Matar Saudades

Passeio de braço dado com a minha mãe. Ou melhor, eu levo as mãos dentro dos bolsos das calças de ganga coçadas e ela tem a mão dela agarrada ao meu braço, e como que é puxada por mim, mas não a puxo, deixo-a ir à velocidade dela, devagar, muito devagar, com a bengala a servir de apoio, depois pára, cumprimenta alguém, há sempre alguém para cumprimentar, mas à distância, sempre à distância, levanta o braço, Olá! Boa tarde!, como se já não visse os seus conhecidos há uma eternidade. E é! Na sua contagem, é uma eternidade o tempo que tem estado em casa, a ver a vida a fugir-lhe, o tempo a encurtar, conta os anos, os aniversários que faz, almoçamos juntos no dia de anos e diz Que para o ano aqui possamos estar outra vez! E vamos estando, mal ou bem vamos estando por aqui e talvez consigamos chegar a outro aniversário. Já não falta muito! Pois não, mãe, já não falta muito.
Passeamos ali à volta da casa dela. Olha as montras. Conta-me histórias. Histórias que já ouvi tantas vezes. Outras são novas. Não sei se são histórias reais ou se as inventa. Mas ouço-a. Às vezes respondo-lhe. Mas eu estou ali para a ouvir falar, não para comentar. Passeamos pela cidade. Eu à velocidade dela, pela cidade quase-deserta e sinto-lhe uma certa tristeza no olhar. O vazio incomoda-a. Gosta de ver gente. De ver gente nova a andar sempre atrasada pelas ruas da cidade.
Recordo quando era ela que me levava. Mãos-dadas. O meu braço esticado. Puxado pela sua velocidade. Naquele tempo era ela que andava depressa. Às vezes tinha de correr. Correr para acompanhar o passo decidido da minha mãe.
Recordo um dia na praça da Nazaré, eu e a minha mãe de mãos-dadas a caminho da praia. Eu estava chocho. Estás a chocar alguma, dizia-me a minha mãe. Parávamos no quiosque a meio da praça e eu escolhia umas bandas-desenhadas. Na altura eram só histórias aos quadradinhos. O Fantasma. O Mandrake. O Buffalo Bill. Histórias do FBI. Histórias do Faroeste. E naquele dia estava chocho e acabámos por regressar a casa. Eu fui-me deitar na cama. Veio o médico. Estava doente. E fiquei de cama durante muito tempo. Mas as revistas foram sempre chegando. Já não era eu que as escolhia, era a minha mãe. Talvez o meu pai. Devorava-as todas. Mais que uma vez. Fiquei muito tempo em casa naquela altura. Lembro-me da saturação. O estar farto, mesmo com tantas histórias aos quadradinhos para ler. Mas já não saía com a minha mãe. Já não andava na rua de mãos-dadas com a minha mãe. Já não corria. Já não via pessoas. Já não ouvia o barulho ensurdecedor da cidade a pulsar.
Percebo como a minha mãe está saturada de estar em casa. Sozinha em casa. E os cuidados que lhe estou sempre a recomendar. Mas acho que tenho de alargar o cordão sanitário à sua volta.
Vamos passear, mãe. Vamos à rua. Vamos passear pela cidade. Ver as montras. Ver pessoas. Dizer olá às pessoas conhecidas. Contares-me as mesmas histórias de sempre. Ou outras que te lembres. Ainda te levo à padaria para comprar pão. Talvez uma broa de milho. Ao talho para comprares umas iscas de vaca de que tens saudades. Talvez à peixaria para ver se compras uns jaquinzinhos, não é mãe? Ou umas petingas. Temos de matar saudades de tudo o que temos saudade, não é mãe?

