Para um Diário da Quarentena (Oitavo Andamento)

Desde que começou esta crise com o coronavírus e eu me remeti a uma reclusão voluntária, que não difere em muito da minha vida habitual pré-covid-19, que decidi começar uma espécie de diário dos meus dias de clausura.
Ao fim de duas semanas, e precisei de tanto tempo para entender, percebi que os meus dias são sempre iguais, banais, de um minimalismo tão grande que parecem algumas das obras do Philip Glass, e concluí que afinal não tenho grandes coisas para contar a quem quer que seja.
Resta-lhes ficar como memórias destes dias. É claro que vou continuar a escrever sobre estes dias de confinamento. O que é que iria fazer se não estivesse aqui a escrever o que estou a escrever?
Os dias repetem-se. Ora faz sol, ora está a chover. Uns dias faz calor, outros faz frio. Por vezes levanto-me de manhã, faço café e vou bebê-lo para o alpendre enquanto olho as montanhas lá ao fundo (quando não estão cobertas pelo nevoeiro), outras vezes deixo-me ficar enfiado debaixo do edredão a cozer a depressão. Umas vezes sento-me à mesa da cozinha, frente ao computador, a trabalhar, outras vezes passeio-me pelo quintal sem conseguir fazer o que tenho de fazer. Às vezes almoço, às vezes não. Tem dias em que me sento no alpendre a ler as notícias nos jornais online, e tem dias em que me encosto à ombreira da porta e vejo a luz descer até ser noite. Às vezes apanho uma maçã da macieira, limpo-a às calças e como-a ali mesmo, outras vezes vou fumar um cigarro para a estrada na esperança vã de ver passar um carro, uma motorizada. Há dias em que dou uma volta pela aldeia e não me cruzo com ninguém, nem mesmo com o padre, e há dias em que me sento no sofá, ligo a televisão e fico a ver a CMTV até começar a enervar-me. nessa altura dou um murro na parede, faço sangue nas nozes dos dedos e tenho de tomar um Brufen para acalmar as dores. A CMTV puxa-me pela violência e por vezes, só às vezes, vejo-a para destilar um pouco da fúria que me acossa. Às vezes dá resultado. Mas só às vezes, não sempre.
Quando tenho paciência, por vezes faço um bom jantar, experimento receitas, invento misturas, quando não tenho paciência como um pão com manteiga, às vezes um pão de véspera, duro, mas só o torro quando consigo ir ao fundo de mim buscar um pouco de vontade, o que não acontece sempre e, na maior parte das vezes, acabo por comer o pão com manteiga assim, duro e seco, e fico embuchado.
Tem noites que me sento no sofá a fazer zapping até adormecer com o comando na mão, cair para o lado e acordar com um fio de baba a escorrer-me pelo canto da boca, mas tem noites em que me sento no alpendre, a ouvir os barulhos da bicharada nocturna e a fumar uma ganza. Às vezes vejo um filme, uma série. Às vezes leio um livro. Mas a cabeça foge-me e na maior parte das vezes o livro fica a meio, adormeço a meio do filme e não vejo o resto dos episódios da série.
Há dias em que o relato do número de mortos e de casos detectados me deixa triste e antecipo o apocalipse num futuro bem próximo. Outros dias o relato desses números deixa-me indiferente e então temo que me esteja a tornar num tipo insensível.
Às vezes não vejo as mensagens que recebo e não atendo as chamadas que me fazem. Deixo tocar o telemóvel até se calar e, depois, desligo-o. Outras vezes leio as mensagens e respondo-lhes, atendo o telefone e até gosto de falar com quem acabo por falar. Mas essas vezes são muito raras. Acontecem muito pouco e sem avisar.
