O Clichê

Estávamos os dois deitados, lado a lado, em cima da cama desfeita. Os dois de barriga para cima. Nus. Transpirados. Eu olhava para o tecto. Acho que ela também. Sentia o pé dela a tocar o meu. A unha do dedo grande do pé dela arranhava-me na planta do pé, fazia-me ligeiras cócegas e magoava-me, e era um magoar estranhamente bom. Não era prazer mas, aquela pequena dor, como uma navalha a cortar-me levemente, era agradável. Estranhamente agradável.
Lá fora chovia. Chovia que Deus-a-dava. Chovia tanto que a conseguia ouvir através dos vidros duplos da janela do quarto.
A luz do dia estava baixa. Na rua os automóveis já circulavam com os faróis ligados. Eu via o reflexo das gotas da chuva a escorregar pelos vidros da janela no tecto, projectado pelos faróis dos automóveis em circulação.
A minha respiração começou a acalmar. Deixei de transpirar. Comecei a sentir um ligeiro frio. Especialmente nos sítios por onde senti escorrer as gotas da transpiração. A magia do sexo estava a perder o seu efeito. Puxei o edredão para cima e tapei-nos. Aos dois. E ficamos ali assim, lado-a-lado, a olhar para o tecto, tapados pelo edredão.
A casa estava quase em silêncio. O som distante da chuva na rua e a nossa respiração. Mais a minha que a dela. A minha asma sobrepunha-se a tudo. Acalmei.
Por baixo do edredão a mão dela agarrou na minha. Deixei que a agarrasse. Continuei a olhar o tecto.
Tinha chegado mais cedo e fui buscá-la ao trabalho. Estava a chover e ela estava sem carro. Viemos logo para casa. Ainda lhe perguntei se queria beber uma cerveja. Ou um café. Ela olhou para mim e disse Vamos para casa. E viemos para casa. E, já dentro de casa, quando eu ainda estava a enfiar a chave na fechadura e a fechar a porta à chave, já ela estava a despir-se enquanto caminhava para o quarto. Ia deixando as roupas pelo caminho, como se fosse uma pista para eu seguir e encontrá-la.
Quando entrei no quarto já ela estava dentro da cama. Despi-me rápido e fui ter com ela. Enfiámo-nos os dois debaixo do edredão. A minha cara em frente à cara dela. O meu nariz quase a tocar o nariz dela. O seu hálito quente, e um pouco adocicado, e entrar-me pelas narinas. Disse-lhe Amo-te. Ela disse Também te amo. Beijei-a. Beijou-me. E os nossos lábios, e as nossas línguas, e as nossas bocas invadiram todos os pedaços mais íntimos de cada um de nós e deixámo-nos ir por ali fora, loucos, diabólicos, consumidos, numa velocidade terminal e poderosa.
Estiquei o braço e apanhei um cigarro. Acendi-o. Dei duas passas e vi o fumo subir até ao tecto. Como um balão de diálogo numa banda-desenhada. E ouvi-a dizer Somos um clichê. E eu respondi Sim. E passei-lhe o cigarro para as mãos. Ele deu umas passas e devolveu-me o cigarro. E eu disse Gosto de clichês. E ela respondeu Eu também.
Por baixo do edredão, a mão dela apertou a minha. As unhas dela espetaram-se na minha mão. Magoaram-me. Aguentei sem queixume. Ela teve um estertor. Senti-lhe o corpo tremer. Senti-lhe as convulsões. Virei-me para ela e vi a língua sair da boca e lamber os lábios. Os olhos fechados. Os lábios um pouco abertos e um pequeno gemido a sair, sorrateiro, de dentro dela. Depois parou. Afrouxou a mão dela na minha. Mas não a largou. O pé dela esfregou-se no meu. Abriu os olhos. Olhou para mim. Viu-me a olhar para ela. Sorriu. Tirou-me o cigarro dos dedos. Fumou-o. E disse Gosto muito de ser um clichê. Passou-me de volta o cigarro e eu sorri-lhe.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/15]