[escrito directamente no facebook em 2020/04/24]

Faz Frio e Eu Quero Ficar na Cama

Está frio.
Não saio da cama. A meio da noite fui buscar o anorak e estendi-o por cima do edredão. Não me lembro de este ano estar tanto frio como hoje.
Está tanto frio.
Estou dentro da cama. Debaixo do edredão e do anorak com um pouquinho da cara de fora. O nariz para respirar. Os olhos para ver que, lá fora, na rua, chove que Deus-a-dá. Vejo pela janela aberta do quarto. A chuva a bater violenta nos vidros. Mais devagar era um embalo, assim mexe-me um pouco com os nervos.
Está mesmo frio.
Tenho de pôr a mão debaixo do edredão e agarrá-lo por dentro que os dedos estão a ficar gelados. Sopro-lhes ar quente de dentro de mim. Aquecem um pouco.
Queria ir mijar mas não consigo. A meio da noite, quando fui buscar o anorak, vesti as calças de fato-de-treino e uma sweat. Mas ainda sinto frio dentro da cama. Imagino lá fora. Não consigo ir mijar. Tenho de aguentar.
Está um frio!…
Se estivesse em casa dos meus pais, estaria a ajudar a podar as oliveiras. Eu a conduzir o tractor e o meu pai a dizer onde é que deveria ir e como fazer. Se estivesse em casa dos meus pais, na aldeia deles, talvez estivesse a plantar batatas. É época da batata, não é? Estaria a plantar batatas. Não havia frio na aldeia. Em casa. Frio suficiente para nos impedir de fazer o que temos de fazer. A minha mãe estaria a dar de comer às galinhas, aos coelhos. Estaria a abrir a cancela às cabras para irem pastar no terreno lá ao lado que elas não têm medo da chuva nem do frio e o que querem é um pasto verde para estarem sempre a comer, a comer, a comer.
Está muito frio.
Não me vou levantar. Nem para mijar, nem para comer. Não tenho nada para comer. Nem pão duro. Deixei-me tomar pela inércia e pelo desleixe nestes últimos dias. Hoje devia de ir ao supermercado, ao talho, à padaria. Mas está muito frio. Está a chover muito. Não consigo ver para além do vidro da janela.
Olha, olha. O telemóvel a tocar. Quem será?… A minha mãe!…
Atendo. Olá, mãe!… e ela fala. Lá do outro lado, distante, na sua aldeia onde o frio é maior que aqui mas as pessoas são mais fortes e estão mais habituadas, não há frio que as prenda a casa, à cama. O que é que fazes, mãe?… e o que é que ela haveria de fazer? Dar de comer às galinhas que ainda tem e que às vezes me manda em tupperwares cheios para semanas inteiras. É o que lhe resta. O que ainda consegue ir tratando. Já não há coelhos nem cabras. Ainda resistem as galinhas, e os ovos das galinhas, os ovos que me manda assim, em pequenas caixas de meia-dúzia ou em forma de bolo de iogurte, ou bolo encharcado de ananás. Agora quando é preciso matar uma galinha vai lá uma vizinha matar por ela. Ainda aproveita o sangue e ainda faz uma cabidela que guarda para mim. Já tenho é saudades da chanfana. Mas já não há chanfana. Já nem deve saber fazer. E eu ouça-a a falar lá do outro lado do telefone e só penso em comida. Devia dizer-lhe que já não tenho nenhum tupperware. Que já não me resta nenhuma caixinha com os seus cozinhados. Que hoje vou jejuar. Que tenho fome mas o frio é mais forte e pode mais que eu e não vou sair da cama. E depois ela diz que o vizinho comprou um gerador e hoje foram lá entregar-lho numa camioneta muito grande. E continuou a dizer que o vizinho lhe disse que as coisas estavam perigosas e que poderia faltar electricidade e que ela também deveria comprar um gerador, Nunca se sabe, as coisas estão perigosas. E então? Pergunto-lhe eu e ela diz que tenho de tratar disso. Como o homem da família tenho de tratar de comprar um gerador e mandar entregar lá em casa o mais depressa possível. Porque as coisas estão perigosas, diz. E eu digo Está bem, mãe! e o que é que eu poderia dizer?
E ela desliga o telemóvel e eu penso que, afinal, tenho de me levantar.
Está frio. Muito frio. Um frio do caralho. Mas vou levantar-me para ir mijar, ir comprar alguma coisa para comer e tratar de comprar um gerador para a minha mãe e mandá-lo levar lá a casa. E onde é que vou comprar um gerador?
Vou levantar-me. Vou contar até três e levanto-me: um, dois, três…
Não. Vou esperar cinco minutos contados no telemóvel a começar… Agora!
Só mais dois minutos…

