Parabéns Porquê?

Parabéns a você nesta data querida muitas felicidades muitos anos de vida hoje é dia de festa cantam as nossas almas ao menino… ao menino… uma salva de palmas.
Faço sessenta anos.
Estou sentado à mesa nesta pequena sala, que também é uma cozinha, chama-se kitchenette, não é?, e onde às vezes também me deixo adormecer no pequeno sofá de dois lugares em frente à televisão para não me sentir tão só.
Hoje é o dia do meu aniversário. Sessenta anos. Faço sessenta anos e ainda ando por cá. Não sei o que é que ando por cá a fazer. Não sei o que é que deveria andar por cá a fazer. Mas ainda ando por cá.
Desci o elevador e comprei um pastel de nata na pastelaria aqui no rés-do-chão do prédio. A vela é a mesma. A mesma dos últimos anos. Tem durado. E, se eu continuar, a vela também há-de continuar comigo.
Sopro. Sopro a vela e apago a chama.
Retiro a vela do pastel de nata. Guardo a vela na caixa de fósforos. Trinco o bolo. Penso que devia ter pedido um bocado de canela. O pastel de nata não está muito queimado. Eu gosto deles queimados. Está muito doce. Um pouco enjoativo. Dou outra trinca. Quebro a massa que se espalha pela mesa. Apanho os pedaços de massa e meto-os na boca. Desfazem-se na língua e deixo de os sentir. Meto o resto do pastel de nata na boca. Mastigo. Engulo. Sinto-me um bocado embuchado. Um aniversário demasiado seco.
Levanto-me e vou ao frigorífico. Tenho um resto de vinho branco de pacote do Continente. Despejo-o num copo de vidro. Dobro o pacote de cartão e deito-o no lixo. Sento-me de novo à mesa, em frente ao pequeno prato vazio e algumas migalhas do pastel de nata, demasiado pequenas para as apanhar e meter na boca, e bebo um gole de vinho.
Parabéns! digo-me. Mas a voz sai um pouco enrolada, como se não quisesse sair cá de dentro. Às vezes custa sermos nós. Ser eu. Às vezes é difícil sermos o que somos. É difícil olhar em volta e ver que estamos sós. Nem pais, nem filhos, nem mulheres, nem amigos, nada.
No Natal é pior. Nem sei bem porquê. Não sou religioso. Mas devem ser as memórias. As memórias de outros tempos. As mesas cheias e fartas. As estórias. Os presentes. A família.
Sim, no Natal é pior.
Vinte vinte está a ser um ano muito mau. Péssimo. Um ano de merda.
Estar sem trabalho e já não ter perspectivas de voltar a ter. Não ter rendimento nem perspectivas de voltar a ter. Estar sozinho e sem perspectivas de voltar a ter mesas cheias, cheias e fartas.
Já me restam poucas coisas para vender. A televisão. O computador. O relógio de pulso do meu pai. O telemóvel. Meia dúzia de livros. Ainda meia dúzia de livros. Os óculos. Os óculos de sol e os de ler.
Olho a rua. Olho a rua através de uma nesga aberta na cortina que me esconde dos olhares lá de fora.
Já são sete da tarde e o telefone não tocou uma única vez. Não acusou nenhuma mensagem. Ninguém bateu à porta. Ninguém tocou a campainha.
Amanhã tenho uma consulta no hospital.
Não vou.
O meu olhar desvia-se da janela, demasiado alta para ver as pessoas na rua, alta o suficiente só para ver janelas tão tapadas como a minha, janelas iguais à minha, de casas iguais à minha e vidas possivelmente muito parecidas com a minha, e o meu olhar desvia-se da janela e passa pelo lava-loiças e vejo a faca de cozinha. A melhor faca que já tive. Gosto de cortar o alho com aquela faca. Deve valer algum dinheiro. Sim. Talvez. Mas aquela faca não vai para lado nenhum. Aquela faca fica aqui, comigo.
Bebo mais um gole de vinho branco. Sinto o peito a arder. Dá-me azia, o vinho. Não tenho Kompensan. Ardo.
Vejo os dedos das mãos a tremer. A pele com manchas. As unhas com riscos brancos. Dizem que isto é fígado. Sinto um arrepio no corpo. Mas não tenho frio. É ansiedade. Também já não tenho nenhum Xanax. Nenhum Valium. Já não tenho nada. Nem tesão. Miserável. Sou um miserável. Com uma vida miserável.
Sozinho no dia dos meus sessenta anos. Sozinho, em silêncio e de pila murcha.
O meu olhar regressa à janela. Volto a olhar a rua pela nesga da cortina. Não há sol, lá fora. Está um dia triste. Está um dia triste lá fora e cá dentro.
É dia do meu aniversário. Parabéns. E parabéns porquê?

[escrito directamente no facebook em 2020/06/30]

