Numa Fila de Gente

Foi a primeira vez. E a primeira vez custou. Primeiro custou estar na fila com todos os outros como eu que estavam na fila à espera. Mas o que custou mais foi ser visto por todos os outros que passavam ao largo e mandavam olhares para nós, os que estávamos na fila, à espera. Aqueles olhares entravam por mim dentro. E eu vestia-me de vergonha.
Esperámos horas a fio ao longo do passeio. Houve quem viesse muito cedo para arranjar um lugar à frente, entre os primeiros. Gente que já sabia como é que aquilo funcionava. Eu nunca tinha ido e acabei por ficar num dos últimos lugares. Só esperava era que ainda houvesse alguma coisa para mim quando fosse a minha vez de chegar lá à frente.
Nunca tinha passado por nada daquilo. E no entanto, várias vezes imaginei aquilo a acontecer. Não aquilo assim, exactamente assim, nem que achasse possível aquilo realmente acontecer daquela maneira. Mas tenho tendência para imaginar desastres terríveis e depois congratular-me pela sua não-ocorrência. Talvez seja uma forma retorcida de me sentir bem com a vida. Já imaginei vários acidentes de automóvel em que eu sobrevivia tetraplégico. Ou que que familiares meus, próximos de mim, muito próximos de mim, morriam de mortes terríveis e dolorosas. Uma vez imaginei que a minha mulher tinha caído a um poço e eu acabava a casar com a irmã dela. Logo eu que nunca fui casado. Mas a minha imaginação não tem regras, nem limites. Eu não tenho poder nenhum sobre os meus sonhos e eles, por vezes, são bem macabros, terríveis, e estão-se nas tintas para mim.
Daquela vez o sonho tornou-se realidade. Uma realidade. Mas já estava à espera. Embora tenha sido uma descida rápida, era uma descida que se vinha anunciando. Mas o que é que eu podia fazer? Não conseguia mudar o destino. Eu não sou um tipo desses, de grandes frases filosóficas e acções compatíveis que lutam contra o mundo e conseguem vencê-lo. Eu, não. Eu acho que sou um falhado. Vou andando ao sabor das ondas, sem levantar muitas. Deixo-me ir. Às vezes corre bem. Outras vezes não.
E foi assim que acabei lá, na fila. Naquela fila. Com uma série de gente como eu. E só esperava ainda chegar a tempo.
Há quanto tempo não comia? Quer dizer, comer-comer, a sério? Porque comer, tinha comido. Tinha sempre comido alguma coisa. Umas laranjas. Restos de hambúrgueres. Iogurtes fora de prazo. Às vezes conseguia roubar umas couves ali nas hortas comunitárias. Mas não tinha comido mais que isso. Isso era o que tinha comido nas últimas semanas. A última vez que tinha comido, antes de ir para a fila, foi um resto de torrada que encontrei abandonada numa esplanada. E isso já tinha sido… No dia anterior? Talvez antes, talvez antes do dia anterior.
Mas tive sorte. Quando chegou a minha vez, ainda consegui levar algumas coisas para casa. Arroz. Bolachas. Óleo. Latas de atum. Feijão. Nessa noite consegui comer quase normalmente. Nessa noite, acabei a vomitar o que tinha comido e me tinha sabido tão bem. Não vomitei por causa da comida. Vomitei por ter estado na fila, junto com todos os outros que estavam na fila, à espera de conseguirmos trazer alguma coisa para casa. Vomitei por minha causa.
Agora, já não vomito. Agora, já estou habituado. Quer dizer, o mais habituado que é possível alguém estar quando tem de se colocar numa fila de gente desesperada como eu à espera de conseguir que lhes dêem alguma coisa, qualquer coisa, para comer e mitigar a fome. Sim, porque há fome. Eu tenho fome. Todos eles, que estão na fila, têm fome. E passo, passamos, horas na fila para podermos comer alguma coisa. E é o que nos resta. Mitigar a fome de comida. O resto, o resto das coisas que nos faltam, ficam à espera de melhores dias.
A primeira vez que entrei na fila, pensei que seria a primeira e a última vez. Depois dessa vez já passou,,, Quanto? Quanto tempo?… Já não sei. Já não sei há quanto tempo foi a primeira vez. Mas sei que já me habituei. Agora faz parte da minha rotina entrar na fila e chegar lá à frente.
Um dia gostava de deixar a fila. Um dia gostava de voltar a ser como os outros, os que não vão para fila.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/08]