[escrito directamente no facebook em 2020/04/01]

Para um Diário da Quarentena (Quarto Andamento)

Estou há uma semana em casa. Mas não estou completamente fechado. Tenho dado uns passeios. Vou ao pão. Às vezes vou ao minimercado onde não há filas de espera e onde, às vezes, sou o único cliente. Para além de mim, costuma estar uma empregada, a mesma que corta o fiambre em fatias fininhas e depois recebe na caixa o dinheiro da despesa.
Mesmo quando estou por casa estou pela rua. Pelo alpendre. Pelo quintal. Desço ao fundo da alameda. Vou até à estrada, ando uma centena de metros para um lado, depois para o outro, e não passa nenhum carro. Pareço ser o último homem na terra.
Ontem saí. Saí de casa, da terra, e fui à cidade. Fui levar mantimentos à minha mãe.
A minha mãe já tem oitenta e nove anos e vive sozinha no meio da cidade. Ela gosta de sair, de laurear-a-pevide, ir ao café, ao supermercado, de ir almoçar uma sopa de peixe à Quarta-feira, ao café da Avenida. Agora passeia-se maldisposta por casa. Vai até à varanda!, digo-lhe eu ao telefone. E ela vai. Passa todo o tempo possível na varanda, pelo menos até o tempo começar a arrefecer, mas depois diz Não é a mesma coisa. E agora já não passa quase ninguém na rua, e eu digo-lhe Tens de aguentar! e lá começa ela a desfiar todas as histórias das minhas adolescentes fugas de casa que, julgava eu, ela não sabia. Mas sabia. E agora penso se não me está a preparar para alguma asneira. E digo-lhe Porta-te bem. Ficas em casa e quando isto passar, vamos comer uma sardinhada à praia, na esperança que uma sardinhada na praia ainda tenha o mesmo efeito cativante de antigamente.
Comprei várias coisas para ela aqui pelo minimercado, pelo pequeno talho e pela senhora que ainda vem à aldeia, numa carrinha, vender peixe fresco. Assim evito as filas dos hipermercados e o contacto com outras pessoas.
O mundo, com as pessoas assim à distância, até nem me parece muito mau.
Fiz um pequeno cabaz com mantimentos para uma semana, mas talvez lá consiga ir mais cedo. Também não quero ter muito contacto com ela, por estes dias.
Levei um robalo que pedi à senhora que o amanhasse e cortasse em quatro partes (era grande, o rabalo), e que em casa iria colocar em saquinhos individuais, dois bifinhos de vaca, duas iscas e um chouriço caseiro. Levei batatas novas, grelos de couve e algumas cebolas e alhos. Uns iogurtes gregos, que ela gosta bastante, e um pacote de manteiga pequeno que ela queixa-se que nunca encontra, são sempre muito grandes, e ela não come muita manteiga, embora às vezes lhe apeteça um bocadinho, e depois fica muito tempo no pacote aberto e ganha ranço. Também levei uma meia-dúzia da ovos caseiros que uma quase-vizinha me ofereceu.
Passei pela padaria e comprei alguns papo-secos, que até aguentam mais tempo molinhos, e uma broa amarela. Passei também na farmácia para levantar uma receita da sua medicação habitual e foi o único sítio onde estive à espera. Mas lá fui aviado sem muitos problemas.
Entre entradas e saídas tenho lavado as mãos com álcool. Não uso máscara que não tenho nenhuma e nunca encontrei à venda.
Cheguei a casa dela. Olá, mãe! Olá, filho! E ela foi para a sala ver televisão enquanto eu desfiz o cabaz e deixei tudo em cima da mesa da cozinha para ela arrumar e saber o que tem lá em casa. Abri-lhe uma garrafa de vinho tinto para ela beber um copo se quisesse. Enchi a caixa dos comprimidos. Havia alguns que ela não andava a tomar. Tinha de lhe dizer que sabia que não os andava a tomar para ver se ela os tomava. Depois fui ao quarto dela e fiz a cama de lavado. Ia gostar de se deitar nos lençóis impecavelmente esticados e depois levei a roupa da cama para a máquina e deixei-a a trabalhar.
Fui à entrada da sala e disse-lhe Vou-me embora. Porta-te bem. Vai até à varanda. E vê lá se tomas os comprimidos todos. E ela começou a abanar a cabeça e respondeu, refilona Se não tomei os compridos todos foi porque não calhou, ora. Nunca te esqueceste de nada? E farta da varanda estou eu. Quando cá voltares e eu não estiver em casa é porque fui dar uma volta, ao que eu repliquei Vê lá, vê!…
Voltei para casa a pensar que na próxima ida teria de aspirar a casa. Dar uma limpeza à casa-de-banho. E que ela estivesse em casa. Ah, sim, que ela estivesse em casa. E ri-me.
Hoje o dia acordou de chuva. Vim para o alpendre onde ainda estou. Os gatos andam para aí a passear à chuva. Nunca percebi isto. Os gatos têm medo de água, cada vez que ligo a mangueira para regar as plantas e as couves, os tipo fogem, e depois andam à chuva. O cão está a dormir todo enrolado ao pé de mim. Eu fumo um cigarro e estou a ver as manchetes dos jornais online. Parece que já morreram doze pessoas. Em Itália já morreram mais de quatro mil.
Como a minha mãe costuma dizer, aqui estamos num cantinho do céu. Espero que continuemos.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/21]