O Carteiro Toca Mesmo Sempre Duas Vezes

Eu estava a beber. Ela também. Estávamos alegres. Bem-dispostos. Estávamos em casa. Ela começou a despir-me. Eu despi-a. Caímos os dois no chão da sala. Ela ficou por baixo de mim. Acabou com as costas queimadas de roçar na carpete. Eu esfacelei os joelhos e os cotovelos. No fim fumei um cigarro. Nu. À janela. Ela não, que não fumava. Mas a boa disposição não durou muito. Ela tinha parado de tomar os comprimidos para não perder a libido e não me perder. Começou a enervar-se. Primeiro foi o cigarro. O fumo do cigarro. Depois o estar nu à janela. Zangou-se comigo. Levantou-se uma discussão feia. Nem parecia que tínhamos estado tão bem alguns minutos antes. E pôs-me fora de casa. Assim. Num estalar de dedos. Põe-te a andar! disse.
Eu fiz uma pequena mochila e saí de casa.
Sentei-me num banco de jardim no pequeno largo em frente a casa. Dali eu via as janelas. De casa ela via-me ali em baixo.
Raios partam a gaja! pensava eu enquanto acendia um cigarro e ia olhando para a janela de casa dela. Não via nada. Nada de nada. As cortinas tapavam tudo. Nem me via nu, à janela, a fumar um cigarro depois de ter feito amor com ela.
Veio a noite. Deitei-me no banco. Enrolado sobre mim próprio. A cabeça sobre a mochila. Para onde é que havia de ir? Não tinha dinheiro para um hotel. Não ia para casa da minha mãe. Fiquei ali. No banco de jardim. Frente à casa dela.
Estava com fome. Mas acabei por adormecer.
Fui acordado de madrugada. Já se via o dia clarear atrás da montanha que rodeava a cidade. Fui acordado com o telemóvel a tocar. Era ela. Anda para casa! dizia.
E eu fui para casa. Para casa dela.
Mas isto voltou a acontecer mais vezes. Ela voltou a não tomar os comprimidos. Bebíamos cada vez mais. Passávamos os dias nus a andar por casa. Ela trabalhava em casa. Eu estava sem trabalho. Bebíamos e comíamos. E fazíamos sexo. Dançávamos. Dançávamos muito. Dançávamos nus, enrolados um no outro. Às vezes estávamos alguns dias sem tomar banho. Íamos para a cama. Depois para o sofá. Para a mesa da cozinha. À porta da rua a ouvir o elevador a subir e a descer. Também aconteceu no duche, numa das poucas vezes, nesse período, em que tomámos banho.
Durante essa época fui posto na rua mais três ou quatro vezes. De todas as vezes ela acabava a mandar-me subir. E eu era bem-mandado. Saía de casa quando ela me mandava embora. E voltava a subir quando ela me chamava. Foi um período um bocado esquizofrénico. Muito amor. Muito ódio. Muito sexo. Muita loucura.
Este foi um período muito estranho. Bebia muito. Ela também. Eu fumava. Ela não, não fumava cigarros. Mas acompanhava-me nas ganzas. Nessa altura fazíamos grandes banquetes. Experimentávamos cozinhados com o que havia lá por casa e, normalmente, acabávamos no chão da cozinha, um em cima do outro, às vezes violentamente, a tentar descobrir até onde é que conseguíamos ir. E fomos muito longe. E fomos, por vezes até, demasiado longe. Mas não quero falar sobre isso.
Ela continuava sem tomar os comprimidos.
A última vez que me mandou embora eu fui, mas dessa vez não fiquei no banco de jardim. Também, já era Inverno, estava frio e ameaçava chuva. Ganhei coragem e fui para casa da minha mãe. O telefone voltou a tocar de madrugada. Mas dessa vez não atendi. E durante essa semana, nunca atendi o telefone. E depois, as chamadas dela foram espaçando-se no tempo. Até se extinguirem por completo.
Eu acabei por arranjar um trabalho. Continuei a viver em casa da minha mãe. Afinal, não estava lá mal.
Hoje estava no Pingo Doce, um pequeno Pingo Doce que existe ao pé de casa da minha mãe, estava a comprar umas cavalas para ela cozer (ela gosta de cavalas cozidas com feijão verde) quando a vi. Ela estava parada, ao lado dos congelados, a olhar para mim enquanto eu pedia à senhora do supermercado para amanhar umas cavalas.
Ela tinha uma garrafa de Mouchão nas mãos. E disse Olá. Eu fiquei a olhar para ela. Para ela e para a garrafa de Mouchão. Foda-se! pensei. Larguei as cavalas e o cesto com as compras que estava a fazer para a minha mãe e saí com ela do supermercado.
Fomos para casa dela.
Eu comecei a beber. Ela também. Já estávamos alegres. Bem-dispostos. Estávamos em casa dela. Ela começou a despir-me. Eu despi-a. Caímos os dois no chão da sala. Eu levantei-me e vim até à casa-de-banho. Ainda cá estou. Queria ir-me embora. Não devia ter vindo. Não devia ter vindo para casa dela. Não quero voltar a passar pelo mesmo. Eu estou nu aqui dentro. Aqui na casa-de-banho. Ela está nua na sala. À minha espera. E eu quero ir-me embora. Mas não sei como.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/23]