A Resposta

Desde que fiquei sem trabalho tenho vindo até à Nazaré.
Gosto de caminhar ao longo da marginal. É o calçadão do Oeste.
Caminho debaixo da chuva e do sol. Em dias de frio e de calor. Cheiro a maresia. Encho o peito e os meus dias.
Às vezes vou até à beira-mar. Às vezes molhos os pés. Às vezes caminho ao longo da rebentação. Vou a ouvir aquele rebentar das ondas ao meu lado, quase hipnótico, sedativo. O mar atrai-me. Gosto dele. Tenho-lhe medo.
Às vezes saio lá de baixo encharcado dos pingos das ondas furiosas. Às vezes é só mesmo da água da chuva que ignoro e esqueço que cai.
Às vezes fico ali parado na marginal, perto da antiga lota que hoje é uma outra coisa qualquer cultural, acho que nunca lá entrei dentro, fico ali a olhar para os barcos parados como um museu vivo. Ali vejo as cascas de noz com que os homens corajosos da Nazaré se lançavam ao mar, onde muitos deles morreram e por quem muitas mulheres, mães, filhos gritaram as dores da ausência. Agora são uma memória.
Às vezes, quando tenho algum dinheiro, compro uns carapaus secos nas peixeiras de rua para turista. Mas os carapaus são bons na mesma. Trago-os para casa. Junto-lhes azeite e alho e acompanho com um copo de vinho tinto. Às vezes também os vou comendo assim, simples, enquanto caminho pela marginal, e vou cuspindo as espinhas para o chão.
Às vezes sento-me na calçada, com as pernas caídas para a areia, e fico ali a olhar o mar lá ao fundo, às vezes ali perto de mim que, em dias furiosos o mar ainda chega à estrada e assusta os comerciantes e os turistas que fogem da morte que o Atlântico promete.
Às vezes também fico por ali a escrever. Às vezes vendo contos no calçadão da Nazaré. Escrevo estórias a pedido. Pequenas estórias que cabem numa folha A4. Pergunto por um facto ou outro, uma pessoa ou duas e invento ali uma estória qualquer, geralmente triste, geralmente sem esperança, em troca de algumas moedas que me pagam uma sardinha na nova Batel ou um gelado na Conchanata. Mas é raro ir à praça. Não gosto de ir à praça. É talvez o único local que não gosto na Nazaré. As marquises invadiram a calçada. Já não há praça. Há uma ideia de praça comida pelo acrílico e o alumínio das barracas que servem de esplanadas fechadas como prisões que afastam as pessoas do ar fresco da praia.
Às vezes cruzo a praça em passo acelerado e passeio-me pela zona velha ali ao lado, debaixo das enormes pedras do Sítio. Gosto daquelas ruas pequenas e esconsas. Ruas onde quase que me perco no seu labirinto. Gosto dos cheiros dos restaurantes que nasceram por lá. Gosto de ver as pessoas que andam à cata da fotografia certa para o Instagram. Gosto de me sentir longe da praça, embora tão perto.
Regresso à marginal. Recomeço a andar no calçadão do Oeste.
Às vezes conheço pessoas.
Ontem conheci uma.
Ela estava sentada na marginal a vender bijuteria que ela própria fazia. Fazia lá mesmo em directo, à frente das pessoas. Anéis, pulseiras, colares, brincos, tudo em ligas metálicas que ela manobrava, dobrava, soldava, construía.
Eu sentei-me ao pé dela. A vê-la trabalhar com as mãos. Depois pus-me a escrever contos. Ainda vendi alguns. Ainda escrevi alguns ali em directo. Perto dela.
Acabámos por ir beber uns copos.
Subimos a pé ao Sítio.
Eu cheguei lá acima de rastos. Ela estava pronta para outra. É mais nova que eu.
Fomos até ao forte.
Comprámos tremoços e pevides e estivemos a ver alguns surfistas a cavalgar as ondas. Não havia muitos surfistas. Nem havia grandes ondas. Mas deu para passarmos um bocado.
Afastei-me para ir mijar numa arriba e contei o dinheiro que tinha. O dia não tinha sido mau para mim. Os contos renderam algum dinheiro.
Voltei para ao pé dela. Convidei-a para jantar uma caldeirada. Aceitou.
Descemos de novo à Nazaré.
Fomos jantar uma caldeirada num pequeno restaurante que esqueci o nome. Bebemos vinho de jarro. Passeámos pela marginal à noite. Ficou frio. Ela levou-me para o quarto que tinha alugado numa pensão perto da praia.
A meio da noite convidou-me para ir com ela para o Algarve. Com passagem pela costa alentejana.
Passou a noite. Já vejo a luz do dia a entrar pelas frinchas das portadas da janela. Ainda não lhe respondi. Acho que ela está acordada. Acho que está acordada à espera da minha resposta.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/28]