Sair de Casa

Tínhamos saído de carro, eu e ela, para ir à cidade. Há três meses que não íamos à cidade. Há três meses que não passávamos do Pingo Doce para baixo. Saíamos de casa para ir ao Pingo Doce e voltávamos. Não chegávamos a ir à cidade. Então naquele dia, resolvemos ir à cidade.
Levámos as máscaras, os frascos com álcool, as luvas. Circulámos pela cidade de carro. De repente, a cidade parecia estar como a conhecíamos antes. Muita gente na rua. Muita gente a entrar e a sair de lojas. Muita gente com ar atarefado. Quase toda a gente com máscaras. Algumas esplanadas com gente. Não muita, mas alguma. Outras esplanadas fechadas.
Perguntei-lhe Vamos beber uma cerveja? e ela olhou para mim e não respondeu. Olhou só. Ficámos assim um bocado de tempo. Fomos despertados pela buzina de um automóvel atrás de nós na estrada. O semáforo estava verde. Arranquei. Arranquei devagar. A pensar no olhar dela, no olhar que ela me fez e na reposta que não me deu.
Dei uma guinada no volante, mudei de estrada, e disse-lhe Ok!
Ela descalçou as sapatilhas, levantou as pernas e colocou os pés em cima do tablier. Eu saí da cidade e apanhei a auto-estrada.
Havia movimento na auto-estrada. Não muito, mas algum. Estávamos na A1. Acelerei. Saí para apanhar a A13. Fizemos a A13 até apanharmos a A6. Na A6, acelerámos até ao fim da auto-estrada. Aqui acho que não ultrapassámos ninguém e não me lembro de nos termos cruzado com qualquer outro carro. O Alentejo estava deserto. A auto-estrada que cruza o Alentejo até Espanha estava vazia. Entrámos em Espanha e não parámos. Ainda pensei nos caramelos de Badajoz. Nas inúmeras vezes que tinha ido a Badajoz com os meus pais. No pão com calamares e na Coca-Cola que em Portugal não havia. Nos jogos que o meu pai me comprava. Na dificuldade em escolher qual o jogo a trazer de uma loja repleta de jogos até ao tecto. Houve um ano que trouxe umas bolas penduradas por uma corda, ligadas a uma argola que enfiava no dedo e fazia batê-las uma na outra, em cima e em baixo da mão. Fazia um barulho deliciosamente irritante. Desapareceram de casa de forma misteriosa. Sempre achei que fora a minha mãe a dar-lhes o sumiço em nome da sua sanidade.
Ela perguntou Onde vamos? e eu respondi Por aí!
Fomos comendo as placas que nos indicavam Madrid. Íamos ouvindo a música em shuffle da pen. Uma boa selecção (a selecção era minha). Mas havia por lá coisas que já não ouvia há muito tempo. Soube bem ouvir.
Parámos numa estação de serviço à beira da estrada. Colocámos as máscaras. Eu estiquei o corpo. Tinha as costas doridas. Entrámos na estação de serviço. Ia pedir um café mas lembrei-me que o café em Espanha era uma merda. Optei por uma Coca-Cola que partilhei com ela. Partilhámos também um bocadillo de lomo. Comprámos duas garrafas de água de litro e meio. Uma fresca e outra natural. A fresca para mim. A natural para ela. Assim, toda a gente fica contente. Pagámos. Saímos. Encostei-me ao carro a fumar um cigarro. A máscara pendurada no bolso de trás das calças. Ela encostou-se ao meu lado e roubou-me o cigarro das mãos. E disse-me A máscara está a limpar o pó ao carro. Eu encolhi os ombros, mas tirei a máscara do bolso, abri a porta do carro e coloquei-a no porta-luvas.
Ficámos ainda um bocado por ali mesmo já depois de termos acabado de fumar o cigarro.
E ela perguntou Vamos?
Eu entrei no carro. Ela também. E arrancámos.
Estávamos a chegar aos arredores de Madrid e eu perguntei Madrid? e ela virou-se para mim e abanou a cabeça. Continuámos estrada fora. Contornámos Madrid.
Quando o dia começou a cair pensei que o melhor seria parar para descansar o corpo e dormir um pouco. Apontei para Saragoça. Chegámos já noite. Procurámos um hotel a funcionar. Ficámos no primeiro que encontrámos. Entrámos e já não saímos. Não comemos nada. Estávamos cansados. Tomámos um duche e dormimos. Nem força tínhamos para foder.
No dia seguinte acordámos cedo. Saímos do hotel e fomos procurar um café para beber um americano e comer uma tostada com tomate. Depois de fumarmos um cigarro na rua, pegámos no carro e partimos de Saragoça.
Primeiro pensei em Barcelona, mas imaginei que haveria por lá gente a mais. Depois passou-me Andorra pela cabeça, para matar saudades do sítio de onde o meu pai me trouxe o meu primeiro walkman, mas pensei que se calhar havia alfandega para passar e achei melhor nem pensar nisso. Cruzar os Pirenéus, isso era certo. Mas por outro lado. Sem passar por Andorra. E seguir para Toulouse. Depois, talvez Montpellier. Marselha. Até Cannes. Sim, seria bom ir até Cannes. E depois? Depois haveríamos de continuar por ali fora enquanto tivéssemos dinheiro, com a pen a dar-nos uma boa selecção musical (a selecção era minha).
E depois? Quando o dinheiro se acabasse?
Quando o dinheiro se acabasse, vendíamos o carro e comprávamos dois bilhetes de autocarro ou comboio ou avião para regressar. Se regressássemos. Logo haveria de se ver.
Olhei para ela e sorri. Ela sorriu-me. Não precisava de a consultar a pedir opinião. Não queríamos voltar já para casa. Estávamos fartos de casa. E ela iria comigo até onde fôssemos. E foi.
E ao ver aquele sorriso só pensava que, nesse dia à noite, não iria estar cansado. Não podia estar cansado. Aquele sorriso matava-me. E ri-me satisfeito e contente enquanto cruzávamos a fronteira e entrávamos em França.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/15]

