Assaltos

Naqueles anos andava com ela, de carro, a percorrer o país de lés-a-lés, a fazer pequenos assaltos para podermos comer e ficarmos a dormir em pensões. Às vezes ficávamos a dormir no carro. Na rua. Queríamos conhecer o país. Nós que não conhecíamos mais que a nossa pequena cidade, de repente percebemos que o país era muito maior e bem mais interessante que a casa, a rua, a cidade pequena e aquelas pessoas todas iguais, pequenas e sem mistério.
Aqueles anos foram anos de muita confusão. Confusão no país e nas pessoas. Não se sabia muito bem para onde é que o país caminhava. Que país era aquele que estava à nossa espera. E nós não quisemos ficar à espera das decisões finais tomadas pela força popular ou pelas jogadas de bastidores nos gabinetes do poder. Eu e ela.
Peguei no carro do meu pai, um Morris Mini azul bebé, e fomos embora da cidade.
Primeiro fomos para o norte. Assaltámos algumas bombas de gasolina. Chegámos a dormir dentro do carro, cheios de frio, no alto das montanhas. Dormimos na praia, em Moledo. À beira da Portela do Homem, no Gerês. Numa casa de passe, na raia. Chegámos a trabalhar como empregados de bar numa dessas casas de meninas na zona de fronteira, sem saber em que país estávamos, afinal. Quando andámos por São Pedro do Sul foi um pouco assustador, um país deserto, escuro, víamos fantasmas em todo o lado, mas, ao mesmo tempo, foi uma zona que nos deu liberdade para andarmos a correr nus pelos pinhais e mergulhar nos riachos de águas geladas e fazermos banquetes com os frutos que íamos apanhar às árvores. Fazíamos amor ao ar livre. Musgo por cama, as estrelas por tecto. Às vezes era mesmo em cima do Morris, do capot do Morris e, quando vi o filme do António-Pedro Vasconcelos, fartei-me de rir. Tivemos de deixar São Pedro do Sul porque não havia nada para assaltar. Numa terra desértica, não há onde ir buscar dinheiro. Foi então que acabámos por ir para o sul.
Ficámos algum tempo em Tróia. Tróia parecia um oásis na confusão do país. Havia dinheiro a circular. Nem parecia o mesmo país que estava caído na depressão revolucionária. Havia gente em férias. Havia oferta para gente em férias. Aquele oásis não iria durar muito tempo mas, enquanto durou, pareceu qualquer coisa bem diferente do que estávamos habituados a ver, talvez só parecido nalguns, poucos sítios, e que nós ainda não conhecíamos, no Algarve.
Ao fim de dois meses em Tróia, com idas a Setúbal para comer choco frito, arrancámos para o Algarve.
Aquele quase ano inteiro que levámos a andar de um lado para o outro no Algarve foram as melhores férias da minha vida. Deixámos escritos pelas portas das casas-de-banho de todos os cafés do Algarve.
Foi no Algarve que nos aventurámos a assaltar bancos pela primeira vez. Chegámos a ser quase apanhados. Não fomos. Eu tive de disparar a pistola várias vezes. Ela nunca. E nunca disparei sobre ninguém. Nunca matei ninguém. Eram tiros de aviso. Para impressionar. Para pressionar. E dava resultado.
No Algarve chegámos a alugar uma pequena quinta na zona da serra por seis meses. Acho que foi o melhor período daquela aventura. Durante aqueles seis meses não precisámos de fazer nenhum assalto porque tínhamos dinheiro suficiente para vivermos. Mas começamos a dar nas vistas porque não trabalhávamos, tínhamos dinheiro e éramos boémios e ociosos. Chegaram a chamar-nos fascistas! Fascistas! A nós!
Ela começou a assustar-se com o rumo das coisas. Entretanto o país parecia estar a endireitar-se. Ela decidiu voltar para casa. Voltar para a escola. Tirar medicina. Decidiu sem mim. E foi. Voltou para casa. Foi estudar medicina. Tornou-se médica oncológica. Ainda trabalha no hospital Santa Maria.
Eu?
Eu fiquei pelo Algarve. Comprei uma barraca na praia. Fiz um bar. Ganhei uma concessão de praia que ainda mantenho. Não casei. Não tive filhos. Gastei tudo o que ganhei.
Agora descobri que tenho cancro no duodeno.
Ironia, não é?
Nunca mais falei com ela e também não é agora que vou falar. Já decidi que não vou fazer tratamento. O cancro no duodeno é fatal. Fatal e rápido. Vi o meu pai morrer assim, com um cancro no duodeno. Não quero fazer tratamento.
Enquanto conseguir, vou escrever estas memórias dos mais belos anos da minha vida.
E depois… E depois há-de-ser como Deus quiser.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/07]

