Os Riscos nas Folhas de Papel

Todos os dias a via. Sentada no banco do jardim, virada para o rio, a desenhar. Estava ali ao pé do Moinho de Papel, depois da pequena queda de água que fazia o rio saltar de uma plataforma para outra para continuar a correr até à praia da Vieira e se transformar em espuma suja que morre na areia.
Eu passava por ali todos os dias. Passava a correr. Desde que tinha sobrevivido ao acidente que tive há cerca de três anos que comecei a correr. Corro como catarse. Fazia todos os dias o mesmo trajecto. Corria ao longo da Polis. Corria nas margens do rio Liz. Às vezes corria ao lado de um leito de rio deserto. Outras vezes ao lado de um rio que corria veloz, mais veloz que eu.
Sempre que cruzava a estrada, ali ao pé da Estação de Serviço da Total, depois de ver a pequena cascata do rio que tombava sobre um pequeno lago rodeado de árvores verdes e frondosas que tapavam a entrada de sol e tornavam aquela zona bastante fria, húmida e fria, e antes mesmo de chegar ao Moinho de Papel, o Moinho que Alvaro Siza Vieira recuperou, que a via sentada. Sentada num banco de jardim a desenhar. Desenhava o rio. As pessoas a correr. A andar. Sozinhas, aos pares e em grupo. Os homens mais sozinhos. As mulheres mais em grupo. No Verão desenhava os miúdos aos mergulhos no pequeno lago na queda de água. Desenhava o Moinho de Papel. A cascata. Às vezes levava fotografias e desenhava outras coisas. Coisas que gostava. Algumas delas pintava-as com aguarelas. Um dia esqueceu-se das aguarelas e foi ao café buscar uma bica. Pintou o desenho com o café. O café na ponta do dedo. Eu sei porque vi. Ela mostrou-me. Eu às vezes sentava-me ao lado dela a descansar. Fumava um cigarro e ela mostrava-me os desenhos com que enchia as páginas dos diferentes cadernos da Moleskine que preenchia. Folhas e folhas e folhas. Muitas delas só com rabiscos. Esboços a carvão. Experiências. Preenchia cadernos grandes. Pequenos. Cadernos japoneses com folhas que se desenrolavam em leque. Pequenas sebentas quando não havia mais Moleskines.
Acho que passava lá os dias inteiros. Mesmo nos dias de chuva. Encontrava-a lá de manhã cedo, a minha hora normal de correr pela Polis. Mas aconteceu ter de correr ao final do dia e voltei a cruzar-me com ela. E os seus desenhos, as cores dos seus desenhos, reflectiam essa diferença de luz, a queda do dia, a aproximação da noite.
E um dia passei por lá e ela não estava. Sentei-me no banco de jardim onde costumava estar sempre a desenhar e fumei um cigarro. Fumei um cigarro sozinho. E senti o vazio. Percebi que se tinha ido. Percebi que ela já não estava mais ali. Nem ali nem em mais sítio nenhum.
Larguei o resto do cigarro nas águas do rio. Continuei a correr.
Nunca mais corri ao longo da Polis. Não queria voltar a passar por ali. Por onde a via a desenhar. A desenhar-me. Desenhou-me várias vezes. Desenhou-me nas minhas calças de fato-de-treino azuis da Converse. Nas minhas sapatilhas amarelas fluorescentes da Asics Tiger. Nas minhas t-shirts velhas, algumas rasgadas, que ele reproduzia fielmente, o buraco feito pela ponta incandescente do cigarro, as garras dos gatos, o desgaste do tempo e das lavagens ao longo dos anos.
Depois dela ter desaparecido passei a subir à Cruz d’Areia, descer a São Romão, cruzar o rio ao pé do McDonalds e ir até ao Vale Sepal, subir a estrada do Vale Sepal, aquela estrada sem passeio, e descer, descer até à cidade, lá em baixo, passar ao lado da morgue e chegar às ruas entupidas de carros em aceleração e buzinas a apitar.