Dia de São Martinho

Aproximava-me de casa e sentia o cheiro. O cheiro de lareira. A lenha queimada.
A vizinha do lado já tinha inaugurado a época da lareira. Agora era diário. Todos os dias acendia a lareira. Eu sentia o cheiro logo ao início da rua. E dava-me uma certa inveja. Este ano, como no anterior, aliás, não tive dinheiro para encher o canto da garagem. Consegui só meia-dúzia de pequenos toros que roubei no que resta do incêndio do Pinhal do Rei. A caminho do Vale Furado ou da Praia do Norte, há pilhas de troncos à espera de serem levados para qualquer lado. Há dois anos. Ainda não foram. Já tentei lá ir buscar alguns, mas são pesados e não me cabem no carro. Apanhei uns toros pequenos que encontrei caídos por lá, mais uns gravetos e umas pinhas. Estou a guardar isso para a noite de Natal. Talvez também para a Passagem de Ano. Assim vou poder estar no quente enquanto vejo, na televisão, as festas dos outros. Talvez passe outra vez Do Céu Caiu uma Estrela.
Ao chegar a casa tinha sempre a esperança que a vizinha me convidasse para lá ir comer umas castanhas assadas na lareira. Mas não. Mal nos falávamos. Quando me cruzava com ela nas escadas do prédio ela olhava para mim, olhava-me nos olhos, à espera que eu dissesse alguma coisa, mas a única coisa que me saía era um monossílabo que acho que ela nem ouvia.
Sou uma pessoa tímida.
Ela também deve ser.
Eu subia as escadas. O cheiro era cada vez mais forte. No patamar do andar, encostava o ouvido à porta de casa dela, mas não ouvia nada. Nunca ouvia nada. Mas todos os dias repetia o mesmo ritual. O ouvido encostado à porta à escuta. O crepitar na lareira. A respiração ofegante da minha vizinha com algum putativo namorado. Nah! Ela não tinha namorado. Nunca vi ninguém entrar lá em casa. Mas não ouvia nada. Nenhum barulho.
Depois ia para a minha porta, abria-a e entrava em casa.
Largava a mochila com o computador no chão do corredor, à entrada, ia até à sala e deixava-me cair no sofá.
A maior parte das vezes acendia um cigarro e fumava-o enquanto olhava para o ecrã negro da televisão. Não ligava a televisão. Limitava-me a olhar para ela. E fumava o cigarro. E, depois, invariavelmente, adormecia. Acordava horas mais tarde cheio de frio e de fome. Agarrava numa manta que, afinal, estava sempre em cima do sofá e enrolava-me nela. Ia à cozinha ver o que havia para comer. Quase nunca havia nada para comer. E eu dizia, de novo, e outra vez Amanhã tenho e ir ao Supermercado! mas nunca ia. Esquecia-me de ir.
Bebia um copo de água. E ia para a cama. Às vezes deitava-me assim vestido e enrolado na manta. Mas custava-me adormecer porque me sentia preso. Assim, deitava-me vestido e enrolado, até me sentir quente e depois tirava a manta para fora. Despia-me debaixo do edredão e, então, deixava-me adormecer.
No outro dia a campainha tocou quando estava no sofá a fumar um cigarro. A mochila com o computador estava caída no corredor à entrada de casa. Perguntei da sala Quem é? E uma voz respondeu Sou eu! Eu aproximei-me da porta e espreitei pelo óculo. O eu era ela. A minha vizinha. Abri a porta. E ela disse É dia de São Martinho. Tenho castanhas assadas e água-pé. Os miúdos estão com o pai. Preciso de companhia. Eu olhei para ela surpreendido com o convite, com o cigarro preso entre os dedos da mão, e ela ainda disse E podes trazer o cigarro.
Eu fui e ainda não voltei.
Agora estou sentado na cama dela a fumar um cigarro. Ela dorme agarrada a mim. Estamos os dois nus. Eu estou a pensar no que aconteceu. E ainda não consegui perceber muito bem.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/12]