A Serra Onde Eu Passeava

Naquela época, quando vim para cá viver, aos fins-de-semana pegava no carro e ia até à serra. Ia de carro até ao sopé da serra. Havia um cafezinho lá mesmo onde começava o trilho para subir a serra. Eu parava o carro debaixo de uma oliveira, para o proteger do sol, bebia um café expresso, queimado, era uma característica daquele cafezinho, tinha sempre o café queimado, fumava um cigarro à entrada, a olhar a subida que me esperava, e depois ia por ali fora, arranjava um cajado, havia sempre uns paus, uns ramos de árvore caídos, e eu aproveitava a ajuda de um qualquer cajado que me impulsionava os passos serra acima.
Levava uma garrafa de água e umas peças de fruta numa mochila às costas, uma máquina fotográfica, uns binóculos, e lá ia eu, trilho acima. Fotografava muito. Procurava identificar as aves. Tentava não me cruzar com os lobos. Sentava-me em enormes pedras a fumar um cigarro e a descansar da subida. Às vezes a minha respiração ressentia-se do esforço. Repousava um pouco. E recomeçava. Às vezes saía dos trilhos e aventurava-me pela serra dentro. Mas nunca achei que a serra fosse muito perigosa. Lá de cima via sempre casas cá em baixo. Nunca me senti isolado. Só. Nunca imaginei que poderia vir a perder-me ou outra coisa qualquer pior. Mais tarde, no entanto, vim a saber de pessoas que tinham desaparecido na serra e nunca chegaram a ser encontradas. Nem nunca apareceu nenhum corpo. É verdade que a serra estava cheia de buracos, entradas para grutas, algumas delas ainda desconhecidas e por explorar. Às vezes as rochas impediam a progressão do caminho e tinha de voltar para trás. Às vezes perdia-me naquela beleza e via a noite tombar comigo fora dos trilhos. Sempre soube regressar ao trilho, ao sopé da montanha, ao carro. Essas pessoas que desapareceram, isso só soube mais tarde. Só soube isso numa altura em que já não podíamos passear assim pela serra.
Nas primeiras décadas do novo milénio, começaram a montar turbinas eólicas ao longo do cume. O cimo da serra, outrora orgulhosamente careca e de horizonte aberto, começava a ser inundado de turbinas eólicas numa tentativa verde de prescindir dos combustíveis fósseis. Não demorou muito para que, o que começou por serem pequenos actos de vandalismo, se tornarem verdadeiros actos de terrorismo.
Logo quando montaram as primeiras turbinas, os postes onde as hélices estavam plantadas foram grafitados. Nada de novo. Tudo o que era passível de ser grafitado, era grafitado. Qualquer muro, parede, superfície em branco era um convite ao grafite selvagem. Mas logo começaram os ataques à próprias hélices. Algumas delas já tinham sido deitadas ao chão antes ainda de estarem a funcionar.
Não tardou que a serra fosse vedada. Começava logo no sopé. Umas redes impediam a progressão de quem queria subir a serra. Mas havia vários níveis de protecção. As primeiras redes ainda se conseguiam ultrapassar. Depois, lá mais para cima, vinha o arame-farpado e mais acima, as cerca electrificadas. Também havia umas guaritas, em vários pontos da serra, com guardas-florestais recuperados por causa das turbinas eólicas.
A serra que tinha sido de toda a gente, um oásis de natureza tão rico, com tantos pássaros (ainda se viam, hoje, inúmeras águias e falcões e milhafres) e alguns animais no seu estado selvagem (lobos e linces), para além de algumas árvores que já só se encontravam ali, estava agora fechada ás pessoas. Só as empresas responsáveis pelas turbinas eólicas e as autoridades florestais lá podiam entrar. No início ainda houve algumas reclamações. Mas não deram em nada. E a serra acabou numa espécie de privatização de estado.
Mesmo assim, não acabaram os atentados terroristas. Diminuíram, mas não terminaram.
Agora eu passava os fins-de-semana no alpendre aqui de casa a olhar a serra à distância e a recordar as belas tardes em que me perdia nos seus trilhos. Tenho saudades desses tempos. Do silêncio que me acompanhava lá em cima. Da solidão que me permitia estar mais em contacto comigo próprio.
E pensava se todas estas coisas valiam a pena. Perder o acesso à beleza natural do mundo para ter acesso à beleza tecnológica do mesmo mundo. É claro que com tudo isto vinha o conforto, o prazer, o descanso. O conhecimento. E isso era bom, claro que era bom. Mas, e eu? O que é que eu podia fazer agora nas minhas tardes de Sábado e Domingo, agora que não podia subir à serra e ver todas as belezas que já só há nos livros de história?