Parece-me Poesia

Ainda não eram oito da manhã. Ainda não eram oito da manhã de Domingo. E eu já estava de olhos abertos. Eu já estava acordado, de olhos abertos fixos no tecto, nem sei porquê que o tecto não tem nada para ver para além de uma cagadela de mosca, tenho de lá passar a vassoura com um pano embebido em lixívia, a ouvir o roncar do tractor.
Cabrão do tractor.
Ainda não eram oito horas e já o tractor andava lá em frente, no terreno em frente, num terreno votado ao abandono há anos, a que o dono manda fazer uma limpeza de vez em quando, quando as cobras começam a atravessar a estrada, que era o que vinha a acontecer já há alguns meses mas que se adivinhava bastante pior com achegada do calor estival.
Já não conseguia dormir. Levantei-me mal disposto. Zangado, mesmo. Fui nu à cozinha para fazer café. Não tinha café. Ao sair, dei um pontapé na perna da mesa da cozinha com o pé descalço e magoei o dedo mindinho. Porra! gritei. Ca-ra-lhos-ma-fo-dam!
Dei voltas pela casa. A bufar. A bufar de dor. A tentar fugir ao roncar do tractor. Procurei um buraco para escapar àquele barulho imparável.
Nada.
Fui até ao alpendre. Olhei para o lado de lá da estrada. O tractor acima-abaixo. O terreno ainda é grande. De um lado uma casa, rés-do-chão-primeiro-andar, destruída mas onde ainda se descortina uma casa senhorial, outrora senhorial, e do outro lado de uma extensa clareira, umas antigas cavalariças que também já foram lagar e adega, e hoje só um monte de lixo, casas para onde se esgueira a malta do cavalo, as miúdas da escola de enfermagem, os putos do liceu, enfim, todos aqueles que procuram locais isolados para dar azo às suas vontades privadas. O estranho nisto é que, no meio da tanta cobra que cresce no meio daquele matagal, no meio daqueles enormes silvados onde antigamente ainda apareciam algumas amoras silvestres, é nunca nenhum daqueles invasores ter sido alguma vez picado por uma cobra. E, no entanto, é vê-las a atravessar a estrada, às vezes a tentar subir a alameda até ao meu quintal e o cão e os gatos de volta delas. Uma vez cheguei a fazer queixa na junta de freguesia. Ninguém me ligou nenhuma.
O dono actual comprou o terreno numa altura complicada para a família que estava com a corda na garganta e que acabou por vender a propriedade por tuta-e-meia. Isto, segundo consta ao balcão do café Central, em frente ao adro da igreja, na aldeia. Segundo consta também, ainda de acordo com as mesmas fontes entre a Aldeia Nova e a Amarguinha, a ideia era fazer ali um parque de lazer com restaurante, bar, café-lounge, e umas coisas típicas de aldeia, ou, pelo menos, da ideia que alguém urbano faz da aldeia, com uns galinheiros e umas capoeiras, uma bicharada assim, que seria criada por ali, à base de milho, tudo muito orgânico, e que depois alimentaria o menu do restaurante, tal como umas pequenas hortas e o ressuscitar dos peixinhos da horta. Mas nunca nada aconteceu, nunca nada seguiu em frente. E ainda bem para mim, que me restou o silêncio selvagem. Agora tem estado ao abandono. Tudo está mais deteriorado. Nunca vi lá fazer qualquer manutenção. Só este tractor a desbastar mato quando o mato está quase transformado em floresta virgem. Um dia ainda hei-de ver sair lá de dentro alguma tribo perdida que nunca tenha estado em contacto com a civilização.
Mas hoje o tractor estava mesmo a incomodar-me. Não bebi café. Não consegui fugir ao barulho. Estava a ficar com frio. Percebi que ainda andava nu pela casa. Tinha partido a unha do dedo mindinho e estava a deitar sangue do dedo e doía-me bastante, assim que me lembrei disso.
Então, continuei às voltas pela casa. A tentar fugir ao barulho do tractor a esmagar o mato, as silvas, as cobras, de vez em quando o tractor batia com as lâminas de corte em rochas que haviam espalhadas pelo terreno, ocultadas pelo mato, e fazia um ruído maior, como um grito lancinante que me fazia arrepiar o corpo, as costas, ficava com os pêlos do corpo eriçados e sentia um estremecer ao longo de mim inteiro.
Corri para o fundo do guarda-roupa do quarto. Agarrei numa caixa de sapatos que estava no fundo do fundo, debaixo de tudo o que havia por lá para colocar por cima e abri a caixa, a tampa da caixa, e peguei na pistola que era do meu pai, tinha sido do meu pai, uma pequena pistola de defesa, uma pistola pequenina, quase parecia falsa, uma pistola de brincar, com o punho de madrepérola e empunhei a pistola, empunhei a pistola pelo punho de madrepérola, com o cano nas têmporas, o corpo a tremer, eu a tremer, a sentir os fios de transpiração correrem por mim abaixo, a sentir o dedo a querer carregar no gatilho, a ganhar força e vontade para fugir àquele barulho infernal que estava a dar comigo em doido até que, de repente… o silêncio.
O silêncio…
Eu estava no meio do quarto com a mão a empunhar a pistola com o cano encostado à cabeça, à minha cabeça.
Comecei a ouvir a minha respiração. Uma respiração pesada. Depois chegou-me o chilrear dos pássaros. A estridula dos grilos. Parecia que o mundo tinha recuperado a sua voz. Não ouvia o som do tractor.
Suspirei.
Baixei o braço. Tirei o dedo do gatilho. Arrumei a pistola na caixa dos sapatos e devolvi-a ao guarda-roupa, ao fundo do fundo, debaixo de tudo o que havia para pôr em cima.
Depois tomei um banho rápido, vesti-me e saí de casa antes que o barulho do tractor regressasse.
Vim até à praia. Estou a ouvir o som das ondas a bater na areia. Parece-me poesia.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/07]

Da Vida como Ela Era

A minha mãe contava-me que a mãe dela, a minha avó, era do tempo em que uma sardinha assada era o almoço de uma família. A sardinha era pendurada no alto, pendurada pelo rabo, sobre um prato, sobre um prato para onde escorria o molho da sardinha, e as pessoas passavam um bocado de broa pela sardinha para guardarem o sabor que haveria de ficar na boca antes do pedaço de broa descer ao estômago mirrado pela fome.
A minha mãe também me contava que, lá na aldeia onde a mãe dela, a minha avó, cresceu, a criançada era alimentada a sopas de cavalo cansado para aguentarem um dia inteiro na jorna, ali no campo, de sol a sol.
A minha mãe ainda me contava que, no tempo dela, dela minha mãe, não podia ir sozinha ao café. Poder, podia, mas não era de bom tom. Senhora que quisesse continuar a ser senhora não devia ir sozinha ao café. Com os filhos sim, para lhes dar o lanche, um gelado, comprar uma pastilha Pirata e fazer a colecção de cromo da bola. Uma senhora não devia fumar em público. Nem podia sair do país para viajar e conhecer mundo sem autorização escrita do marido, meu pai.
Mais a minha mãe me disse que, no tempo dela, havia crianças descalças na rua. Não ela, nem os irmãos dela, meus tios, mas outras crianças do bairro, com menos possibilidades, menos trabalho, menos salário, menos vida.
A minha mãe também contar-me-ia que eu teria tudo e não ligaria a nada. Teria uma casa com estantes cheias de livros e nunca leria nenhum. Uma discoteca imensa em vinil e só ouviria os relatos da bola em onda média. Uma colecção de carrinhos da Matchbox e só brincaria com caricas das Sagres médias que o vizinho do lado, regressado do Ultramar, acabaria por deitar abaixo diariamente para esquecer o que tinha deixado lá longe, o bom e o mau, e a minha mãe repetir-me-ia, o bom e o mau.
Mas de todas as coisas que a minha mãe me contou ou contar-me-ia, o que eu mais gostei de ouvir foi quando ela disse para eu ir mundo fora conhecer o que não conhecia e queria conhecer e que quando quisesse regressar, a porta de casa estaria aberta e ela haveria de fazer um refogado todos os dias para que o cheiro dos seus cozinhados me guiassem de volta para casa.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/05]