O Futuro Homem da Casa

Eu tinha dezasseis, dezassete anos. Talvez tivesse menos. Ainda frequentava o liceu. Não me recordo em que ano estava mas, sei que ainda estava no liceu. Estava numa aula. Não sei de quê, mas estava numa aula. Estava lá dentro mas andava lá por fora. O corpo respondia presente à chamada, mas esquecia a lição no momento do sumário. Para onde ia? Não sei. Perdi essas memórias. Desse tempo há coisas que guardei e outras que perdi. É uma época volátil. O tempo consumia-se de maneiras diferentes conforme fosse manhã, tarde ou noite. Conforme estivesse numa sala de aulas ou em casa de uma namorada. Conforme fizesse um teste a uma disciplina ou uma partida de futebol com os amigos da rua. Algumas coisas permaneceram na memória, viraram estórias que contei aos filhos e aos netos. Outras apaguei-as. Apagaram-se. Esqueci.
Naquele dia, tinha eu então dezasseis ou dezassete anos, talvez menos, estava na sala de aula mas não estava atento à matéria que a professora estava a tentar ensinar. Foi quando vi entrar a directora do liceu na sala e, antes que elas as duas olhassem na minha direcção, desci de lá de onde estava e disse para mim próprio Pronto!…
Percebi o que tinha acontecido. Antes de me dizerem o que quer que fosse, eu percebi. Vi os olhares das duas sobre mim. Um olhar piedoso. Mesmo triste. A directora veio na minha direcção, disse-me para arrumar as minhas coisas e segui-la. Eu arrumei as minhas coisas dentro da mochila. Pus a mochila às costas e saí da sala de aula atrás da directora. Senti os olhos de todos os meus colegas nas minhas costas. Senti o olhar piedoso de todos eles. E queria ter-lhes dito Não olhem assim para mim. Cantem. Dancem. Antes que seja tarde para todos nós… Mas não disse nada. Saí da sala. Senti o silêncio da sala nas minhas costas. Senti a porta a bater quando saí. Ouvi o burburinho que se formou depois de ter saído. E segui a directora até ao gabinete dela.
Depois não me recordo nada do que aconteceu nos momentos seguintes. Talvez tenha entrado no gabinete da directora. Talvez ela tenha tido alguma conversa séria comigo. Talvez ela me tenha oferecido um chá de camomila ou metade de um Xanax (talvez não me tenha oferecido a metade de um Xanax, mas gosto de pensar que, eventualmente, tal podia ter sido possível acontecer).
Desperto já a caminho de casa. Saí da sala de aula e estou a caminho de casa. Há uma elipse temporal que é, na verdade, um buraco negro. Não sei o que aconteceu. Mas vou a subir a rua. A pé. A mochila às costas. Os carros a acelerarem na estrada. Uma estrada longa, larga, arejada, boa para carregar o pé no acelerador. Ouço-os a passar ao meu lado, a espremerem o motor. Acho que vou a chorar. Sim. Acho que vou na rua, a subir a rua e vou a chorar. Não sei o que se passou entre ter saído da sala de aula e descobrir-me ali, na rua, mas sei o que é que aconteceu nesse dia. Sei porque é que a directora do liceu me foi chamar à sala de aula. Sei porque é que saí mais cedo do liceu. E porque é que ia a pé para casa. E ia devagar. Portanto, talvez fosse a chorar. Mesmo que não tivesse chorado na altura. Agora, a esta distância, penso que que tal podia ter muito bem acontecido. Eu ia a chorar enquanto subia a rua até casa.
Cheguei a casa. Parei no passeio para cruzar a estrada para o outro lado. Lembro-me de ter parado para deixar passar o autocarro. O autocarro que ia dar a volta ao outro lado da cidade e, num dia normal, seria o autocarro que eu apanharia no regresso da escola para ir a casa almoçar se não tivesse de ir a pé mais cedo como fui.
O autocarro passou e cruzei a estrada. Mas agora que estava a chegar a casa os pés não me queriam obedecer. Parecia que não me queriam levar para casa. Mais, parecia que eu não queria ir para casa. Protelei a passagem. O outro lado tornou-se a outra margem de uma estrada como um rio caudaloso como um mar. Cheguei ao outro lado. Sentei-me no muro da casa vizinha. A casa vizinha era a casa dos meus vizinhos. Não estaria ninguém em casa. Só os cães que andavam lá de um lado para o outro a ladrar a quem passava do outro lado do muro, do lado de onde eu estava. Sentei-me no muro e acendi um cigarro. Já era tempo de parar de esconder que fumava. Um dos cães chegou-se a mim. Esticou-se até ao cimo do muro para que lhe fizesse uma festa. E eu fiz. Sempre gostei de cães. Dos de marca e dos rafeiros. Mesmo com aqueles que teimam em me arreganhar os dentes ao início, tento sempre dar-lhes a volta com algumas meiguices e umas palmadas no lombo.
Olhei para casa. As persianas estavam corridas. As janelas não estavam fechadas, mas as persianas estavam corridas para baixo, talvez a manter a luz baixa em casa.
Acabei o cigarro. Não havia ninguém na rua. Lembro-me porque achei estranho. Embora fosse uma rua residencial, durante o dia havia sempre gente a passar, a ir à padaria, à mercearia, a ir a casa uns-dos-outros, principalmente as mães, as mães que não trabalhavam fora, as mães domésticas que cuidavam dos filhos e da casa. Mas naquele dia, a rua estava deserta. Não havia ninguém nos passeios, nos jardins, nas varandas das casas. Só os carros continuavam a passar pela rua em direcção ao seus destinos.
As persianas da minha casa estavam corridas. Respirei fundo e fui em direcção a casa.
Eu tinha dezasseis, dezassete anos. Talvez tivesse menos. Naquele dia iria crescer. Naquele dia iria tornar-me no homem da casa.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/07]

