São Valentim

Conheço-o desde sempre. Toda a minha vida ele andou por aqui. Aliás, já por cá andava quando nasci. Ele já andava na rua aos pontapés na bola quando eu dei o primeiro berro pendurado pelos pés nas mão ásperas da parteira.
Ele era o filho da porteira. Foi o meu primeiro amigo. Eu descia as escadas do prédio e ia para casa dele. O quarto dele era um mundo de bizarrias. Cheio de tralha. Tudo a que pudesse deitar a mão e que sugerisse retorno. Nem que fosse no futuro. A primeira colecção de latas de bebidas que vi na vida, foi em cima do guarda-fatos do quarto dele, em exposição. Até tinha algumas de Espanha. E de França. Eram latas que os primos, emigrados, lhes traziam nas férias.
Foi com ele que fumei o primeiro cigarro. O primeiro charro.
Foi com ele que aprendi os primeiros rudimentos do sexo. Ele era mais velho. Mais sabido. Já tinha ido com umas miúdas. Até já tinha um pequeno bigode (um pequeno bigode?! uma penugem!) quando, uma vez, me disse O que elas gostam é disto, e apalpou o próprio sexo, por cima das calças de ganga apertadas e com remendos entre-pernas.
Eu saí dali. Da casa dos meus pais. Da cidade. Cresci. Fui estudar para outra cidade. Uma cidade maior. Deixei de vir a casa tantas vezes. Foi um processo gradual. E, aos poucos, acabei por me afastar.
A morte dos meus pais trouxe-me de volta. Cansei-me da cidade grande. Voltei à cidade pequena. Ocupei a casa dos meus pais. Agora minha. Minha e da minha mulher. E da minha filha. Sim, casei, tive uma bela menina que, graças a Deus, sai à mãe, e regressei à casa onde nasci.
Ele continuava lá. Na casa da porteira. Agora era a casa do porteiro. A mãe já tinha falecida há uns anos. Ele ficou com o lugar que era da mãe. Agora era ele que cuidava das casas. Do prédio. De nós.
A primeira vez que o vi, quando regressei, apresentei-lhe a minha família. Mas tudo o que tinha tido com ele, tinha-se esvaído. Já não o conhecia. Não sabia o que conversar com ele.
Agora, quando me cruzava com ele nas escadas, era Olá! Bom-dia! Boa-noite! Até logo! e encerrava ali o assunto. Às vezes percebia que ele queria encetar alguma espécie de conversa cúmplice. Mas a cumplicidade já não existia. Já não existia nada entre nós. O tempo tinha tratado de a assassinar.
A verdade é que me incomodava cruzar com ele nas escadas. Ou no pequeno jardim de entrada do prédio, onde ele estava quase sempre a tratar de qualquer coisa. E sim, aquele pequeno jardim era uma preciosidade dele, mas que elevava o nosso prédio, no contexto dos prédios cinzentos daquela rua cinzenta, a outro nível. Dava prazer chegar a casa. Mas o facto de ter que lhe dirigir uma palavra, como se o conhecesse, e conhecia, de facto, deixava-me um pouco deprimido.
Hoje, quando cheguei a casa, voltei a cruzar-me com ele nas escadas. Parecia que, às vezes, me fazia uma espera. Agora estava a arranjar uma caixa do correio. Eu entrei no prédio. Levava um ramo de flores na mão. Um ramo com treze rosas vermelhas. Uma por cada ano da relação que tinha com a minha mulher. E ele viu-me chegar com o ramo de rosas e largou um rasgado sorriso e disse Dia dos namorados, hein? e eu anui.
Preparava-me para pôr o pé no primeiro degrau, para subir as escadas e ir para casa quando ele me colocou a mão no braço e me fez parar. Chegou-se ao pé de mim, com a boca próxima do meu ouvido e disse Eu cá é mais putas e vinho verde! e fez um pequeno sorriso.
Eu não me manifestei. Ou acenei levemente a cabeça, já não me recordo, e foi aí que ele começou Nunca tive sorte com as mulheres, sabes? A maior parte das que tive, foi a pagar. E isto, hoje, está difícil. Ser porteiro não dá muito. Não dá nada! Dá para ir vivendo, assim, aos poucos de cada vez. Uma vez ou outra vou à bola. Em Maio vou à feira. Mas não tenho férias. Também, para onde é que ia? Sozinho?
Ele já tinha largado o meu braço. Mas eu não conseguia ir embora. Queria ir. Mas não podia. Não podia deixá-lo ali sozinho. A necessidade de falar. De contar algo. Algo que eu não queria ouvir. Mas tinha de ouvir. Tinha de lhe dar tempo. Um pouco do meu tempo. Em nome do passado. Afinal, tínhamos sido amigos.
Disse Putas e vinho verde? Mais o Youporn e uma garrafa de Seven-Up. A vida está complicada, pá…
Senti-o ficar mais pequeno. Os ombros descaíram para a frente. O pescoço enterrou-se pelo corpo. Os olhos encovaram num buraco negro. De repente descobri-lhe o cabelo grisalho. A barba rala, com peladas, e muito pêlos brancos. Vi as mãos a tremer.
Baixei a mão com que agarrava o ramo de flores. Aproximei-me dele. Dei-lhe um abraço. Dei-lhe um abraço sentido. Éramos crianças e estávamos na rua a brincar. Eu e ele. À bola. Com os carrinhos de rolamentos com que caí e esfacelei os joelhos. Aos índios, com arcos e flechas feitos de varetas de chapéus de chuva velhos e com o qual lhe ia vazando um olho. Felizmente não aconteceu nada.
E disse-lhe baixinho Estou aqui! Se precisares de alguma coisa, estou aqui, pá.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/14]