Faz Frio e Eu Quero Ficar na Cama

Está frio.
Não saio da cama. A meio da noite fui buscar o anorak e estendi-o por cima do edredão. Não me lembro de este ano estar tanto frio como hoje.
Está tanto frio.
Estou dentro da cama. Debaixo do edredão e do anorak com um pouquinho da cara de fora. O nariz para respirar. Os olhos para ver que, lá fora, na rua, chove que Deus-a-dá. Vejo pela janela aberta do quarto. A chuva a bater violenta nos vidros. Mais devagar era um embalo, assim mexe-me um pouco com os nervos.
Está mesmo frio.
Tenho de pôr a mão debaixo do edredão e agarrá-lo por dentro que os dedos estão a ficar gelados. Sopro-lhes ar quente de dentro de mim. Aquecem um pouco.
Queria ir mijar mas não consigo. A meio da noite, quando fui buscar o anorak, vesti as calças de fato-de-treino e uma sweat. Mas ainda sinto frio dentro da cama. Imagino lá fora. Não consigo ir mijar. Tenho de aguentar.
Está um frio!…
Se estivesse em casa dos meus pais, estaria a ajudar a podar as oliveiras. Eu a conduzir o tractor e o meu pai a dizer onde é que deveria ir e como fazer. Se estivesse em casa dos meus pais, na aldeia deles, talvez estivesse a plantar batatas. É época da batata, não é? Estaria a plantar batatas. Não havia frio na aldeia. Em casa. Frio suficiente para nos impedir de fazer o que temos de fazer. A minha mãe estaria a dar de comer às galinhas, aos coelhos. Estaria a abrir a cancela às cabras para irem pastar no terreno lá ao lado que elas não têm medo da chuva nem do frio e o que querem é um pasto verde para estarem sempre a comer, a comer, a comer.
Está muito frio.
Não me vou levantar. Nem para mijar, nem para comer. Não tenho nada para comer. Nem pão duro. Deixei-me tomar pela inércia e pelo desleixe nestes últimos dias. Hoje devia de ir ao supermercado, ao talho, à padaria. Mas está muito frio. Está a chover muito. Não consigo ver para além do vidro da janela.
Olha, olha. O telemóvel a tocar. Quem será?… A minha mãe!…
Atendo. Olá, mãe!… e ela fala. Lá do outro lado, distante, na sua aldeia onde o frio é maior que aqui mas as pessoas são mais fortes e estão mais habituadas, não há frio que as prenda a casa, à cama. O que é que fazes, mãe?… e o que é que ela haveria de fazer? Dar de comer às galinhas que ainda tem e que às vezes me manda em tupperwares cheios para semanas inteiras. É o que lhe resta. O que ainda consegue ir tratando. Já não há coelhos nem cabras. Ainda resistem as galinhas, e os ovos das galinhas, os ovos que me manda assim, em pequenas caixas de meia-dúzia ou em forma de bolo de iogurte, ou bolo encharcado de ananás. Agora quando é preciso matar uma galinha vai lá uma vizinha matar por ela. Ainda aproveita o sangue e ainda faz uma cabidela que guarda para mim. Já tenho é saudades da chanfana. Mas já não há chanfana. Já nem deve saber fazer. E eu ouça-a a falar lá do outro lado do telefone e só penso em comida. Devia dizer-lhe que já não tenho nenhum tupperware. Que já não me resta nenhuma caixinha com os seus cozinhados. Que hoje vou jejuar. Que tenho fome mas o frio é mais forte e pode mais que eu e não vou sair da cama. E depois ela diz que o vizinho comprou um gerador e hoje foram lá entregar-lho numa camioneta muito grande. E continuou a dizer que o vizinho lhe disse que as coisas estavam perigosas e que poderia faltar electricidade e que ela também deveria comprar um gerador, Nunca se sabe, as coisas estão perigosas. E então? Pergunto-lhe eu e ela diz que tenho de tratar disso. Como o homem da família tenho de tratar de comprar um gerador e mandar entregar lá em casa o mais depressa possível. Porque as coisas estão perigosas, diz. E eu digo Está bem, mãe! e o que é que eu poderia dizer?
E ela desliga o telemóvel e eu penso que, afinal, tenho de me levantar.
Está frio. Muito frio. Um frio do caralho. Mas vou levantar-me para ir mijar, ir comprar alguma coisa para comer e tratar de comprar um gerador para a minha mãe e mandá-lo levar lá a casa. E onde é que vou comprar um gerador?
Vou levantar-me. Vou contar até três e levanto-me: um, dois, três…
Não. Vou esperar cinco minutos contados no telemóvel a começar… Agora!
Só mais dois minutos…

[escrito directamente no facebook em 2020/04/01]

Para um Diário da Quarentena (Sétimo Andamento)