A Caixa

Encontrei-a quando fazia a mudança da minha mãe. Ao levar todas as tralhas dela de uma casa para a outra, encontrei uma tralha minha. Uma caixa. Uma caixa, guardada, guardada e perdida em casa da minha mãe há já muitos anos. Uma caixa que já não recordava. Salto de cama para sofá-cama, entre casas de amigos e conhecidos, entre camas de namoradas e restos de uma noite sem história, sem pouso certo, vou largando restos do que acumulo por aí, por onde calha, em casa deste e daquele, desta e daquela, em casa da minha mãe, afinal, a casa mais próxima do que alguma vez poderia chamar minha. E descobri-a.
Sentei-me no chão sujo (a quantidade de lixo que se vai largando enquanto se fazem mudanças! onde estava todo este pó? todo este lixo?). Esperei. Tentei refrear a ansiedade. O que estaria ali, dentro daquela caixa? O que estaria ali, debaixo daquela tampa que iria levantar?
E levantei.
A primeira coisa que vi foi a minha câmara Sony PC4, com a qual fiz o meu primeiro filme. Onde está esse filme? Onde param todas as cópias? E a montagem original? E as cassetes miniDV onde foram captadas todas as imagens e sons do filme?
Ao lado da câmara estava um action figure do Batman. Lembro-me que veio em cima de um bolo de aniversário. O bolo foi-se, o aniversário também, mas o Batman, cinzento e preto, ficou.
Há também um discman que guardei aqui quando comprei o primeiro MP3, da Creative, que, afinal, era apenas uma pen com auscultadores. Mas funcional. E era muito fácil passar música para este leitor de MP3. Não sei onde é que ele pára. Provavelmente nalguma outra caixa para onde foi remetido depois de aparecer o iPod Nano que ainda hoje tenho e funciona.
Há uma pilha de cadernos e sebentas e agendas da Moleskine cheias de palavras, textos, estórias, poemas medíocres, desenhos e outras coisas que me descrevem ao longo dos anos. É melhor queimar tudo isto. Há para aqui coisas que não são para os olhos de ninguém, algumas delas já nem sequer para os meus. Às vezes o passado envergonha-nos. Mas nem tudo é mau. Há aqui alguns textos que subscrevia. Rescrevia. Assinava. Hoje.
Há também uma caixa de Rebuçados de Ovo de Portalegre da Fábrica de Rebuçados de Santa-Clara que abro e descubro uma série infindável de canetas e lápis, lápis de várias cores e números, e todos afiados, e canetas de vários feitios. No fundo da caixa uma borracha da Rotring e uma afiadeira de metal, em forma de cunha.
Há também uma outra caixa, esta de cartão, preta, sóbria. Lá dentro tem uma caneta Mont Blanc pequena, de tinta permanente, que quis preservar. Nunca a usei. Nunca a tirei da caixa. Foi uma prenda de aniversário. Sempre tive boas prendas de aniversário. Acho que tive uma boa vida. Bons amigos. Boas memórias.
Há uma bola de neve com dois esquimós a beijarem-se. Daquelas bolas que se agitam e aparece neve a flutuar.
