Álcool Etílico a 90%

Apanhei a via rápida para ir à cidade. Há pouco trânsito. Na maioria, camiões. Podia ir pela nacional, mas está cheia de guardas. Há agentes da Brigada de Trânsito em todas as rotundas. Há carros da GNR a passearem-se pelas estradas do concelho. Como o trânsito é muito reduzido, os agentes até parecem mais. Mas são mesmo mais. Andam mais por aí.
Apanhei a via rápida para fugir ao controle cerrado da Brigada de Trânsito. Sabia que à chegada à cidade, haveria muitos agentes da PSP a vigiar as ruas. A vigiar o trânsito nas ruas. Estava preparado.
Na via rápida, ultrapassei dois camiões e cruzei-me com outros dois que iam no outro lado, em direcção contrária. Saí da via rápida e cruzei-me com uma operação Stop, logo na primeira rotunda. Olhei descontraidamente para os agentes. Não me mandaram parar. Segui para a cidade.
À entrada da cidade, um carro da polícia e dois agentes. A ver quem chega. Continuei numa velocidade tranquila, inferior a cinquenta quilómetros por hora. O meu olhar pousado neles. O meu olhar tranquilo pousado neles. No carros deles. Nas caras deles.
Fui até ao centro da cidade. Circulei por uma cidade quase-fantasma. Não se via ninguém a pé. As lojas fechadas. Os poucos carros na cidade estavam parados, estacionados ao longo dos passeios desertos. Mais carros da polícia a circular devagar, a olhar para todo o lado, a olhar para a poucas pessoas que se aventuravam. Eu. Olhavam para mim. Sentia-me a passar por entre os pingos da chuva.
Tinha um razão estudada se precisasse de usar.
Continuei aos esses pelas ruas vazias da cidade. Era bizarro ver a cidade, normalmente tão pulsante, entregue aos vazios. O vazio das ruas. As lojas vazias. Vazio de gente. Vazio de barulho. Vazio da poluição que me ataca a asma.
Cheguei onde queria chegar. Estacionei. Estacionei com facilidade. Havia inúmeros lugares vagos. Parei o carro. Olhei para o prédio em frente. Para a fachada do prédio em frente. Percorri as janelas. Fixei-me numa delas. Agarrei no telemóvel e mandei uma mensagem. Aguardei. Com a mão esquerda procurei junto ao banco e senti. O cutelo. O cutelo estava lá enfiado, entre o banco e a porta de saída. Não seria necessário mas todo o cuidado é pouco. Muito mais nos dias de hoje. É preciso muito cuidado. Passei com o dedo do polegar esquerdo pelo fio da lâmina do cutelo e senti o dedo a rasgar. Foda-se! disse. Levantei a mão e levei o dedo à boca e chupei o sangue que já escorria.
Ao fundo vi o tipo. Acabado de sair da porta de casa e vindo pelo passeio com um saco de lixo na mão. Não vinha direito a mim. Já me tinha visto mas não vinha direito a mim. Caminhava ao longo do passeio, passou pelo carro e foi até ao ecoponto. Largou o saco de lixo no RSU. Parou a olhar a rua. Acendeu um cigarro e voltou para trás. Aproximou-se do carro, abriu a porta do lado e entrou. O fumo do cigarro entrou com ele. Disse Olá! Estava nervoso. Era a primeira vez. Eu respondi Olá! Ele mostrou-me duas notas na mão e eu agarrei-as. Tirei um pequeno frasco debaixo do banco e entreguei-lho. Disse Álcool etílico a 90%. Ele sorriu. Um sorriso nervoso. E disse Obrigado! Saiu do carro. Eu vi-o percorrer o passeio de costas, a fumar o resto do cigarro e, à entrada de casa, lançá-lo fora, virar-se para trás, olhar, e entrar no prédio. Nessa altura eu liguei o carro e arranquei. Também regressei a casa. Regressei a casa pela estrada nacional.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/02]