Não estava a fazer conta sair de casa. Levantei-me a meio da manhã, vesti umas calças de fato-de-treino, uma t-shirt, calcei os chinelos e fui para a cozinha espremer laranjas para um sumo. Fui para o alpendre beber o sumo e ler as notícias nos jornais online.
Nada de muito substancialmente diferente, nas notícias. As mesmas coisas mas com os números a aumentar constantemente.
Enquanto lia os números assustadores de mortos, e lia esses números com uma indiferença que já me era transmitida pelos jornais e pelos responsáveis que todos os dias actualizam os números em conferência de imprensa, carregando nos números para aliviar as pessoas, deixando que as pessoas se tornem números e, dessa forma, perderem um pouco da carga emocional que transportam, pensei que podia guisar o coelho que a vizinha, que mora duas casas mais abaixo, veio cá oferecer.
Tocou o telemóvel. Era a minha mãe. Olá, mãe!, disse. E ela começou Vens cá logo? Preciso de ovos e de sumos de manga para o pequeno-almoço. Já não tenho nenhuns. E sacos do lixo… Ah, e antes que me esqueça, preciso de álcool que já não tenho nada cá em casa. E eu respondi Oh mãe!, mas eu não posso ir ao supermercado dia sim, dia não, e senti-a em silêncio lá do outro lado. E continuei Está bem. Vou aí depois de almoço. E damos um passeio à volta do quarteirão. E alegre, ela respondeu Está bem.
E onde é que vou arranjar álcool? pensei.
Troquei os chinelos por umas sapatilhas. Vesti uma camisola. Fui a uma vizinha na aldeia e comprei uma dúzia de ovos. Passei na farmácia, mas não havia álcool. Passei na mercearia mas não havia sumos de manga. Voltei a casa para ir buscar o carro. Já não ia cozinhar o coelho. Levei-o para a minha mãe. Ela até gosta mais de coelho que eu.
Saí com o carro. Ainda tinha combustível. Passei no Pingo Doce. Estava fechado. Só abria mais tarde. Fui ao Lidl. Uma fila enorme. Mais à frente o Modelo-Continente. Aberto. Sem fila. Comprei dois packs de quatro garrafas pequenas de sumo de manga. Um rolo de sacos do lixo de trinta litros. Procurei álcool. Não havia. Lembrei-me do sabão azul e branco. Também não. Procurei luvas e máscaras. Nada.
Fui até casa da minha mãe. Antes de subir fui à pastelaria comprar-lhe pão fresco. Estava fechada. Novo horário. Este será o maior problema destes tempos. O conhecimento dos horários de funcionamento de lojas onde precisamos de ir porque cada uma funciona com o seu próprio horário.
É uma porra, é o que é!
Subi a casa dela. Estava na sala. Larguei as coisas na cozinha. Aspirei a casa. Depois passei uma esfregona molhada na cozinha e na casa-de-banho. Pedi-lhe para ir para a cozinha arrumar as coisas que já íamos sair e aspirei a sala.
Ficou muito contente com o coelho. Ficou triste pela falta de álcool.
Saímos. Descemos no mesmo elevador. Mas ela ia ao fundo. Eu mais próximo da porta. Eu é que ia abrindo e fechando tudo o que precisava de ser aberto e fechado. Na rua começamos a andar ao longo do passeio. Não havia vivalma. Ela sentiu-se triste. E disse-me Eu sei que as pessoas estão em casa mas ver a cidade assim é diferente. Mesmo visto da varanda é diferente. É uma cidade muito triste.
Sim, era uma cidade muito triste. A cidade quase deserta. Quase vazia. Quase silenciosa. Irreal. Mais à frente vimos algumas pessoas. Ela conhecia algumas delas. Sorriu-lhes e cumprimentou alguns conhecidos à distância de um aceno com a mão, ou com um adeus. Andámos à velocidade dela. Distantes um do outro mas próximos o suficiente para ele conversar. Ela é que fazia a maior parte da despesa da conversa. Estava há muito tempo fechada. Precisa de ser ouvida. Ela falava. Eu ouvia. E respondia. Às vezes parava a ver uma montra. Eu dizia-lhe para ter cuidado e não se encostar. Demos a volta ao quarteirão e regressámos a casa dela. Levei-a a casa. Eu ia abrindo e fechando tudo o que precisava de ser aberto ou fechado. Dissemos adeus. Pedi-lhe de novo, e a saber que não valia de nada pedir, para me ir dizendo o que precisava com antecedência para eu anotar tudo e tratar das coisas todas de uma vez. Ela disse que sim, claro. Como diz sempre. Mas acho que já nem se lembra com o que é que está a concordar. Levei o lixo dela para baixo.
Fui embora.
Ao despejar o saco de lixo no caixote, na rua, reparei que haviam luvas e máscaras espalhadas pelo chão. Perguntei-me de onde vinha aquilo. E porque raio estava espalhado pelo chão em vez de estar dentro de sacos dentro do caixote.
No carro, ainda parado, pensei que não tinha luvas, nem máscaras, muito pouco álcool e só um pequeno pedaço de sabão azul e branco. Não conseguia arranjar em lado nenhum. Também não ia de propósito à procura das coisas mas, em todo o lado que ia para comprar outras coisas, procurava e nunca havia. Via muita gente com estes produtos na rua. Se calhar açambarcaram logo no início. Se calhar têm tido sorte em apanhar as novas remessas. Eu não gosto de açambarcar coisas. Não encho jerricãs de combustível. Limitei-me a ter o depósito cheio. E só o enchi uma vez. Não comprei papel-higiénico. Não mais do que o que compro normalmente. Não comprei conservas para além das habituais. Não comprei álcool porque tinha uma garrafa em casa, e é com essa garrafa que me tenho desinfectado antes de entrar em casa da minha mãe e no regresso à minha. Quando tentei comprar máscaras e luvas, percebi que já era tarde. Não havia nem para os profissionais de saúde que estavam na linha da frente do combate e eles precisam mesmo destas protecções, haveria para mim? Mas via muitas pessoas na rua com máscaras.
Depois de chegar a casa, fui lavar as mãos. Despi-me. Tomei banho. Lavei a roupa que tinha utilizado. Depois cortei umas peças de fruta, uma laranja, uma maçã, uma pêra e um kiwi, era o que tinha em casa, despejei um iogurte numa tigela e coloquei a fruta em pedaços à volta. E fui para o alpendre comer. Hoje não via as montanhas. Não estava sol. O cão estava a dormir enrolado nele próprio e nem me ligou. Os gatos olharam-me à distância mas nenhum me veio incomodar. Comi sozinho no alpendre.
Chegaram umas mensagens ao telemóvel que não quis ler.
Deixei-me adormecer.
Acordei com frio e com um arrepio nas costas. O cão continuava no mesmo sítio. Agora também lá estavam os gatos. O telemóvel voltou a acusar a recepção de uma mensagem. Pus o telemóvel no bolso e entrei em casa.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/26]

Para um Diário da Quarentena (Quarto Andamento)