Tinha Quatorze Anos e Ia Fazer Quinze

Tinha quatorze anos. Ia fazer quinze. Ia fazer quinze anos mas ainda não os tinha feito. Tinha quatorze anos e ia a conduzir a motorizada, uma acelera que não andava muito mas andava o suficiente para ir de casa à cidade sem estar a depender dos meus pais e da carreira que não funcionava nos horários pretendidos, quando fui abalroado por um carro que vinha a sair de um parque de estacionamento à entrada da cidade, e não olhou à esquerda, de onde eu vinha, só terá olhado à direita, que lhe dava mais jeito e tinha a vista desafogada, e levou-me à frente, deitou a motorizada a baixo, eu fui abaixo com a motorizada, andei a deslizar pelo asfalto, a motorizada acabou por ser pisada pelas rodas do carro e quando voltei a acordar estava no hospital e era o meu dia de anos.
No meio daquele azar também tive alguma sorte. Foi mais o susto que outra coisa. Não morri. Nem tive grandes danos.
A motorizada foi para a sucata. O carro passou-a a ferro e mandou-a para a sucata.
O meu pai disse que o homem do carro ia ter de me dar uma motorizada nova.
Eu desmaiei. Devo ter batido com a cabeça no chão e desmaiei. Mas não tive nenhuma contusão nem nenhum traumatismo. Queimei as mãos e os joelhos quando deslizei pelo asfalto. O capacete protegeu-me. Mas não me livrei do susto.
Fiz os quinze anos na cama do hospital. A minha mãe levou-me um Bom-Bocado com uma vela, às escondidas dos enfermeiros, e cantou-me os parabéns baixinho para eles não ouvirem.
No dia seguinte, quando saí do hospital, já tinha quinze anos e não tinha motorizada.
Já passei uma semana inteira com quinze anos e continuo sem motorizada. O meu pai disse-me que o homem do carro ia ter de me dar uma motorizada nova, mas ainda não deu. Estou há uma semana em casa. Sem sair de casa. Sem ver a minha namorada. A minha mãe ofereceu-se para me ir levar a casa da minha namorada mas eu não quero lá aparecer com a minha mãe.
Tenho quinze anos e estou há uma semana à espera da minha independência na forma de uma motorizada que nunca mais chega. O meu pai disse que sim. A minha mãe não diz nada. Eu não sei.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/26]

Regressar a Casa, parte 06 e Final

[continuação]

Vejo o tecto desfocado. As duas rachas transformam-se em quatro.
Sinto a aragem a passar pelo meu corpo e a provocar-lhe um pequeno arrepio. Mas não é frio. Não está frio. Talvez seja a passagem de algum fantasma. Talvez seja a passagem de alguma memória.
Levanto-me da cama e vou à estante dos livros. Procuro o Príncipe Valente. Não o encontro. Aliás, não encontro nenhuma banda-desenhada. E depois recordo-me que as levei todas comigo e acabaram por ficar lá atrás, numa das minhas casas, numa das minhas vidas. E depois percebo que gostaria de voltar a ler o Príncipe Valente, mas que já não o vou voltar a comprar. Já não vou voltar a comprar livros que já comprei. Já o fiz e não quero voltar a fazer. Há livros que já comprei duas e três vezes e continuo sem eles. Já não vale a pena. Já comprei. Já li. A maior parte deles já os li. Já desfrutei. Talvez alguém mais tenha desfrutado, talvez mesmo apreciado. E isso é o principal, não é?
Não quero mais comprar livros que vou deixar nalguma casa onde não irei voltar. Nunca regresso aos sítios de onde saí.
E o que é que faço aqui, então?
Olho em volta. A cama. A estante. A escrivaninha. O sofá. A cadeira. A máquina de escrever em cima da escrivaninha. Há quantos anos não ouço aquele matraquear? Taque-taque-taque…
Acendo um cigarro.
Ouço-me perguntar alto Ficava aqui bem um escritório, não ficava? Talvez mesmo uma pequena biblioteca?
O telemóvel toca. Agarro nele e vejo quem está do outro lado. Desligo o telemóvel. Depois viro-me no quarto, para as paredes do meu antigo quarto e digo Estantes em toda a volta. Uma secretária à janela. A escrivaninha recuperada para outro lado qualquer.
De repente sinto-me cheio de energia. Mando a beata do cigarro pela janela fora, para o quintal, e ouço-me censurar Tens de deixar de fazer isso! e sorrio.
Ouço a voz da minha mãe dizer O dia de amanhã ninguém sabe! e agradeço à minha mãe o nunca ter-se desfeito daquela casa tão cheia de memórias, recordações, fantasmas das minhas vidas passadas e que sinto que querem voltar a viver.
O telefone volta a tocar. Vejo de novo quem é e não atendo.
Puxo as persianas para baixo mas deixo os vidros abertos para a casa arejar. Se vou regressar cá para casa a casa tem de perder este cheio a humidade e mofo. Sinto-me contente com a minha decisão. Mas já decidi? Vou fechando as persianas e decido O meu quarto no quarto dos meus pais. Decido No meu quarto uma biblioteca. Decido A sala mantém-se a sala. Decido A cozinha precisa de mais espaço e uma mesa para trabalhar, que gosto de trabalhar na cozinha, e maior abertura de janela para o quintal. E decido Preciso de mandar verificar as canalizações. Decido Tenho de mandar verificar a instalação eléctrica, o quadro, as fichas, as tomadas, os interruptores, os fios, os cabos, essa coisa toda que nem sei o que é. Chego à porta da rua, viro-me para trás, para o corredor de regresso a uma certa penumbra e digo Parece que já decidi mesmo. E digo Tenho de ir buscar os livros que fui deixando por aí, e é só nesse momento que me baixa uma pequena angústia ao imaginar voltar a contactar com algumas das pessoas com que vou ter de contactar.
E pergunto-me Valerá a pena?
Que se foda! Claro que vai valer a pena. Recuperar anos e anos de livros, aqui, aqui na casa onde tudo começou. Onde eu comecei. Onde nasci e me criei. De onde nunca me fui verdadeiramente embora, afinal. Sei-o agora.
E vejo a minha mãe a cruzar o corredor da cozinha para a sala com uma panela fumegante e o meu pai logo atrás a abrir uma garrafa de vinho. Olham-me e sorriem-me.
O telefone volta a tocar. Volto a olhar para quem me chama. E agora atendo. Mas nem espero que digam nada. Digo eu Afinal a casa não está para venda. Saiu de mercado. Aliás, nem sequer lá chegou a entrar. E desligo.
Saio para rua e fecho a porta. Fecho a porta à chave. Passo devagar ao longo do quintal em direcção ao portão. Olho as árvores mal tratadas. As pequenas árvores quase mortas. Os arbustos moribundos. A erva crescida ao Deus-dará. As ervas daninhas. O canto cheio de fisális. Penso Tenho de arranjar um jardineiro. E penso que tenho amigos arquitectos. Arquitectos paisagistas. Não é para isto que servem, também?
Ao chegar ao portão viro-me para trás, para a casa, olho, olho com atenção e ainda tomo outra decisão Um alpendre. O que esta casa precisa é de um alpendre. E saio pelo portão para a rua. E sinto-me mesmo de regresso à casa-de-partida. Ao sítio onde tudo começou. Onde eu comecei.
De repente lembro-me dos primeiros dias de escola e da maravilha dos cadernos novos e dos livros por estrear e dos lápis afiados e as canetas com tinta e a borracha lisinha e a pasta sem vincos nem coçada e a caixa nova de doze canetas de feltro e a caixa nova de doze lápis-de-cor e a caixa nova de doze lápis-de-cera e a caixinha de aguarelas e os tubos de guache e os pincéis e o mata-borrão e o compasso e o transferidor e o esquadro e a régua-t e…
Calma, pá! Calma! Não estás a regressar à escola, estás somente a regressar a casa, à tua casa, e dá-te por contente se conseguires recuperar os livros que foste plantando em casas-alheias. Já será um bom regresso. Já será um bom recomeço.
E vejo-me a sorrir como um tonto, a caminhar sozinho na rua, a pensar nas voltas que a vida dá para acabarmos a regressar ao início.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/24]