A Carta de Condução Caducada

Eu soube, mal saí da cama e pus o pé no chão, que aquele dia não ia ser um grande dia.
Acordei. Mandei o edredão para o fundo da cama. Senti a pila a encolher com o fresco da manhã. Levantei o corpo. Tirei os pés para fora da cama e senti, quando estavam a tocar no chão, umas cócegas, uma picada e, logo depois, uma ligeira impressão a alastrar pela planta do pé.
Abri bem os olhos. Olhei para baixo. Para os pés. E vi uma centopeia a escapar-se por entre os dedos dos meus pés e enfiar-se debaixo da cama. Vi as suas dezenas de patas a marcharem para a fuga.
Antes de ir à casa-de-banho passei pela internet e pesquisei Centopeias para perceber o que é que me tinha acontecido. Nada de grave. Mas não consegui afastar um certo nojo. Fui para o duche.
Mais tarde, numa recta que cruza uma pequena aldeia a caminho da cidade, recta de traço contínuo, duplo traço contínuo, vejo um camião TIR vir em sentido contrário a mim, vejo-o vir todo do lado de cá do traço contínuo duplo e vejo-o levar com ele o meu espelho retrovisor exterior. O estrondo do espelho a partir parecia uma bomba atómica a rebentar-me dentro da cabeça. O carro ia-me fugindo. Agarrei-o nos limites. Assustado. Maldisse os motoristas de camiões. Todos os cabrões de motoristas de camião. Pagou o justo pelo pecador. Filhos-da-Puta!, gritei com a cabeça fora da janela do meu lado, a oferecer-me em sacrifício a um outro qualquer camião. Mas não apareceu mais nenhum. Ainda bem para mim e para a minha cabeça. Olhei o camião TIR pelo espelho retrovisor interior. Olhei para o camião TIR que me rebentou com o espelho, e vi-o entrar na rotunda. Uma rotunda que tinha cinco saídas e uma entrada para a auto-estrada. Desisti da vingança. Do reparo.
Parei mais à frente. Num café. Num café à borda-da-estrada. À borda da N1. Pedi uma Amêndoa Amarga. Bebi duas. Fiquei cheio de sede com o adocicado da Amêndoa e tive de pedir uma cerveja. Bebi três. Ainda não eram dez da manhã.
Fui à casa-de-banho despejá-las.
Uma miúda entrou comigo lá dentro. Levantou a saia. Disse-me que estava fresca. Eu disse que era muito cedo para mim. E saí da casa-de-banho. À saída estava um gajo que era dois de mim. Estava de mão estendida. Dei-lhe uma nota de vinte. Não disse nada. Os olhos fixos em mim. A mão estendida. Dei-lhe mais vinte euros. Sorriu-me e disse Obrigado, pá!
Sai do café à borda-da-estrada. Entrei no carro. E voltei à Nacional.
Não tinha ainda feito dez quilómetros quando encontrei uma operação stop. Com a minha sorte, sou um dos eleitos, pensei. E fui. Um elemento da Brigada de Trânsito, no meio da estrada, fez-me sinal para parar na berma-da-estrada. Fui para a berma-da-estrada. Parei o carro. Um guarda pediu-me os documentos. Meus e da viatura. Dei-lhos para as mãos. Dei-lhe tudo o que tinha. Ele desapareceu. E ainda não voltou.
E eu estou aqui à espera. Tenho a perna a tremer. O pé a bater no pedal. Estou nervoso. Desde manhã que sei que a sorte não me deseja e o azar é o meu destino.
O guarda regressa de lá. Para onde tinha ido. Pára ao pé de mim. Dá-me os documentos do carro. Vai olhar o selo, do outro lado. Depois volta à minha janela e, com a minha Carta de Condução na mão diz-me A Carta está caducada.
Foda-se!, pensei. Estou fodido!

[escrito directamente do facebook em 2019/05/31]