Uma outra caixa, de chocolate belga, alberga várias chaves, muitas chaves, quase todas com porta-chaves. São as chaves das casas por onde passei. E foram tantas. Ainda abrirão as mesmas portas? ou as fechaduras foram mudadas? Ainda estarão à minha espera? ou já me esqueceram? Acho que poderia fazer uma exposição com tanta chave, de tanta forma e feitio. Há uma delas que acusa ferrugem. Não sei o que é que esta chave abria. Uma parte do passado fugiu, outra escondeu-se. A memória é um mundo por descobrir. Poderia passar o resto da minha vida a lembrar as vidas que já vivi.
Há também uma ventoinha manual, pequenina, de agarrar numa mão, apertar uma mola e disparar a ventoinha de três pás que manda ar frio para onde quiser. As pás da ventoinha estão numa espécie de maçã com uma dentada, como se fosse o símbolo da Apple. Deve ser coisa de chineses. Sei perfeitamente quem me deu esta ventoinha. Gente que não vejo desde o princípio dos tempos.
Há ainda uma lanterna a dínamo da Quechua cuja borracha está toda peganhenta, desfaz-se nas minhas mãos e tenho de as ir lavar antes de voltar ao teclado do computador. Guardei muita merda. Muitas destas coisas são lixo.
Um maço de papéis revela as primeiras facturas de água e luz que vieram com o meu nome. As primeiras facturas que eu paguei, numa casa que era minha, cuja renda era eu que pagava, e do qual recebia um recibo com o meu nome. Há coisas que nunca mais voltam.
Por baixo das facturas, uma pequena caixa com uma pen da Kanguru para ligação à internet numa altura em que quase não havia wireless, em que éramos todos muito info-excluídos, mas nem mais felizes nem mais infelizes. Éramos só outros, numas vidas como estas mas diferentes. Será que isto ainda funciona?
Há também uma série de DVDs graváveis. Devem ter filmes e fotografias minhas. Será que descubro aqui fotografias de ex-namoradas? Fotografias de nus? Filmes de sexo? Eu a ter sexo com… Já nem me lembro. Já não recordo se as guardei aqui ou não. Tenho de descobrir uma maneira de ver isto. O meu computador já não tem leitor de DVDs.
No fundo da caixa descubro uma pequena pilha de cartas. Agarro nelas. Leio os endereços. Nomes diferentes. Moradas diferentes. Nomes de mulher. Nomes de homem. Acendo um cigarro. Encosto-me à parede. Abro uma carta. Uma qualquer. Não leio o nome de quem a envia. Não importa. Só quero ler o que já li. Só quero recuperar um tempo. E leio:
Olá meu querido, Como é que estás? É com muita saudade que olho para trás e vejo já tão distante o Verão em que nos conhecemos e passámos juntos na praia. Depois olho em frente e reparo como falta pouco para nos reencontrarmos. Voltamos ao mesmo sítio? Voltas ao mesmo sítio?
Sorrio. Escrevíamos cartas assim? Escrevi cartas assim?
Deixo cair a carta e abro outra. Sinto o coração aos saltos. Está vivo. Estou vivo. A história não é sobre os mortos. É sobre os vivos. Uma história que se perpetua nos tempos, assim a lembremos, assim nos lembremos.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/25]

