena arrecadação a comer uma sandes. Presumi que fosse uma sandes de chouriço, tal o cheiro. Ele parou de comer, largou a sandes em cima de um jornal e colocou a máscara na cara. Lembrei-me que precisava da máscara. Não a tinha comigo. Pedi-lhe um maço de cigarros dali mesmo da porta.
Bati o maço. Tirei outro cigarro. Acendi-o e fui andando ao longo do passeio. E pensei que andava a fumar demasiado. Pensei que tudo na minha vida estava a ficar um bocado descontrolado. Tudo demasiado. Pensei que o normal, fosse lá o que fosse, nunca tinha sido o meu normal. A minha vida era uma sucessão de pequenos e grandes problemas com menores ou maiores repercussões. Nunca tinha conseguido ser dono da minha vida. Estava sempre a ser jogado pelos outros. Fossem os meus pais, a minha irmã, os meus amigos, os meus patrões ou as minhas namoradas. Toda a gente mandava em mim e na minha vida. Toda a gente menos eu. E toda a gente acabava, mais tarde ou mais cedo, por se incompatibilizar comigo. Eu era assim tão mau? Eu era um problema assim tão grande? Ou era só um motivo para os outros libertarem a sua acidez?
Entrei no snack-bar e sentei-me ao balcão. O empregado disse que eu precisava de máscara. E eu perguntei como é que iria beber a imperial com a máscara na cara? Ele suspirou e serviu-me uma imperial.
Ao canto do balcão reparei na televisão desligada. Já não havia Sport TV. E pensei Onde é que poderei ir ver o jogo do Benfica, amanhã?

[escrito directamente no facebook em 2020/08/17]

O Meu Irmão

Eu tive um irmão que não chegou a sê-lo. Se ele fosse, se calhar era eu que não era.
A minha mãe teve um filho nado-morto antes de mim.
Pergunto-me muitas vezes o que é que seria do mundo, deste mundo, se o meu irmão tivesse nascido vivo? Se ele existisse! Eu existiria? O mundo seria igual? Haveria mundo se eu não existisse para o conceber? Se eu próprio não tivesse sido concebido?
Perguntei várias vezes à minha mãe, no papel de filho único, se o meu irmão, aquele que eu não tenho, se ele tivesse nascido vivo, eu teria sido concebido?
A resposta da minha mãe nunca foi sonora. Ri-se. É sempre o que faz. Ri-se. Ela ri-se de mim. Um sorriso silencioso, mas rasgado. Não confirma nem desmente. Vejo-a de Cornetto de morango nas mãos, a sorrir para mim, sem me responder.
Aquele irmão que não chegou a ser, aconteceu cinco anos antes de mim. Eu, provavelmente já não deveria ter existido, tendo existido o meu irmão. Os meus pais já tinham uma idade avançada. Demasiado avançada para serem pais. Estavam quase na idade de serem avós. Avós novos, bastante novos, mas avós.
Penso sempre se eu nasceria de outra forma. Noutra família. Filho de outra mulher. De outro homem. Seria igual? Seria como sou? Viveria na mesma cidade? Teria os mesmos amigos? As mesmas namoradas? Teria os mesmo gostos? Os mesmo desejos? Faria as mesmas merdas que faço hoje? Que tenho feito ao longo da vida? E as desculpas? Poderia eu usar as mesmas desculpas que uso hoje? As mesmas mentiras? Seria uma vítima? ou um carrasco? Qual o poder dos meus possíveis outros pais sobre mim?
Uma coisa que me preocupa é se eu continuaria a gostar de fumar e de beber vinho tinto cerveja gin e vodka.
Há dias em que não consigo pensar noutra coisa. A minha vida esteve dependente de outro. A minha vida esteve, está, sempre dependente de outro. Primeiro o irmão que não tive. Depois os pais que me tiveram. Os amigos que fui tendo. Os patrões que me têm.
Quando é que eu posso ser eu, afinal?
Poderei afirmar que nasci porque tinha de nascer ou que fui só fruto das circunstâncias e, como tal, não tenho qualquer significado para o mundo?
Sempre que penso em todas estas questões que, por vezes, me atormentam, mas não hoje, há uma pergunta que nunca poderei ver respondida mas que é a pergunta que eu mais gostaria de conhecer a resposta Como é que é ser irmão? Ter um irmão?