Arranjei uma moldura e pendurei um dos desenhos que ela me deu na parede do escritório e, todos os dias, depois de ler as notícias online enquanto bebo uma caneca de café, e antes de sair para a minha corrida matinal, olho-me desenhado naquela folhar grossa arrancada de uma Moleskine e pintado a aguarela, e recordo-a, sentada no banco de jardim, a desenhar, a pintar, a olhar tudo com muita atenção, o rio, as margens, a queda de água, o Moinho de Papel, a pessoas a correr nas suas roupas coloridas e os adeus que muitas delas lhe ofereciam quando passavam a correr e a viam a desenhar.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/03]

Croquetes

De vez em quando há um estagiário mais afoito que vai ao fundo do baú recuperar listas perdidas com nomes improváveis. Nomes de gente que já morreu. Nomes de gente proscrita. Nomes de gente banida e esquecida. São os restos. Os que já não contam.
Hoje de manhã tocou o telemóvel. Era um convite. Um convite para uma apresentação ou inauguração ou qualquer coisa assim do género. Que não percebi bem. Que, por defeito, não me interessa. Faço parte dos esquecidos. Mas que acabou por interessar. Ponderei. Pensei que talvez houvesse croquetes. Talvez houvesse vinho tinto. Branco. Espumante. Cajus. Amendoins. Sabem o preço dos frutos secos? Aceitei.
Desliguei o telemóvel e olhei-me reflectido no vidro da janela da sala. A barba grande e compacta. O cabelo desgrenhado. Cheirei os sovacos. E pensei que tinha de tomar um banho.
Primeiro fiz a barba. Cortei a maior parte com uma tesoura. Depois usei a máquina para que não ficasse completamente rapada. Não queria não me reconhecer. Só queria parecer limpo. Apresentável. Social.
Depois tomei um duche de água quente. E deixei-me lá estar em baixo durante algum tempo. A marinar debaixo da água quente. Fervente.
Cortei as unhas dos pés. Cortei as unhas das mãos. Fiquei estafado. Preparei um gin tónico para descansar. Fumei um cigarro à janela. Bebi o gin. Na janela do prédio em frente, uma mulher sacudia tapetes e começou a rir a olhar para mim. Mandou-me um beijo à distância. Percebi que estava nu. À janela. A fumar e a beber. Nu. Sem frio. Para gozo alheio.
Vesti-me. Andei ali às voltas entre uma camisa, um polo, uma t-shirt. Umas calças de ganga azul ou pretas. Sapatilhas, sapatos ou botas? Sapatilhas, claro. E que sapatilhas? Ora, gaita!
Fui preparar outro gin tónico enquanto pensava nas sapatilhas. Pinguei o polo com pingos do limão. Merda! Acabei de beber o gin tónico de novo à janela. A fumar mais um cigarro. Já não estava nu. A mulher dos tapetes também não estava lá.
Depois tirei o polo e vesti uma camisa. Pensei melhor. Ainda era cedo. Tirei a camisa e voltei a vestir o polo sujo até sair de casa.
Voltei à janela. Fumei outro cigarro. Sentia-me nervoso. O sair de casa. O ir para o meio de gente. De muita gente. O ter de falar com pessoas. Estava nervoso com o que lá vinha.
Fui preparar outro gin. Apaguei o cigarro. Bebi o gin enquanto punha roupa suja dentro da máquina de lavar. Lembrei-me do polo. Tirei-o. Pu-lo na máquina. Programa de sessenta minutos. Devia chegar.
Sentei-me à mesa da cozinha com o computador ligado. Procurei as notícias do dia.
Donald Trump a condecorar um cão.
Jair Bolsonaro vociferar como um cão.
No Chile, pessoas a serem tratadas como cães.
Pensei que o mundo estava cão.
Descobri o copo de gin vazio. Olhei em volta. Atrás de mim. Quem o teria bebido?
Preparei outro gin. Olhei as horas no relógio de parede da cozinha. Não percebi imediatamente porque vira as horas. Depois lembrei-me. Tinha onde ir. Mas não consegui perceber se estava a tempo ou atrasado. Acabei de preparar o gin.