Regressar a Casa, parte 05

[continuação]

A mão gira na maçaneta da porta e entro dentro do meu quarto. Ainda é o meu quarto, depois de todos os quartos por onde andei a viver estes anos todos?
Cheira mal. Não mais que nas outras divisões da casa, mas talvez por ser o meu quarto e ter o seu cheiro mais marcado. Está escuro como nos outros sítios. Mas conheço a geografia do quarto de cor. Se a minha mãe não mudou os móveis de sítio, não preciso de luz para ir até à janela e abrir tudo para trás e para cima e deixar entrar o dia cá dentro. Ainda seria capaz de ir às estantes, às prateleiras onde estão os livros e escolher alguns. Os livros de cinema que estarão na prateleira de cima, porque eram maiores e de formatos mais estranhos. A poesia em baixo, nas últimas prateleiras, porque eram os mais fininhos e ficavam para o fim. Talvez ainda descobrisse Os Filhos de Torremolinos porque era grosso. Ou Os Maias por ter a cota rasgada de tanto andar na mochila, para cima e para baixo, durante o nono ano sem nunca ter sido lido.
Afasto as cortinas. Puxo as persianas. Abro a janela. Respiro fundo. Olho para fora. Acendo um cigarro e debruço-me à janela a olhar para fora. Vejo a casa de L. Tantas vezes que saltei aquele muro. Para ir ter com ela. Para ir ter com ela ao quarto. Para fugir do pai. Às vezes do cão, cabrão, que não me reconhecia às tantas da manhã, ou não sentia o meu cheiro. Via-me a passar pelo quintal e punha-se a ladrar e eu parava. Ele também parava. Parávamos os dois a olhar um para o outro. Ele ficava quieto, mas a ladrar. Acendia-se uma luz em casa e eu corria para fugir de quem quer que lá viesse, talvez o pai dela, e ele começava a correr atrás de mim, a ladrar, a ladrar. Nunca me apanhou mas, chegou a estar muito perto disso. E L. à janela, a rir-se, a ver-me a ser perseguido pelo cão, a fugir ao pai dela, a largar a cama dela à pressa quando me esquecia das horas e nem percebia que era dia de semana, havia aulas e tinha de estar em casa onde era suposto estar e então tinha de correr e ela ria, ria.
Tenho saudades desses tempos.
Tenho saudades daquele meu eu.
Deixo cair a beata do cigarro no quintal. Viro-me de costas e encaro o meu quarto. Era assim. Era mesmo assim que era o meu quarto. Era assim que me lembrava dele, que sempre me lembrei dele. A cama a um canto, encostada a uma parede. A mesa-de-cabeceira com uma pilha de livros para ler e que nunca li. Fui embora sem que os conseguisse ler. E a minha mãe nunca os tirou de lá. Sorrio. Sorrio à memória da capacidade da minha mãe de respeitar as paranoias do filho. Que livros andava eu para ler? E vou à mesa-de-cabeceira e agarro nos livros. O primeiro tem tanto pó que nem sei o que é. Limpo-o na perna, às calças de ganga. Notícia da Cidade Silvestre… Lídia Jorge? Espanto-me. A Malcastrada de Emma Santos. Mas eu li este. Não me lembro quando. Nem onde. Mas li. Acho. Acho que li. Na verdade já não me lembro. Assim Falava Zaratustra do Nietzsche. Pois. O livro que andou por todo o lado. Comprei várias edições. Nunca o li. Também não vai ser agora, não é? E este? Pássaros Feridos. Colleen McCullough. Nem sei o que é isto. O que é que isto está aqui a fazer? É meu? Era, devia ser. Não me lembro nada disto.
Sento-me na cama com os livros na mão. Deixo-me cair para trás. Sinto o pó subir. Entra-me pelas narinas, pela boca, sinto o pó invadir-me os pulmões, sinto a asma a reclamar com o pó, mas deixo-me estar deitado de costas na cama, a olhar o tecto. Há duas rachas. Duas rachas que vão de ponta a ponta. Largo os livros e deixo-os cair em cima da cama. Mas eles rebolam e acabam por cair no chão. Ouço o barulho do tombo. Foda-se!, penso. Fecho os olhos. Não queria que os livros se estragassem. Tenho sempre muito cuidado com os livros. Como é que os deixei cair? a estes?
Olho para o cimo de uma das estantes e percebo uma pilha de jornais. Que jornais serão aqueles? Não me levanto, mas sinto um sorriso nos lábios e digo alto, estremeço um pouco quando ouço a minha voz a dizer Os Blitz! e percebo que julgava que a minha mãe os tinha deitado para o lixo. Dizia-me muitas vezes que Os jornais são um criador de bicharada, e sempre pensei que os tinha deitado fora. Já não existe, o Blitz, não enquanto jornal. Será que valem ainda alguma coisa? Não devem valer. No fundo é só papel amarelecido que já nem suja as mãos. Hoje já nada tem valor.
Depois sinto a cama a mexer-se, o colchão a estremecer e vejo M. a gatinhar em cima da cama até chegar ao pé de mim, pôr-se em cima de mim e enfiar a língua na minha orelha, eu estremecer, abanar a cabeça e dizer Na orelha não! e sentir a orelha húmida da lambidela da língua marota de M. que o fazia sempre de propósito só para me irritar. Mas gostava de mim. Gostava bastante de mim, M. Eu também gostava dela. Como é que acabou? Como é que acabámos?
E depois ocorre-me uma gravidez. Ocorre-me um aborto. Ocorre-me os pais. Os pais dela. Os pais dela primeiro. Os meus pais depois. Como é que me esqueci disto? Como é que consegui esquecer uma coisa destas? O que será feito de M.?
E, de repente, sinto-me sem forças.
Estou deitado na cama do meu antigo quarto a olhar para as duas rachas do tecto a pensar numa merda que já não me lembrava e a porta da rua está aberta e as janelas também estão todas abertas e eu já não vinha aqui há tantos anos e já não sei quem são os vizinhos nem sei o que é feito dos meus amigos de infância e acho que vou chorar e sinto a tua falta mãe e também a tua falta pai e porque é que esquecemos coisas e lembramos outras e dói-me o peito e estou com dificuldade em respirar e devia levantar-me mas não quero só quero fechar os olhos e adormecer e voltar a acordar e estar deitado nesta cama a comer uma torradas com manteiga e a ler umas histórias do Príncipe Valente e sentir o cheiro das amêijoas de Sábado…