[escrito directamente no facebook em 2020/08/31]

A Última Vez que Andei de Skate

Começava logo de manhãzinha, no meio da rua, a chamá-lo. Aos berros. Para se ouvir bem lá em cima, no terceiro andar onde ele vivia com os pais. Mas não o chamava pelo nome que os pais lhe tinham dado à nascença. Chamava-o pelo nome de rua. Era assim que ele era conhecido, era assim que o conhecíamos, e evitávamos que aos primeiros berros cá de baixo, do meio da estrada, os pais fossem logo à janela para ver quem eram os amigos malcomportados do filho. Eu não era malcomportado. E os pais dele conheciam-me. Até eram amigos dos meus pais. Nós chegámos a ir de férias um com o outro quando éramos mais miúdos. Agora já não íamos de férias juntos com os pais de um ou de outro. Agora já éramos demasiado crescidos e, bem vistas as coisas, demasiado insuportáveis. Mas nas férias, eu ia ali ao prédio dele chamá-lo, aos berros, e depois, pouco tempo depois, lá aparecia ele, a cruzar a porta de vidro de entrada do prédio, com o skate na mão e íamos por ali fora, a voar pelo asfalto, às vezes a descer até à cidade. Mas voltávamos sempre à hora do almoço. Íamos sempre almoçar a casa. Cada um almoçava na sua. Durante a semana não podíamos almoçar em casa dos outros porque os pais não tinham tempo para nos aturar. Só ao fim-de-semana. E não todos. E então, quando estávamos na cidade, regressávamos agarrados aos pára-choques dos autocarros urbanos e subíamos até casa. Às vezes a polícia passava e tínhamos de andar a fugir. Era sempre uma chatice porque corríamos o risco de chegar atrasados ao almoço e isso tinha sempre consequências. O confisco do skate. E da bicicleta. Às vezes uma multa pecuniária que se resolvia numa diminuição da mesada.
A última vez que descemos à cidade foi num dia assim como o de hoje. Um dia de Agosto. Quase meio do mês. Eu e ele estávamos a gastar os últimos cartuchos. Depois tínhamos quinze dias de martírio com os nossos pais no Algarve. Cada um no seu lado do Algarve. Ele em Lagos. Eu em Tavira. Ele numa casa que o pai tinha comprado há muitos anos em time-sharing. Eu a acampar na ilha de Tavira. Os meus pais eram assim um pouco freaks e gostavam da natureza. Eu não gostava muito. O chão fazia doer-me as costas, mas não tinha outro remédio. O que me causava maior confusão era ir à casa-de-banho onde ia toda a gente e onde havia sempre muita gente e onde se ouvia os barulhos de toda a gente. Um horror.
Era então um dia assim, um dia chocho de Agosto. Ameaçava chuva e acho que até acabou por chuviscar um pouco.
Nesse dia fui chamá-lo como chamava normalmente, cá de baixo da rua, chamando-o pelo nome de rua, e pouco depois ele apareceu, cruzou a porta de vidro do prédio com o skate debaixo do braço. Fomos andar pelas ruas do bairro, como fazíamos normalmente. Depois ele disse Bute até à cidade? E eu respondi Yeah! e fomos até à cidade, a descer em alta velocidade a estrada de asfalto que ligava o bairro ao centro da cidade. Depois passeámos pela zona histórica. Roubámos umas laranjas numa mercearia e fomos comê-las para a praça. Andámos de skate na zona nas praças de pedra lisa. Competimos com outros miúdos de outros bairros da cidade. Íamos andando ao estalo, mas não chegámos a tanto. À hora do almoço decidimos ir embora. Corremos até à paragem do autocarro e esperámos. Quando o autocarro chegou, engoliu as pessoas e partiu. Nós partimos com ele.
A meio da viagem, um carro da polícia apareceu por trás do autocarro, por trás de nós, e ligou a sirene. Eu, que estava junto ao passeio, larguei o pára-choques e fugi logo pelas ruas adjacentes. Ele tentou fazer o mesmo mas, estava no meio da estrada, tentou correr para o passeio do outro lado e, ao cruzar a estrada, com o skate debaixo do braço, foi abalroado por uma camioneta de distribuição de cigarros. Eu ainda me virei para trás e vi-o voar. Mas não parei. Não parei de correr. Não parei de correr até chegar a casa, ir à casa-de-banho lavar as mãos e a cara e olhar para mim no espelho da casa-de-banho e fazer-me acalmar, acalmar o meu coração que parecia querer saltar fora do corpo. Depois fui sentar-me à mesa da cozinha e almocei com os meus pais e a minha irmã. Acho que foi aí que vi que estava a chover. Mas não tenho a certeza.
Nessa tarde a minha mãe veio dizer-me que ele tinha morrido. Tinha sido atropelado e tinha morrido ainda na rua, antes de chegar a ambulância. Eu não disse a ninguém que estava com ele e que o vi ser atropelado. Dois dias depois fui para o Algarve com os meus pais. No regresso, arrumei o skate no meio das tralhas da garagem. Nunca mais andei de skate. Nesse ano, depois do começo das aulas, conheci a minha primeira namorada. Às vezes ainda penso nele. Mas já não me recordo do som da sua voz. Já não me recordo da sua cara. Já não recordo do seu nome de rua.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/16]

