Algo Estava a Acontecer

Eu estava sentado a uma grande mesa. Estava a jantar. Estava rodeado de muitas pessoas a jantar. Acho que não conhecia ninguém. Mas não tenho certeza. Alguém estava a falar comigo. Alguém estava com um pedaço de carne assada espetado num garfo a olhar para mim. A boca mexia. A boca mexia e não era a mastigar. A carne assada continuava espetada no garfo. Presumo que estivesse a falar comigo. Eu não conseguia ouvir. Esforçava-me para ouvir. Tentava abstrair-me do bruá geral de gente em conversas cada vez mais galopantes. Senti o corpo tombar ligeiramente sobre o tipo que parecia estar a falar comigo. Queria ouvir. Mas não conseguia. Eu tinha um copo de vinho tinto na mão e ia bebericando sem desviar o olhar do olhar do tipo como dando a entender o meu maior interesse no que ele estava a dizer. Mas a verdade é que não ouvia nada do que lhe saía da boca. De vez em quando olhava para o meu prato e via a carne assada com creme de maçã e batatas assadas à minha espera, e eu à espera de ouvir o tipo, ou que o tipo desse por finda a conversa.
Enquanto o tipo ao meu lado continuava naquela ladainha silenciada pelas conversas colaterais dos outros convivas da mesa, uma mão colocou um tigela com grelos. E eu fiquei com vontade de comer logo um bocado, mas só pensava que a carne assada estava a ficar fria, que as batatas assadas estavam a ficar frias e que o creme de maçã, esse não estava a ficar frio porque era frio. Ou assim parecia. O bocado de carne assada que o tipo tinha espetado no garfo caiu no prato. Ele deu conta. Parou de falar para mim por momentos. Desviou o seu interesse para o bocado de carne assada caído no prato. Eu aproveitei para beber o resto de vinho que ainda tinha no copo, voltar a enchê-lo, apanhar um bocado de grelos da tigela, e meter na boca uma garfada de grelos logo seguindo de uma batata com um pedaço de carne assada molhado no creme de maçã a tempo de voltar a olhar para o tipo que, engolindo, finalmente, o bocado de carne assada, e eu vi a maçã-de-adão a mover-se para cima e para baixo no ritual de engolir, estava, de novo, a falar para mim.
No meio da conversa comecei a ouvir um batuque. Como se alguém estivesse a bater na mesa. Como às vezes se faz nos casamentos para exigir um beijo de língua aos noivos. Tum-Tum-Tum. Um som insistente. Olhei à volta. Tentei perceber de onde vinha o barulho. Aquele bater ritmado. Ritmado e insistente.
E acordei.
Abri os olhos e olhei para cima, para o tecto. Um raio de sol rasgava o branco do tecto. E o batuque continuava. Tum-Tum-Tum.
Eu estava deitado na cama. Estava nu. Debaixo do edredão. As janelas abertas. O sol a invadir o quarto. E eu de olhos abertos a olhar o tecto e a tentar perceber que barulho era aquele.
E percebi. A porta. Alguém estava a bater à porta.
Levantei-me. Levantei-me como um autómato. Mandei o edredão para trás e levantei-me da cama. Senti-me a arrastar até à porta da rua. Abri-a. Do outro lado da porta, três homens. Dois deles fardados de polícia. Perguntaram-me se eu era eu. Se tinha saído. Saído de casa. Saído de casa com o carro. Se podiam ver o carro. Se os acompanhava ao carro. Para eles verem o carro. Comigo. E se eu podia ir vestir uns boxers antes de sair à rua. E foi nessa altura que percebi que estava nu frente à polícia à entrada de minha casa. E se podiam esperar por mim dentro de casa. Se me importava que um dos polícias fardados me acompanhasse ao quarto enquanto vestia uns boxers. Se calhar podia calçar uns chinelos.
Abri a porta para trás. Senti-os entrar nas minhas costas. A porta a fechar. Um deles a seguir-me pela casa. Eu entrei no quarto. Olhei à volta a tentar perceber onde tinha largado a roupa. Vi os boxers no chão. Baixei-me. Apanhei-os. Sacudi-os. Vesti-os. E voltei descalço para a porta da rua. Abri a porta e saí com os três homens atrás de mim. Lembro-me de dizer alto, porque me ouvi e achei estranho ouvir-me e sentir a minha voz entaramelada, Precisava de um café!
Fui até ao telheiro onde costumo parar o carro. Parei em frente. Estiquei a mão a dizer que o carro estava ali. Um polícia fardado ficou ao pé de mim. Os outros dois foram olhar o carro. Baixaram-se. Aproximaram-se. Não demoraram muito tempo. Depois o homem que não estava fardado perguntou Quando é que bateu? E aquele vermelho é sangue? E eu tentei processar as perguntas, tentei focar o pensamento e disse-me, em silêncio, Bati? Sangue?
E respondi, sincero, Não sei!
O homem que não estava fardado disse Tem de vir connosco.
E eu não percebi muito bem o que é que estava acontecer.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/24]