Estou há uma semana em casa. Mas não estou completamente fechado. Tenho dado uns passeios. Vou ao pão. Às vezes vou ao minimercado onde não há filas de espera e onde, às vezes, sou o único cliente. Para além de mim, costuma estar uma empregada, a mesma que corta o fiambre em fatias fininhas e depois recebe na caixa o dinheiro da despesa.
Mesmo quando estou por casa estou pela rua. Pelo alpendre. Pelo quintal. Desço ao fundo da alameda. Vou até à estrada, ando uma centena de metros para um lado, depois para o outro, e não passa nenhum carro. Pareço ser o último homem na terra.
Ontem saí. Saí de casa, da terra, e fui à cidade. Fui levar mantimentos à minha mãe.
A minha mãe já tem oitenta e nove anos e vive sozinha no meio da cidade. Ela gosta de sair, de laurear-a-pevide, ir ao café, ao supermercado, de ir almoçar uma sopa de peixe à Quarta-feira, ao café da Avenida. Agora passeia-se maldisposta por casa. Vai até à varanda!, digo-lhe eu ao telefone. E ela vai. Passa todo o tempo possível na varanda, pelo menos até o tempo começar a arrefecer, mas depois diz Não é a mesma coisa. E agora já não passa quase ninguém na rua, e eu digo-lhe Tens de aguentar! e lá começa ela a desfiar todas as histórias das minhas adolescentes fugas de casa que, julgava eu, ela não sabia. Mas sabia. E agora penso se não me está a preparar para alguma asneira. E digo-lhe Porta-te bem. Ficas em casa e quando isto passar, vamos comer uma sardinhada à praia, na esperança que uma sardinhada na praia ainda tenha o mesmo efeito cativante de antigamente.
Comprei várias coisas para ela aqui pelo minimercado, pelo pequeno talho e pela senhora que ainda vem à aldeia, numa carrinha, vender peixe fresco. Assim evito as filas dos hipermercados e o contacto com outras pessoas.
O mundo, com as pessoas assim à distância, até nem me parece muito mau.
Fiz um pequeno cabaz com mantimentos para uma semana, mas talvez lá consiga ir mais cedo. Também não quero ter muito contacto com ela, por estes dias.
Levei um robalo que pedi à senhora que o amanhasse e cortasse em quatro partes (era grande, o rabalo), e que em casa iria colocar em saquinhos individuais, dois bifinhos de vaca, duas iscas e um chouriço caseiro. Levei batatas novas, grelos de couve e algumas cebolas e alhos. Uns iogurtes gregos, que ela gosta bastante, e um pacote de manteiga pequeno que ela queixa-se que nunca encontra, são sempre muito grandes, e ela não come muita manteiga, embora às vezes lhe apeteça um bocadinho, e depois fica muito tempo no pacote aberto e ganha ranço. Também levei uma meia-dúzia da ovos caseiros que uma quase-vizinha me ofereceu.
Passei pela padaria e comprei alguns papo-secos, que até aguentam mais tempo molinhos, e uma broa amarela. Passei também na farmácia para levantar uma receita da sua medicação habitual e foi o único sítio onde estive à espera. Mas lá fui aviado sem muitos problemas.
Entre entradas e saídas tenho lavado as mãos com álcool. Não uso máscara que não tenho nenhuma e nunca encontrei à venda.
Cheguei a casa dela. Olá, mãe! Olá, filho! E ela foi para a sala ver televisão enquanto eu desfiz o cabaz e deixei tudo em cima da mesa da cozinha para ela arrumar e saber o que tem lá em casa. Abri-lhe uma garrafa de vinho tinto para ela beber um copo se quisesse. Enchi a caixa dos comprimidos. Havia alguns que ela não andava a tomar. Tinha de lhe dizer que sabia que não os andava a tomar para ver se ela os tomava. Depois fui ao quarto dela e fiz a cama de lavado. Ia gostar de se deitar nos lençóis impecavelmente esticados e depois levei a roupa da cama para a máquina e deixei-a a trabalhar.
Fui à entrada da sala e disse-lhe Vou-me embora. Porta-te bem. Vai até à varanda. E vê lá se tomas os comprimidos todos. E ela começou a abanar a cabeça e respondeu, refilona Se não tomei os compridos todos foi porque não calhou, ora. Nunca te esqueceste de nada? E farta da varanda estou eu. Quando cá voltares e eu não estiver em casa é porque fui dar uma volta, ao que eu repliquei Vê lá, vê!…
Voltei para casa a pensar que na próxima ida teria de aspirar a casa. Dar uma limpeza à casa-de-banho. E que ela estivesse em casa. Ah, sim, que ela estivesse em casa. E ri-me.
Hoje o dia acordou de chuva. Vim para o alpendre onde ainda estou. Os gatos andam para aí a passear à chuva. Nunca percebi isto. Os gatos têm medo de água, cada vez que ligo a mangueira para regar as plantas e as couves, os tipo fogem, e depois andam à chuva. O cão está a dormir todo enrolado ao pé de mim. Eu fumo um cigarro e estou a ver as manchetes dos jornais online. Parece que já morreram doze pessoas. Em Itália já morreram mais de quatro mil.
Como a minha mãe costuma dizer, aqui estamos num cantinho do céu. Espero que continuemos.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/21]

Para um Diário da Quarentena (Segundo Andamento)

Acordei com a luz do dia a bater-me na cara. Virei-me para o outro lado. Fechei os olhos. Tentei dormir mas já não era possível. Os olhos abriam-se e olhavam para a parede em frente onde batem as sombras das árvores e produzem uma espécie de sombras chinesas. Recomeçaram de novo as histórias de todos os dias projectadas ali, naquela parede. Os ouvidos colocaram-se logo à escuta. Havia vento lá fora. Puxei o edredão mais para cima de mim. Sentia o frio à minha volta no quarto.
Estava desperto mas não tinha vontade de me levantar. Tinha de ir mijar, mas estava a protelar. Sentia-me bem ali deitado na cama. No quente da minha cama.
É início da semana. Mas que semana? Este início de semana é parecido com o fim-de-semana. Estou em casa. Estou sempre em casa. Estou sempre em casa todos os dias de todas as semanas e fins-de-semana. Trabalho em casa. Trabalho à distância que o wi-fi me permite. Trabalho como quero e quando quero e passeio-me pela rua fora, pelas ruas curvas e sombrias e solarengas e subo à serra e mando seixos ao rio e apanho fruta das árvores e oferecem-me ovos verdadeiros de galinhas verdadeiras que vivem em galinheiros no meio do campo alimentadas a milho e que passam os dias a depenicar o chão à cata sabe-se-lá-do-quê.
Não me apetece levantar.
Hoje não me apetece trabalhar.
Estou… Estou uma série de coisas que poderia enumerar. Neura. Melancólico. Deprimido. Preguiçoso. Cansado. Psicologicamente cansado.
Não me apetece ouvir música. Nem ver um filme. Nem uma série. Não quero ler um livro. Nem folhear uma revista. E tenho aqui tantas revistas atrasadas para folhear, ler, reler, guardar alguns artigos, algumas revistas inteiras. Não me apetece ver ninguém. Não me apetece falar com ninguém.
Nada. Nada de nada.
Virei-me para o tecto. Havia luz no quarto, a luz do dia, de um dia com um pouco de sol a bailar entre tufos de nuvens. O dia não estava escuro, até estava mais-ou-menos brilhante, com um sol amarelo a fugir às nuvens. Durou pouco. Ao início da tarde o sol morreu, as nuvens desapareceram e o céu escureceu e ficou cinzento. O vento mantinha-se e manteve-se. Um vento a grande velocidade e muito frio.
Não. Não me queria levantar.
Tocou o telefone. Deixei-o tocar. Chegou uma mensagem. Não a fui abrir.
Pensei que o mundo poderia ainda estar pior que na véspera. Estiquei o braço e liguei a rádio que está com o despertador. Estava na TSF. Os noticiários foram-se sucedendo. Ao longo do dia.
Eu fui dormitando. Adormecia. Acordava. Ouvia um segmento noticioso. Bocejava. Voltava a dormir. Esqueci-me que tinha vontade de mijar.
Quando dei por mim já era de noite. A TSF continuava a debitar notícias. Percebi que a vida continuava lá fora. Mas já tinha havido a primeira morte em Portugal. A fronteira com Espanha ia ser fechada. E falava-se na possibilidade de se levantar um estado de emergência.
Foda-se! Levantei-me rápido e fui mijar. Mijei. Senti-me aliviado e, por momentos, esqueci-me da quarentena e destes dias de excepção.
Lavei as mãos. Senti fome. E decidi fazer uns ovos mexidos.
Lembrei-me da mensagem que tinha recebido. Talvez tivesse recebido mais. Talvez alguns mails. Talvez… Não. Não haverá nada. Talvez só uma mensagem com a conta do telemóvel para pagar.
E pensei Amanhã não posso não fazer nada.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/16]