Uma constante que acompanha todos os meus dias, os dias assim-assim e os dias assado é o copo de vinho. Ah, e também o cigarro. São duas as constantes que servem para todas as estações em todos os dias do ano. Esteja eu como estiver, ter um copo de vinho tinto numa mão e um cigarro aceso na outra faz parte de mim, tanto como respirar. E não sou esquisito, posso passar da Barca Velha à Adega Cooperativa da Batalha. Embora a minha carteira esteja bem mais para beber Adega Cooperativa da Batalha que outra coisa.
Os dias repetem-se. Iguais. Monótonos. Continuo sem álcool, sem máscaras e sem sabão azul e branco. Bebo vinho e fumo cigarros, às vezes ganzas. Se não mato o bicho de uma maneira, tento de outra. Não creio muito nas minhas hipóteses de me livrar dele com vinho tinto e cigarros mas, pelo menos, contento o espírito e dou-me alento à alma. Posso morrer mas vou satisfeito. Pelo menos um poucochinho satisfeito.

Quando o Velho Morreu

Quando o velho morreu, a aldeia entrou-lhe, literalmente, pela casa dentro.
O velho tinha fama de forreta. Guardava tudo o que ganhava. Tinha vários terrenos. Terrenos rurais, com árvores de frutos, pinheiros, vinhas, oliveiras. Não deviam dar muito, hoje em dia estas coisas já não dão muito ao produtor mas, quando não se gasta nada, o pouco que se ganha vira muito. Tinha vários terrenos espalhados à volta da aldeia. O velho passava os dias de motorizada a andar de uns terrenos para os outros, a cuidar da sua vida e da vida dos seus terrenos, a ver se tudo estava bem, se ninguém tinha roubado nada.
O velho não tinha nenhuma conta no banco. Pelo menos, não nos bancos com balcões na vila mais próxima, que houve gente que tratou de o saber. Nestes meios pequenos, tudo se sabe. Ou quase tudo.
A verdade é que o velho era um miserável que vivia miseravelmente. Ninguém o via em lado nenhum a gastar um tostão. Ia de vez em quando à mercearia da aldeia comprar algumas coisas, mas nunca comprava muito. E regateava o preço das coisas como na feira, como quando ia à feira vender alguns dos seus animais ou os frescos que amanhava nas hortas que ia mantendo.
Andava sempre roto. Roto e sujo. Não sei se alguma vez tomou banho. Pelo menos, não depois de ficar sozinho na casa.
Os filhos, e tinha dois filhos, um rapaz e uma rapariga, um casal, há muito que tinham abandonado a aldeia. Tinham ido para Coimbra estudar e nunca mais regressaram. Nem um nem outro. A mulher, seguiu os passos dos filhos. Mais concretamente da filha, a mais nova. Saiu com ela. Foi com a filha para Coimbra, parece. Consta que o velho nunca lhes dava dinheiro para nada. E que a mulher levava de vez em quando. Ele tinha mau feitio, está de ver. Ela aproveitou a saída dos filhos e saiu também. Nunca mais regressou. O velho também não foi à procura dela. Acho que o velho gostava de viver assim. Era um solitário. Era uma alma de outro tempo. Um velho zangado com a sua própria existência.
A casa onde vivia estava a cair de podre. O velho não fazia a manutenção da casa. Que como estava, estava muito bem, dizia a quem o interrogava. Acho que depois que a mulher o abandonou, aquela casa nunca levou uma barrela. Nunca vi os tapetes da casa a arejar na rua. Nunca vi roupa estendida ao sol. Nunca vi uma janela aberta a arejar a casa. Mas vi o branco da cal a ficar cinzento. Vi as portadas a cair. Um vidro da janela partido e trocado por um saco de plástico de supermercado.
Na vida do velho não havia fins-de-semana, Natal, Carnaval ou Páscoa. Todos os dias eram dias de trabalho. Você não come todos os dias? Os animais também, voltava a dizer a quem o questionava sobre as suas ausências da missa e das festas da aldeia.