[continua]

[escrito directamente no facebook em 2020/05/23]

Regressar a Casa, parte 04

[continuação]

E então, o cheiro. O cheiro dos refogados da minha mãe. A cebola a aloirar no azeite, na companhia do alho picado, a abrir caminho para as amêijoas de Sábado, compradas no Mercado da cidade, o Sábado era sempre dia de peixe fresco, sardinhas, carapau, peixe-espada, às vezes uma posta de safio, às vezes berbigão ou amêijoa, o que eu gostava mais, que a minha mãe fazia com pedacinhos de toucinho para dar Um gostinho, como ele dizia, e um pouco de vinho branco para embebedar as amêijoas, e eu sentado na cama a ler uma banda-desenhada e já depois de ter despachado uma fatia de pão saloio torrado, barrado com manteiga, sentia chegar-me os odores do meu almoço predilecto de Sábado, e então, de banho tomado de véspera, levantava-me da cama, vestia-me e ia perguntar se a minha mãe precisava de alguma coisa e já sabia a resposta, Não, meu querido, obrigada, e eu afinal queria era rasgar um bocado de pão para ir ao molho que se formava no tacho enquanto se transformava aquelas conchas sem jeito nenhum num manjar dos deuses se os deuses tivessem uma cozinheira como a minha mãe, não era mãe?
Não abro os armários da cozinha mas imagino a colecção de pratos e de copos desirmanados que para lá deve haver que a minha mãe guardava tudo e nunca deitava nada fora e o que estivesse bom era guardado e por isso manteve alguns pratos que já desapareceram do imaginário de toda a gente, mas eu, quando vejo conjuntos de pratos e copos de vidro verde ou castanho (se calhar é vermelho, mas não vou abrir a porta do armário para confirmar) onde quer que seja sinto uma enorme empatia porque ter aqueles pratos e aqueles copos é uma referencia de época e apetece-me dizer Sobrevivemos, apesar de tudo.
Passo pela mesa da cozinha, deixo o meu dedo percorrer a mesa onde comi, estudei, escrevi, onde ouvi os sermões da minha mãe e do meu pai, a mesa onde disse à minha mãe que tinha entrado na universidade e ia sair de casa, e vejo o risco que o dedo deixa ao limpar uma linha de pó que tem tombado sobre a mesa depois que os meus tombaram na vida.
Antes de sair ainda reparo na máquina de lavar louça e penso que me daria jeito que a minha está avariada e mandar reparar é quase tão caro quanto comprar uma nova e agora não é boa altura para estas despesas, e por mais que goste de lavar a louça à mão, às vezes é melhor não gastar tanta água e detergente e pôr a louça na máquina (é o que me dizem: Gastas muita água gás e detergente para lavar meia-dúzia de pratos).
Regresso ao corredor. Olho para o fundo, onde ficam os quartos, e onde reina a escuridão, tenho de ir abrir as janelas, e vejo-me vir lá do fundo, pequenito, bola de cautchu nas mãos, de calções e sapatilhas, gritar um Ciao, mãe! para o ar, à espera que ela estivesse atenta e ouvisse que eu ia para o terraço jogar à bola com os amigos da rua, jogávamos Benfica-Sporting, às vezes outra coisa qualquer porque não havia paridade nas equipas, e depois chegava a casa com os joelhos esfacelados, os calções rasgados, as sapatilhas rotas, e o meu pai a ralhar comigo porque estive a jogar à bola à chuva Olha a bronquite! E eu passo por mim e não me ligo. Um de nós não está ali, é só um fantasma, uma memória que se atravessa à frente e me faz pensar se não gostaria de voltar lá atrás e refazer tudo outra vez?
Suponho que não.
Caminho pelo corredor. Entro no primeiro quarto, o quarto à direita, o quarto dos meus pais, e volto a abrir a janela, as cortinas, as persianas e os vidros e deixo entrar o ar fresco da rua naquela quarto abafado e cheio de humidade, e vejo a colcha de renda, uma colcha que a minha mãe fez, uma colcha pesada, uma vez peguei-a ao colo para levá-la à lavandaria e senti-lhe o peso, mas o quarto dos meus pais é a divisão de que tenho menos memórias aqui de casa. Recordo a época em que aguardava que o meu pai saísse de casa, sentia a porta da rua a bater, e vinha deitar-me ao lado da minha mãe. Gostava de sentir o cheiro do sono da minha mãe. A cabeça enterrada na almofada do meu pai. Não sei quando é que isso aconteceu mas é uma das poucas memórias que o quarto me traz, não era costume entrar aqui, talvez quando vinha à procura de moedas ou notas perdidas nos bolsos dos casacos e das calças do meu pai, abria a porta do guarda-fatos e enfiava as mãos nos bolsos e às vezes tinha sorte, um ano foi assim que alimentei as minhas idas aos carrinhos-de-choque na Feira de Maio.
À porta do quarto ainda olho para trás, ainda vejo a senhorinha cor-de-rosa da minha mãe mas nunca a vi lá sentada, nunca lá vi roupa caída (aliás, nunca vi roupa caída em lado nenhum, cá em casa, a não ser no meu quarto, aí havia às vezes calças caídas pelo chão, sapatilhas cada uma no seu canto, meias perdidas atrás da cama…).
Estou no corredor e avanço uns passos. Estou à frente da porta do meu quarto. Deito a mão à maçaneta.
Há quantos anos não entro na minha vida de adolescente?