Uma Cama de Corpo-e-Meio

Todas as Quartas-feiras eu ia ter a casa dela. Ia logo de manhã, depois dos pais terem saído para o trabalho e a irmã ter ido para a escola. Em dias de chuva ou de sol, lá estava eu a tocar à campainha na forma de um código de toques, para ela saber que era eu e, se os pais e a irmã já tivessem saído de casa, ela dizia Sobe, babe! pelo intercomunicador e só depois abria a porta da rua. Nunca foi diferente. Os pais, ou a irmã, nunca, por uma vez que fosse, estiveram em casa numa Quarta-feira durante aquele ano.
Eu subia o elevador numa excitação tal que, nas primeiras Quartas-feiras, só com a expectativa do que se adivinhava, vinha-me antes de lá chegar. Era com enorme vergonha que a via a olhar para a mancha nas calças com que eu entrava em casa dela. Mas o desejo era maior que a vergonha.
Ela estava quase sempre de pijama. Às vezes de camisa de dormir. Mas normalmente era de pijama, naqueles pijamas de turco, amarelo, com um desenho infantil qualquer à frente, mas que já não recordo.
Pegava em mim, pela minha mão, e levava-me para o quarto que era dela. Dela e da irmã. E ficávamos lá os dois sozinhos, toda a manhã, até quase à hora do almoço, altura em que saíamos de casa dela e íamos até ao liceu almoçar e às aulas da tarde.
Às Quartas-feiras não tínhamos aulas de manhã. Era a única altura em que não tínhamos aulas, numa semana bastante preenchida de manhã até ao final da tarde. E tudo começou com um trabalho de grupo. Uma trabalho de grupo que acabou por ser a dois. Em casa dela. No quarto dela. Com ela. E tudo aconteceu. De uma forma natural. Tão natural como estas coisas podem acontecer. Uma anedota ou outra. Um sorriso. Depois um riso. Uma conversa sobre gostos, paixões, desejos. Encontros nos livros mas, principalmente, nas bandas de música. A vontade de tocar. De beijar. E, depois, depois passou a acontecer todas as Quartas-feiras.
Eu saía de casa para as aulas, só que não tinha aulas. Fazia o caminho a pé, a gerir as expectativas. Pensava naquelas três horas em que ia estar junto dela, em casa. Sozinhos. Nus. Na cama pequena dela. Na cama pequena em que tínhamos de estar muito juntos, agarrados, para nenhum de nós cair. Ou ela em cima de mim. Para cabermos os dois. E como ela gostava de estar em cima de mim! E eu gostava que ela estivesse em cima de mim. Gostava de a ver cá de baixo. O corpo dela a crescer sobre mim. Os olhos semi-cerrados. A cabeça a bailar. Os braços esticados ao céu. Às vezes, as gotas de transpiração que eu via na sua trajectória pelo corpo dela, até caírem sobre mim, sobre o meu corpo, a minha cara, a minha boca, e eu saborear todo aquele sal que o corpo dela exalava.
Isto começou a meio do primeiro período e durou até ao final do ano. Acabou quando as aulas acabaram. Cada um foi para as suas férias e, no ano seguinte, fomos parar a turmas diferentes e nunca mais tivemos uma Quarta-feira. Sim, porque a nossa relação resumia-se às Quartas-feiras. Em casa dela. No quarto dela. Na cama dela. Fora dali tínhamos uma relação quase inexistente. Não éramos namorados. Nem sequer amigos próximos. A nossa proximidade estava toda ali, naquele quarto, às Quartas-feiras.
Houve um dia em que as coisas tiveram uma narrativa diferente. Naquele dia ela levou-me para a cama dos pais. A cama estava por fazer. Era ela que a deveria fazer. Mas antes de puxar os lençóis e os cobertores, deitou-se lá em cima e puxou-me para cima dela. E invadimos a cama dos pais, ela e eu, e desfizemos ainda mais a cama. No fim fomos para a varanda fumar um cigarro, sentados no chão da varanda, a olhar para o céu azul carregado de nuvens brancas como algodão doce. Deixámos a porta da varanda aberta para arejar a cama. Depois eu ajudei-a a fazê-la. E fomos para o liceu.
Nesse dia, ao final-do-dia, quando cheguei a casa, soube que o meu pai tinha morrido num acidente automóvel. O resto do ano foi muito doloroso. As notas acabaram por se ressentir. Consegui passar de ano à tangente. Mas nunca falhei uma Quarta-feira. Não, as Quartas-feiras eram sagradas. Ainda hoje não consigo dormir em camas-de-casal. Ainda hoje durmo sozinho, numa cama de corpo-e-meio.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/31]