A Queda

É possível que ela já lá estivesse quando eu cheguei. Mas não reparei logo nela. Se estava, não a vi. Quando cheguei, queria ter saído do carro e descido a arriba até à praia e passear-me à beira-mar, se calhar até descalçar as sapatilhas e molhar os pés na água fria do mar do Vale Furado. Mas não saí nem desci nem passeei nem molhei. Agarrei na garrafa de vodka que tinha levado, uma garrafa de Stolichnaya, quente à temperatura ambiente que, estando em Fevereiro, parecia Agosto, emborquei uns goles, senti a garganta a arder e pensei Um cigarro. Preciso de um cigarro. E acendi um cigarro.
Na rádio, passava uma música qualquer intercalada com algumas conversas mas nem me lembro de quê. Não estava a tomar atenção. Aliás, não estava a tomar atenção a nada. Só às minhas egoístas dores.
Estava calor. Um Fevereiro que não parecia Fevereiro, mais um Agosto fora de tempo. Um tempo quente. Eu estava de t-shirt e ouvi a praia a chamar por mim. Telefonei para o trabalho e despedi-me. Não gostava do trabalho. Não gostava das pessoas com quem trabalhava. Ganhava mal. Por pouco não pagava para ter que trabalhar. Telefonei e disse-lhes Morri. Não posso ir trabalhar porque morri. Morri para sempre.
Abri o congelador. Agarrei na garrafa de Stolichnaya e saí de casa. Ainda não tinha chegado ao carro já a garrafa estava quente. Sim, estava calor. Estava um dia de grande calor. E eu fui até à praia. Fui até ao Vale Furado. Estava a pensar descer à praia, com um pouco de sorte não estava lá ninguém, ou pelo menos pouca gente, e despia-me, ficava nu, e mergulhava no mar frio, dava umas braçadas e saía para o sol quente e deixava-me estar ali assim, descalço e nu sobre a areia quente do Vale Furado a ser aquecido pelos raios deste sol de Fevereiro. Se calhar até fumava um cigarro ali assim de pé no meio da praia. Era isto que pensava enquanto fazia o asfalto que me ia lá levar.
Quando cheguei ao Vale Furado, parei o carro na arriba e deixei-me lá ficar sentado. Bebi uns goles de vodka. Fumei um cigarro. Senti o calor do sol passar através das janelas abertas do carro e a sonolência a tomar conta de mim. O barulho da rádio embalava-me. Pensava no trabalho que acabara de perder, como já tinha perdido a mulher, os filhos, o meu pai, a minha mãe, a maior parte dos meus amigos… Suspirei. Senti-me adormecer a pensar que o dia seguinte nunca seria a véspera da véspera e havia de ser o que fosse.
Devo ter acordado quando a rádio se silenciou. Ou talvez não. O sistema de economia eléctrica do carro desliga a rádio mais ou menos quinze minutos depois do carro estar desligado. Devo ter dormido mais que isso. Mas acordei com um estranho silêncio na cabeça. Abri os olhos. O sol ainda estava brilhante. Eu transpirava. Agarrei na garrafa de vodka e levei-a-à boca. Foi quando acendi o cigarro que reparei na miúda.
Estava sentada na cerca que protege as pessoas da queda abrupta sobre o mar. As pessoas chegam-se ali, encostam-se à cerca de madeira e olham as ondas a baterem nas rochas. Olham o mar a forçar a entrada pela areia acima. Um pouco mais longe é possível ver a Praia do Norte. Em dias claros conseguem-se ver as Berlengas, os Farilhões e as Desertas. Não recordo se as vi ou não. Porque depois de acender o cigarro reparei na miúda. A miúda estava sentada na cerca, virada para o mar. Coisa mais natural. Fumava um cigarro. Adivinhei-lhe o cigarro entre os dedos da mão que levava à boca. O fumo dissipava-se logo e mal o via. Mais que o adivinha. E lembro-me de pensar A miúda é gira. E era. Era bem gira. E ainda pensei O que faz uma miúda gira como ela sozinha aqui, num sítio como este? Depois sorri e pensei O mesmo que eu. Lembro-me de ainda ter gargalhado às parvoíces que pensava.
E depois ainda ponderei se iria, ou não, descer à praia e tomar um banho no mar, nu. E estava a pensar nisto quando vi a miúda descer da cerca, caminhar em frente e desaparecer da minha vista. Assim.
Fiquei parado dentro do carro. Deixei de pensar. Deixei de respirar. Deixei de a ver. Deixei de tudo e, por uns breves momentos, nem percebi o que tinha acabado de acontecer.
Até que vi aparecer gente que devia estar na esplanada do Mad, debruçar-se sobre a cerca e olhar para baixo. Houve ainda quem se aventurasse a passar a cerca para o outro lado e chegar-se mais sobre o penhasco para ver se via alguma coisa. Mas ninguém viu nada. A miúda desapareceu. Deve ter desaparecido no mar. E iria ser desovada algures numa outra praia, talvez mais para norte, talvez mais para sul, conforme a maré e as correntes e eu não percebia nada de marés nem de correntes.
Fiquei no carro. Não saí. Não fui espreitar. Não fui falar com ninguém. Não fui comentar o que achava do que tinha visto. Não fui dar a minha opinião. Fiquei no carro. A tentar recuperar a respiração.
Não esperei que chegasse a polícia nem os bombeiros. Acabei o resto da garrafa de vodka, pus o carro a trabalhar e saí dali.
Vim devagar o caminho todo. Não conseguia tirar da cabeça a figura daquela miúda sentada na cerca sobre o mar.
Cheguei a casa e fui até à varanda onde ainda estou.
Estou debruçado sobre a amurada da varanda a olhar lá para baixo. E não consigo não olhar. Não consigo sair daqui. Sinto uma vertigem. Uma vertigem que me chama. Um apelo ao salto. À queda.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/04]

