O Mundo a Fazer uma Barrela

Olhei para o céu e vi passar os aviões cheios de munições. Mais tarde haveria de os ver regressar bem mais leves, vazios de munições, depois de não-sei-quantos curdos mortos no norte da Síria.
Estava no alpendre. Sentei-me na cadeira. Acendi um cigarro.
Na casa do outro lado da estrada havia festa. Uma festa popular. Muito popular. Muita gente a dançar ao som de música popular. Havia vinho. Cerveja. Espumante. Umas jovens em biquínis diminutos mergulhavam numa piscina. Nas varandas, nas várias varandas da casa, apareceram várias pessoas, uma em cada varanda. A música foi desligada. As pessoas pararam de dançar. Pararam de beber. Ficaram paradas com os copos nas mãos. As raparigas pararam de nadar na piscina e toda a gente prestou atenção. Todos olharam para as varandas. Em silêncio. Atentos. Cada um olhava para a sua mas toda a gente parecia estar a olhar para todas as varandas ao mesmo tempo. Numa varanda estava Jair Bolsonaro. Na outra, ao lado, Donald Trump. Na outra a seguir estava Nicolás Maduro. Depois Viktor Orbán. E Recep Erdogan. Ao lado, Vladimir Putin. A seguir estava Boris Johnson. Logo depois Mohammad bin Salman. Colado estava Xi Jinping. Depois outras personagens que não identifiquei logo. E lá no canto, na última varanda, que afinal não era uma varanda mas uma janela, estava André Ventura. Que raio é isto? Como é que a casa em frente tem tantas varandas? E janelas? E toda esta gente? Quem é esta gente toda? E o que está aqui a fazer à frente de minha casa?
Os homens nas varandas, e o que estava à janela, começaram a discursar. Todos a uma voz como se fossem um só. Em todas as línguas do mundo que eram uma só. E toda a gente atenta a ouvir. Os homens que discursavam estavam com os olhos vermelhos, injectados de sangue, escorria-lhes uma baba verde, ácida, pelos cantos da boca e cuspiam perdigotos sobre as pessoas enquanto falavam com elas, enquanto lhes cuspiam palavras de ódio. As pessoas pareciam hipnotizadas. Batiam palmas. Uivavam. Anuíam. Concordavam. E começaram também elas a babar. Babar ódio. O terreno em frente começou a ficar inundado de tanta baba. Depois os discursos pararam. Apareceram uma moças quase despidas, de seios proeminentes, a erguer umas placas sobre a cabeça com alguns dizeres: Eu Primeiro; Eu à Frente; Eu De Novo em Primeiro; Ordem e Progresso; Acima de Todos Eu, Acima de Mim Deus.
Achei tudo muito interessante. Mas estava com sede. Levantei-me e fui buscar um copo de vinho. Regressei ao alpendre. Acendi novo cigarro.
Ao fundo, vi as montanhas a abanar, como se fossem de gelatina. Tremiam como varas verdes. As vacas que sobreviveram deixaram de ter leite e passaram a dar manteiga. As ovelhas perderam os caracóis e ficaram com o pêlo liso e escorrido. Depois um furação passou por cima das montanhas e levou as turbinas eólicas pelos ares. Deixou umas nuvens escuras, carregadas de água, que largaram tudo sobre as pedreiras que devastavam as montanhas e inundaram os vales, arrastaram casas e carros e os camiões de transporte de pedras das pedreiras e devastaram as quintas e quintais como as pedreiras tinham devastado as montanhas.
A água veio pela montanha abaixo, o rio e o ribeiro galgaram as margens, houve inundação em todo o lado e acabou por terminar com a festa na casa em frente, do outro lado da rua. As varandas foram destruídas e as pessoas que lá estavam foram arrastadas pelas águas furiosas e zangadas. Ainda vi a cabeça do André Ventura a tentar manter-se à tona da água que corria violenta.
Não chegou cá acima, felizmente.
Deu-me uma certa agonia. Cuspi para o chão do alpendre. Pensei que eu vivia num cantinho do céu guardado por Deus. Via todas as desgraças a acontecerem lá longe. Do outro lado da estrada. Longe do meu alpendre.
Depois senti um trovão a ribombar sobre mim, sobre a minha cabeça, e pensei Falei cedo demais, porra!
Foi então que me levantei da cadeira do alpendre e resolvi entrar em casa. Nesse momento voltavam os aviões turcos, mais leves, depois de terem despejado toda a munição sobre os curdos que, coitados, andaram a salvar-nos do Daesh e agora estavam a ser dizimados.
Ainda antes de entrar em casa senti um aperto no coração. Virei-me para trás e percebi. Ao ver a enxurrada levar toda a gente na fúria das águas, percebi. Alguns amigos de infância estavam naquela embrulhada. Eram levados. Eram levados para longe. Alguns morriam. Morriam cheios de ódio. E senti-me triste. Triste por eles. Depois pensei que isto era o mundo a dar uma barrela.
Entrei em casa e fechei a porta nas minhas costas.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/13]