Quando os organizadores das festas lá iam bater à porta a pedir ajuda para a organização, dava-lhes meia-dúzia de ovos. E era o que dava. Era o que dava sempre. Um dia, os bombeiros da vila próxima também andaram pela aldeia a angariar fundos, Bombeiros Voluntários precisam sempre de apoio, não é?, pois também os presenteou com uma meia-dúzia de ovos. Os bombeiros não se fizeram rogados, levaram os ovos e fizeram uma omeleta no quartel. Não deu para muitos deles, mas não os estragaram.
Dizia-se que o velho tinha muito dinheiro escondido em casa. Dizia-se. Era o que o povo dizia. E o povo diz sempre muita coisa, tem sempre razão e sabe de tudo. O povo tem um nariz grande e enfia-o em todo o lado.
Quando o velho morreu, foi toda a gente da aldeia para casa do velho à procura do dinheiro.
Não sei como é que se soube da morte do velho, mas estas coisas sabem-se sempre, não é?
Até eu soube. Parece que o velho caiu ao poço. Caiu ao poço que tinha lá em casa, nas traseiras da casa, e que ele ainda usava para regar as couves que tinha por lá plantadas.
Não sei como é que se soube da queda do velho mas, ainda antes dos bombeiros chegarem a casa e tentar recuperar o corpo (ainda não se sabia se estava vivo ou não), já andava gente pelo quintal a escavar terra. Depois dos bombeiros recuperarem o corpo, e confirmarem que o velho estava efectivamente morto, acabou por ir para lá toda a aldeia. Até os miúdos que fugiam assim que o viam. Entraram por casa, pelo barracão onde guardava as alfaias agrícolas, escavaram o quintal, alguns até foram palmilhar os terrenos que eram do velho, os terrenos em volta da aldeia, pelo menos os terrenos que se sabia serem do velho. Mas é provável que até houvessem outros.
Eu deixei-me ficar sentado no muro de minha casa, cigarro aceso na mão, uma garrafa de vinho tinto ao lado e um copo de vidro. Aquilo era melhor que ir ao cinema.
Acabei por assistir à chegada da família. Foi no dia seguinte. A mulher e os dois filhos. Mais tarde ainda chegaram uns sobrinhos. Mas quando chegaram a mulher e os filhos, tiveram de chamar a GNR para colocar toda a gente na rua. Chegou a haver alguma confusão. As pessoas não queriam sair. Diziam que a mulher e os filhos já não tinham o direito de estar ali porque tinham abandonado o velho e a aldeia é que o tinha aturado todos aqueles últimos anos. A GNR acabou por dar voz de prisão a uns quantos mais afoitos. Chegaram a disparar para o ar. Não sei se balas verdadeiras. Também não sei se a GNR tem munição de borracha. Aqui é o campo. Aqui, quando as coisas dão para o torto, é para matar. Aqui os vizinhos levantam muros para roubar meio-metro de terreno ao lado. Aqui as pessoas cortam veios de água para não chegarem ao terreno do vizinho. Aqui abrem-se poços, mesmo quando não são precisos, para se ter acesso a água se um dia for necessário e bloquear o caminho para o vizinho seguinte. Aqui, quando as pessoas se zangam, discutem com uma espingarda nas mãos ou uma forquilha. Aqui, quando a GNR é chamada, vai armada porque nunca sabe o que é que a espera. E, no entanto, cruzam-se todos na igreja aos Domingos.
Então, a GNR teve de disparar para o alto para dispersar as pessoas que estavam no quintal e na casa do velho. As pessoas saíram, mas saíram a contra-gosto.
O funeral do velho foi dois dias depois deste acontecimento com a guarda e três dias depois da morte do velho. Não houve autópsia. Aqui é o campo. Quando alguém cai num poço, morre da queda e cai porque é o que acontece quando se têm poços sem estarem tapados.
Só os dois filhos do velho foram ao funeral. Os dois filhos e o padre. Os homens da funerária ajudaram o coveiro a enterrar a urna. Não havia mais ninguém. Não havia mais nenhum familiar. Não havia um amigo. Nenhum conhecido. Nada. Ninguém.