O Primeiro Mar do Ano

Há uns anos, quando era miúdo, quando ainda estudava e vivia em casa dos meus pais, quando os meus amigos eram os meus vizinhos, quando passava a vida a jogar à bola nos quintais traseiros das casas da rua, quando as festas, todas as festas, eram sempre com os mesmos convidados que eram sempre os mesmos amigos de sempre que eram os mesmos vizinhos de sempre, tive o desejo de conhecer gente diferente.
E conheci.
Havia, na época, um programa de troca de correspondência com estudantes de todo o mundo, e eu era estudante e correspondi-me durante alguns anos com miúdas da minha idade de países tão exóticos como Trinidad e Tobago ou tão banais como Itália. Comunicávamos em inglês e sempre achei que o inglês delas era muito bom, muito melhor que o meu, e que elas deviam ser umas miúdas excepcionais para conseguirem perceber o meu inglês escrito, e na época não havia Google Translate nem podia pedir ajuda e revisão de texto às miúdas mais inteligentes da turma porque não queria que soubessem o que é que eu tanto conversava com estas outras miúdas que nem conhecia mas para quem eu abria o coração e o meu mundo. Agora que penso nisto acho que foi uma espécie de Facebook antes da era da internet.
Para essa correspondência tinha arranjado um papel de carta com fotografias coloridas de pôres-de-sol e parezinhos de namorados em silhueta, abraçados, de mãos-dadas e, às vezes, a trocar um beijo. É claro que comecei a escrever nestes papéis, porque também comecei a receber correspondência escrita em folhas similares, com paisagens bonitas, praias, campo, muito pôr-do-sol e sempre, sempre, um casal a aproveitar, junto, as belezas do mundo.
Lembrei-me disso agora por estar a ver um casalinho abraçado e a trocar beijos encostado ao varandim sobre a falésia do Vale Furado.
Vim ver o mar. O primeiro mar do ano. Vim ao Vale Furado. Parei cá em cima, no pequeno parque em frente ao Mad. Antes de sair do carro vi um casal em contraluz encostado ao varandim em madeira, abraçado e aos beijos, e fui projectado para as minhas memórias de adolescente.
Era um jovem adolescente ainda sem namorada quando comecei a trocar correspondência com estas miúdas de todo o mundo. Escrevi a muitas embaixadas a pedir informação sobre os respectivos países, mapas, fotografias, revistas e recebi muito material que me ajudou a perceber melhor países dos quais nem sabia a existência. As miúdas ajudaram-me a conhecer os países e os países abriram-me as portas para a conversa com as miúdas.
Algures no caminho perdi essa capacidade de conversar. Seja com miúdas ou com miúdos. Perdi a capacidade de comunicar. As pessoas assustam-me e eu fujo delas. Não delas propriamente, mas do contacto com elas.
Saí do carro. Fui até ao varandim sobre a arriba e olhei todo o esplendor da costa marítima que vai dali do Vale Furado até à Praia do Norte e continua por ali fora, Salgados, São Martinho do Porto, Foz do Arelho, às vezes até se vê as Berlengas e os Farelhões, o que não é o caso. Cá de cima o mar não parecia bravo, mas estava. Percebia-se pela quantidade de ondas em cadeia e a espuma que largavam quando chegavam a terra. Vi lá em baixo duas raparigas a tirarem fotografias. Ao mar e a elas. Faziam pose. Riam uma da outra, riam uma com a outra. Estavam felizes, parecia-me. Fumei um cigarro enquanto ia olhando um horizonte inexistente, o céu e o mar confundiam-se lá ao fundo, no que devia ser a linha do horizonte. Estava um pouco de vento e de frio. Não muito. Só o suficiente para perceber que, ao contrário do que parecia, e do sol e de todas as azedas que tinha encontrado pelo caminho até cá, não estávamos afinal na Primavera, mas ainda no pico do Inverno, embora o próprio tempo estivesse baralhado e não percebesse bem como é que devia reagir.
Depois deixei cair o resto do cigarro pela falésia abaixo e fui ao Mad beber um café. A esplanada estava cheia. Um homem agarrava uma mulher, forte, pelas costas e tentava fazer a manobra de Heimlich. Estava eu a entrar na esplanada quando a mulher projectou algo pela boca que passou à minha frente e, quase que me acertava. Ninguém me ligou nada. Ninguém me pediu desculpa. Ninguém me viu. Estava toda agente preocupada com a mulher. Eu era invisível. Arranjei uma pequena mesa ao sol. Era a única pessoa sozinha naquela esplanada. Mas estava bem. Sentia-me bem. Gostava de estar ali assim, a levar com aquele sol de Inverno em cima.
O que seria feito das miúdas com quem troquei correspondência na adolescência?

[escrito directamente no facebook em 2020/01/04]

Por Onde Anda a Minha Vida?