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As Congressistas

A miúda, mulher, preta, somali, congressista, defendia-se dos ataques torpes do presidente norte-americano atacando-o pela sua misoginia, racismo, sexismo, falsidade e mentira.
Eu estava a comer umas sardinhas em lata, picantes, com umas fatias de pão de Mafra, e umas azeitonas mistas, pretas e castanhas, e empurrava tudo com um copo de Courelas de Pias (o resto de uma garrafa já aberta), que se transformou em dois copos para terminar a garrafa e deitá-la fora para o depósito verde para o qual tenho de andar dois quilómetros a subir (no regresso é a descer), enquanto me ia escandalizando com a liberdade boçal de tal personagem, o presidente, na reprodução do discurso nojento de ataque à dignidade das congressistas representantes dos eleitores norte-americanos.
Tinha o televisor a preto e branco da cozinha a debitar o Telejornal. Aquilo irritava-me. Aquela personagem andava a dar-me cabo dos nervos e não consegui perceber, nem consigo ainda hoje perceber, que continue a passar incólume às mentiras que propaga e à sua presidência errática feita através da rede social Twitter, massacrando pessoas a torto-e-a-direito e gritando queixinhas quando atacado.
Acabei as sardinhas. Duas fatias de pão. Uma mão cheia de azeitonas. Os dois copos de vinho tinto e a garrafa vazia no lixo verde com o qual teria de subir dois quilómetros (mais dois a descer no regresso). Acendi um cigarro. Fiz um tacho de café de chicória e continuei a ouvir o discurso das outras congressista atacadas. Achei uns belos e potentes discursos de gente sem-medo. Mas achei que os americanos eram uns tontos que correm atrás de um fanfarrão que grita que é bom, espectacular e excelente negociador, tudo coisas por provar, quando a única coisa certa e provada é a gravação da sua auto-glorificação por colocar as mãos nas vaginas das mulheres, independentemente de elas o desejarem ou não.
O Telejornal voltou a mostrar outro discurso do presidente em que volta a atacar as quatro congressistas norte-americanas dizendo-lhes que regressem aos países falhados de onde provêm.
Apaguei o cigarro no prato com as espinhas das sardinhas em lata, picantes, e fui ao quarto, ao armário do quarto, buscar a caçadeira que fora do meu pai, e que nunca utilizei. Enfiei-lhe dois cartuchos e disparei sobre a televisão a preto e branco da cozinha onde estava a imagem do presidente a espumar o seu ódio. A televisão explodiu.
E eu disse, alto, alto como se fosse para ele ouvir Este é o mesmo tipo que exigiu o comprovativo de nacionalidade ao presidente anterior. Este é o mesmo tipo que separa pais e filhos e coloca crianças em jaulas como se fossem animais. E voltei a disparar. O que restava do televisor desintegrou-se.
Larguei a caçadeira. Acendi outro cigarro e pensei Disparei os tiros porque estava a defender a minha casa. A minha sanidade na minha casa. E tenho o direito de a defender. De me defender.
Fui até ao alpendre e olhei para as montanhas lá à frente, ao fundo, e deixei que o frio deste final de dia de Julho me entrasse pelos pulmões e me lavasse a alma.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/16]