A mulher e os sobrinhos ficaram em casa. Suponho que à procura do que ainda ninguém tinha encontrado.
Sentado no muro do meu quintal, a fumar um cigarro e com um copo de vinho tinto nas mãos (o vinho desta zona é muito mau mas, os pequenos produtores, que fazem vinho para consumo próprio, oferecem-me, às vezes, algumas garrafas de um vinho que, ao segundo copo, se revela, afinal, muito bom), vejo-os a andar lá pela casa. Ouvem-se barulhos vindos lá de dentro. As gentes da aldeia vão passando aqui pela casa, a dar fé. Mas a GNR está à entrada. Ninguém entra. Andor, andor! dizem os guardas.
Depois chegam os filhos. Entram em casa. Saem todos. Pegam nos carros e vão-se embora. Foram-se todos embora. Os filhos e a mãe e os sobrinhos. A GNR, ao fim de algum tempo, também se foi embora. As pessoas voltaram a entrar em casa. Voltaram a escavar no quintal, desceram ao poço, levantaram o chão da casa e ninguém encontrou nada. A casa que estava em mau estado ficou ainda pior.
Isto já aconteceu há uns anos. Os filhos e a mulher nunca mais cá voltaram. A casa está em ruínas. O mato tomou conta de tudo. Aquilo agora é campo de víboras. Já chamei várias vezes a GNR. Já fui fazer queixa à Junta de Freguesia. Dizem que não podem fazer nada. É terreno privado. Ninguém quer saber porque ninguém encontrou o dinheiro do velho.
Um dia destes deito-lhe fogo.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/11]

Estação de Serviço

Não devia ter feito o que fiz. Mas estava ali, mesmo à minha frente. Peguei no envelope de cartão, meti-o no bolso e vim-me embora. Até me esqueci do que tinha ido lá fazer.
A freira tinha-me feito entrar na sala do padre. Ele vem já, disse-me. E eu sentei-me. E olhei à volta. Um escritório austero. Alguns livros. Poucos. Uma Bíblia em cima da mesa. Um terço em cima da Bíblia. Um quadro na parede. A única decoração. Não, a única não. Também havia um jarro com um molho de flores campestres em cima da mesa. Na mesma mesa onde estava um candeeiro, uma caneca com umas canetas, um bloco A5 e um computador portátil. Um cinzeiro. Com cinzas. O padre fuma. Será pecado, fumar?
Encostado ao computador estava um envelope de cartão. Como um maço. Cheio. Grosso. O que seria aquilo?
E a minha curiosidade.
Levantei-me e agarrei o envelope. Abri-o. Era dinheiro. Notas. Notas de cinquenta euros. Muitas. Um grosso maço de notas de cinquenta euros. Não pensei. Foi automático. Enfiei o envelope grosso no bolso do casaco. E fui-me embora. Saí da sala. Saí do edifício e evitei encontrar as freiras. Entrei no carro e vim embora.
Já nem me lembrava do que me tinha lá levado. E interessa isso, agora?
Agora preciso de gasolina. O combustível do carro está a entrar na reserva. Estou… Nem sei onde estou. Estou algures por aqui, no meio do que me parece ser um mato, uma floresta. Não vejo um carro há bastante tempo. Não vejo uma casa. Nada. Podia parar e ver quanto dinheiro está no envelope. Mas para quê? É muito. É simplesmente muito.
E ali à frente? Olha! Uma Estação de Serviço. Nem de propósito. Vem mesmo a calhar.
Paro ao lado de uma bomba. Saio do carro. Enfio a agulheta no depósito e ligo a mangueira. Encho o depósito. Olho à volta. A Estação de Serviço parece abandonada. Um pouco desleixada. Não deve cá passar muita gente. Está um pouco abandonada. Mas tem gasolina. Ouço o clique da agulheta a avisar o depósito atestado. Vou à loja pagar. Pago em dinheiro. Dinheiro do envelope.