O Multiverso

Na verdade, a vida é como um naco de fiambre da perna, cortado em fatias muito fininhas. Cada escolha, cada acontecimento, leva a uma nova fatia. A vida não é uma vida, são várias mesmas vidas, mas outras. O universo não é um universo, mas vários universos. Tudo ao mesmo tempo, num mesmo plano de existência, como numa orgia, mas noutro espaço, noutro tempo, noutra dimensão. Numa outra qualquer coisa para a qual ainda não foi encontrada definição. Por isso não importa o que é que acontece aqui porque lá vai acontecer a alternativa. E nós somos sempre nós. Mas nós-outros com outras escolhas.
O que se passa é o seguinte: houve uma época em que queríamos duzentas gramas de fiambre em fatias fininhas e o supermercado colocava à nossa disposição embalagens de esferovite, envolvidas em plástico, com duzentas gramas de fiambre da pá previamente cortadas, mas cortadas em fatias muito grossas, tão grossas que nem pareciam fatias de fiambre mas bifes do cachaço. Então, íamos à senhoras da secção de charcutaria do supermercado para cortar duzentas gramas de fiambre da pá fininhas, daquelas que quase se desfazem mas que, para quem gosta de fiambre, consegue perceber que três ou quatro fatias muito fininhas num papo-seco, é muito diferente de ter uma só fatia muito grossa, e as senhoras diziam que não podia ser. Que tinham ordens. Que não se podia cortar como queríamos porque o fiambre esfarelava-se todo e estragava-se. E as ordens era para não fazerem as vontades às pessoas. Que tinham de se habituar a que quem mandava na tenda era o tendeiro, ou seja, eles, aqueles que nunca estão presentes atrás de um balcão nem do outro lado de uma linha de telefone para fazermos uma reclamação. Merdas do capitalismo. As caras estão sempre escondidas atrás de números. Mas as pessoas tanto refilaram, tanto contestaram, que os supermercados voltaram a permitir que as pessoas dissessem como queriam ver cortadas as fatias do fiambre da pá, mesmo se na vitrina do frio houvesse pilhas várias de vários tipos de fiambre, da perna, da pá, de peru, tipo York, em vários tamanhos, mas todos os tamanhos em grosso.
Ora, para que se perceba a questão da realidade multiplicada infinitamente no mesmo plano de existência, as fatias têm de ser finíssimas, e não grossas, para que percebamos o funcionamento deste conjunto de vários universos. O capitalismo queria, assim, esconder da população geral o facto de vivermos num multi-universo que se multiplica constante e infinitamente.
Vejamos, um papo-seco fresco, comprado na padaria com fabrico próprio de forno a lenha (esta padaria também faz pizzas no forno a lenha e são muito boas, posso passar o número de telefone). Com uma faca de serrilha abrimos o pão ao meio e colocamo-lo em cima de uma tábua para não deixarmos cair migalhas para o chão. Agora vamos fazer um sandes de fiambre. E para simplificar, não vamos barrar manteiga na metade de baixo do papo-seco. Cada vez que fazemos uma escolha, cortamos uma fatia de fiambre. Por exemplo, uma mulher bonita, sensual, pergunta-me se eu quero ir para a cama com ela. A minha resposta imediata é sim. Mas a hipótese negativa não é descartada. O que é que acontece? Corto uma fatia de fiambre e cria-se um novo universo onde eu escolhi não ir para a cama com essa mulher (como se tal fosse possível, mas é, é sempre possível porque todas as escolhas que fazemos abrem caminho às outras opções descartadas por nós aqui, mas aceites por nós mesmos, mas outros, nos outros universos alternativos.