Só Quero que Me Deixem em Paz

Quando era novo só pensava em sexo.
Era jovem, acabado de sair da adolescência, e corria para os braços que se abriam para me acolher. Saltava de cama em cama. Tinha tesão pela novidade. Pelo novo. Gostava de ouvir as diferentes respirações que me sussurravam ao ouvido. Gostava de passar as minhas mãos pelos diferentes corpos, corpos quentes, corpos despertos, ansiosos pelo meu. Não havia penas, nem tristezas. Não havia amarras, nem prisões. Era livre. Éramos todos livres uns dos outros e desejávamos-nos livres. Corria atrás de paixões que se esvaíam quando eu me esvaía. Tudo era fogo que ardia até se consumir. E consumia-se rápido. Rápido e indolor. Até ao próximo.
Quando cresci descobri o amor. Corri para ele. Corri devagar que o amor é lento. Descobri-o amargo. O amor era uma coisa assim morna, que demora a aquecer, mas logo começa a queimar etapas e tempo e disponibilidade e, quando menos esperamos, chegou ao fim. Alguém chega sempre ao fim. Não dá mais. Porque alguém quer sempre mais. Outra coisa. Porque alguém sente-se sempre enganado. Ultrajado. O amor começa sempre por ser grandioso. Muitas vezes acaba odioso. Por isso se fala tanto da linha ténue que separa o amor do ódio. Quando descobri o amor, fui à Lua buscar uma rocha só para ver o outro feliz. Mas depressa perdi o sorriso. Deixei de ter conversa. Mais rápido procurei consolo noutros braços. Braços vazios. Braços de vingança. Braços tristes. Percorri muitos braços. Tantos como os amores. Amores que me pareceram sempre de Verão. Amores que fui sempre enterrando na areia. Sempre à procura do próximo. Que era o definitivo. Mas nunca era. Somos sempre diferentes. Incompatíveis. Raios partam a matemática.
Envelheci. Envelheci sozinho. Procurei companhia. Depois da paixão e do amor, só queria companhia. Alguém com quem compartilhar uma refeição. Um prato de sopa. Uma pequena conversa sobre a espuma dos dias. Um filme na televisão ao final da noite. A lareira no Inverno, a brisa no Verão. Percorrer as festas das aldeias e comprar Bolo da Festa e ter com quem o compartilhar torrado, barrado de manteiga, na manhã seguinte. Ter alguém com quem ir comer uma filhós e beber um café da avó. Sem dramas nem obrigações. Só pelo prazer da companhia. Algum sexo ocasional. Mas, acima de tudo, a companhia. Alguém que ouça. Alguém que quebre o silêncio. Alguém.
Hoje só quero que me deixem em paz. Já não sei a idade que tenho. Só sei que estou numa cama que não é minha. Num quarto que não é meu. Talvez um hospital. Talvez um lar de idosos, preâmbulo da morte. Trazem-me comida insípida a horas certas. Comprimidos a horas certas. Lavagem do corpo a horas certas. Olho em volta e só vejo outros como eu. Eu nos outros. Tanta solidão em grupo.
E depois, a dias certos, como certa é a morte mas demora como o diabo o chegar!, as visitas de gente que fala comigo como se fosse um bebé. Com vozes aparvalhadas. Deixem-me em paz, porra! é o que me apetece gritar. Mas mantenho-me calado. À espera que se vão embora. E me deixem voltar para debaixo do cobertor. Eu e a minha solidão. Não quero outra coisa. Ficar sozinho. Em paz. Sem ver ninguém. Sem ouvir barulho. Só.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/22]

