Estou Sozinho no Mundo

Está calor neste início de noite. O Verão teima em não ir embora. O Outono está assim um pouco para o choninhas, sem força para se impor. Mesmo a chuva que se anunciava foi quase uma amostra gratuita em revista de moda, só para não perdermos o norte e sabermos como ela é. Até a temida Ophelia não passou de uma mera miragem anunciada, mas nunca vista.
Fui até à beira-rio. Há algum tempo que não passava por lá. As comportas foram abertas e o rio é agora quase só um fio-de-água que escorre por ali abaixo.
Subi a ponte e deixei-me lá estar a observar um pouco. A luz a cair. Os miúdos que vêm da escola em grupos enormes e muito barulhentos. Tão barulhentos que abafam o barulho do parque de skate, logo ali, ao lado do rio.
Casais de namorados de mãos dadas. Senhoras com carrinhos de bebé. Duas crianças aos chutos numa bola. Alguém que passa de bicicleta e faz slalom para se desviar das crianças, da bola e dos carrinhos de bebé.
Uma rapariga está sentada no muro sobre o rio a comer um gelado. No fim, manda o papel do gelado para o rio. A pouca água leva-o leito fora. E eu, cá de cima da ponte, fico a vê-lo aproximar-se e a desaparecer debaixo de mim.
De repente, sinto um calafrio pela coluna acima. Sinto chegar uma certa angústia. Aparecem algumas lágrimas nos olhos que tento parar a custo. E penso Mas o que é isto? Porque estou assim? E percebo. Tanta gente e ninguém. Em todo este tempo que tenho estado aqui na ponte sobre o rio, tenho visto tanta gente passar e não conheço ninguém. Ainda não abri a boca. Ainda não falei. E penso que estou sozinho no mundo. E tenho medo. E, aqui, nesta altura em que sinto o medo, uma lágrima consegue escapar e cai pela face abaixo. Mas deixo-a ir sossegada.
A luz já caiu.
Pego no telemóvel. Olho para o ecrã. Mas não está lá nada que me interesse. Nenhuma chamada não atendida. Nenhuma mensagem. Também não tenho nenhuma chamada para fazer. Ponho o telemóvel no bolso das calças e saio de cima da ponte. E penso Quando é que virá a merda do Inverno?

[escrito directamente no facebook em 2017/10/26]

Mesmo Quando as Coisas Correm Mal, Correm Bem

São Miguel, Açores.
Dei uma volta a pé pela ilha. Fiquei fascinado por todo aquele verde. Um verde mesmo verde, de erva, de relva cuidada, de árvores de sede saciada. De terra lavada. Um cheiro fresco.
Não sendo muito dado a paisagens bucólicas, a verdade é que me senti rendido ao pastoral. Tive vontade de mandar passear a minha vida no continente e deixar-me ficar por lá. Patetices de quem tem muito tempo para pensar e acaba por não pensar nada de jeito.
Estava perdido nestas conversas idiotas comigo próprio quando fui interceptado por ela. A Ophelia. A maldita da Ophelia. Depois dos 14 furacões anteriores terem resolvido chatear os americanos, esta Ophelia teve o desplante de arrepiar caminho e vir até à Europa. Talvez por ser mais fraquinho.
Bom, apanhado a meio do passeio, longe da pensão onde estava hospedado, olhei à volta e não encontrei nada melhor que a piscina ferrosa do Terra Nostra. Corri para lá já o vento era poderoso e me dificultava o caminho. Já havia coisas a voar. Não sei o quê. Coisas. Cheguei-me ao pequeno muro, despi-me, enfiei a roupa num buraco do muro, coloquei-lhe umas pedras em cima e entrei dentro da piscina. Deitei-me lá dentro no quentinho e só deixei a cabeça de fora, para ficar atento ao que se passava. Por cima formava-se uma verdadeira enciclopédia da humanidade, tal a quantidade e variedade de coisas bizarras que passaram rente a mim, a voar, levadas pelo vento que, por esta altura já era terrível.
E eis que a vi, a rapariga. Agarrada à corrente que encima o muro e o acompanha. Tentou puxar-se. Por vezes o corpo voava, só se fixando pelas mãos à corrente. Eu fui rastejando dentro da piscina, junto ao muro, até me aproximar dela. Estendi-lhe a mão, enquanto me agarrei também à corrente. Ela passou para dentro da piscina e deitou-se no fundo, só com a cabeça de fora. Tal como eu. E quando estávamos os dois lá no fundo agarrou-se a mim com força. E medo. Eu disse-lhe Desculpa, estou nu. Ela sorriu, mas um sorriso amarelo, de medo, de quem não sabe o que fazer ou dizer. Um sorriso de quem tem medo que o céu lhe caia em cima da cabeça. E ficámos assim por muito tempo, não sei quanto, a ouvir a Ophelia a refilar, as coisas a voar e os guinchos e os sopros e… E adormecemos.
Quando despertámos, a Ophela já tinha passado. Levantámos-nos. Fui buscar a roupa e vesti-me. Ela tremia de frio e medo. À nossa volta estava tudo muito destruído, ramos de árvores, muitas folhas, lixo, uma vaca com um golpe no quadril por onde saía sangue, pedaços de muro caídos, um carro virado, um tractor tombado numa pequena valeta…
Peguei na rapariga e dirigimos-nos até ao Terra Nostra. Pedimos para tomar um banho e lavar a roupa.
Enquanto esperávamos, comemos um queijo da ilha barrado com piri-piri e vinho tinto. Vindo lá de fora ouvíamos ainda o sopro do que restava da Ophelia e cá dentro o crepitar de uma lareira acesa.
Acho que nos Açores a vida é assim. Mesmo quando as coisas correm mal, correm bem.

[escrito directamente no facebook em 2017/10/14]