São nove da manhã. Já passa das nove da manhã. Passeio-me pela marginal. Passam umas carrinhas de mercadorias. Vêm abastecer as lojas dos retalhistas. Mas são o único sinal de vida que se vê. Os cafés da marginal estão já a funcionar, vê-se as luzes acesas no interior, mas as esplanadas estão fechadas. Não há ninguém a entrar nem a sair. Do interior não se percebe nenhum movimento, nenhuma forma de vida. Está frio e ameaça chover. Não vai haver clientela para as esplanadas.
Páro na calçada e olho para o mar. Está bravo. Ouço, ao longe, o terrível barulho que as ondas fazem ao bater na areia. Suspiro. Chego o casaco mais ao pescoço. Avanço pelo areal. A praia está deserta de gente. Há algumas gaivotas. Passo ao lado delas mas ignoram-me. Estão encolhidas. As cabeças enfiadas dentro do corpo. Deve ser do vento. Do frio. Talvez do temporal que se antecipa no mar. Chego-me mais à frente. Mas não muito. O vento traz até mim pingos das ondas. Pingos salgados das ondas estilhaçadas em milhares de pequenas gotículas. Sinto-as nos lábios. A língua vai lá automaticamente. Sento-me na areia. Sento-me numa espécie de pequena duna sobre o mar. Vejo, e ouço, o concerto das ondas a baterem na praia. É um barulho ensurdecedor. O mar pode ser violento. Mete respeito. Gosto muito do mar. De lhe mergulhar. De alongar braçadas e nadar acima-abaixo nas suas ondas de carrossel. Mas tenho-lhe respeito. Por vezes pode ser muito assustador. Já alguma vez estiveram à beira-mar, na costa atlântica, durante uma noite de Inverno, em plena tempestade? É lindo , lindo de se ver, mas ao mesmo tempo, terrível. É um sinónimo do medo. Um belo-horrível.
Lá mais ao fundo vejo as rochas a serem fustigadas pelas ondas gigantes. Imagino que, do outro lado do cabo, já devam andar alguns surfistas à cata das boas ondas.
Sinto uns pingos a tombarem-me em cima. Não é a maresia nem as gotas das ondas do mar. Olho para o céu cinzento e percebo que está a começar a chover. Há uma gota que me cai em cheio num olho. Praguejo. Coloco o carapuço do casaco sobre a cabeça. Levanto-me da areia. Deixo o mar nas minhas costas e regresso à calçada da marginal. Passo aos lado das gaivotas que continuam como estavam, mas agora parecem bonecos de decoração. Estão muito quietas com a chuva a cair-lhes em cima e o olhar fixado no mar. Mais uma vez sinto-me ignorado e percebo que é uma constante na minha vida. Eu sou um tipo ignorado. O tipo que passa ao lado de tudo e de todos como se não existisse. Penso muitas vezes que, se morresse, morria sozinho e ficava lá, onde quer que ficasse, até ser descoberto por um acaso, por alguém que passasse por lá. Imagino o meu funeral, feito numa carrinha a alta velocidade pela cidade, sem cortejo, sem companhia. Imagino o meu caixão a ser enterrado numa cova rasa sem nenhuma palavra de conforto à minha alma, sem nenhuma palavra de agradecimento às sementes que fui lançando à Terra na minha passagem por aqui. Imagino uma cena triste e muito pobre. Uma cena muito solitária. Uma cena muito filme neo-realista italiano. E um velho, magro e cansado, de respiração ofegante, a mandar-me terra para cima do caixão para impedir que eu retorne a uma vida que nunca me quis. Estes dias cinzentos e chuvosos de Inverno têm tendência a deprimir-me.
Chego à calçada da marginal já a chuva vem com toda a força. Sinto o jipe da capitania a passar atrás de mim. Levam as luzes ligadas a girar no tejadilho do carro. Onde irá? Olho para trás e vejo as gaivotas ainda paradas, imóveis, debaixo deste enorme chuveiro. Não percebo porque é que não fogem da chuva e do jipe e não se vão abrigar. Onde irá o jipe?
Olho para o outro lado da estrada e vejo a luz interior da Batel. Cruzo a estrada em passo de corrida, não para fugir aos carros, que não passam, mas para escapar à chuva que cai abundantemente.
Entro na pastelaria e sopro duas ou três vezes com força para me livrar do cansaço da pequena corrida. Sacudo o casaco. Molho o chão à minha volta. Vou ao balcão e peço Um café e uma sardinha, se faz favor. Mas não me corte a sardinha. Gosto dela inteira. E depois sento-me junto ao vidro da grande montra e fico a olhar lá para fora. E vejo a chuva, as gaivotas, as ondas furiosas do mar. O jipe da capitania desapareceu. E pergunto-me onda anda a minha vida.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/16]

Às Vezes…

Às vezes pego no carro e vou até à Praia do Norte. Estaciono nas arribas para norte do Forte e fico lá em cima, dentro do carro, a fumar um cigarro e a olhar o mar a bater forte na areia lá ao fundo.
Às vezes o mar está furioso e fico contente por estar a esta distância da sua fúria.
Às vezes deixo o carro na arriba e desço as dunas até à praia. Passeio-me pela areia deserta. Caminho desengonçado. Caminho, com dificuldade, pela areia até à beira do mar. Aproximo-me tanto dele que sinto o sal colar-se-me à pele da cara e das mãos. Os olhos fecham-se com os salpicos. O barulho das ondas ensurdece-me.
Olho para um lado e para o outro. Não há ninguém. Às vezes não há ninguém na Praia do Norte. Só eu.
Vou ao longo da linha do mar. Atento às ondas. Atento à fúria das ondas. Pronto a fugir para não ser apanhado pelo espraiar de uma onda mais afoita.
Às vezes subo ao Forte.
Às vezes dou a volta ao Forte pelo lado do mar. Ponho pé-ante-pé naquelas pedras escorregadias. Desço as escadas íngremes. O mar sempre presente. Ali aos meus pés. Às vezes molha-me como se fosse um regador. Como se fosse um chuveiro.
Às vezes páro nas amuradas. Frente ao mar. Ponho um cigarro na boca. Tento acendê-lo e nunca consigo. É o vento. É o mar. É o medo.
Às vezes fico lá. Assim parado. A olhar. A olhar para o mar. E penso… Às vezes, às vezes estou parado no muro que contorna o Forte, a olhar o mar, ali aos meus pés, furioso, a bater com força contra as rochas que suportam aquilo tudo e penso como seria fácil. É tão fácil, digo para mim. Digo em silêncio para ninguém ouvir. Só para mim. Era tão fácil. Tão fácil.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/05]