Conversas à Varanda

Despertei sozinho na cama. Virei-me para o outro lado, estiquei os braços e as pernas para a outra metade da cama e senti o frio. Ela já devia ter-se levantado há algum tempo. Ao fim-de-semana levanta-se cedo. Acorda cedo. Dá umas voltas na cama. Não consegue voltar a adormecer e levanta-se. Vai pôr roupa a lavar. Aproveita o bom tempo para estender a roupa ao sol. Limpa a casota do cão. Trata do canteiro das especiarias. Às vezes começa a preparar o almoço. Não consegue parar um segundo. É raro encontrá-la sentada no sofá a ler um livro. Não que não goste de ler, não consegue é estar quieta por muito tempo.
Eu levantei-me. Vesti uns boxers. Fui até à cozinha. Tinha um copo com sumo de laranja natural na mesa à minha espera. Peguei no copo. Ouvi vozes vindas do exterior. Aproximei-me da janela da cozinha. Ela estava no alpendre, encostada à um pilar, a fumar um cigarro e a conversar com a vizinha, por cima do muro que dividia as duas casas, enquanto esta lavava a casota do cão. Não percebia o que estavam a dizer. As janelas estavam fechadas. Mas fiquei ali a olhar para elas, uma de cada lado do muro, cada uma delas no seu quintal, a conversar sobre não-sei-o-quê, trivialidades da vida talvez. Gosto de ver esta relação entre vizinhos. Gosto de ver a utilização dos alpendres e das varandas. Gosto de ver vida fora das casas.
Lembro-me da minha mãe que conversava de janela para janela com as vizinhas do prédio. Às vezes trocavam necessidades em pequenos cestos descidos em cordas, como elevadores entre janelas. Às vezes chamava-me quando eu andava na brincadeira com os meus amigos, para ir à mercearia buscar açúcar ou ovos que precisava para fazer um bolo, fazia descer o pequeno cesto por uma corda com o dinheiro e depois, quando eu regressava com o que tinha comprado na mercearia, punha as coisas no cesto e ela voltava a puxá-lo para cima.
No Verão também era normal eu estar a jogar à bola no quintal, com os vizinhos do prédio, e os pais estavam nas varandas a fumar cigarros. Pareciam pirilampos a acender aqui e ali, como um jogo de luzes psicadélicas.
Hoje em dia vejo as varandas vazias. A maior parte delas nem um vaso com flores. Ninguém à varanda. São prédios fantasma. Bairros mortos. Impessoais. Os vizinhos não comunicam. As pessoas não vêm à rua respirar ar fresco, fumar um cigarro, olhar as pessoas a passar, os namorados agarradinhos, os casais apressados, o rapaz que já vai atrasado, a criança que pedala na sua bicicleta com rodinhas de apoio.
Em casa dos meus pais, quando era Verão, ele colocava uma mesa pequena na varanda e comíamos lá. Comíamos nós na nossa varanda e os nossos vizinhos nas varandas deles. Às vezes ainda conversavam de varanda para varanda. Ainda me lembro dos jogos da UEFA ouvidos pela rádio à janela, e as discussões de janela para janela. Uma vez um vizinho despejou um jarro de água sobre a cabeça do vizinho de baixo. Mas continuaram amigos.
Acabo da beber o copo de sumo de laranja natural. Ela entra em casa. Vem a sorrir. Traz um saco de plástico na mão. Dá-me um beijo. Eu digo Hoje almoçamos no alpendre. E ela diz Boa. A vizinha deu-me dois robalos. Podes ir assá-los, e estendeu-me o saco de plástico com os robalos lá dentro.
Fui fazer as brasas. Ela depois apareceu lá com os dois robalos limpos e alguns pimentos. Levou-me uma cerveja e umas azeitonas. Ficou lá, por momentos, a fumar um cigarro e a olhar para mim a assar o peixe que depois iríamos comer no alpendre. Às vezes sinto-me o meu pai.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/07]