[escrito directamente no facebook em 2020/02/20]

Está Calor

Vou numa estrada vazia, no meio do Alentejo. Queria ir para a praia, mas acho que me perdi. Já não sei bem onde estou. Está calor.
Ouço o carro refilar. Dá três solavancos e pára. Tiro as mãos do volante para ver se acontece alguma coisa. Não acontece nada. O carro parou. Vejo, por acaso, o manómetro do combustível. Vazio.
Saio do carro. Está calor. Arregaço as mangas da camisa. Transpiro. Não avisto uma única árvore perto. Não sei onde estou. Não sei se deva ir em frente para tentar arranjar ajuda. Não sei se deva voltar para trás.
Acendo um cigarro e encosto-me ao carro. Quando era novo, em Lisboa, quando estava a estudar em Lisboa, quando um miúdo da província conseguia ir estudar para Lisboa, e estava nas paragens à espera de autocarro que nunca mais vinha, era certo e sabido que, se acendesse um cigarro, o autocarro aparecia. Rasgava o pedaço queimado e guardava o resto do cigarro. Eram tempos de poupança.
Agora já fumei o cigarro quase todo e ainda não chegou o autocarro. Está calor.
Entro para dentro do carro. As janelas todas abertas. Não há uma aragem. Ouço a cantoria das cigarras.
Deito-me no banco de trás. Vejo a luz interior do carro acesa sobre mim. Penso que a luz acesa provoca mais calor. Mas não me consigo levantar. Fecho os olhos para a ignorar. Para não a ver. Talvez assim ela não exista e, quando voltar a abri-los, talvez esteja desligada.
De olhos fechados estou onde quero. Ou vou para onde me levo. Esqueço o calor. Banho-me num mar de ondas pequenas e suaves. Nado no meio de corpos. Há um mar de cadáveres à minha volta, a subir e a descer no suave ondular das ondas do Mediterrâneo. Abro o olhos assustado. A luz continua acesa. Está calor. Transpiro.
Ouço alguém chamar Olá, amigo!
Levanto-me e saio do carro. Lá fora está um homem a pé com uma bicicleta nas mãos e os pneus em baixo. Repete Olá, amigo! Eu respondo Boa-tarde! e ele continua Precisa de ajuda?
E lá vamos nós. Eu de boleia na sua companhia. Ambos a pé. Ele a empurrar a bicicleta com os pneus furados. Eu de mãos nos bolsos. A levantar o pó das bermas secas. Tenho sede. Está calor. Nem um cigarro me apetece fumar agora. Pingo pelo corpo todo. Mas tenho a boca seca. A garganta seca.
O homem diz-me que é já ali. Mas continuamos a andar. Continuamos a andar há já umas duas horas. Talvez três. O relógio de pulso parou. Não lhe dei corda. O telemóvel não tem bateria.
Queria estar na praia. Numa esplanada, na praia. Numa esplanada, na praia, a beber uma cerveja gelada.
Finalmente aproximam-se umas casas. Uns barracões. Não, nós é que nos aproximamos. O homem diz É aqui! E vai-se embora, levantando o braço num adeus que se prolonga até o perder de vista.
Eu dou a volta aos barracões. Acabo por encontrar uma porta. Um homem. Páro à entrada do barracão a olhar para o homem. Ele vê-me e fica à espera que eu diga alguma coisa. Mas eu não consigo. Tenho a garganta seca. Insisto. Consegue sair Água!
O homem aponta uma torneira com a cabeça. Corro para a torneira. A primeira água que sai vem quente. Mas eu meto a boca lá debaixo. Engulo, engulo, engulo. Ponho a cabeça. Esfrego a cara. Os braços. Bebo mais água até me sentir saciado. Depois digo Gasolina! Preciso de gasolina!
O homem pega no telemóvel e mexe-lhe. Vejo os dedos a escrever no ecrã táctil. Vejo-os a fazerem scroll. E a cara vira-se para mim e diz Só amanhã. Hoje já não há gasolina aqui perto. É o que me diz a aplicação.
E eu deixo-me cair no chão. De joelhos.
O homem aproxima-se de mim. E diz Vá lá! Não fique assim! Tem aqui onde ficar. Onde comer. Onde beber uma cerveja. Também há aqui uma piscina. Temos terminal de multibanco e funciona. Amanhã tratamos da gasolina.
O homem estende-me a mão. Ajuda-me a levantar. Leva-me para as traseiras do barracão. Vejo uma piscina de borracha. Grande. Um chapéu de sol. Uma mesa. Cadeiras. O homem diz Esteja em casa.
Ele afasta-se. Eu dispo-me. Fico nu. Mergulho na água quente da piscina, mas sabe-me bem. Dou mais três mergulhos e saio. Sento-me na cadeira à sombra. Seco num instante. Acendo um cigarro. Olho o horizonte plano e seco à minha frente. Penso que tive sorte em encontrar este oásis.
Uma rapariga aproxima-se de mim. Fico envergonhado e tapo-me com as mãos. A rapariga é engraçada. Ri-se. Coloca uma cerveja à minha frente. Em cima da mesa. Ao lado, um pequeno pires de tremoços. E diz Se precisar de mais alguma coisa, eu estou ali, e aponta-me para um outro barracão.
Ela vai-se embora e eu vejo-a ir. Está calor.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/14]

