Alguém Tem de Fazer Alguma Coisa

Eu vi-as chegar. Chegaram devagar. Foram chegando devagar mas, mal chegaram, instalaram-se e não foram mais embora. Cobriram tudo e trouxeram o medo.
Estava no alpendre a ler, pela enésima vez, O Segredo do Espadão, das Aventuras de Blake e Mortimer, a fabulosa série de banda-desenhada de Edgar P. Jacobs. Bebia um gin. Fumava um cigarro. E, de repente, comecei a perder leitura. A luz a ir embora. Eram três da tarde. Olhei para o céu e, ao fundo, umas nuvens escuras a cobrirem o céu e a taparem o caminho à luz do sol.
Pensei Vem aí temporal.
Pousei o livro. Levantei-me e cheguei-me à frente no alpendre. Olhei com mais atenção. Não pareciam nuvens de tempestade. O ar estava abafado. Sentia-se cheiro a queimado. Como porco no espeto.
Pensei São os chineses. Vêm aí os chineses.
Entrei dentro de casa. Voltei a sair. Agarrei n’ O Segredo do Espadão e levei-o para dentro de casa. Arrumei-o. Fui ao fundo do armário do meu quarto buscar a caçadeira. Agarrei nuns cartuchos e voltei ao alpendre. Liguei o iPad à procura de notícias. Liguei a TSF. Nada. Facebook. Fiz scroll. Comecei a encontrar umas notícias partilhadas de um enorme incêndio a lavrar na Amazónia.
Pensei O que é que isto tem a ver com aquilo?
As nuvens já estavam quase por cima de mim. A cobrir o céu. A cobrir-me a cabeça. Eu estava ali, no alpendre, com a caçadeira nas mãos, à espera dos chineses quando percebi que não eram os chineses.
Pensei São os brasileiros, porra! Como raio é que estas nuvens chegaram aqui?
A luz do dia desaparecera por completo. O dia fez-se noite. O céu coberto por nuvens de fumo pretas. Um cheiro incrível a queimado.
Entrei para dentro de casa. Fechei tudo. Portas e janelas. Liguei a televisão. Nada. A greve às horas-extra. Pedro Pardal no PDR por Lisboa, nas legislativas. Bas Dost e o Sporting. O clássico Benfica – Porto no Sábado. Mais nada. Nada sobre a noite comer o dia. O mundo ter enegrecido. E o Brasil ter ensandecido.
Peguei no iPad. Voltei às redes sociais. Ali, toda a gente comentava. E finalmente percebi. A Amazónia estava toda a arder. Atearam fogo à Amazónia para vender a madeira e aumentar o pasto para o gado. É a economia, estúpido.
Enquanto o mundo corria para o seu apocalipse na mão de idiotas demasiado estúpidos para perceber os erros que estavam a cometer, a outra mão, supostamente mais ponderada e inteligente, não estava a fazer nada. Estava perdida na sua própria inércia, motivada pela ideologia, economia, medo, diplomacia e, acima de tudo, não ingerência num país estrangeiro. Sem perceberem que éramos nós. A Amazónia éramos nós.
Ao fim de três dias de noite escura e cerrada, ninguém parecia ainda ter tomado alguma decisão que fosse para pôr termo ao que parecia a morte da floresta amazónica.
Então, eu peguei na caçadeira. Em várias caixas com cartuchos. Arranjei um farnel. Um naco de pão do Soutocico, Um bocado de queijo da ilha. Um chourição. Três maçãs e quatro laranjas. E uma garrafa da Cooperativa de Reguengos. Enfiei tudo numa mochila. A caçadeira na mão. Peguei no carro e fui até à Nazaré.
Entrei pelo porto dentro. Ninguém me impediu. Encontrei uma traineira. Subi à cabina. Liguei o motor. Saí do porto.
Pensei Em frente é para a América. Para sul, chego ao Brasil. Alguém tem de fazer alguma coisa.
Ando há umas horas no mar. Não vejo grande coisa mas, se continuar a direito, vou lá dar. Alguém tem de fazer alguma coisa.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/21]

Umas Nuvens Escuras Sobre a Montanha

Parei ali defronte da casa. Atrás de mim o caminho de terra batida. A leve aragem de Julho fazia levantar uma pequena poeira que mal se via, mas sentia-se nos pulmões quando inspirávamos. À frente, lá no cimo, a casa.
Abri o portão e comecei a subir a ladeira até casa. Dos lados, à laia de boas-vindas, a plantação de milho. Não muito. O suficiente para consumo próprio e algum excedente para ser vendido na feira de Domingo onde os vizinhos vendiam ou trocavam o que tinham a mais. Também havia umas batatas. Tomates. Algum feijão verde. Duas ginjeiras. Sem ginjas, claro, que os pássaros comiam-nas todas. Todos os anos era a mesma coisa. Era.
No fim desse campo cultivado que recebia quem chegava, a enorme nespereira onde eu costumava subir e olhar ao fundo a montanha.
Parei a olhar para ela. Já não me parecia tão grande.
Do outro lado, a um canto, a casota e o Piruças. Estava estático a olhar para mim. As quatro patas bem fixas no chão. Parecia de porcelana. Não ladrou. Deve ter-me reconhecido. Ficou quieto.
Continuei para casa.
A relva frente ao alpendre. Uma bicicleta encostada ao muro. Uma pá tombada. Um bola de futebol, vazia, perdida por ali.
Subi as escadas do alpendre. Vi a mesa de madeira. As cadeiras. O cinzeiro sobre a mesa. Caminhei devagar até à porta de entrada. Levei a mão à maçaneta e…
Virei-me para trás. Olhei para a montanha. Formavam-se umas nuvens escuras sobre a montanha. Vinha lá chuva, pensava eu.
Larguei a mochila no chão. Sentei-me numa das cadeiras. Puxei de um cigarro e acendi-o.
No caminho em frente, lá em baixo, passou uma carrinha. Levantou uma poeira seca. Ao fundo, mais perto da vila, o motor de uma motorizada. Uma Zundapp, com certeza.
Olhei a maçaneta da porta.
Acabei de fumar o cigarro e apaguei a beata no cinzeiro.
Recostei-me na cadeira. Mais ao longe, ainda, um cão a ladrar. Aqui mais perto, o Piruças respondeu. Depois, houve outros na conversa em cadeia.
Vem lá chuva, pensei.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/21]