Perna Partida

Parti uma perna. Tive sorte. Não parti a bacia. A bacia é algo que os velhos como eu costumam partir quando caem. Eu caí e só parti uma perna. Vá lá. No meio do meu azar, acabei por ter sorte.
A bacia é a pélvis e ficou muito conhecida graças a Elvis Presley e à sua forma de dançar. A alcunha que ganhou, The Pelvis, foi por mexer a pélvis de forma muito sexual. As raparigas adoravam. Os pais delas não.
Parti a perna em casa. Que é também um dos sítios onde os velhos, como eu, mais caem e partem partes do corpo. A bacia é a pior delas, mas há outras coisas a quebrar. No meu caso foi a perna. Tive sorte. Podia ter sido pior.
A minha casa, como muitas das casas arrendadas na baixa da cidade, casa de poucas assoalhadas, para tempo muito limitado e uma rotação muito grande de inquilinos, o que não é o meu caso que já estou aqui há cinco anos, é de mosaico. Um mosaico vidrado que facilita a limpeza. É só passar um pano húmido. Mas no Inverno é terrível. Está sempre húmido. Nunca seca. E então, em dias de chuva, parece que a chuva que cai lá fora vem toda cá para dentro de casa.
Eu amarrava uma toalha de turco, absorvente, na escova da vassoura para limpar a humidade de casa. Mas durava só alguns minutos. No melhor dos casos, uma hora. Depressa voltava tudo a ficar húmido, molhado e cheio de água. Às vezes parecia que nascia água debaixo das lajes.
E foi o que aconteceu.
Começou a chover. Chegou o frio. O chão começou a ficar cheio de humidade. Eu estava na mesa da cozinha a acabar de comer uma omeleta. Uma omeleta simples, só de ovo, com uma pitada de sal e pimenta e um pouco de salsa fresca picada, salsa que roubei do vaso da vizinha do lado e que me obrigou a estender no muro da varanda e que por pouco não caí lá em baixo na rua. Comi a omeleta na companhia de um copo de vinho tinto. Levantei-me para ir colocar o prato, sujo e vazio, no lava-louças e apanhar um pequeno prato com um marmelo assado com canela, que uma amiga cá veio trazer a casa, quando me desequilibrei, deixei cair o prato que se partiu em mil-e-um-pedaços ainda dantes de me colocar em queda, que vi acontecer em câmara-lenta, um pé que escorregou na laje molhada, torceu o tornozelo, puxou o corpo para baixo, obrigou a levantar a outra perna, e fez-me cair em força sobre o rabo, o pé torcido, todo torcido de lado, e as costas foram projectadas para trás e acabei por bater com a cabeça no chão. Até saltitou, a cabeça.
Ouvi um barulho seco quando a cabeça bateu no chão.
Assustei-me.
Mas não aconteceu nada à cabeça. Foi só mesmo o barulho. Nem aconteceu nada às ancas e à queda de rabo. Só me magoei num pulso, devo ter pousado a mão no chão para me amparar na queda e nem me apercebi, e depois a perna dobrada que se partiu e me provocou dores horríveis.
Consegui, no entanto, arrastar-me até ao telemóvel que estava na mesa da cozinha onde estava a almoçar e chamei o INEM.
Hospital.
Perna partida.
Gesso. Várias semanas com gesso.
Tenho passado estes dias à janela a olhar a chuva a cair lá fora. Fumo um cigarrito. Bebo um copo de vinho e pronto, assim está a minha vida. Ando numa cadeira de rodas e não tenho saído de casa. Não com este tempo assim.
Há uma moça que vem cá a casa de dois em dois dias para ver se preciso de alguma coisa. É gira a miúda. Estou a pensar em convidá-la para jantar comigo. Talvez ela aceite. Talvez não se preocupe com a minha perna partida. Ou talvez a perna partida a faça aceitar o convite.
Afinal, talvez a perna partida tenha sido uma coisa boa.
É mesmo gira, o raio da miúda.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/04]

Que Raio É a Felicidade?

Que o dinheiro não traz felicidade, é um axioma que sai facilmente da boca de quem não tem problemas financeiros.
Que não traz felicidade mas ajuda a encontrá-la é o que responde quem não tem dinheiro.
Estávamos sentados na mesa da cozinha, frente a frente, e ela olhava para mim, à espera.
Eu olhava para o prato com ovos mexidos que tinha à frente e não conseguia prová-los.
Ela bufou uma certa impaciência. Eu olhei para ela e perguntei Mas o que é que estes ovos mexidos têm a ver com a felicidade?, e ela, respondendo pausadamente, articulando muito bem cada sílaba de cada palavra disse Eu só perguntei se eras feliz.
Mas estava a falar do quê? Se sou feliz, quando? ou como?
A felicidade era um termo muito usado por ela, servia para tudo, para justificar ou para questionar. Se eu era feliz?
Quando me estou a vir em ti, sim, sou feliz. Aqueles breves segundos são de uma enorme felicidade. Quando chego a meio do mês e me vejo sem dinheiro, não, não consigo encontrar a felicidade. Era o que querias ouvir?
Ela continuou a olhar para mim por alguns segundos que pareceram horas, depois levantou-se, agarrou na mala, pendurou-a ao ombro e disse Custava alguma coisa gostares da omeleta?
Ah, afinal era uma omeleta! pensei eu, cá para mim, mas sem sonorizar o pensamento. Não queria mais chatices.
Ela acabou por virar costas e sair de casa. Bateu com a porta da rua.
Fiquei sentado na mesa da cozinha a olhar para a omeleta que parecia ovos mexidos. E acabei por provar. Levantei-me e fui buscar um pouco de sal e pimenta e um copo de vinho. E acabei com a omeleta.
Afinal nem estava assim muito mal. Não percebi é o que é que estes ovos tinham a ver com a felicidade dela, ou minha. Nem porque é que se foi embora assim, zangada.
Acendi um cigarro e deixei-me estar sentado na mesa a fumar. Mandava o fumo para cima. Fiz umas argolas de fumo e via-as a flutuar até ao tecto. Mas desfaziam-se antes de lá chegar. Estava a tentar perceber se era feliz ou não.
O telemóvel acusou a chegada de uma mensagem. Era dela. E dizia Tens sempre de falar de dinheiro. Não podemos ser felizes assim.
Ela tinha razão. Não era feliz assim.
E pensei que tinha de lhe telefonar e pedir desculpas. E sim, queria ser feliz com ela. Para ela.
Mas antes de lhe telefonar tinha que ir assaltar o banco aqui da rua. É hora de almoço, deve ser boa hora.
Sim, queria ser feliz.

[escrito directamente no facebook em 2018/01/19]