Dias de Alma Vaga

Estou sentado à mesa da cozinha como se fosse o balcão do bar onde já não vou há quatro meses. Deixei de lado a torneira de cerveja e troquei a imperial pela garrafa média da Sagres. Por vezes vou ao pacote de cartão buscar vinho tinto e faço um Tinto de Verão. À espanhola. Encho o copo com gelo. Espremo meio limão. Dois terços de vinho. Um terço de Seven Up. Uma gasosa também serve. Mas isto é no início. Quando ainda estou em condições de fazer alguma coisa. E ainda tenho vontade. Rapidamente chego ao momento em que só de abrir a garrafa, tirar a carica fora sem deixar cair cerveja no chão, é uma aventura.
À minha frente o televisor a preto e branco que o meu pai comprou há muitos anos para levar para o campismo. Passou de televisão do campismo para a televisão da cozinha e, desde então, tem sido a televisão da cozinha. Primeiro em casa dos meus pais. Depois quando fui estudar para Lisboa. Era a televisão da cozinha porque a cozinha também era a sala. Não havia sala naquela casa. Todas as divisões eram quartos. A cozinha era cozinha e sala. A televisão estava lá e cumpria as suas duas funções, era a televisão da cozinha e também era a televisão da sala.
Quando tive a minha primeira casa e comprei a minha primeira televisão, ainda com cinescópio mas já em 16-9, a pequenina televisão a preto e branco, de caixa de baquelite branca, voltou para casa dos meus pais e à cozinha deles. Mais tarde consegui recuperar a televisão que já ninguém queria. Era pequena. Quadrada. Branca, que horror. De baquelite. E não tinha comando. Era preciso levantar o rabo de onde estava sentado para mudar os canais. E, às vezes, era preciso andar com a antena, uma antena que era parte da televisão e que fazia lembrar as antigas antenas dos carros com rádio OM, ou os walkie-talkies que alguém trouxe uma vez de Andorra, para apanhar a emissão mais-ou-menos em condições de visibilidade e que não nos fizesse dar um pontapé numa cadeira e mandá-la contra a porta do frigorífico.
Estou sentado à mesa da cozinha e já estou na cerveja há muito tempo. Já não consigo fazer um Tinto de Verão. O máximo a que me aventuro, para além de retirar a carica da garrafa, é ir bebendo, de vez em quando, um copo de bagaço que um amigo me ofereceu. Bagaço caseiro. Daquele que cega. Bebo-o como se fosse um submarino. Imagino que largo o pequeno copo de vidro com o bagaço dentro do copo de cerveja e bebo tudo junto, mas na verdade, bebo um golaço de bagaço pelo gargalo da garrafa incolor que o meu amigo me ofereceu e depois despejo-lhe logo como cerveja em cima.
À minha frente, pousada na bancada à minha frente, a televisão pequena a preto e branco, de baquelite branco, passa uma emissão qualquer que não percebo porque não está bem sintonizada, mas não consigo levantar-me para procurar melhor sintonia.
Nesta altura sinto que já estou bêbado. Já não consigo fazer melhor que esticar o braço, abrir a porta do frigorífico e agarrar uma garrafa média de Sagres. Enquanto houver.
Descubro que tenho um cigarro entre os dedos mas não me lembro de estar a fumar. Não me lembro se ainda fumo ou não. Mas tenho um cigarro aceso preso entre os dedos da mão, a mesma mão que levanta o copo com cerveja. E percebo que, afinal, ainda não estou muito bêbado. Ainda bebo a cerveja pelo copo. Ainda não a bebo directamente da garrafa. Ainda tenho mais algumas pela frente, antes que fique realmente muito bêbado, enjoado, com vontade de vomitar e vomitar. Depois é arrastar-me até à cama, que fica ali ao fundo do corredor que sai da porta da cozinha até à última porta, onde fica o meu quarto e a cama onde me irei deitar se me conseguir arrastar até lá. Há noites em que não chego lá. Há noites em que me fico pelo corredor. Há noites em que consigo chegar até às bordas da cama, mas erro a queda.
Penso sempre, como estou agora a pensar, aliás, que amanhã é outro dia e posso sempre repetir tudo outra vez e de novo. E tentar acertar na cama.
Que mais há para um tipo fazer em dias assim? ou como diziam os Rádio Macau, dias d’alma vaga / tão perto de Deus / tão longe de mim / sem horas boas nem más / sem horas sequer / apenas vazio na alma / apenas dias assim // há dias assim / feitos de silêncio / com a voz de Deus / a soar em mim / dias sem riso nem choro / sem horas sequer / apenas silêncio d’ouro / apenas dias assim…
Afinal nem devo estar assim tão bêbado. Ainda me lembro da letra de uma música dos Rádio Macau. Deixa cá ver mais outra Sagres.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/07]