Recomeçar

Ela já tinha mandado o pano de cozinha molhado para o chão. Na verdade atirou-mo a mim, mas eu desviei-me e ele caiu no chão. Salpicou pingos de água em toda a volta. Agora ela tinha um prato de sopa na mão. Não sabia se o ia mandar ou não. Ela já não estava a falar. Nem me apercebi que entretanto deixara de falar. Tinha-me perdido nos meus pensamentos sobre esta repetição quase diária. Já nem estranhava. Ela olhava para mim. Só olhava para mim. Os olhos raiados de sangue. Como se estivesse possuída por alguma entidade maléfica. O prato de sopa na mão.
Que merda é que eu fiz agora? perguntava-me em silêncio. Era um pergunta retórica, claro. Não estava à espera de resposta. Alguma coisa eu devia ter feito. Ou não ter feito. Mas não me lembrava de nada que pudesse ter despoletado aquela reacção tão irritada dela. Outra vez. Nos últimos tempos, isto repetia-se e eu não conseguia descobrir a razão. Mais tarde haveria de querer fazer as pazes comigo. Pedia desculpa e acabávamos a foder no chão da sala. Mas eu estava a ficar farto. Estava saturado destas discussões que, para mim, não tinham sentido. Virei-lhe costas. Sim, não é o mais agradável de se fazer. Imagino a cara dela quando de repente vê que eu lhe viro as costas, afasto-me dela e deixo-a sozinha. Sozinha com o seu mau feitio. Abri a porta da rua e saí. Olhei o pequeno quintal. Um dos gatos estava lá sentado e ficou a olhar para mim. Lá mais à frente, o terreno de cultivo. O pai dela. Andava a cultivar alguma coisa. Talvez milho. Talvez milho para as galinhas. Ele tem galinhas. Galinhas poedeiras. É por isso que comemos tantos ovos. Acendi um cigarro. Percebi nessa altura que estava nervoso. As explosões dela, já habituais, ainda me deixavam nervoso. Puxei duas valentes passas e tentei acalmar. O pai dela viu-me à porta de casa. Levantou a mão numa saudação. Respondi com a minha mão levantada. Dali a pouco já toda a gente na aldeia saberia que eu e ela andávamos de candeia às avessas. Este é um grande problema das aldeias. Destes meios pequenos. Toda a gente sabe de toda a gente. Eu sei as histórias deles, como é que eles não hão-de saber as minhas? Ao fundo ouvi uns foguetes. Havia festa numa terriola perto. Dantes ia com ela aos bailaricos. Dançávamos muito. Bebíamos copos de tinto carrascão. Comíamos filhoses e bolo da festa. Ficávamos cheios de azia mas éramos felizes. Agora já não. Agora já não dançamos. Agora discutimos. Gritamos um com o outro. E acabamos a foder violentamente no chão da sala. Entre as centopeias e os lacraus que entram por baixo da porta e pelas janelas abertas.
Não gosto do campo. Não sou do tipo campestre. Esta não é uma estória bucólica.
Recomeço.
Ela já me tinha mandado com o copo de vinho para cima. O vinho primeiro e o copo depois. O vinho espalhou-se pelo chão e não me acertou que eu desviei-me a tempo. O copo estilhaçou-se na parede atrás de mim. Ela tem má pontaria. Depois colocou a mão na garrafa de vinho, ainda meio cheia. Não a levantou para me mandar com ela. Mas ficou com a mão a agarrar a garrafa, a ameaçar-me. Ouvi as pancadas vindas do apartamento de cima. Ultimamente, os vizinhos de cima batem com o cabo da vassoura no chão deles, o nosso tecto, para avisar que estão fartos dos nossos berros, das nossas discussões e do choro dela. E foi nessa altura que percebi que estávamos em silêncio. Ela estava em silêncio. Já não estava gritar comigo. Estava só a olhar para mim. A mão no gargalo da garrafa, a garrafa em cima da mesa e o olhar parado e frio sobre mim. Ela parecia possuída. E, de repente, parou. Mas aquele olhar. Aquele olhar fixo em mim. Aquele olhar assustava-me. Ultimamente estes ataques dela aconteciam com alguma frequência. Depois passavam. Ela ia para o quarto. Deitava-se sobre a cama. Descansava um pouco. Depois, mais tarde, vinha ter comigo. Pedia-me desculpa. Tocava-me. Beijava-me. E acabávamos a foder na bancada da cozinha. Era a única coisa boa destes ataques. Já não tínhamos o mesmo desejo um pelo outro de antes mas, nestas alturas, depois destes ataques sem sentido dela, terminávamos a foder como dantes, cheios de fúria e vontade. Mas que acabava também por terminar rápido. Eu depois ia para a varanda fumar um cigarro. Ela ia tomar um banho. E acabávamos a noite na sala, cada um na sua poltrona, a fazer zapping por todos os canais do cabo e sem ficar em nenhum. Quer dizer, eu, que tinha o comando na mão, ia fazendo zapping e ela ia não vendo os canais em fast forward comigo. Era um programa como outro qualquer.
Desta vez não. Desta vez virei-lhe as costas e saí de casa. Virei-lhe as costas e percorri o corredor todo até à porta da rua a sentir os olhos dela nas minhas costas. Olhos como punhais. Saí para a rua. Acendi um cigarro. Olhei em volta. Ninguém conhecido. Mandei um berro. Fo-da-se! Uma velha olhou para mim mas continuou em frente. Na cidade ninguém quer saber de ninguém. Ninguém conhece ninguém. Ninguém sabe quem eu sou. Deambulo pelas ruas, de olhos molhados, e ninguém quer saber o que é que se passa comigo. Vem um cão no sentido contrário mas foge de mim. Muda de passeio. Acho que deve ter sido mal tratado. Coitado. Não fujas, pá! que não te faço mal.
Passo à porta do museu. Houve uma altura em que íamos lá todas as semanas. Repetíamos as mesmas exposições vezes sem conta. De cada vez que lá íamos descobríamos coisas novas. E ficávamos contentes pela descoberta. Pela descoberta em conjunto. Pela partilha da descoberta.
Há muito tempo que já não vamos ao museu. Já não me lembro da última vez que vimos uma exposição. Há quanto tempo não vamos ao cinema? E ao teatro? Há quanto tempo não temos um jantar tranquilo, a dois, sem o telemóvel, o mail para responder, o feed de notícias para alimentar, a fotografia que precisa do like. Acho que já não usufruímos da cidade. Estamos em fim de ciclo. E a cidade não nos ajuda em nada. Estamos isolados. Não temos amigos. Estamos sozinhos no meio da confusão. Só nos temos um ao outro. É por isso que insistimos em nós. Nesta relação já desgastada. Mas qual é a alternativa?
Não gosto da cidade. Não gosto do egoísmo da cidade. Preciso de gente com quem falar. Preciso de ir ao café e encontrar as mesmas pessoas e sentir-me em casa.
Recomeço.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/06]