Outro exemplo, preciso de ir de Leiria a Lisboa para tratar de assuntos. Não importa que assuntos. É só a abertura de uma hipótese para explicar a acção. Escolho ir de carro. Mas corto uma fatia de fiambre com a possibilidade de ir de camioneta. Corto outra fatia com a possibilidade de ir de comboio. Mais outra fatia pela possibilidade de ir de motorizada. Ou de bicicleta. Ou até de skate. Ou ainda a pé. Bom, mas aqui também estava dependente do tempo que tinha disponível para chegar a Lisboa. Se tivesse que chegar em poucas horas, teria de deixar de lado as hipóteses de ir a pé, de skate, de bicicleta e até de comboio porque a Linha do Oeste demora cinco horas a ir de Leiria a Lisboa. Ao mesmo tempo, ao optar por ir de carro, escolhia ir pela A1. Mas abria outro universo para ir pela A8 e ainda outro para ir pela EN1. Só aqui, nesta escolha para ir de Leiria a Lisboa, tinha cortado oito fatias de fiambre. Oito novos universos onde as minhas escolhas iriam influenciar o caminho desses mesmos universos. Agora, comer um papo-seco de fiambre com oito fatias fininhas é muito melhor que comer um papo-seco com oito fatias grossas.
E estas são só as minhas escolhas num acontecimento único. Quantos universos alternativos existirão com todas as minhas escolhas e as escolhas dos biliões de pessoas que existem neste universo? Quantos papo-secos de fiambre é que dará? Quantos universos é que, afinal, existirão no multiverso? É um número infinito. E o infinito não é contabilizado porque não existe. E, no entanto, existe. Existe para além da nossa imaginação.
É por isso que não importa as escolhas que fazemos aqui, aqui neste universo. Estamos sempre a viver outras escolhas noutros universos iguais a este, mas diferentes. E nós somos nós, mas outros. Por isso, escolher uma coisa ou outra, todas elas acabam por ter existência.
E foi aqui que ela se levantou e foi embora.
Mais uma vez acabei a noite sozinho. Acabei com o copo de vinho que tinha na mão e saí do bar. Na rua acendi um cigarro. Olhei para a lua que estava pendurada lá em cima no firmamento e perguntei E eu? Qual dos eus é que eu sou? Eu sou o mais parvo, não é? e começou a chover. A chuva acabou-me com o cigarro. Encharcou-me. Cheguei a casa, despi-me, sequei-me com o secador e a toalha de banho e fui deitar-me. Sozinho. Mas ainda tive tempo para pensar que, algures, num outro universo deste enorme multiverso, eu estava a dormir com uma mulher lindíssima que me amava. E adormeci com um sorriso nos lábios. Pelo menos foi assim que imaginei enquanto comia, ao pequeno-almoço, um papo-seco com fiambre em fatias cortadas muito fininhas.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/19]