Uma História Efémera

Eu tinha dezasseis anos. Ela também. Eu ia de férias para a Zambujeira. Ela também. Eu apanhei o expresso da Rodoviária, na Avenida Heróis de Angola. Ela também. Eu ia sentado ao lado dela. Ela ia sentada ao meu lado.
Chegámos à Zambujeira, os dois ao mesmo tempo. Montámos os dois a canadiana. Depois vesti os calções de banho. Ela vestiu o biquíni. Eu fui para a praia. Ela também. Eu corri de mão dada com ela para o mar. Ela correu de mão dada comigo para o mar. Mergulhámos os dois de mãos dadas. Ela acabou a beber um pirolito. Eu ri-me.
Passámos o resto do dia entre a toalha, estendidos ao sol, e o mar frio do Atlântico. Eu fiquei vermelho. Ela ficou bronzeada. Ela besuntou-se com creme hidratante. E besuntou-me a mim. Eu queixei-me de dores. Ela riu-se.
Na primeira noite jantámos uma tosta-mista. Eu comi metade. Ela comeu a outra metade. Eu bebi uma cerveja. Ela também. Depois fui-me deitar. Ela também. Eu deitei-me com ela na minha canadiana. Ela deitou-se comigo na minha canadiana. Estávamos cansados. Eu dormi. Ela também.
Eu passei uma semana entre o parque de campismo, a praia e uns cafés ao fim da tarde, ao início da noite e, às vezes, ao longo da noite. Ela acompanhou-me sempre.
Eu estava apaixonado. Ela também.
Ao fim de uma semana, eu acordei na canadiana. Ela não acordou na canadiana porque não estava lá.
Ela não estava lá mas deixou um papel no lugar dela. O papel dizia Vou para a Quarteira. Vou ter com a minha tia. X.
Eu olhei o papel. Virei-o. Voltei a lê-lo. Quem era a tia? Porque é que ia ter com a tia? E o que é que queria dizer o X?
No dia seguinte apanhei o expresso de regresso a Leiria. Ela não. Voltei para casa dos meus pais. Ela, acho que ela continuou em casa da tia. Acho que não regressou a casa dos pais. Não naquela altura.
Passei o resto do Verão a ler livros de banda-desenhada e a ir mergulhar ao rio com o meu vizinho. Também fui aos pássaros. Nunca tinha ido aos pássaros. Não gostei. Não voltei a ir os pássaros. Continuei a ler bandas-desenhadas. Continuei a ir mergulhar ao rio.
Parti uma perna ao escorregar na beira do rio.
Quando as aulas recomeçaram, eu estava com a perna engessada. Eu vi-a. Ela viu-me. Ela perguntou-me Partiste a perna? Eu não cheguei a responder. Um tipo, mais velho (já tinha barba), chegou-se ao pé de mim e dela e abraçou-a. Trocaram um xoxo (é assim que se escreve?). Ela não esperou pela minha resposta. Foram-se embora abraçados.
Eu continuava com dezasseis anos. Ela também.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/05]

Meio-Frango Assado

Andava para trás e para a frente na avenida. Não fazia a avenida toda porque não conseguia. Mas ia até meio, e depois voltava para trás. Fazia esta caminhada de manhã e ao fim da tarde pela fresquinha. Duas vezes por dia.
De manhã, acordava cedo, ficava uns bons dez minutos na cama a espreguiçar-me e a deixar que os barulhos da rua furassem os vidros da janela e viessem soprar-me ao ouvido. Depois vestia-me e saía. Fazia metade da avenida para lá e regressava. A meio da avenida já me cheirava ao frango assado da loja de take away do Rei dos Frangos. Sempre gostei de frango assado e, mesmo não gostando muito do frango assado do Rei dos Frangos, que é, contudo, bem melhor que o frango assado do Pingo Doce, mas que não cheiro na rua quando lá passo porque esse não chega à rua, gostava de sentir-lhe o cheiro. Ao final do dia, quando voltava a fazer o mesmo caminho, quando ia até meio da avenida, e quando lá chegava sentia outra vez o cheiro do frango assado e, acontecia muitas vezes, acabava por comprar meio-frango assado, que por vezes era uma metade que estava para lá esquecida, que a maior parte das pessoas levava um frango inteiro, e trazia um meio-frango seco, que acabava por não comer e, no dia seguinte, desfiava-o e fazia uma tosta com frango assado e maionese ou misturava o frango com pasta cozida, requentada no wok com um pouco de legumes salteados e tomate seco. Às vezes espalhava um pouco de lascas de queijo da ilha por cima. Depois, um dia, o médico disse-me que não era boa ideia comer coisas no wok e salteadas, e queijo da ilha, porque me fazia mal. Não liguei muito mas reduzi. Todas as vezes que ia até meio da avenida, no meu passo lento e tremido, sentia o cheiro do frango assado e tinha vontade de o voltar a comer, ali mesmo, no meio da rua, à mão, à guloso, como dizia a minha mãe, sem pão nem batatas nem arroz nem couves nem mais nada a acompanhar.
O frango assado, e pensava muito nisso enquanto caminhava ao longo da rua, lembrava-me muito os Domingos com os meus pais, Deus os tenha, depois de um dia de praia e sem tempo para cozinhar, optava-se pelo frango assado com batatas pála-pála semi-caseiras. Também nos Domingos de jogos de futebol, principalmente quando jogava o Benfica, o frango assado era ementa. Comíamos à mão, e lambíamos os dedos. Primeiro o frango era pincelado com molho de limão, depois começou a levar piri-piri. Primeiro também acompanhava com Sumol ou Coca-Cola e, mais tarde, uma litrosa de cerveja. Às vezes bebia um copo de vinho tinto mas, o ideal mesmo era a cerveja. Uma Sagres em garrafa de litro.
Agora já não passo daqui. Fico-me pela esplanada, aqui debaixo de casa. Já me canso ao descer o prédio de elevador. Sento-me logo numa mesa e deixo-me ficar. Às vezes trago uma revista e fico por cá a folheá-la, às vezes adormeço com a revista aberta à minha frente, sentado aqui na esplanada, e acordo ao ouvir Está tudo bem?, e eu abro os olhos, faço um pequeno sorriso simpático e digo Sim, menina, está tudo bem.
Às vezes peço às miúdas do café para me irem comprar um meio-frango lá à frente, ao Rei dos Frangos, e elas fazem-me esse favor. Já não cheiro o frango assado a meio da avenida, mas ainda tenho o prazer de comer um bocado de frango assado à mão, sem mais nada a não ser o frango assado, às vezes demasiado seco, paciência, a acompanhar com um pequeno copo de vinho, que o médico disse-me que cerveja é que nem pensar.
Sinto saudades das minhas caminhadas pela avenida. Agora fico a ver as miúdas a irem lá buscar-me o meio-frango. Mas depressa as perco de vista. Deixo de as ver. Precisava de mudar as lentes do óculos de ver ao longe. Mas não chega para tudo, não é?