Voltei a sentar-me na mesa da cozinha. Frente ao computador. Queria ver as notícias do dia. Mas eram as mesmas em todo o lado e todas diziam o mesmo.
Sentia saudades dos jornais em papel. De outras notícias mais pequenas e só interessantes para mim. Acendi outro cigarro. Gostava de ler notícias em jornais de papel. Gostava de sujar os dedos. Gostava de sentir o cheiro a tinta. De ler aquelas pequenas notícias nas últimas páginas. As locais. Os artigos de opinião. A tira de banda-desenhada. Sentia-me analógico. É verdade que lia todos os dias as notícias online. Mas não era a mesma coisa. Não sentia diferença entre as diferentes origens. Mesmo na televisão, os alinhamentos eram muito parecidos. Havia notícias que só lá chegavam depois de serem mortas pelas redes sociais e, nessa altura, já não eram notícia nem interessavam a ninguém.
Ao puxar o cigarro da boca, ele ficou colado aos lábios. Os dedos escorregaram e queimaram-se na incandescência do cigarro. Depois caiu sobre mim e queimou-me o peito antes de tombar para o chão. Descobri que estava em tronco nu. Percebi que estava a ficar com frio.
Se calhar era tempo de ir embora. Olhei o relógio na parede. Não vi as horas. Esqueci-me de ver as horas. Mas também não me preocupei. Pensei em fazer um último gin antes de sair. Bebi o que tinha de um trago e fui fazer outro.
Enquanto o bebia, vesti a camisa. Vesti um casaco por cima da camisa. Pensei na possibilidade de haver mesmo croquetes lá onde eu ia e para onde tinha sido convidado. Pensei na possibilidade de haver vinho. Pensei que não ia poder fumar lá, onde quer que fosse e acendi um cigarro. Acabei o copo de gin. Larguei-o num sítio qualquer. Pensei na possibilidade de haver mulheres lá onde eu ia. Mulheres como eu. Disponíveis. Ou tão só cheias de vontade. De desejo.
O cigarro caiu-me das mãos. Olhei para baixo à procura dele mas não o encontrei. Levei a mão à boca mas estava vazia. Onde estava o copo de gin?
Abri a porta da rua. Olhei para o corredor que levava ao elevador e pensei Deve estar na hora de me ir embora. E decidi ir-me embora, Vou-me embora! E então o chão moveu-se. Eu tropecei em mim próprio. Desequilibrei-me. Caí. Devo ter caído. Caí entre a entrada de casa e o corredor que levava às portas do elevador. Caí no meio da porta da rua aberta.
Caí e fiquei lá caído. Senti o mundo a andar muito depressa. Como o carrossel da Feira de Maio. Tentei levantar um braço. Tentei agarrar-me a alguma coisa com a mão aberta como uma garra. Mas não agarrei em nada. Os olhos não queriam abrir. Senti um vómito e vomitei à entrada de casa. Não me consegui levantar. Estava tudo escuro. Eu sentia-me bem. Sentia-me confortável. Estava deitado. Apetecia-me um croquete. Sentia-me cansado. Com sono. E deixei-me ir. Sono fora. Senti uma escuridão a ir por mim abaixo e a desligar-me todo. Aos poucos. Até já não sobrar mais nada ligado.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/30]

Tentar Focar, Tentar Não Perder Atenção

Tento focar. Tento não perder atenção. Tento não me dispersar por interesses vários só para não fazer o que tenho de fazer.
Começa tudo mal.
Levanto-me e faço a cama. É mau prenúncio. Normalmente levanto-me e deixo a cama aberta, com o edredão puxado para trás. Digo que é para a cama arejar. Na verdade é por não ter paciência para fazer logo a cama.
Hoje levantei-me e fiz a cama. Puxei o lençol e o edredão para cima. Estiquei o edredão. Não deixei um único vinco. Alisei as almofadas. Parecia uma cama de hotel num quarto de hotel.
Depois lavei toda a louça suja acumulada na cozinha. E só depois de ter a louça lavada, à mão, é que fiz café e duas torradas. E lavei a louça utilizada logo de seguida.