Em Berlim com o Tiago Baptista

Um gajo escolhe não ter família. Um gajo escolhe não ter mulher nem filhos nem pais, que já morreram e foram enterrados em sítios que não recordo, não volto lá, nunca voltei lá, mas pago para que limpem as campas todos os meses e coloquem flores frescas em dias festivos, escolho não ter amigos nem amantes, só sexo bruto e furtivo de vez em quando, quando a necessidade grita as suas vontades, e depois tem de levar com as famílias dos outros? Com os filhos mal-educados dos outros, as mulheres histéricas dos outros, os maridos carrancudos das outras?
Tudo começou quando quis sair de casa. Eu já sabia que não devia sair de casa. Sair de casa é sempre um problema. Coloco-me nas mãos dos outros. Em convivência com os outros. Uma chatice. Um problema. Vários problemas. As pessoas carregam problemas para cima dos outros. Para cima de mim.
Estou a chegar ao Festival de Banda-Desenhada da Amadora. Há um tipo que se lança passadeira fora, de auscultadores nos ouvidos, a mexer no telemóvel e nem olha para a estrada. Aquele conselho Olhar para a Esquerda, Olhar para a Direita, está em desuso. O tipo não olhou para lado nenhum. Mas eu vinha a andar na estrada, devagar mas fluído, numa estrada que estava livre e a passadeira não era entrave e tive de travar a fundo para não passar por cima dele. Chamei-lhe Cabrão do caralho! mas ele não me ouviu. Não era para ouvir. Era mais para me libertar da raiva que me subia do estômago à boca e depositava um sabor ácido na língua. Ia a carregar no acelerador, a primeira metida, quando se lança uma moça, com carrinho de bebé, à passadeira, o carrinho à frente para lançar o medo e voltei a travar. O carro foi abaixo. Bati com as mãos no volante. Espumei. Gritei impropérios mas em silêncio. Não saltaram da boca para fora. Ficaram lá. Na cabeça. As pessoas têm a mania. Acham que a passadeira as defende da chapa dos carros em aceleração. Talvez um dia tenham azar.
Estaciono. Entro na exposição. Começo lento. Com calma. A absorver os desenhos. As pranchas originais. Descubro a exposição Berlim – Cidade sem Sombras de Tiago Baptista e fico contente. Gosto muito dos desenhos do Tiago. Gosto muito das pinturas do Tiago mas, as banda-desenhadas, são simplesmente geniais na sua simplicidade aparente de traço simples e estórias banais, mas que refletem a vida dele, a minha, a de todos nós, tomando posições políticas, tendo opinião, mostrando como a vida pode ser espectacular e uma grande merda. Tudo ao mesmo tempo. Yin e Yang. O dia e a noite. O belo e o feio. O frio e o quente. O génio e o burro. A vida é dual. Foda-se! O Tiago é grande. Obrigado pelo que me dás.
E estava eu nesta oração de agradecimento à magia de Tiago Baptista, quando chegaram as famílias. Criancinhas a correr por cima de tudo e de todos. Aos berros em altos decibéis e os papás idiotas, que tudo deixam e permitem, porque as crianças são filhos preferidos de Deus, a sorrirem perante a petulância infantil.
Mais à frente vejo umas crianças mexer nos cenários. Em elementos dos cenários. Perante a passividade dos papás. Benevolentes. Há uma exposição com dinossáurios. Uns ovos gigantes. Ovos de dinossáurios. As criancinhas pegam nos ovos e partem-nos. Olham para os pais. Que sorriem perante as brincadeiras dos rebentos, olham para mim e fazem um sorriso amarelo. Elas são assim, parecem dizer. Que podemos fazer? Eu viro costas e vou-me embora.
As pessoas são mesmo uma merda.
Ainda tento ver mais umas exposições. Mas não consigo. As famílias tiraram o dia para me azucrinar a vida. Estão aos magotes em todo o lado. Gritam. Tiram fotografias. Jogam a apanhada. Às escondidas. Berram. Choram. Comem batatas-fritas. Comem algodão doce. Comem pipocas javardamente. Deixam cair pipocas no chão. Sinto os pés a pisarem as pipocas e a fazer barulho crac-crac. Estou irritado. Não me consigo concentrar. Não consigo apreciar. Não consigo olhar.
Vou-me embora. Regresso a casa.
Em casa pego no livro Berlim do Tiago e viajo. Viajo com ele. Sem que me chateiem. Gosto do Tiago. Tem um traço maravilhoso e conta estórias de uma simplicidade desarmante. E apaixonada. E deixo-me ir com ele.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/02]

Um Tipo Peculiar num Dia de Chuva

Chove.
Corro para a rua. Aproveito para tomar banho. Vou nu com umas havaianas nos pés. Um pedaço de sabão azul nas mãos. Mas é difícil de tirar o sabão azul do corpo e ainda mais do cabelo. A chuva não tem grande pressão.
Esfrego-me.
Entro em casa. Levo a chuva comigo e vou deixando-a pela cozinha, pelo corredor, pelo quarto. Enxugo-me e deixo a casa tratar de deixar infiltrar para a cave a chuva que entrou comigo.
Visto umas cuecas.
Preciso de um cigarro. Procuro em todo o lado e não encontro.
Saio para a rua. Desço à estrada. Caminho ao longo da estrada à procura de alguém que me arranje um cigarro.
Um carro. Passa ao lado e acelera.
Outro. Ponho-me à frente do carro. No meio da estrada. Forço-o a parar. Ele pára. Peço um cigarro, assim Olhe, se faz favor, não me arranja um cigarro?, enquanto levo dois dedos à boca num gesto de fumar. O tipo olha-me. Dá-me um maço para as mãos e diz Vai-te vestir, pá. E percebo que estou em cuecas e de havaianas. Agradeço o maço de cigarros. O carro arranca. Aceno um adeus. Levo um cigarro à boca e percebo que não tenho lume.
Ouço uma buzina atrás de mim. Viro-me. É uma camioneta. Uma camioneta de carreira. Afasto-me. A camioneta avança até ao pé de mim. Abre-se a porta. Ouço o sistema hidráulico da porta a abrir. O motorista pergunta se preciso de alguma coisa. Mostro o cigarro apagado na boca. Ele leva a mão ao bolso das calças. Agarra num isqueiro Bic vermelho e manda-mo. Sorri para mim. Agradeço com outro sorriso. Fecham-se as portas da camioneta. Ela arranca. Fico aqui a acenar um adeus e vejo, dentro da camioneta, as caras que passam por mim a rir. Vão felizes, os petizes.
Estou parado. Sozinho. Na estrada. Não passam carros. Nem motorizadas. Nem bicicletas. Nem pessoas a pé. Há silêncio. Um pouco de vento. Estou com frio.
O que é que estou a fazer aqui?, pergunto-me em silêncio enquanto fumo o cigarro.
Volto a perceber que estou em cuecas e de havaianas no meio da estrada. Olho em volta e não há ninguém. Tenho um maço de cigarros e um isqueiro na mão. Subo a casa.
Começa a chover outra vez.
Corro. Não me quero molhar.
Entro em casa.
Tenho fome. Apetece-me panquecas. Descubro o cigarro aceso na mão. Largo-o no chão. Piso-o com as havaianas. O que é que eu preciso? Talvez leite. Farinha. Ovos. Uma frigideira. Acho que tenho tudo.
Largo o maço de cigarros e o isqueiro na mesa da cozinha e páro. O que é que eu ia fazer?
Estou com fome. E frio. Vou vestir-me.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/23]