Uma Mulher de Burca Passou

Está calor. Abro a janela para ter um bocado de vento em casa. Mas a aragem que corre é tão suave que mal se nota. Tiro a camisola e deixo-a cair no chão. Descalço as sapatilhas. Não me baixo. Com a ponta de uma tiro a outra. Depois é o pé que descalça a segunda sapatilha. Vão ficando pelo caminho. Tiro as calças. Fico em cuecas. Deixo-me cair no sofá. Deito-me. A cabeça num braço do sofá. Os pés no outro. Olho para o tecto. Penso Está um calor do caralho! E ainda não é Agosto. Pois não, ainda não é Agosto e já destilo. Transpiro bastante. Tenho de emagrecer. Tenho de cortar o cabelo. Tenho de fazer a barba. Tenho de comprar roupa mais fresca. Tenho de comprar uma ventoinha.
Estou deitado no sofá a olhar para o tecto. E sinto as costas a colarem-se ao sofá. Sinto as costas a aquecer. Penso em ir buscar um lençol para colocar em cima do sofá. Penso em ir mas não vou. Porra! Está demasiado calor para me mexer.
Olho para o tecto. Tenho os braços cruzados atrás da cabeça. O tecto parece derreter como um gelado sob o sol das três da tarde em pleno Alentejo. Mas deliro. O tecto não está a derreter. Invento estas estórias para me ajudar a passar o tempo e fazer esquecer o calor que me abate.
A vontade de fumar um cigarro é imensa. Finalmente, acabo por me levantar. Vou buscar um cigarro e vou fumar para a janela. Olho a rua. Há pouca gente lá em baixo. Há pouca gente a cruzar estas ruas sob este calor. No entanto, há quem o faça. Dois miúdos. Um tipo de bicicleta. Uma velhota agarrada a uma bengala. Um pé a arrastar o outro. E depois vejo uma mulher de burca. Tento imaginar como é que ela se há-de sentir debaixo de toda aquela roupa. Toda tapada. Imagino que trará calças debaixo do vestido. Imagino aquele corpo transpirado. Cansado. Morto. Imagino aquele corpo de mulher a manter viva uma tradição. Imagino aquele corpo morrer por uma tradição. Mas não consigo. A minha imaginação não vai tão longe.
Ao contrário do que estava à espera, o cigarro sabe-me bem, mesmo com todo este calor. Mas o corpo zanga-se comigo por estar ali em pé. Em pé a receber aquele ar quente que vem da rua. A corrente de ar é quase inexistente.
Penso nas gentes que trabalham sob este sol. Mas logo quero esquecer estes pensamentos. Não quero deprimir. Já me basta o calor. Não preciso de um momento de sociologia.
Acabo o cigarro. Disparo a beata com os dedos como se fosse um berlinde para conseguir chegar à varanda do vizinho em frente. E consigo. A beata assalta-lhe a varanda. Às vezes sou mesmo nojento. Não gosto daquele filho-da-mãe. Há muita gente de quem não gosto. Tenho de parar com estes ódios. Está demasiado calor para odiar. Para amar também.
Entro em casa. Olho para o sofá. Páro. Dou meia volta e vou ao armário. Trago um lençol branco. Abro o lençol sobre o sofá. Agarro no comando da televisão e ligo-a. Deito-me. A cabeça num braço do sofá. Os pés no outro. Ponho num canal nacional. Um programa da tarde sobre conversas de almanaque. Pode ser que adormeça. Quando estou muito cansado e com muito calor não consigo adormecer. Talvez estas conversas me embalem.
Enquanto tento fechar os olhos, penso naquela mulher com burca. Em todas as mulheres com burca. E penso que as tradições só servem para manter uns em cima dos outros. Uns a mandar nos outros. Uns a matar outros. Acho que é por isso que não gosto quase de ninguém. Às vezes, nem de mim.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/02]