Fiz uma máquina de roupa. Não tinha roupa suficiente para fazer uma máquina e fui buscar roupa que não tenho usado. Para lhe dar uma limpeza. Matar o pó. E os ácaros.
Olhei à volta. Vi o trabalho a espreitar para mim de cima da secretária. Já vou!, respondi.
Fui organizar a dúzia de livros que estavam fora das prateleiras.
Sentei-me frente ao computador. Espreitei os jornais online.
Abri um dos livros que precisava para o meu trabalho. Folheei-o. Fiz o mesmo a outro. Folheei-o. Deixei-os de lado. Não estava com grande vontade.
Peguei no telemóvel. Marquei um número. Ninguém.
Lembrei-me que tinha contas para pagar.
Fui ao móvel da entrada. Luz e água. Duas contas.
Desci à rua. Fui à caixa do multibanco. Paguei a conta da luz. Não consegui pagar a conta da água. Tinha de ir ao SMAS.
Arranquei rua fora. Fui ao SMAS. Enquanto caminhava pela cidade solarenga pensei que devia estar a fazer o trabalho. Pensei que estava a ficar sem tempo. Mas parecia-me ser isso que queria. Ficar sem tempo. Ou pelo menos, ficar sem muito tempo para não poder fugir mais ou evitar o trabalho e ser, finalmente, obrigado a fazê-lo.
Cheguei ao SMAS. Tirei um número. Dez pessoas à minha frente. Esperei. Olhei em volta. Vi o número de caixas a funcionar. Não disse nada. Nem pensei nada. Não queria chatear-me. Estive tranquilo.
Finalmente a minha vez. Paguei. Demorei dois minutos. Dois minutos para os quais tive de esperar meia-hora.
Regressei a casa.
Sentei-me de novo frente ao computador. Abri uns livros. Procurei os assuntos que me interessam. Comecei finalmente a mergulhar no trabalho.
Tocou o telemóvel. Era a minha mãe. Perguntou se podia ir ao supermercado por ela. É claro que sim, mãe! respondi. Não podia responder de outro modo.
Voltei a sair de casa. Fui a casa da minha mãe. Deu-me uma lista de compras para fazer no supermercado. Descobri que tinha, também, uma conta de água por pagar. Já fora de prazo. Estava esquecida. A minha mãe não é de deixar passar prazos. Esqueceu-se. Peguei na conta da água e na lista de supermercado e saí de casa dela. Voltei ao SMAS. Sete pessoas à frente. Mais ou menos meia-hora de novo em espera. Joguei Snake no telemóvel enquanto esperei. O meu telemóvel é antigo.
Paguei. Fui ao supermercado. Passei em casa da minha mãe. Voltei para minha casa. Mas antes passei no café. Bebi uma bica. Comi um pastel de feijão miniatura. Descobri que é só invólucro. Não tinha recheio. Regressei a casa desconsolado.
Sentei-me, outra vez, frente ao computador. Lá fora o dia estava a ir embora. Aproximava-se a noite. Já estava atrasado. Já não sabia se tinha tempo para fazer o trabalho.
Tento focar. Tento não perder atenção.
Pergunto-me Onde raio gastei o meu tempo?, e fico ali, frente ao computador, a pensar no meu dia e no tempo que gastei sem fazer nada de jeito a arrastar-me para evitar começar a fazer uma coisa que tenho absolutamente de fazer mas que não consigo começar. E tudo começou quando resolvi fazer a cama.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/18]

A Ansiedade Ataca-me Quando Tenho de Sair de Casa

Fico ansioso cada vez que tenho de alterar as minhas rotinas. Preciso de equilíbrio. Preciso do equilíbrio de uma vida previsível para poder estar bem.