Um Tiro Disparado à Queima-Roupa

Acordei a ouvir falar numa criança e na doença que ela carrega. Uma doença rara. Ouvi dizer que havia um medicamento para esta doença rara que custava dois milhões de euros e sobre o qual, um médico, não sei que médico, mas um médico, dizia que não era uma cura, tão só uma ajuda a suportar a doença.
Uma doença, é uma doença. Rara ou comum, uma doença é uma doença. Mortal ou crónica, uma doença é uma doença. Há doenças piores que outras. Mas uma doença, é uma doença.
Um medicamento que custa dois milhões de euros não é um medicamento. É um euromilhões. Um medicamento que custa dois milhões de euros é uma escolha que está a garantir a imortalidade aos mais ricos dos ricos. Um medicamento que custa dois milhões de euros está a seleccionar quem pode viver. Quem pode morrer. Quem deve morrer.
Um medicamento que custa dois milhões de euros não é um medicamento, é uma dívida. Uma dívida para a vida. Para a vida da vida. Para a descendência. É uma hipoteca das gerações futuras. Para os filhos dos filhos dos filhos onde, entretanto, se encravou o elevador social, laboral e salarial e já não interessa a doença porque já todos têm uma sentença pendente sobre a sua vida. Um medicamento que custa dois milhões de euros é uma sentença de morte. É um tiro disparado à queima-roupa. É uma facada nos rins, e deixar morrer lentamente. É um deserto com o oásis a fugir com a linha do horizonte, e nunca se deixa apanhar.
Se eu tivesse dois milhões de euros gastava-os em álcool e gajas.
Se eu tivesse dois milhões de euros gastava-os a dar a volta ao mundo. A ver mundo. A beber o vinho do mundo. A amar as mulheres de todo o mundo. Perdia-me nas curvas das curvas, nas curvas do mundo, nas curvas das estradas, nas curvas das mulheres embriagadas e nas suas promessas de amor fácil e honesto. O amor é o que é. Ou não é.
Mas só tenho o resto deste Capataz em pacote. Até ontem ainda tinha a pornografia na internet. Mas já me cortaram a luz. A água. O gás. O cabo. A internet. O telemóvel. O meu último maço de cigarros jaz ali, no chão da varanda, amachucado, vazio.
Estou aqui em casa. À varanda do edifício que é a minha casa. Ou era, que já não sei nada de nada. Estou no Edifício Coutinho. A minha casa. Hoje de manhã acordei com os batuques dos martelos a desconstruir o prédio. Começaram no apartamento aqui mesmo ao lado do meu. Querem que eu saia de minha casa. Parece que é para o bem da comunidade. Bebo o último gole de vinho. Largo o copo, de vidro, e vejo-o cair lá em baixo na rua, mesmo ao lado de um segurança privado que levanta o punho em ameaça. Vai-te foder, pá! grito-lhe, mas sei que não me ouve.
Respiro fundo. Não tenho dois milhões de euros. Nem tenho uma doença rara. Sou só um gajo descartável igual a tantos outros que acabam por vociferar contra mim. Enganados.
Preparo-me para seguir o caminho do copo de vinho antes de ser atingido pela indiferença que anda a matar o século XXI.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/28]