[escrito directamente no facebook em 2020/07/27]

Juá

No meu tempo de miúdo havia um detergente para lavar a roupa, lavar a roupa à mão naqueles tanques que não eram de guerra mas de cimento, que quase só as mulheres utilizavam, e que já eram um upgrade dos lavadouros públicos onde as mulheres se juntavam para distribuir notícias enquanto lavavam as roupas da família e das famílias de bem da cidade (como muito bem descrevia Chianca de Garcia na sua popular Aldeia da Roupa Branca), chamado Juá, que era, também, um verdadeiro Bazar das Novidades, e que me perdoe o verdadeiro Bazar das Novidades que, na rua D. Dinis, em Leiria, alimentava os meus sonhos de criança, mas este bazar que era o Juá fez-me brincar de mil-e-uma maneira e hoje ainda me serve como impropério para gritar à cara das pessoas que fazem asneiras grosseiras, com irem a conduzir um carro a vinte quilómetros por hora em plena auto-estrada A1, ou simplesmente porque me chateiam Ouve lá! Tiraste a carta no Juá, foi?
O Juá oferecia vários brindes, quase todos eles destinados às crianças, aos filhos das mulheres que, afinal, iriam utilizar o detergente na lavagem da roupa da casa, talvez, quem sabe, para entreter a criançada enquanto as mães trabalhavam à volta do tanque, a esfregar, esfregar, esfregar, e depois pendurar ao sol para secar, mas não durante muito tempo directamente ao sol para não queimar a roupa e o branco não ficar amarelo e o preto não ficar castanho, enquanto os pais, coitados, ganhavam a vida lá fora, longe desta azáfama.
Os brindes do Juá eram feitos numa fábrica em Leiria (está bem, era no Juncal, mas é a mesma coisa, não é?), da mesma forma que as famosas e resistentes cassetes Sonovox, com que fazíamos as mixtapes apaixonadas, também eram feitas em Leiria (era na Marinha Grande, que é também a mesma coisa, não é?).
O Juá ofereceu jogos do Galo, bonecos militares, cowboys e índios, que davam para fazer exércitos e conquistar o mundo ou, pelo menos, o quarto à irmã (às vezes a cama, que um quarto dava para dois filhos, às vezes mais), pequenas molduras para fotografias rasgadas da Crónica Feminina, copos de plástico coloridos, bolas, bonecos para as pontas dos lápis e lapiseiras, canecas para o leite com Ovomaltine matinal e uma colecção de sinais de trânsito para estarmos familiarizados com as regras quando chegasse a nossa vez de tirar a carta, mas que então também servia para brincarmos às cidades com os carrinhos da Matchbox em estradas desenhadas no chão de terra batida atrás das garagens, terrenos públicos ou privados que todos usufruíamos nas brincadeiras.
Às vezes também vinham brindes para as mães. Para as mães porque os pais não queriam saber disso para nada, mas as mães queriam porque compravam o detergente e usavam os brindes para poupar nas despesas da casa: copos de vidro que iam à mesa do jantar, colheres de esparguete que a minha mãe nunca utilizou porque teimava sempre em partir o esparguete antes de o cozer, para caber no tacho e as famosas molas de roupa, em plástico, coloridas, que vinham destronar as eternas molas de madeira que as equipas de cinema nunca deixaram morrer porque dá sempre jeito à secção de iluminação.
Também havia fervedores de leite (dantes o leite não era pasteurizado e tinha de ser fervido, não era?) e conjuntos de chá.
Também houve uma época em que o Juá oferecia carros e motos por sorteio, mas nunca saiu cá em casa nem em casa de nenhum dos meus amigos de infância cujas mães também usavam Juá para esfregar a roupa nos tanques de cimento enquanto os filhos se entretinham com os brindes grátis que as embalagens traziam.
Aqui tenho de fazer um pequeno aparte para referir o meu brinde preferido da Juá, que era uma régua com dois buracos de tamanho diferente e ranhuras onde iam encaixar várias rodas de vários tamanhos que giravam nesses buracos, arrastados por lápis ou canetas, e faziam lindos desenhos artísticos e muito gráficos.
E só me lembrei do Juá porque quando estava a ultrapassar o carro que seguia à minha frente todo chegado à esquerda até eu ter de apitar várias vezes a pedir passagem, me virei para ele, para o condutor do outro carro, e gritei do sítio onde estava Saiu-te a carta no Juá, foi, meu cabrão?