Que…

Estou à espera. Estou sempre à espera. Não sei bem de quê. De qualquer coisa. Acho que espero qualquer coisa que aconteça. Que chegue. Que se faça anunciar. Mas não acontece nada. Não se passa nada. Não chega nada. Nada de nada.
E eu continuo. Continuo à espera.
Não sei…
Que a minha mulher deixe de ter dores de cabeça.
Que a minha filha me telefone.
Que o meu filho não me ignore.
Que a minha mãe não morra.
Que o meu pai ressuscite.
Que eu tenha trabalho, dinheiro e saúde.
Que me saia o Euromilhões.
Que consiga escapar à Sida, à Hepatite e ao Cancro.
Que esta ferida no lábio não seja Herpes.
Que o Linic funcione e deu deixe de ter caspa.
Que o vinho nunca se me acabe.
Que a bronquite não me impeça de continuar a fumar.
Que eu não perca a capacidade de dançar.
Que eu não deixe nunca de gostar de música. Fazer filmes. Escrever estórias.
Que não perca nunca a capacidade de me surpreender e de me apaixonar.
Que o Benfica ganhe a Liga dos Campeões.
Que alguém, que não eu, chegue a Marte, não sem antes deixar a Terra em condições de funcionamento para os vindouros.
Que parem de usar combustíveis fósseis.
Que utilizem o calor do sol e a força das ondas.
Que a banana da Madeira continue saborosa.
Que nunca se acabe a Tosta de Galinha da Geliz.
Que Bolsonaro tenha chatos e Trump piolhos.
Que desapareçam as caixas de comentários.
Que tenham urticária todos aqueles que vão destilar ódio para as redes sociais.
Que ninguém gaste um tostão na Black Friday. Nem dê prendas no Natal.
Que toda a gente queira um abraço e toda a gente o consiga dar.
Que Amo-te signifique alguma coisa.
Que humanidade também.
Que os cães e os gatos sejam felizes uns com os outros.
Que acabem as mortes no Mediterrâneo. Que acabem os combates parvos e idiotas que só servem a gente mesquinha e gananciosa.
Que o Corto Maltese continue a ter grandes aventuras. E o Tintim também.
Que eu volte a ter paciência para ler Os Cinco e Os Sete.
Que haja sempre alternativa.
Que eu deixe de estar à espera do que nunca vai chegar, do que nunca vai acontecer.
Que eu seja tudo, a Noite e o Dia a Pergunta e a Resposta o Alfa e o Ómega a Vida e a Morte.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/02]

Há Muitos Anos que Não Vinha Aqui

Fui buscá-la a casa. Ia levá-la a comer umas sardinhas assadas longe da cidade, longe do rebuliço e do calor terrível da cidade.
Estava na esplanada, não em casa. Despachou-se mais cedo e foi descendo. Foi até à esplanada. Sentou-se à sombra. Pediu um Compal de laranja fresco e deixou-se lá ficar à minha espera.
Quando cheguei, espreitei a esplanada antes de subir a casa. E vi-a. Sentada a uma mesa. Um copo com metade de sumo. Os olhos fechados. Os braços tombados ao lado do corpo. Ela muito direita, na cadeira. A bengala no chão, caída. Senti uma angústia. Um arrepio na espinha. Dirigi-me a ela. Coloquei-lhe a mão no braço e disse Mãe! e ela não reagiu e eu abanei-lhe um pouco o braço e chamei um pouco mais alto Mãe! e ela abriu os olhos muito devagar, como se estivesse feito uma paragem e retomasse a vida de seguida e disse Sim!
Eu suspirei aliviado. Sentei-me ao lado dela. Perguntei-lhe se queria alguma coisa e pedi um café para mim. Acendi um cigarro. E ela disse-me Quando é que deixas de fumar? e eu não respondi porque aquilo já não era uma pergunta, era uma censura, e nunca se responde às censuras, mesmo que venham da mãe e sejam bem-intencionadas. Depois disse-me que tinha vindo para a esplanada apanhar a aragem fresquinha enquanto me esperava e que afinal estava calor e tinha acabado por se deixar adormecer. Sorri. Bebi o café. Ela acabou por beber o resto do sumo.
Depois fomos embora. Ajudei-a a entrar no carro. Ainda não tínhamos saído da cidade já ela estava de olhos fechados. E eu disse, mais para mim que para ela Já estás a dormir outra vez? ao que ela respondeu Não estou a dormir, estou só a descansar.
A viagem ainda foi longa. Até à costa. Quando chegamos senti-a abrir os olhos. Olhou para o mar. Disse Já chegámos?, mas não era uma pergunta. E acrescentou Há tantos anos que não vinha aqui. E era verdade. Há muitos anos que não saía da cidade. Há muitos anos que tinha medo de andar de carro. Mas agora, agora que estava velha, já não tinha medo de nada. No outro dia disse-me Lembras-te quando íamos a qualquer lado, com o teu pai, e havia um elevador, ou umas escadas-rolantes, e vocês iam de elevador e eu tinha de subir as escadas a pé? Era uma saloia, não era? Agora subo e desço todos os dias, às vezes mais que uma vez por dia, o elevador de casa. Sozinha. Sem medo! Sim, mãe. Sem medo.
Fez a viagem de carro sem medo. Adormeceu na viagem. Sentia-se descansada ao meu lado. E relaxou. Adormeceu. Depois abriu os olhos quando sentiu o carro parar. Quando sentiu a maresia. Quando ouviu as ondas a rebentar na areia. E disse Há tanto tempo que não vinha aqui!
Saí do carro e fui ajudá-la a sair. Dei-lhe a mão para a mão. Suportei-lhe o esforço. E enquanto saía do carro disse-me Vamos lá dar cabo dessas sardinhas. E parou, à saída do carro, a olhar para o mar. E voltou a dizer Há tanto tempo que não vinha aqui.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/08]