[continua]

[escrito directamente no facebook em 2020/05/22]

Regressar a Casa, parte 03

[continuação]

Volto a olhar a janela da cozinha e a minha mãe já lá não está. Há já muito tempo que deixou de lá ir gritar por mim em diminutivo para voltar para casa, Malandro, que o teu pai já está a jantar.
Chego-me à frente, enfio a chave no fechadura e forço a porta a abrir, para trás, para dentro, e sou invadido por um terrível cheiro a mofo vindo das entranhas de uma casa que não era aberta há tanto tempo quanto o tempo da despedida. Adeus, mãe! Adeus, pai! Encontramos-nos lá, onde quer que seja.
Entro em casa e deixo a porta aberta nas minhas costas. Não há luz. Toco no interruptor mas não acontece nada. Avanço pelo corredor e viro à esquerda, entro no que era a sala e ainda será provavelmente a sala. Procuro as janelas e abro-as. As cortinas, as persianas e os vidros. Deixo entrar a luz. Deixo entrar o ar fresco. Preciso de combater esta humidade que me está a deixar maldisposto.
Viro-me para trás. Há pó por todo o lado. Vejo a televisão. A televisão fininha, lcd, em cima de um móvel comprado em tempos para suportar uma televisão grande com cinescópio. Agora parece-me estranho. A televisão parece perdida na dimensão do móvel. Há um naperon em cima do móvel. A televisão está em cima do naperon. A minha mãe era de uma época em que os napeons eram reis. Eu nunca gostei de naperons nem de bibelots nem de acumuladores de pó que não têm utilidade nem sequer estética e são só acumuladores de pó que é preciso andar a limpar e era o que fazia a minha mãe, sempre na lida da casa, a limpar o pó, a aspirar, a sacudir os tapetes, pôr os edredons e os cobertores a arejar, mudar a disposição dos móveis, de seis em seis meses entrava em casa e pensava se não estaria a entrar em casa dos vizinhos tal as alterações ocorridas e o sofá agora estava de costas para a porta e a poltrona ao canto, perto da janela e com vista para a rua, o sítio onde eu mais gostava de ter a poltrona mas que só podia usufruir quando o meu pai não estava porque aquela poltrona era a cadeira dele, era dali que via a televisão, era ali que lia A Bola quando ainda tinha paciência para ler jornais, ainda A Bola era trissemanal e do tamanho do Expresso.
Vejo ao lado o móvel da aparelhagem, a minha aparelhagem, a aparelhagem de alta-fidelidade que o meu pai comprou para mim e onde eu devorei os meus discos de vinil até à exaustão e que ainda estão, posso vê-los, na prateleira por baixo do amplificador. Aqueles vinis são os que ouvia mais, mas hão-de haver outros, outros mais, que a minha colecção era grande e devem estar numas prateleiras no meu quarto que era onde a aparelhagem estava até eu deixar de vir cá a casa e do meu pai trazer a aparelhagem para aqui, para a sala, para ele poder ouvir o António Variações (foi ele, o meu pai, que comprou os dois discos do António Variações) e a minha mãe poder ouvir os discos da Amália de quem era realmente fã, e reparo também que as colunas, uma em cada canto da sala, colunas grandes como caixotes, também têm um naperon por cima e uns objectos artísticos que tenho dificuldade em identificar, mas acabo por perceber que um deles é uma escultura moçambicana que eu trouxe quando estive lá, em Moçambique, há muitos anos, tantos anos que já não reconhecia uma coisa que tinha sido escolhida por mim para presentear os meus pais.
A cristaleira está toda suja, mas ainda consigo perceber lá dentro os copos de vidro, sim, que lá dentro da cristaleira não sei se há cristais, talvez só mesmo vidro, os copos cá de casa eram de vidro, muitos deles comprados na Marinha Grande, uma colecção, talvez completa de vidros da Ivima, com os seus piquinhos a lembrar a Casa dos Bicos, em tantas cores quanto o arco-íris, copos que durante a vida dos meus pais só viam a luz do dia em épocas excepcionais, no Natal, na Passagem de Ano, na Páscoa, num ou noutro aniversário que calhasse fazer cá em casa. E o mesmo se passava com os pratos das colecções de louça da minha mãe, coisas às quais nunca liguei nenhuma mas que ela entendia serem de valor, como um conjunto de louça inglesa estreada nas vésperas do meu casamento e, tal como o meu casamento, foi usado uma vez e guardado. Mas talvez tivesses razão, mãe, talvez eu não perceba o valor destas coisas que tu valorizavas como tu não entendias o valor das minhas coisas. Talvez tivesses razão, talvez eu gostasse, afinal, de comer as minhas refeições nesses pratos artísticos e com história em vez daqueles pratos brancos e simples e anónimos que estou sempre a partir quando me ponho a lavar a louça à mão, coisa que faço muitas vezes quando estou aborrecido, coisa que me acontece com uma certa regularidade nestes últimos anos, mãe.
Volto ao corredor e cruzo-o para a cozinha. Volto a abrir as persianas e os vidros da janela. Experimento abrir a torneira de água mas nem um fiozinho. Nem o barulho engasgado de um tubo fechado mas ainda com água na sua garganta.