[escrito directamente no facebook em 2020/06/25]

Sair de Casa

Tínhamos saído de carro, eu e ela, para ir à cidade. Há três meses que não íamos à cidade. Há três meses que não passávamos do Pingo Doce para baixo. Saíamos de casa para ir ao Pingo Doce e voltávamos. Não chegávamos a ir à cidade. Então naquele dia, resolvemos ir à cidade.
Levámos as máscaras, os frascos com álcool, as luvas. Circulámos pela cidade de carro. De repente, a cidade parecia estar como a conhecíamos antes. Muita gente na rua. Muita gente a entrar e a sair de lojas. Muita gente com ar atarefado. Quase toda a gente com máscaras. Algumas esplanadas com gente. Não muita, mas alguma. Outras esplanadas fechadas.
Perguntei-lhe Vamos beber uma cerveja? e ela olhou para mim e não respondeu. Olhou só. Ficámos assim um bocado de tempo. Fomos despertados pela buzina de um automóvel atrás de nós na estrada. O semáforo estava verde. Arranquei. Arranquei devagar. A pensar no olhar dela, no olhar que ela me fez e na reposta que não me deu.
Dei uma guinada no volante, mudei de estrada, e disse-lhe Ok!
Ela descalçou as sapatilhas, levantou as pernas e colocou os pés em cima do tablier. Eu saí da cidade e apanhei a auto-estrada.
Havia movimento na auto-estrada. Não muito, mas algum. Estávamos na A1. Acelerei. Saí para apanhar a A13. Fizemos a A13 até apanharmos a A6. Na A6, acelerámos até ao fim da auto-estrada. Aqui acho que não ultrapassámos ninguém e não me lembro de nos termos cruzado com qualquer outro carro. O Alentejo estava deserto. A auto-estrada que cruza o Alentejo até Espanha estava vazia. Entrámos em Espanha e não parámos. Ainda pensei nos caramelos de Badajoz. Nas inúmeras vezes que tinha ido a Badajoz com os meus pais. No pão com calamares e na Coca-Cola que em Portugal não havia. Nos jogos que o meu pai me comprava. Na dificuldade em escolher qual o jogo a trazer de uma loja repleta de jogos até ao tecto. Houve um ano que trouxe umas bolas penduradas por uma corda, ligadas a uma argola que enfiava no dedo e fazia batê-las uma na outra, em cima e em baixo da mão. Fazia um barulho deliciosamente irritante. Desapareceram de casa de forma misteriosa. Sempre achei que fora a minha mãe a dar-lhes o sumiço em nome da sua sanidade.
Ela perguntou Onde vamos? e eu respondi Por aí!
Fomos comendo as placas que nos indicavam Madrid. Íamos ouvindo a música em shuffle da pen. Uma boa selecção (a selecção era minha). Mas havia por lá coisas que já não ouvia há muito tempo. Soube bem ouvir.
Parámos numa estação de serviço à beira da estrada. Colocámos as máscaras. Eu estiquei o corpo. Tinha as costas doridas. Entrámos na estação de serviço. Ia pedir um café mas lembrei-me que o café em Espanha era uma merda. Optei por uma Coca-Cola que partilhei com ela. Partilhámos também um bocadillo de lomo. Comprámos duas garrafas de água de litro e meio. Uma fresca e outra natural. A fresca para mim. A natural para ela. Assim, toda a gente fica contente. Pagámos. Saímos. Encostei-me ao carro a fumar um cigarro. A máscara pendurada no bolso de trás das calças. Ela encostou-se ao meu lado e roubou-me o cigarro das mãos. E disse-me A máscara está a limpar o pó ao carro. Eu encolhi os ombros, mas tirei a máscara do bolso, abri a porta do carro e coloquei-a no porta-luvas.
Ficámos ainda um bocado por ali mesmo já depois de termos acabado de fumar o cigarro.
E ela perguntou Vamos?
Eu entrei no carro. Ela também. E arrancámos.
Estávamos a chegar aos arredores de Madrid e eu perguntei Madrid? e ela virou-se para mim e abanou a cabeça. Continuámos estrada fora. Contornámos Madrid.
Quando o dia começou a cair pensei que o melhor seria parar para descansar o corpo e dormir um pouco. Apontei para Saragoça. Chegámos já noite. Procurámos um hotel a funcionar. Ficámos no primeiro que encontrámos. Entrámos e já não saímos. Não comemos nada. Estávamos cansados. Tomámos um duche e dormimos. Nem força tínhamos para foder.
No dia seguinte acordámos cedo. Saímos do hotel e fomos procurar um café para beber um americano e comer uma tostada com tomate. Depois de fumarmos um cigarro na rua, pegámos no carro e partimos de Saragoça.
Primeiro pensei em Barcelona, mas imaginei que haveria por lá gente a mais. Depois passou-me Andorra pela cabeça, para matar saudades do sítio de onde o meu pai me trouxe o meu primeiro walkman, mas pensei que se calhar havia alfandega para passar e achei melhor nem pensar nisso. Cruzar os Pirenéus, isso era certo. Mas por outro lado. Sem passar por Andorra. E seguir para Toulouse. Depois, talvez Montpellier. Marselha. Até Cannes. Sim, seria bom ir até Cannes. E depois? Depois haveríamos de continuar por ali fora enquanto tivéssemos dinheiro, com a pen a dar-nos uma boa selecção musical (a selecção era minha).
E depois? Quando o dinheiro se acabasse?
Quando o dinheiro se acabasse, vendíamos o carro e comprávamos dois bilhetes de autocarro ou comboio ou avião para regressar. Se regressássemos. Logo haveria de se ver.
Olhei para ela e sorri. Ela sorriu-me. Não precisava de a consultar a pedir opinião. Não queríamos voltar já para casa. Estávamos fartos de casa. E ela iria comigo até onde fôssemos. E foi.
E ao ver aquele sorriso só pensava que, nesse dia à noite, não iria estar cansado. Não podia estar cansado. Aquele sorriso matava-me. E ri-me satisfeito e contente enquanto cruzávamos a fronteira e entrávamos em França.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/15]