Está Calor

Vou numa estrada vazia, no meio do Alentejo. Queria ir para a praia, mas acho que me perdi. Já não sei bem onde estou. Está calor.
Ouço o carro refilar. Dá três solavancos e pára. Tiro as mãos do volante para ver se acontece alguma coisa. Não acontece nada. O carro parou. Vejo, por acaso, o manómetro do combustível. Vazio.
Saio do carro. Está calor. Arregaço as mangas da camisa. Transpiro. Não avisto uma única árvore perto. Não sei onde estou. Não sei se deva ir em frente para tentar arranjar ajuda. Não sei se deva voltar para trás.
Acendo um cigarro e encosto-me ao carro. Quando era novo, em Lisboa, quando estava a estudar em Lisboa, quando um miúdo da província conseguia ir estudar para Lisboa, e estava nas paragens à espera de autocarro que nunca mais vinha, era certo e sabido que, se acendesse um cigarro, o autocarro aparecia. Rasgava o pedaço queimado e guardava o resto do cigarro. Eram tempos de poupança.
Agora já fumei o cigarro quase todo e ainda não chegou o autocarro. Está calor.
Entro para dentro do carro. As janelas todas abertas. Não há uma aragem. Ouço a cantoria das cigarras.
Deito-me no banco de trás. Vejo a luz interior do carro acesa sobre mim. Penso que a luz acesa provoca mais calor. Mas não me consigo levantar. Fecho os olhos para a ignorar. Para não a ver. Talvez assim ela não exista e, quando voltar a abri-los, talvez esteja desligada.
De olhos fechados estou onde quero. Ou vou para onde me levo. Esqueço o calor. Banho-me num mar de ondas pequenas e suaves. Nado no meio de corpos. Há um mar de cadáveres à minha volta, a subir e a descer no suave ondular das ondas do Mediterrâneo. Abro o olhos assustado. A luz continua acesa. Está calor. Transpiro.
Ouço alguém chamar Olá, amigo!
Levanto-me e saio do carro. Lá fora está um homem a pé com uma bicicleta nas mãos e os pneus em baixo. Repete Olá, amigo! Eu respondo Boa-tarde! e ele continua Precisa de ajuda?
E lá vamos nós. Eu de boleia na sua companhia. Ambos a pé. Ele a empurrar a bicicleta com os pneus furados. Eu de mãos nos bolsos. A levantar o pó das bermas secas. Tenho sede. Está calor. Nem um cigarro me apetece fumar agora. Pingo pelo corpo todo. Mas tenho a boca seca. A garganta seca.
O homem diz-me que é já ali. Mas continuamos a andar. Continuamos a andar há já umas duas horas. Talvez três. O relógio de pulso parou. Não lhe dei corda. O telemóvel não tem bateria.
Queria estar na praia. Numa esplanada, na praia. Numa esplanada, na praia, a beber uma cerveja gelada.
Finalmente aproximam-se umas casas. Uns barracões. Não, nós é que nos aproximamos. O homem diz É aqui! E vai-se embora, levantando o braço num adeus que se prolonga até o perder de vista.
Eu dou a volta aos barracões. Acabo por encontrar uma porta. Um homem. Páro à entrada do barracão a olhar para o homem. Ele vê-me e fica à espera que eu diga alguma coisa. Mas eu não consigo. Tenho a garganta seca. Insisto. Consegue sair Água!
O homem aponta uma torneira com a cabeça. Corro para a torneira. A primeira água que sai vem quente. Mas eu meto a boca lá debaixo. Engulo, engulo, engulo. Ponho a cabeça. Esfrego a cara. Os braços. Bebo mais água até me sentir saciado. Depois digo Gasolina! Preciso de gasolina!
O homem pega no telemóvel e mexe-lhe. Vejo os dedos a escrever no ecrã táctil. Vejo-os a fazerem scroll. E a cara vira-se para mim e diz Só amanhã. Hoje já não há gasolina aqui perto. É o que me diz a aplicação.
E eu deixo-me cair no chão. De joelhos.
O homem aproxima-se de mim. E diz Vá lá! Não fique assim! Tem aqui onde ficar. Onde comer. Onde beber uma cerveja. Também há aqui uma piscina. Temos terminal de multibanco e funciona. Amanhã tratamos da gasolina.
O homem estende-me a mão. Ajuda-me a levantar. Leva-me para as traseiras do barracão. Vejo uma piscina de borracha. Grande. Um chapéu de sol. Uma mesa. Cadeiras. O homem diz Esteja em casa.
Ele afasta-se. Eu dispo-me. Fico nu. Mergulho na água quente da piscina, mas sabe-me bem. Dou mais três mergulhos e saio. Sento-me na cadeira à sombra. Seco num instante. Acendo um cigarro. Olho o horizonte plano e seco à minha frente. Penso que tive sorte em encontrar este oásis.
Uma rapariga aproxima-se de mim. Fico envergonhado e tapo-me com as mãos. A rapariga é engraçada. Ri-se. Coloca uma cerveja à minha frente. Em cima da mesa. Ao lado, um pequeno pires de tremoços. E diz Se precisar de mais alguma coisa, eu estou ali, e aponta-me para um outro barracão.
Ela vai-se embora e eu vejo-a ir. Está calor.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/14]