Maria É Nome de Mulher

Ela acorda todos os dias às sete da manhã.
Levanta-se. Toma um duche rápido. Veste-se na casa-de-banho uma roupa escolhida de véspera sem grande prazer. Come uma torrada. Bebe uma caneca de café. Deixa comida aos gatos. Vai deitar milho às galinhas. Põe uma máquina de roupa a lavar. O pequeno-almoço pronto para os filhos. Deixa as coisas preparadas para um almoço rápido que virá fazer a casa.
Às oito menos dez está a sair. De carro.
Das oito à uma da tarde anda para cima e para baixo. Limpezas num lado. Passar a ferro e cozinhar noutro. Às vezes uns pontos de costura. Mas o normal é o aspirador na mão. A vassoura. O ferro de engomar. O tacho. A frigideira.
À uma da tarde regressa a casa. Prepara qualquer coisa rápido que já deixou adiantado de manhã. Uns ovo mexidos com espargos. Umas coxas de frango assadas. Umas cavalas em lata. Acompanha com uns brócolos. Alface. Tomate. Senta-se sozinha à mesa da cozinha. Come. Bebe um copo de vinho. Vê as notícias na televisão pequena, em cima da bancada. Aquece uma caneca de café no micro-ondas e vai bebê-lo para a entrada de casa enquanto fuma um cigarro e vê as galinhas de um lado para o outro, tontas, a debicar no milho que lhes deixou de manhã.
Acaba o cigarro e são duas menos dez. Deixa a louça por lavar no lava-louça. Arranca de carro. Às duas horas está noutro lado. Muda as roupas de cama. De muitas camas. Põe roupa a lavar. Limpa o pó. Aspira os tapetes. Faz pequenos arranjos. Às cinco horas sai. Ou devia sair. Às vezes ainda dá mais uma ajuda. Aqui. Ali. Onde for preciso. Na cozinha. Nos quartos. Às vezes lavar um carro urgente. Regar a relva porque o sistema de rega está avariado. E avaria muitas vezes. Uma ida à farmácia Por favor! buscar qualquer coisa de muito urgente para alguém muito necessitado mas sem tempo.
Chega a casa às cinco e meia. Às seis. Ou às sete. Põe a louça do almoço na máquina. Prepara o jantar. Para ela e para os filhos. Jantam. Verifica os trabalhos de casa. Dos dois. Ouve as queixas. De um. De outro. As sapatilhas que estão rotas. As calças que estão curtas. A camisola que está pequena. As meias novas para o ballet que as velhas estão rotas. O livro do Plano de Leitura que não se vai ler mas tem de se comprar. O fato para a ginástica. As senhas de almoço para a próxima semana. A amiga que amuou. O amigo que já não é. As dores de crescimento dos filhos enquanto, ao mesmo tempo, os vê afastarem-se de si. Mas, para já um ombro. Outro. Limpa umas lágrimas. E quem lhe seca as dela?
Arruma a mesa de jantar. Põe a louça na máquina, a lavar. Tira a roupa da máquina e estende-a à espera que não chova.
Senta-se frente à televisão.
Olha para qualquer coisa que está a dar. Não liga muito. Mas ajuda a espairecer. Dantes ainda via umas novelas. Mas começaram todas a parecerem-lhe iguais. E já não lhe chega as vidas dos outros para animar a sua.
Vai fechando os olhos enquanto olha para a televisão. Entretanto são onze horas. Levanta-se. Prepara a roupa para o dia seguinte. Prepara a roupa para os filhos, mesmo sabendo que eles vão acabar por vestir o que querem.
Na casa-de-banho, enquanto lava os dentes, olha em frente, para si reflectida, e pensa que tem de limpar o espelho. Os vidros das janelas. De aspirar a casa. Limpar o pó. Mudar a roupa das camas. Pelo menos das camas dos miúdos. E tem de comprar pasta dos dentes. Mudar a escova que aquela já tem, o quê?, quase um ano? Pensa que tem de fazer uma lista de coisas que precisa de comprar. E depois precisa de ver se tem dinheiro para tudo e escolher as prioridades.
Enquanto vai pelo corredor, e passa pelos quartos dos filhos para dar o beijo de boas-noites sem que tirem os olhos do telemóvel, pensa que é melhor, no dia seguinte, passar em casa dos pais. Talvez traga umas couves. Um coelho já esfolado. Talvez uma sopa de feijão. Dava bastante jeito uma sopa de feijão seco, pensa.
Deita-se nua na cama fria e solitária e pensa que já passou mais um fim-de-semana e nem deu por isso. Os dias são sempre iguais. Banais. Solitários. Cansativos. E entre um pensamento e outro há um interlúdio e são outra vez sete da manhã. O telemóvel toca a despertar e tudo recomeça da mesma maneira.
Tudo se alterou quando chegaram as primeiras dores de cabeça. Depois as dificuldades em adormecer. Por fim as dificuldades em levantar-se de manhã.
Vai ao médico de família. Análises. Testes. Nada. Não tem nada. Não tem nenhum problema. É só cansaço, ouve. É o stress do dia-a-dia, dizem-lhe. E começam os comprimidos.
Os comprimidos para as dores de cabeça cada vez mais frequentes e intensas.
Os comprimidos para adormecer e esquecer todos os pensamentos que lhe invadem a cabeça enquanto se lança para a cama à procura de um pouco de repouso.
Os comprimidos para acordar e forçar a levantar-se para retomar o seu dia-a-dia de contribuidora para o bem comum.
Foi num fim-de-dia que lá fui para lhe comprar uns ovos. Ovos a sério. Ovos de galinhas do campo. Galinhas que andam a passear dentro do galinheiro a debicar milho e que todos os dias põem ovos frescos com que se equilibram as contas da casa. Foi nesse dia que lá fui aos ovos e a vi caída no chão. Alguma roupa pendurada no estendal. Outra caída. Umas peças tinham voado para cima da figueira.
Não tinha pulso. Chamei o INEM. Mas já foi tarde. Os filhos agora estão a viver com os avós.