De Regresso a Lisboa

Há muito que não descia a Lisboa. Desci. Sinto-me perdido. Onde está a cidade?
Descubro-me num parque de diversões em jeito do Mundo Disney. Papás e mamãs de calções e sapatilhas leves, super-leves, de rede respiratória para aguentar sem chulé todos os quilómetros acima e abaixo à procura da nova sensação-oferta criada por mais um destes empreendedores que transformam a cidade, carregam as mochilas com garrafas de água e sanduíches feitas nas kitchenettes porque a cidade está cara mesmo para quem a visita vindo de países mais ricos que este, enquanto empurram carrinhos-de-bebé e se passeiam de mãos dadas com crianças pequenas. Lisboa é uma cidade familiar. Uma feira. Uma diversão.
Pareço-me velho e rezingão. A culpa é minha por não acompanhar os tempos? Ou tenho de aceitar tudo o que é novo?
Não tenho direito a gostar do que gostava? Ou do que gosto? Não tenho direito a ter opinião negativa sobre o sucesso turístico de uma cidade que também era, foi, minha?
Ora porra!
Passo no Martim Moniz. Não reconheço a Praça. Ainda lá estão os indestrutíveis centros comerciais multi-étnicos. Mas não é isso que chama a minha atenção. O que me chama a atenção é a fila, filas?, tenho dificuldade em distinguir, enorme de gente para apanhar o 28, o Eléctrico dos carteiristas. De repente Lisboa parece Madrid, o Martim Moniz parece o Paseo do Prado e o 28 o Museu do dito com a exposição do Bosch. Cada um dá a cultura que consegue.
Lisboa está uma feira.
Há uma Padaria Portuguesa a cada esquina. Refugio-me na Mouraria. Como um velho e saboroso kebab. Nada como reencontrar velhos amigos. Sei que vou arrotar azia. Mas sei já com o que conto. Sei como a tratar. Passo na farmácia e compro uma embalagem de Kompensan. Não vá o Diabo tecê-las. Estou prevenido.
Ponho-me a subir a rua. Vou atrás dos cheiros. As especiarias. Cruzo-me com gente a carregar malas e malinhas com rodinhas. O barulho característico prolonga-se ao longo da Mouraria. Vêm de Alojamentos Locais. Vão para Alojamentos Locais. Vêem-se placas se acrílico um pouco por todo o lado. É epidémico. Entre indianos e vizinhos asiáticos, e turistas de mala com rodinhas, câmara fotográfica pendurada ao peito, camisas havaianas, calções, sapatilhas, mas também chinelos, pergunto Onde estão os portugueses?
Viro à direita. Perco-me por ruas pequenas. Vazias. Alguns restaurantes étnicos às moscas. Não há turistas por aqui. O circuito turístico tem os seus próprios mapas. Há silêncio. Ouço os meus passos. A minha respiração. Subo. Depois desço. Aqui ainda resiste uma pequena Lisboa-cidade-do-mundo. Regresso ao Martim Moniz pelo outro lado.
Vejo um monte de gente. Estrangeiros. Trabalhadores das redondezas. Gritam. Aproximo-me. Sou curioso. Vejo um homem sentado no chão. Três polícias municipais em volta dele. Respiram com dificuldade. Percebo que estiveram a correr atrás do homem. As pessoas que observam gritam. Gritam para o homem. O homem está algemado. Tem um casaco caído pelas costas abaixo. Está descomposto. Dois polícias agarram nele e levantam-no. O povo grita. Um burburinho que vai crescendo. Os turistas olham, curiosos. Como eu. Sinto-me um turista. O homem diz qualquer coisa a um dos polícias. Ele leva a mão atrás e dispara uma estalada na cara do homem algemado. Rebenta-lhe o sangue do nariz. E dos lábios. O povo exulta. Está na arena. Vejo-lhes as bocas a espumar. Raiva. Ódio.
A polícia leva o homem para a estrada, junto ao carro da polícia municipal. Sentam o homem no chão. Algemado.
Eu viro costas. Penso que Lisboa, afinal, não mudou assim tanto. Não é uma cidade perigosa. Nunca foi. Mas é uma cidade grande. Uma cidade grande como todas as cidades grandes. Um cidade pulsante. Às vezes também precisa de respirar. Respirar fundo. E fazer asneiras. Para aliviar.
Vejo chegar um carro da PSP. Vem à ocorrência. Vem buscar o homem algemado. Vão levá-lo para alguma esquadra. Depois apresentado a um juiz. Depois eu já não olho para trás. Sigo em frente. Tento encontrar um cantinho em Lisboa livre de turistas. Tento encontrar um cantinho em Lisboa que me recorde a Lisboa que conheci. Mas acho que não tenho sorte.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/27]