[continua]

[escrito directamente no facebook em 2020/05/21]

Regressar a Casa, parte 02

[continuação]

Olho para a janela da cozinha por onde a minha mãe me chamava por diminutivo e vejo-a lá, nem nova nem velha, mãe, que foi o que ela foi sempre, mãe, e penso se vale a pena entrar em casa e deixar-me perder em histórias que já deviam estar mortas.
O que é que lá vou fazer? Recuperar memórias antes da casa ser vendida? Talvez lá estejam ainda os discos de vinil, os discos que nunca levei para mais lado nenhum das minhas casa por se ter intrometido o cd e o mp3 e o streaming e os vinis ficaram cá por casa nas estantes que pedi ao meu pai que fizesse, que tinham de ser fortes para aguentar o peso dos discos que foram sendo comprados ao longo de anos, primeiro timidamente nas discotecas da cidade e depois, mais tarde, vindos directamente de Inglaterra, por correio, porque cá não havia, e eu por ansioso a aguardar, e nunca mais chegavam, os discos, que as coisas às vezes demoravam a chegar e a aparecer, e era quando apareciam, e já o António Sérgio me ensinava o gosto pela diferença, o prazer de escutar sons que não escutava em mais lado nenhum e que fazia de mim um privilegiado que conhecia coisas que a maior parte dos meus amigos não conhecia e ficava muito contente quando encontrava alguém assim, um desconhecido com os mesmo gostos que eu, principalmente se fossem raparigas, e para quantas delas não fiz eu cassetes-pirata com selecções minhas das músicas que passariam a ser nossas pelo tempo que fosse, e nunca era muito tempo porque os gostos mudavam à velocidade da luz e era impossível estar parado, tranquilo, com os acenos que a vida nos dava e hoje, quando penso na calma da vida que levo hoje, na música que já não ouço e nas raparigas com quem já não namoro, pergunto se cresci como devia, se envelheci como devia, se a minha vida foi aquilo que quis que fosse ou se foi aquilo que mereci, depois de tantas cabeçadas dadas ao longo dos anos sempre a aprender, sempre a aprender, mas sempre a cometer os mesmos erros, sem perceber que as mesmas acções dão sempre os mesmos resultados, depois de fugir de casa, da cidade, do país, conhecer mundo e gente diferente com gostos e conhecimentos muito diferentes para terminar aqui, outra vez, no mesmo país, na mesma cidade, na mesma casa, a casa que foi minha, e ainda é claro, agora que os meus pais se foram, agora que eles morreram e a casa está vazia e em silêncio e eu só quero é desfazer-me dela e continuar a minha vida longe de histórias que já ficaram lá para trás e algumas delas não gostaria de lembrar, algumas delas foram esquecidas, trabalhei duro para as esquecer e agora, agora que olho para a janela da cozinha e vejo a minha mãe a chamar-me pelo diminutivo, e se eu não aparecer breve levo, talvez, umas palmadas no rabo, talvez com a colher-de-pau que as mãos da minha mãe são muito frágeis, e eu pergunto o que será feito das cassetes-pirata que nunca seguiram caminho, as cassetes-pirata que gravei e nunca foram entregues, por vergonha ou por prazo de validade, se elas ainda por lá estarão, mas gavetas da escrivaninha do meu quarto onde não entro há tantos anos mas que a minha mãe sempre quis preservar, não fosse o diabo tecê-las e eu tivesse de regressar a casa de partida, O dia de amanhã ninguém sabe!, dizia-me sempre.
Ainda terão os nomes para quem foram gravadas, as cassetes? ou a ideia de terem nomes é uma esperança que invento hoje, agora, na vã tentativa de recuperar o que não pode ser recuperado?
Talvez também esteja por lá o fato do judo que aprendi durante algum tempo, a luta não era o meu forte, não é, nunca foi, e que cor é que cheguei a atingir?, o amarelo, talvez, não sei, mas não andei por lá muito tempo, ainda me lembro bem do fato de judo com que gostava de andar vestido por casa a fingir-me mestre e com o qual cheguei a mascarar-me num Carnaval para fugir ao eterno fato de Cowboy com as calças de ganga de todos os dias, o chapéu e a pistola de fulminantes e o cinto com o coldre e a estrela de Sherife, que um Cowboy que se presasse era sempre um Sherife, comprado no Bazar das Novidades, que sempre imaginei muito maior do que na realidade era, mas foi num ano muito frio e acabei por apanhar uma pneumonia porque a parte de cima do fato estava sempre a abrir-se e acabei constipado e com os meus pais a terem de me levar ao hospital para saberem o que podiam fazer por mim que me viam a sofrer sem saber o que fazer.
Sim, mãe, tudo o que passaste para que eu não sofresse dos problemas comezinhos do mundo e agora foste embora, tu e o pai, e eu fico por cá sozinho, sem saber o que fazer, sem saber se meto a chave à porta e entro em casa ou se viro costas e vou embora.

[continua]

[escrito directamente no facebook em 2020/05/20]