Exame de Geografia

Acho que ainda não era Verão. Era uma Primavera quente, bastante quente. Saí da casa de calções e t-shirt e sapatilhas All Star pretas nos pés. Ia leve mas ia nervoso. Afinal, não era todos os dias que fazia exames. E, naquele dia, tinha o exame de Geografia do nono ano para fazer. Era de manhã, tinha acabado de tomar o pequeno-almoço, umas torradas com manteiga e um copo de leite frio com uma colher de Nesquick. Ou talvez fosse de tarde, e eu tivesse acabado de almoçar rissóis de peixe com arroz de cenoura. Não estou seguro. De certeza é que era dia de exame de Geografia e eu saí de casa de calções, nervoso com o exame mas confiante no estudo feito e preparado para me sair bem.
O exame era no colégio perto de casa. O mesmo colégio onde estudava. Não era bem perto de casa, mas suficientemente próximo para ir a pé. Sozinho e a pé.
À entrada do colégio fui barrado por uma freira que me perguntou ao que ia. Ao exame, irmã. Ao exame de Geografia, respondi. Não assim, disse-me. Não assim, de calções. Isso não é maneira de vires para um exame.
Fiquei parado a olhar para ela. Ela ficou parada à minha frente. A barrar-me a entrada. Senti a cara a ficar vermelha. As mãos a fecharem-se em punhos. A garganta a apertar, a prender-me a respiração. Eu a querer falar, a querer perguntar o que fazer, mas a voz, estrangulada, a não sair. Estava a sentir os olhos a ficarem húmidos. Estava prestes a chorar. Até que a freira me disse Vai num instante a casa, vá! Despacha-te! Vai vestir umas calças.
E eu estive ali uns segundos como minutos-horas parado em frente à freira a processar o que ela tinha acabado de dizer e então percebi e voltei para trás a correr. E foi a correr que fiz o caminho inverso e regressei a casa onde os meus pais já não estavam, tinham ido trabalhar. Procurei a chave de casa debaixo do vaso à entrada e entrei. No quarto, vesti umas calças de ganga e senti o calor daquela Primavera quente, daquela manhã de calor, talvez fosse uma tarde de calor, já não sei.
Despachei-me. Saí de casa. Fechei a porta e deixei a chave debaixo do vaso.
Recomecei a correr de regresso ao colégio e, a meio, não era bem a meio do caminho porque já não me lembro onde era exactamente o meio do caminho mas, ao longo do caminho e da minha correria, cruzei-me com um cão, um cão a ladrar, abrandei o passo de corrida com medo, o cão virou-se para mim a ladrar, eu acabei por parar, com receio do cão, mas o cão não se mexeu, não estava a ladrar para mim, estava a ladrar para alguma coisa à frente dele, no meio do mato daquele terreno baldio, e olhava para mim para me avisar, para me chamar atenção e, depois de passar o medo inicial, avancei, cauteloso, pelo meio do mato, com o cão a aproximar-se de mim, mas não estava a aproximar-se de mim, estava a ir comigo de encontro ao que ele queria que eu visse, e eu vi, um ninho de pássaro com três passarinhos, um deles fora do ninho, tombado no chão, no meio do matagal.
Agarrei no passarinho que tinha caído para fora do ninho e coloquei-o lá dentro. E fiquei ali durante algum tempo a olhar os passarinhos no ninho a chilrear, se calhar com fome, se calhar com saudades da mãe, se calhar com frio, se calhar assustados com a queda que tinham dado e eu ainda olhei em volta, em volta para o céu à procura de uma possível mãe e não encontrei ninguém até que resolvi subir à árvore e colocar o ninho entre duas braças.