Led Zeppelin

Era Verão. Eram as férias de Verão.
Era uma guitarra acústica nas mãos de um gajo qualquer. Era o Stairway to Heaven nos ouvidos das miúdas. Eram as miúdas enroladas, na areia da praia, à noite, nas mãos dos gajos que tocavam, mal e porcamente, aquelas notas.
Era a praia à noite. Talvez em São Pedro de Moel. Mas também podia ser na Nazaré. Ou no Pedrogão. Era a praia à noite. O barulho das terríveis ondas atlânticas a fustigar a praia. Não via o mar. Mas via a fogueira a arder na areia da praia. As meninas de longos cabelos aloirados pelo sol. Os meninos loiros de Wax. As camisolas coloridas da Benetton penduradas pelas costas, atadas num frágil nó ao pescoço. E um cabeludo. Um cabeludo de caracóis e guitarra na mão fascinava as miúdas com uma música xaroposa. Daquelas para o coração. Daquelas de paixão. Daquelas capazes de abrir as portas do paraíso a qualquer imbecil.
Era Verão. Era a praia à noite. E eu não sabia tocar guitarra.
Ainda tinha cabelo. Cabelo comprido. Aos caracóis. Castanhos. Era magro. Bastante magro. A minha mãe dizia, num determinado período, que eu era pele-e-osso. Podia ser um músico. Um gajo dos Led Zeppelin. Podia ser uma estrela rock. Podia!
Não sabia tocar guitarra. Nem mais nada. Talvez a porra da campainha da casa dos vizinhos em quem me vinguei por não saber tocar mais nada. Não sabia cantar. Nem sei. Desafino. Desafino!? Não chego sequer a desafinar porque a voz foge-me antes de desafinar.
Estava na praia. Numa praia qualquer destas cá para cima. Para cima do Tejo. Para baixo do Mondego. Estava na praia, sentado na areia, a fogueira a arder, a ouvir um tipo a tocar o Stairway to Heaven e a assar umas chouriças e a fazer tempo para ir à padaria comprar pão fresco, quente-e-fofo, que iria barrar com Planta roubada no supermercado do Parque de Campismo. Alguém passou um cachimbo de prata. Um pequeno cachimbo feito com a prata dos maços de cigarros. Os maços de hoje não dão para isso. Na altura dava. E eu fumei. Enchi os pulmões de fumo. Prendi-o. Inspirei mais. Rebentei em tosse. Passei o cachimbo ao lado. A uma mão qualquer ao lado. Deitei-me na areia. Ouvi as notas do Stairway to Heaven e desatei a rir. E disse Mas isto é uma merda! Uma merda do caralho! e mal cheguei a casa, no fim das férias, fui a correr comprar o duplo álbum em vinil, The Song Remains de Same para ouvir, até à exaustão, a tal música de praia que punha as miúdas a rebolar na areia.
No Natal acabei a pedir uma guitarra ao Pai Natal. Ele não me ouviu. Nunca aprendi a tocar guitarra. Mas continuei a ouvir Led Zeppelin.
Anos mais tarde, refiz a colecção toda dos Led Zeppein em CD’s especiais com discos extra, gravações ao vivo e assim. Não voltei a comprar The Song Remains the Same.
É Inverno. É Inverno e chove lá fora.
Estou à lareira. A ver a lareira a arder. A ouvir o crepitar da madeira a queimar que se mistura com o Black Dog. Cresci. Envelheci. Ainda tenho cabelo. E cada vez gosto mais dos Led Zeppelin. Mas nunca mais ouvi o Starway to Heaven. Amores de Verão enterram-se na areia. E eu estou no meu Inverno. Rock and roll.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/19]