A Vida Não Basta

Eu estava a ver-me. Eu estava a ver-me ali sentado, na poltrona baixa, atrás daquela pequena mesa aos meus pés, cheia de livros vários, muitos deles de poesia. E os tipos ao meu lado. O Manuel António Pina. O Afonso Cruz. O Luís Mourão. Eu via-me ali, no meio deles. No meio da conversa deles. O Manuel estava a falar. O Afonso replicava. O Luís sugeria. Eu tentava intervir, mas via-me a balbuciar qualquer coisa de inaudível. Gesticulava. Parecia um boneco daqueles articulados que, dantes, viajavam no vidros traseiros dos carros, assim, a abanar a cabeça, os braços, mas só pelo movimento do carro, não por vontade própria ou com sentido. Mas ninguém via. Ninguém me via. Só eu. Só mesmo eu é que me via ali no meio deles.
Eu estava lá, mas não estava lá. Já não estava lá.
E depois percebi.
Ainda tentei levantar a voz. Pus-me a gritar. Levantei-me da poltrona baixa para dizer ao Manuel como tinha comprado o meu primeiro livro dele por acaso. Por puro acaso. Como uma paixão à primeira vista. Sem saber quem ele era. Sem saber que o livro era dele. E que era tão bom. Oh, porra, se era maravilhoso! Queria dizer-lhe que tinha comprado aquele livro por ter como título o poema mais bonito que já tinha lido
Ainda Não É o Fim Nem o Princípio do Mundo
Calma
É Apenas um Pouco Tarde
Mas ele não me ouvia. Ninguém me ouvia. Nem eu próprio, a ver-me à distância, me conseguia ouvir.
E, então, vi.
Não fui eu que vi. Foi ele. Ele que era eu. Vi os olhos frios de réptil que me observavam do meio da plateia. Os olhos frios de réptil que não estavam a ligar à conversa do Manuel, do Afonso, do Luís. Não. Os olhos frios de réptil estavam cravados em mim. Assim, meio cerrados. Como se me focassem. Como uma faca espetada no coração. Empurrando a lâmina fria cada vez mais para dentro. Devagar. Muito devagar. Com tempo. Com prazer. A fazer doer. Como uma vingança. Como uma vingança que se consome tranquila. Com calma.
Os olhos frios de réptil levantaram-se da cadeira, no meio da plateia atenta ao debate. Uma garra empunhava um revólver apontado na minha direcção, e eu vi o projéctil sair disparado do cano de metal e percorrer brevemente o espaço que nos separava, num tempo presente que logo se tornou passado, e trespassar-me o corpo, bem no meio do coração, e eu vi uma mancha vermelho escuro, quase castanho, a alastrar vagarosa pela camisa clara, vincada de véspera para estar ali, engomada, ao pé deles, à frente de toda a gente, como uma cidade do SimCity original em expansão, comendo centímetros, metros, quilómetros de vida. Assim, aos poucos, mas imparável.
Eu vi-me a ir. E então, percebi.
Percebi porque ninguém me escutava. Porque ninguém me via. Só então percebi que era porque a vida, por si só, não bastava. Não me bastava.
Percebi que, às vezes, é preciso a morte para dar razão à vida.
Sintonizei os ouvidos. Pus-me à escuta. E ouvi
“Os tempos não vão bons para nós, os mortos…”

[escrito directamente no facebook em 2019/01/28]