Desci e fiquei ali, com o cão, agora calado e de rabo a abanar, a olhar para o ninho. Depois sentei-me no lancil do passeio. O cão sentou-se ao meu lado. Estivemos à espera que regressasse a mãe dos passarinhos.
O cão não tinha trela. Eu ainda não fumava. Não passou mais ninguém por ali e, finalmente, um pássaro apareceu a voar e entrou pela árvore dentro e foi até ao ninho. Os passarinhos num alvoroço devem ter começado a contar a sua desgraça, uma desgraça que só não tinha sido maior porque O cão e o rapaz ajudaram-nos, mãe.
Satisfeito com o desenlace da história, levantei-me do lancil, o cão também se levantou, dei-lhe duas palmadas no lombo, à laia de despedida, coloquei as mão nos bolsos das calças e tomei o caminho de casa…
…quando, de repente, me lembrei que tinha um exame para fazer e tirei as mãos dos bolsos das calças, virei costas, recomecei a correr em direcção ao colégio, corria tanto que batia com os pés no rabo e, quando finalmente cheguei ao portão do colégio, a freira, a mesma freira, não me deixou entrar porque o exame estava a terminar. Eu deixara passar o tempo e o tempo fugiu-me e já não tive tempo para fazer o exame de Geografia.
E nessa manhã, que pode ter sido nessa tarde, ficou decidido que eu teria de repetir o nono ano. Por causa da minha ausência ao exame de Geografia.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/10]

Tinha Quatorze Anos e Ia Fazer Quinze

Tinha quatorze anos. Ia fazer quinze. Ia fazer quinze anos mas ainda não os tinha feito. Tinha quatorze anos e ia a conduzir a motorizada, uma acelera que não andava muito mas andava o suficiente para ir de casa à cidade sem estar a depender dos meus pais e da carreira que não funcionava nos horários pretendidos, quando fui abalroado por um carro que vinha a sair de um parque de estacionamento à entrada da cidade, e não olhou à esquerda, de onde eu vinha, só terá olhado à direita, que lhe dava mais jeito e tinha a vista desafogada, e levou-me à frente, deitou a motorizada a baixo, eu fui abaixo com a motorizada, andei a deslizar pelo asfalto, a motorizada acabou por ser pisada pelas rodas do carro e quando voltei a acordar estava no hospital e era o meu dia de anos.
No meio daquele azar também tive alguma sorte. Foi mais o susto que outra coisa. Não morri. Nem tive grandes danos.
A motorizada foi para a sucata. O carro passou-a a ferro e mandou-a para a sucata.
O meu pai disse que o homem do carro ia ter de me dar uma motorizada nova.
Eu desmaiei. Devo ter batido com a cabeça no chão e desmaiei. Mas não tive nenhuma contusão nem nenhum traumatismo. Queimei as mãos e os joelhos quando deslizei pelo asfalto. O capacete protegeu-me. Mas não me livrei do susto.
Fiz os quinze anos na cama do hospital. A minha mãe levou-me um Bom-Bocado com uma vela, às escondidas dos enfermeiros, e cantou-me os parabéns baixinho para eles não ouvirem.
No dia seguinte, quando saí do hospital, já tinha quinze anos e não tinha motorizada.
Já passei uma semana inteira com quinze anos e continuo sem motorizada. O meu pai disse-me que o homem do carro ia ter de me dar uma motorizada nova, mas ainda não deu. Estou há uma semana em casa. Sem sair de casa. Sem ver a minha namorada. A minha mãe ofereceu-se para me ir levar a casa da minha namorada mas eu não quero lá aparecer com a minha mãe.
Tenho quinze anos e estou há uma semana à espera da minha independência na forma de uma motorizada que nunca mais chega. O meu pai disse que sim. A minha mãe não diz nada. Eu não sei.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/26]