Levanto-me sempre à mesma hora. Às vezes tenho de antecipar. Raramente fico na cama para além do que é normal. Mesmo em dias de noites mal dormidas. Levanto-me. Faço café. Torradas. Sento-me na mesa da cozinha e como. E bebo. Às vezes vou beber o café para a janela e olhar a rua. As pessoas na rua. O tempo que está. A chuva. O sol. Os vizinhos no prédio em frente. A rapariga em camisa de dormir. A senhora que todos os dias estende roupa no estendal. A senhora que todos os dias põe o edredão a arejar. O rapaz que todos os dias vai fumar um cigarro à varanda. É nesta altura que me lembro que também fumo. E que gosto de fumar. Pego num cigarro e vou para a varanda. Quando está de chuva ou muito frio, abro a janela da cozinha e fumo ali mesmo. Já aconteceu ir nu para a varanda. Esqueço-me que é assim que durmo. Levantar e vir para a cozinha fazer café é automático. Esqueço-me de vestir uns boxers. Não tenho cá ninguém em casa para olhar para as minhas vergonhas. Esqueço-me da rua. E vou nu para a varanda. Muitas vezes.
O dia decorre sem sobressaltos. Faço o que tenho de fazer. Vou onde tenho de ir. Escrevo. Leio. Como e bebo. Vejo as notícias na televisão. Leio os jornais online. Às vezes compro um jornal ou outro em papel. Gosto de sujar os dedos com tinta da impressão. Gosto do cheiro. Do cheiro da tinta e do papel. Normalmente compro A Bola. Às vezes o Público. O Expresso já só muito raramente. As revistas nacionais não me chamam a atenção. As estrangeiras de que gosto, tenho de mandar vir. É difícil de encontrar por cá. Já os livros, não me queixo. Há de tudo. É uma questão de procurar e não me deixar vencer pelos lineares dos hipermercados.
Esteja onde estiver, quando tenho de sair de casa, sei que mais hora menos hora regresso. Aos meus cheiros. Ao meu canto. À minha paz, por vezes até, bastante barulhenta.
Hoje vou ter de sair de casa. Da cidade. Uma viagem. Tenho de ir uns dias para outro lado. Outra cidade. Outra casa. Outra cama. Outros cheiros. Conhecer pessoas que não conheço. Ter de falar com elas. Ver-lhes os dentes sujos. A caspa sobre os ombros. O cheiro a transpiração. Os lábios rugosos pintados com bâton, as senhoras. Os pêlos da barba mal cortada, os homens.
Levantei-me mal disposto. Passei uma hora na casa-de-banho. Acordei com o estômago às voltas. São os nervos. A ansiedade desta quebra de rotina. Já vomitei. Não consegui comer nada. Não bebi café para não agravar a tempestade que sinto nas entranhas. Transpirei muito. Fui à rua comprar desodorizante que já não tinha. Tive de ir a três farmácias. Não gosto de desodorizantes de álcool. Nem de spray. Nem com cheiro. Tive de ir a três farmácias. Só encontrei o que queria na última. Isto fez-me atrasar um pouco. Tive de correr para apanhar o expresso para o qual já tinha comprado o bilhete com antecedência.
Já estou dentro do expresso.
Vou aqui encafuado num espaço para anões. Não posso estender as pernas porque levo companhia na cadeira do lado. Já tentei ligar o iPad mas o wireless é intermitente. Vai e vem. E quando vem aguenta pouco. Tentei ler mas comecei a ficar enjoado. Parei antes de ter de vomitar novamente. Fumava um cigarro mas não se pode fumar nos autocarros. Tenho o estômago às voltas mas acho que o autocarro não tem casa-de-banho. E mesmo se tivesse. Não sei se conseguia lá ir. Aqui, à frente de toda a gente. E se fosse pedir ao motorista para parar numa Estação de Serviço? Toda a gente ia perceber que tinha sido eu a pedir. Não quero isso. Não quero que ninguém saiba. Não quero que ninguém olhe para mim. Tenho de aguentar.
Tenho de aguentar estes dias longe da minha casa. Do meu sofá. Da minha cama. Da varanda da minha cozinha onde gosto de fumar os meus cigarros a olhar as rotinas dos meus vizinhos do prédio em frente.
Estou nervoso. Trinco as peles nos cantos dos dedos. Não gosto de expressos. Não gosto de conhecer pessoas que não conheça. Não gosto de sair de casa. Não gosto de sair da minha vida.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/01]