O Verão que Passei Sentado no Banco Corrido do Café

Passei aquele Verão quase todo sentado num banco corrido encostado à parede do café. Ia para lá de manhã. E passava lá o dia. Via chegar os clientes habituais. Pessoas que precisam de uma bica para funcionar. Bebia café com eles. Fumávamos um cigarro juntos. Contavam-me coisas. Algumas sem interesse. Outras fantásticas. Umas poucas diabólicas. Eu ouvia.
Bom-dia! Bom-dia! E isto repetia-se.
Às vezes lia o Correio da Manhã. Quase todos os dias A Bola.
Às vezes levava a máquina fotográfica e fotografava as caras das pessoas que por ali passavam. Os velhos cheios de rugas e cara curtida do sol. As crianças à procura de um gelado, ou de um chupa-chupa. As mães para três dedos de conversa entre elas e saberem as novidades do dia.
Às vezes passava um turista. Alguém que se perdia a caminho da praia. Alguém a pedir uma informação. Alguém que precisava de uma garrafa de água. Geladinha.
Depois de almoço, geralmente petiscava qualquer coisa, dava-me a moleza. Dormitava por ali um pouco. Encostava-me à parede. Fechava os olhos. Um chapéu-de-sol da Olá protegia-me do sol. Depois acordava. Bebia uma imperial. Lia um bocado de um livro que se arrastava. Escrevia notas para um futuro livro. Via chegar os vespertinos.
Boa-tarde! Boa-tarde! E isto repetia-se.
Ao final da tarde começavam a chegar os homens. Vinham beber um bagaço. Uma mini. Um copo de tinto. Comiam um pastel de bacalhau. Discutiam. Discutiam muito. Sobre futebol. Diziam mal da Junta de Freguesia. Aliás, do Presidente da Junta. Maldiziam a vida. Depois diziam bem dos filhos. Das mulheres, variava. Às vezes esqueciam o tempo. Às vezes as mulheres iam lá buscá-los. Às vezes mandavam os filhos mais novos. Às vezes havia barulho. Zangas. Desconcertos entre eles. Eles, marido e mulher. Mas também eles, amigos. Vizinhos. O álcool fazia-os irritar. Falar alto. Odiarem-se ódios velhos que morriam rapidamente. Mas às vezes aqueciam as nozes dos dedos nas caras uns dos outros. Nada de muito grave.
Às vezes puxavam uma mesa cá para fora e jogavam Dominó comigo. À Bisca Lambida. À Lerpa. Ao Sete e Meio.
Sentavam-se muitas vezes lá comigo. A beber cerveja. Um vinho. A fumar um cigarro. À espera que a noite chegasse. A noite que os arrastava para casa. Às vezes iam a contra-gosto. E eu? Eu também partia com a noite.
Boa-noite! Boa-noite!
Depois, mais tarde, em Agosto, chegaram os emigrantes. Regressavam à terra. Vinham abrir as janelas das casas fechadas. Vinham arejar o bafio das casas. Vinham mostrar os carros potentes e vistosos. As roupas coloridas que não há cá. As sapatilhas de marca. Mas então? Agora a época era outra. Estava já tudo desfasado no tempo. Quem não vinha de fora ia ao Continente e tinha as mesmas coisas. As mesmas marcas. Os filhos confundiam-se já todos. Mas era bom estar ali sentado. Estar sentado e ouvir falar aquele francês, às vezes mal arranhado, mas sempre com sotaque. Como uma música velha num tijolo fanhoso. O sotaque dali. Um sotaque que eu já reconhecia.
Essa era também a época das festas. O banco estava sempre cheio de gente. Mas o meu lugar estava sempre reservado. Fotografei caras. Filmei a procissão. Escrevi estórias. Descrevi o baile. Gravei sons de conversas. De discussões. De namoros. Nesse Verão fiz uma bela recolha da vida que se cruzava ali, frente ao café.
Chegou o Outono. As pessoas foram embora. Ficaram as que ficam sempre. Passei a estar mais vezes sozinho. A apreciar mais a chegada solitária de um ou de outro. Aproveitava o pouco sol. Evitava a chuva. Enfrentava o frio.
Um dia, já perto do Natal, o café não abriu. O dono, já velhote, tinha morrido. Durante a noite. Sossegado. Em paz. O banco nunca mais voltou à rua.
Alguém comprou o café. Transformou-o em alojamento local. Anunciou-o no Airbnb. Eu deixei de lá ir. Deixei de ver pessoas. Deixei de ver a vida a acontecer por ali.
Agora não passo do alpendre de casa.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/05]