A A8 Transforma-se em A17 e Eu Não Sei Porquê

Vou pela A8 que depois se transforma em A17. Não sei porque muda de nome. Talvez tenha a ver com concessões. Mas não sei. Nem vou à procura da razão. Na verdade nem me interessa.
Vou pela A8 que depois se transforma em A17 e vou sozinho. Vou sozinho no carro, para norte, mas vou também sozinho na estrada. Três faixas de rodagem à minha disposição. Penso que os anos ’80 foram bons para as obras públicas, para os empreiteiros e para o modelo 200 da Mercedes-Benz.
Vou pela A8 que depois se transforma em A17, mas preferia ir de comboio. Preferia fazer o trajecto que tenho de fazer numa Linha do Oeste funcional numa CP que não estivesse a soldo de interesses que não conheço, mas que me mataram os comboios.
A última vez que andei de comboio, demorei cinco horas para fazer cento e vinte quilómetros. Nessa altura já a Rodoviária Nacional demorava pouco mais de duas horas a fazer o mesmo trajecto. Hoje, a Rodoviária demora as mesmas duas horas. Às vezes um pouquinho mais. Às vezes um pouco menos. O comboio não sei. Mas acho que continuou lá parado no tempo. Parece que há uns Intercidades todos chiques. Mas acho que é só para a gente elegante de Lisboa e Porto. O resto do país, pelo menos aqui, em Leiria, terra onde habito, desconheço tal iguaria.
Vou portanto pela A8 que depois se transforma na A17 e não vejo vivalma. Estamos perto do meio-dia quando sou ultrapassado por uma viatura. A primeira com que me cruzo. Um pouco mais à frente vejo um carro, dois carros que vêm em sentido contrário.
É quando já estou a aproximar-me de Aveiro que começo a ver mais carros. Aparecem do nada. É nessa altura que percebo que não sei quanto é que estou a pagar pela estrada que usei. Entrei em portagem com portageiro, mas com Via Verde, e acabo por passar por uma portagem aérea que me contabiliza mas não me informa. No resto do trajecto que tenho de fazer apanho com mais duas portagens aéreas, mas desta vez tenho lá, fixo, o valor do meu trajecto.
No regresso, três horas mais tarde, reparo que há agora alguns carros na auto-estrada. Não sei se é o suficiente para pagar a concessão, o investimento, ou se também o estamos a pagar através do Orçamento Geral de Estado. Mas alguém tem de pagar aquele elefante branco. Parece que não há almoços grátis. Pelo menos para alguns. Para outros, nunca na vida hão-de ter de pagar qualquer almoço.
Regresso pela A17 que depois se transforma em A8. À medida que me aproximo mais de Leiria, há menos carros na estrada, embora mais que de manhã. Toda aquela estrada me soa fantasma. Se calhar não existe. Se calhar estou a sonhar. Se calhar ainda estou nos anos ’80. Comi um cogumelo. O Primeiro-Ministro ainda é o Aníbal e vou ter de passar outra vez por aqueles anos de chumbo que só vamos saber que o foram mais tarde. Na ressaca do desenvolvimento tolhido. Quando pudermos virar a cabeça para trás e pudermos olhar com atenção o passado engalanado nos dinheiros da Europa que alimentaram muitas carteiras e cursos e empresas e Ferraris.
Regresso pela A17 que depois se transforma em A8. Faço a auto-estrada até à saída para a Nazaré. Depois deste dia, desta viagem, desta estrada fantasma que teve a vantagem de me esconder das pessoas, preciso de ver o mar.
Chego à Nazaré, mas viro para o Sítio. Gosto cá de cima. Gosto de vir cá para cima. Arranjo lugar com facilidade. Compro uns tremoços. Vou até a uma das arribas e deixo-me ali estar a absorver o belo sol vespertino. Acendo um cigarro. Vejo as ondas lá em baixo a baterem na areia. Há gente na praia. Há gente no mar. Fumo o cigarro. Como uns tremoços. Lanço as cascas cá de cima sobre a cabeça das pessoas que se passeiam debaixo da arribas. Mas ninguém vai saber que sou eu. Um dia destes levo cotonetes e também os lanço daqui. Com um pouco de sorte vão parar ao mar. Às vezes também me apetece fazer asneiras. Às vezes também quero ser mau. Às vezes quero ser como a Nova Leiria. A que já nasceu velha. Feia. E má.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/10]