Arranco com o carro. Vou sair da Estação de Serviço. Mas não saio. A estrada está mesmo ali, mas o ali mantém-se sempre lá. Eu conduzo em direcção à estrada mas parece que a estrada mantém sempre a mesma distância de mim, como se esse horizonte acompanhasse a minha viagem e não me deixasse aproximar. Olho para trás e vejo que continuo na Estação de Serviço. Não estou a conseguir sair. Que raio?!
Páro o caro. Saio. Caminho a pé até à estrada. E acontece o mesmo. A estrada vai-se afastando de mim. Não permite a minha aproximação. Eu começo a correr, mas tudo se mantém na mesma. A estrada afasta-se de mim. Não, não se afasta. Mantém é sempre a mesma distância. Como se eu não conseguisse aproximar-se dela.
Volto para trás. Volto a entrar dentro da loja. Não está ninguém. Dou uma volta aqui dentro. Mas não sei o que estou a fazer. Não há aqui ninguém. Volto para a rua. Volto a entrar dentro do carro. Arranco. Arranco mas não consigo sair de onde estou. Bato com a mão no volante. Desligo o carro. Acendo um cigarro. Não devia estar a fumar aqui, mas não consigo sair. Tenho de fumar.
Chega um carro. Finalmente um carro. Não via nenhum desde que entrei nesta estrada. Um casal. Ele fica a pôr gasolina no carro. Ela vai à loja. São um casalinho novo. Ainda devem estar apaixonados. Oh, que porra! O que é que isso interessa?
Olha, ela já lá vem. Traz uma garrafa de água. E o quê? Umas bolachas. Abraça-o. Dá-lhe um beijo. Entra para o carro. Ele arruma a agulheta e também entra no carro. Eu ponho o meu carro a trabalhar. Espero por eles. Ele arranca com o carro. Ela vai relaxada, com os pés no tablier. O carro chega à estrada e entra nela. Eu arranco imediatamente atrás do carro. Mas não o consigo alcançar. Eu fico para trás. Ele vai estrada fora. Desaparece de vista. E eu aqui. Na Estação de Serviço.
Volto a sair do carro.
Dou umas voltas a pé. Aqui à volta. Apago o resto do cigarro com o pé. Vou à casa-de-banho. Entro, mas não sei o que é que estou aqui a fazer. Não me apetece urinar. Abro a torneira. Molho a cara. Vejo-me ao espelho. As gotas de água escorrem pela cara abaixo. Penso no envelope de dinheiro. E penso que não devia ter feito o que fiz.
Saio da casa-de-banho.
Aproximo-me das bombas e vejo que está lá uma carrinha. A Estação de Serviço deve estar na hora de ponta. Há uma freira a encher o depósito da carrinha. Uma freira? Dentro da carrinha, várias crianças a cantar. Não sei o que estão a cantar. Mas estão a cantar. A freira que está a encher o depósito também trauteia qualquer coisa de vez em quando. Acaba de encher o depósito e vai à loja. Uma freira?
Eu olho em volta. As mãos na cintura para me ajudarem a pensar. Para me ajudarem a decidir. Vou ao carro. Agarro no envelope. Dirijo-me à carrinha da freira. Abro a porta do lado do condutor. Está outra freira sentada à frente. Canta com os miúdos. Meto a cabeça lá dentro e digo Boa-tarde, irmã!, e a freira e os miúdos param de cantar. Ela cumprimenta-me com um Boa-tarde! E eu replico Estudei num colégio de freiras em miúdo. Também cantávamos umas canções assim. Despertou-me uma nostalgia. Cantem, cantem! E a freira sorri e recomeça a cantar. Os miúdos vão atrás dela. Deixo-me estar ali um bocadinho. Deixo cair o envelope com o dinheiro no porta-luvas da carrinha. Sem ninguém dar por nada. Agradeço com a cabeça e com um enorme sorriso na cara. E faço gestos com as mãos para eles continuarem a cantar. E eles continuam. Eu fecho a porta da carrinha e vou para o meu carro. Entro. Sento-me ao volante. E espero.