Os Coletes Amarelos Saíram à Rua e Afrontaram a República

Eram centenas. Milhares. Milhares de tipos com coletes amarelos, daqueles que a lei obriga a vestir quando saímos do carro avariado em plena estrada. Eram milhares de coletes a circular pelos Campos Elísios. Partiam montras. Incendiavam automóveis estacionados. Batiam em automóveis que passavam. Afrontavam a polícia. Tentavam resistir aos canhões de água. Ao gás-mostarda. Tentavam resistir à lei e ordem da República.
Eu estava atónito a olhar para a violência no ecrã da televisão. Paris parecia a ferro-e-fogo. O Arco do Triunfo testemunhava o confronto.
Logo depois a notícia era a extrema-direita a entrar no Parlamento da Andaluzia, aqui mesmo ao lado. Ah, Espanha, não deixaste de ser franquista!
O que é que estava a acontecer às nossas vidas?
Para onde é que caminhávamos?
Estávamos assim tão fartos de paz? Tão fartos uns dos outros?
Precisávamos assim tanto de nos odiarmos?
E depois pensei Um por cento da população concentra noventa e oito por cento das riquezas do mundo. Noventa e nove por cento da população tenta sobreviver com o pouco que lhe resta. Os políticos eleitos portam-se, não como responsáveis mas, como donos dos países. Donos das suas instituições. Promulgam leis que lhes sejam favoráveis. Agora e no futuro. Vão trabalhar para empresas das áreas que tutelaram. Fecham-se em escritórios com ar condicionado ligado e janelas bem fechadas à rua e esquecem para quem governam. Impõem leis e regras, impostos, taxas e taxinhas. Obrigam a que quem não tem o que comer pague as dívidas do Banco que comeu os lucros em orgias de poder e desbaratou todo o capital amealhado nas contas dos seus clientes. Mentem. Mentem descaradamente. Mentem sobre presenças. Dão moradas falsas. Fazem viagens fantasmas. Garantem ter os estudos que não têm. E não gerem o país. Os países. Mandam. Impostos verdes são a nova bula. Podemos continuar a usar plástico e gasolina e gasóleo e carvão desde que se pague o imposto. Não, não se vai acabar com estas merdas, vão-se pagar impostos para se poderem continuar a utilizar. E não, não são os produtores que têm de pagar, é o consumidor que se limita a consumir o que lhe põem à frente que tem de pagar. Roupa feita no Bangladesh por novos escravos? Tecnologia feita na China por criancinhas? Livros mais baratos nas grandes superfícies que compram por atacado? Não tenho dinheiro para mais. Não tenho dinheiro para dizer não. Não tenho dinheiro para escolher. Continuam a plantar eucaliptos. Há lixo que anda em bolandas de um lado para o outro entre países que uns pagam para o despachar e outros recebem para ficar com ele. E quem é que vai ter de conviver com essas escolhas? E como podemos fugir a isso? E como podemos dizer Eu não quero mais! quando nos obrigam a ter tudo isso para trabalhar, para pertencer, para encaixar, para existir?
Comecei a hiperventilar. Levei a mão ao coração. Tinha de me acalmar. Na televisão já não havia notícias. Estavam numa conversa sobre futebol. Acho. Levantei-me. Andei um pouco ali à volta, na sala. Fui à cozinha. Bebi um copo de água. Comecei a acalmar. Olhei pela janela. Gente. Muita gente. Gente com sacos de lojas. Gente a rir. Um rapaz com um gorro vermelho. Era Natal.
Acalmei.
Ah! Foda-se! Deu-me a fúria. Um copo de tinto para ganhar coragem. Um cigarro à janela a ver a alienação. Outro copo de vinho. Estava frio na rua. Mandei o cigarro fora. Fechei a janela. Acabei o terceiro copo de vinho na cozinha. Vesti o casaco.
Gritei Mãe, não venho jantar!, antes de me lembrar que ela já não andava por lá. E, antes de me ir embora, passei pelo carro e agarrei no meu colete amarelo. Finalmente ia servir para alguma coisa.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/03]