Abriram uma vagas de emprego.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/16]

Uma Noite no Jardim Enquanto a Alemanha Invadia a Polónia

Andava a ver os filmes em corrida para os Prémios da Academia Americana de Cinema. Sim, fica lá longe, mas é o mais perto que chegamos do cinema. A América está aqui. No meio de nós. Entra pela televisão. Pelos canais de cabo. Pela internet. Pelas salas de cinema. Ensinaram-nos a ler os códigos do cinema norte-americano. Levaram-nos a estranhar outras linguagens. Pode bem o Jean-Luc Godard bramar pela linguagem! Em vão! A corrida é sempre à volta do que já se sabe. Mesmo quando já se sabe que acaba mal. Sabemos mas agarramos a amnésia. E entramos na mesma.
Se calhar, por medo. Ou cobardia. Gostamos de estar em número, é o que é!
Portanto, sentei-me no sofá.
Ia ver uma curta-metragem. Uma curta-metragem documental. Uma coisa pequenina. Tinha sete minutos. Feita com imagens de arquivo. A preto e branco. Chamava-se A Night at the Garden e era realizado por Marshall Curry.
Carreguei no Play.
O filme abriu com uma multidão. Uma multidão num pavilhão. Um bruá de excitação. Depois o título A Night at the Garden. E um subtítulo, localizador de espaço e tempo, New York City, February 20, 1939. Estávamos no domínio da memória.
No plano seguinte descubro que o Garden do título é o Madison Square Garden. Em pleno coração do mundo. Um local onde se alberga tudo, do hóquei ao basquetebol, passando, naquela noite, em especial, por um evento chamado Pro American Rally.
Vê-se muita gente nas imediações. Polícia a cavalo. Pessoas que se manifestam. Uns contra. Outros pró.
Ao primeiro minuto voltamos a entrar no Garden e vemos, pela primeira vez, ao que vamos: um fila de jovens a transportar bandeiras americanas e bandeiras nazis cruzam a plateia saudados pelos braços esticados no ar. Em saudação. No palco, um grupo de jovens milicianos de fato militar, fazem rufar os tambores. Agora o pavilhão inteiro aplaude. Aplaude a chegada de inúmeros jovens milicianos, meninos e meninas, eles de calções e bivaque, elas de caracóis, camisa branca de manga-curta e gravata, numa espécie de Mocidade Portuguesa formada de jovens e esbeltos americanos, da Land of the Free. À cabeceira de tudo isto, a figura paternal e gigante de George Washington.
Quase a chegar aos dois minutos de filme, o primeiro discurso, onde se promete lealdade incondicional à bandeira dos E.U.A., um país com liberdade e justiça para todos, numa voz alemã vertendo em inglês o discurso da pátria.
Muda o orador. Os braços estendidos a César invadem o Madison Square Garden. Parece que não estamos em Nova Iorque, mas em Berlim.
Ao minuto três chega o apelo aos verdadeiros americanos, aos patriotas, porque são sempre eles os patriotas e representantes do povo e exigem a devolução do país àqueles que são sempre os verdadeiros americanos: O povo! O Povo!. Começam a zurzir nos judeus. A chaga social. A boca da mentira.
Eles? Os verdadeiros americanos de mão esticada? Eles clamam por um país socialmente mais justo, branco e gentio. Eles clamam por sindicatos de trabalhadores gentios livres do domínio judaico e soviético.
Estamos a chegar ao minuto quatro e alguém salta para cima do palco. Alguém que quer parar a besta, ali. Mas é logo apanhado por elementos das milícias que o sovam ali mesmo, em cima do palco, à frente da plateia que ulula em êxtase. Chega a polícia e encarrega-se do intruso. Leva-o para fora do palco. O orador, impávido e sereno, assiste a tudo com um enorme bocejo e uma calma desarmante, continuando, logo de seguida, o discurso. A juventude miliciana no palco está excitada. Contente. Dá pulinhos. Ri. Gargalha. Enquanto o invasor é levado, pela polícia, para fora do palco com as roupas rasgadas, a multidão brama e o orador ri, bonacheirão, daquele fait divers.
Uma voz de mulher entoa o hino americano na companhia de uma orquestra e o povo, aquele povo que está no Madison Square Garden, está de pé, respeitosamente, a homenagear o país, o hino, a bandeira. Mas e os outros? Os que não cabem debaixo de todo aquele folclore?
No fim do filme, uma informação: Vinte mil americanos estiveram no Madison Square Garden na noite de vinte de Fevereiro de mil novecentos e trinta e nove. Enquanto isso, na Europa, Hitler terminava a construção do seu sexto Campo de Concentração. Sete meses mais tarde, o exército Nazi invadia a Polónia e dava início à guerra mais sangrenta da História.
Passa o genérico. Aperto no Stop.
Agarro num cigarro. Acendo-o. E penso que nada disto é novo. Nada que não soubéssemos já. Nem era preciso saber História. É do senso comum. Já faz parte da cultura ocidental saber o que aconteceu na Europa entre mil novecentos e trinta e nove e mil novecentos e quarenta e cinco. As consequências ainda as sentimos, hoje. Saber que houve um Partido Nazi Americano também não é novidade. Também houve um Partido Comunista, que existe ainda hoje. Uma das bases de A Conspiração Contra a América de Philip Roth está nesta América nazi. Numa América que glorificava Hitler. Na estória, a Alemanha era a vencedora da guerra. Os americanos-arianos cumpriam a sua vingança contra os judeus.
Mas então, o que é que se passa? O que é que se passa hoje que parece que estamos todos esquecidos? O que é que se passa hoje que parece que não se passou nada?
Cortámos a cabeça à serpente. Mas ela deixou ovos. Eles estão aí. Por todo o lado. A nascer. A crescer sob a nossa amnésia. Na Polónia. Na Hungria. Em França. Em Itália. Mesmo em Espanha. No Brasil e nos Estados Unidos. Em nome de falsos profetas e falsas profecias. Em nome da sacrossanta economia. Contra a corrupção. Contra os emigrantes. Contra os outros. Contra! Contra! Contra! Foda-se!…
Apaguei, furioso, o cigarro no cinzeiro. Levantei-me. Fui ao quarto. Ao armário do quarto. Ao fundo do armário do quarto. Agarrei na caçadeira. Carreguei-a. E voltei para a sala. Desliguei as luzes. E pus-me à espreita. A olhar pela janela. E disse baixinho Os filhos-da-puta andam aí. Mas desta vez vou estar à espera deles. E desta vez não vou ser complacente.
Ao fundo vi umas carrinhas de caixa aberta cheias de gente. Jovens cheios de testosterona. À cata de problemas. Eles que venham cá, pensei.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/11]