A outra freira vem da loja. Entra na carrinha. A carrinha arranca e entra na estrada.
Eu estou agarrado ao volante. Respiro fundo. Dou à chave. O carro começa a trabalhar. Meto a primeira. O carro arranca. Meto a segunda quando me aproximo da estrada. Estou à espera que o horizonte acompanhe a velocidade do carro. Mas não. Entro na estrada. Acelero. Meto a terceira. A quarta. A quinta. A sexta. As árvores passam a grande velocidade por mim. Suspiro. Tenho o coração a bater muito depressa. Mas sinto-me aliviado. E vou estrada fora. Uma estrada no meio do mato. Preciso de uma cidade.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/02]

Despedida de Solteiro

O tipo era um fantasma. Estava branco. Tão branco que parecia translúcido. Eu via-lhe os riscos azuis das veias a cruzarem-lhe a cara. Sentia-lhe as jugulares a pulsar. A transpiração. As gotas de suor a escorrerem da cabeça para baixo. O cabelo brilhava. Era transpiração ou gel? O respirar pesado. Seria tudo nervos?
Ela estava bonita. Bonita como as noivas ficam. Estava bonita e radiante no seu vestido branco.
Estávamos todos à espera que ele dissesse o sim. Mas ele não parecia estar ali. Ele parecia estar a morrer. Estava à espera do momento em que ele vomitava para cima dela e do padre e dos padrinhos e de toda a gente que esperava ansiosa pelo Sim.
Ao meu lado, toda a gente se ria. Só homens. Os miúdos do meu passado, agora crescidos. Homens. E riam-se do noivo. Um deles baixou-se e segredou-me ao ouvido A despedida de solteiro foi ontem! e passou-me alguma coisa para as mãos. Um telemóvel.
E eu pensei no porquê das pessoas fazerem festas de despedida de solteiro. Principalmente na véspera. Qual a razão?
Olhei para o telemóvel que o tipo me tinha passado para as mãos. E vi o noivo. Vi o noivo perdido no meio de pernas e braços e mamas de mamilos pequenos e grandes e rosados e rabos rijos e flácidos e vaginas rapadas e peludas e com desenhos e lábios carnudos vermelhos vermelhos vermelhos que o engoliam todo e lhe iam deixando beijos por todo o corpo. Literalmente por todo o corpo. Em troca do que lhe iam comendo. E comeram-no todo. Logo ali eu vi uma boca a chupar-lhe o dedo grande do pé. E o resto… O resto…
Eu queria deixar de ver o pequeno filme daquele telemóvel. Mas não conseguia não ver. Estava fascinado com aquele happening em despedida de solteiro. Vi coisas que não julgava serem possíveis. E eu não sou propriamente casto.
E depois de todas as impossibilidades físicas e de corpos contorcionistas que não julgava possível existirem, ainda o vi vomitar-se todo para cima dele próprio e de toda a gente que partilhava com ele aquela cama king-size como se fosse só mais uma etapa de um trajecto de luxúria e desejo.
Fiquei mal-disposto.
Porque é que está a casar?
E antes de dar o sim, vejo-o, no altar, vomitar para cima da noiva do padre dos padrinhos das damas de honor e de toda a gente que estava mais próximo para testemunhar aquela união que, percebia agora, não iria realizar-se tão cedo, com certeza, depois de acontecer o que estava a acontecer e depois de toda a gente ir ver o vídeo porque, tinha a certeza, o filme não iria ficar confinado àquele telemóvel que eu tive nas mãos porque os homens não conseguem não ser sacanas e filhos-da-puta uns com os outros, não por maldade mas tão só porque sim.
Devolvi o telemóvel ao dono e sai da igreja. Deixei atrás de mim toda aquela gente em polvorosa, Coitado do noivo a vomitar, terá comido alguma coisa estragada?

[escrito directamente no facebook em 2019/06/08]