Sufocado pelas Palavras

Hoje sentei-me à janela a ver o dia morrer.
Um copo de vinho numa mão e um cigarro na outra. O olhar para além da casa. Para além da janela. Também há vida lá fora. Às vezes não parece.
O céu esteve azul na maior parte do dia. Azul com nuvens branco-sujo espalhadas um pouco ao acaso lá por cima. Depois a luminosidade começou a cair. O céu perdeu o azul e começou a ficar cinzento. O cinzento foi escurecendo. Ainda não é noite. Já há uns pontos de luz lá fora, na rua. É a iluminação pública. Os candeeiros nas ruas. As janelas das casas. Nas cozinhas. Nas salas. Nos quartos. Nas casas-de-banho. Há sempre gente a viver qualquer uma das partes da vida. A comer. A ver televisão. A fazer amor. A cagar. E, depois, também nalgumas lojas, que aqui não há muitas. O supermercado. A padaria. O talho. O café. Que mais um gajo precisa para viver?
Ainda não é de noite mas comecei a perder os contornos da montanha. Algumas casa perdem-se nas sombras que já tombam sobre a terra. Eu acabo uma garrafa de vinho. Levanto-me para ir abrir outra. Descubro que já não tenho mais garrafas de vinho. Tenho um pacote de cinco litros de Cruz d’Aviz, da Cooperativa da Batalha, que um amigo me trouxe do Lidl. Marcha. Abro o pacote. Encho o copo. Volto para a janela.
Sento e vejo que já é noite lá fora. Não demorou muito. Nesta altura, a noite cai rápido. Bebo um golo de vinho e sinto a garganta a queimar. Eh, pá! digo alto, e estranho a minha voz.
E o que é que estou aqui a fazer? A contar as horas para o Natal? Só espero que passe rápido e indolor.
Já não vejo nada lá fora. Só pontos de luz, como bolas coloridas nas árvores de Natal. O céu também está sombrio. Nem uma estrela para amostra. Nem uma estrela para pontuar, lá do alto, a árvore de Natal e o presépio.
Toca o telemóvel. Dou um pequeno salto na cadeira. Assusto-me. Não estou habituado a receber chamadas telefónicas. Atendo sem ver quem é. Alguém diz Vai haver greve dos trabalhadores dos impostos antes do fim do ano! Feliz Natal! e desliga. Não sei quem é. Quem era. Não sei porque havia de me interessar a vida dos trabalhadores dos impostos. Nem sei porque haviam de me desejar um Feliz Natal.
Estou mais interessado em continuar a ver o que se passa lá fora, para além da minha janela. Os candeeiros da iluminação pública apagaram-se. Os pontos de luz são agora bem menos. Acabo o copo de vinho. Estou a beber depressa. Levanto-me e vou enchê-lo. Regresso à janela. Acendo um cigarro. Começa a chover. A chover bastante. A chuva faz um barulho ensurdecedor a cair aqui à frente. Vejo um raio de luz que ilumina a noite e me permite voltar a ver as montanhas lá em frente. Depois o trovão. Estrondoso. A tempestade está mesmo aqui por cima. Apagam-se as luzes todas. Mesmo cá em casa. A única coisa que vejo são alguns reflexos na água da chuva e o borrão do meu cigarro a queimar. Sinto-me o último homem na Terra. Apetece-me falar. Não tenho com quem. Acho que vou morrer com as palavras atravessadas na garganta. A sufocarem-me.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/14]