Na Praia do Malhão

Ela pôs-me as mãos em cima e eu senti-me logo excitado.
Estávamos na praia do Malhão. Mal chegámos à praia e tirámos a roupa eu comecei logo a sentir um certo frémito pelo corpo.
Não era só a vista dos corpos nus ali à minha volta e dos quais não conseguia desviar o olhar. Era o facto de estar livre, de me sentir solto e perceber a leve brisa fresca que vinha do mar a acompanhar o balanço que a pila levava, de um lado para o outro, à medida que íamos caminhando ao longo da praia, à procura do nosso sítio.
Encontrámos o nosso local. Era mesmo ali aquele. Afastado, mas perto. Havia gente, mas não estava à pinha. Tínhamos companhia, mas não precisávamos de ouvir a respiração de cada um deles. Cada pessoa naquela praia, tinha espaço suficiente para estar descansado. Poder deitar-se ao sol e deixar-se adormecer enquanto o sol nos trabalhava o bronze.
Uma espécie de paraíso alentejano. E tudo isso estava a contribuir para a minha excitação.
Então, quando ela colocou o factor 25 nas mãos e o começou a espalhar pelos meus ombros e costas, foi o clique.
E aqui estou eu. De costas para ela. De pau feito. A tentar esconder a minha tesão de toda a gente. Que vergonha! Quando ela acabar de colocar o creme, dou uma corrida rápida até ao mar e mergulho logo.
Qual é a equipa do Benfica para este ano? O guarda-redes é o…
Ainda me lembro quando fui pela primeira vez ao Meco. Com umas amigas. Ainda um puto um pouco mais que adolescente. E ainda me lembro de como fui logo a correr até ao mar e mergulhei vestido para esconder o volume que me crescia dentro dos calções. A água ajudou a matar aquela excitação precoce, mas tive de andar a fugir aos corpos nus que se cruzavam à minha frente. Tive de ignorar os corpos das minhas amigas. O que não deixou de ser uma tristeza. Fui ao Meco com elas, várias vezes, e nunca as vi nuas. Tinha sempre de desviar o olhar. Naquela altura tinha o sangue ainda mais quente. E qualquer coisa mínima, que lembrasse sexo, era suficiente para me excitar.
Portanto o guarda-redes do Benfica é… Este ano, é…
É agora. Vou agora ao mar.
E ela pergunta Onde é que vais? Vira-te para cá para te colocar protector no peito.
E eu digo Já venho. Tenho mesmo de mergulhar. Estou muito quente. Estou com muito calor.
Levanto-me e corro. Corro e tento esconder aquela excitação com as mãos enquanto estico as pernas pela areia quente da praia e rezo para que ninguém me veja. Chego ao mar, mergulho de imediato, nem sequer tenho tempo para pensar que a água está fria e eu quente do sol e que devo ir devagar por causa do choque térmico e…
Mergulho.
Nado. Dou umas braçadas lá para a frente. Volto para trás. Sinto as coisas mais calmas. O corpo mais tranquilo. Saio do mar. Olho-me e vejo a minha pila encolhida com o frio da água. E sinto que já estou em condições para andar ali no meio das outras pessoas.
Subo à toalha. Deito-me. De barriga para cima. Ela dá-me um beijo. Eu abro um pouco os olhos, semi-serrados pelo brilho do sol, e vejo-a nua. E sinto que estou tranquilo. Tudo estava tranquilo. E sorrio-lhe.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/11]

No Rio Lena

Desço a Serra dos Candeeiros. Tirei boas fotografias. A Serra é bonita na sua austeridade. Vegetação rasteira. Pedras. Pedregulhos. Uma certa aridez. Depois, uns tufos de árvores muito verdes. Assim muito juntas. Como um ramo. Uma casa ou outra à distância. E a omnipresença da torres eólicas. Gosto da sua dimensão majestosa. Mas é difícil fugir-lhes.
Lá pelo meio, umas cabras. Umas ovelhas. Encontrei uns namorados. Estavam nus. Encostados ao carro. Fotografei-os. Não deram por mim.
Estou a descer a Serra. Cruzo-me com uns vendedores de fruta. Estão num cruzamento. Páro o carro. Compro umas cerejas. Mas estão um pouco esbranquiçadas. Compro também uma melancia. Cheira bem. É pesada. Mas as pontas estão macias. Pago. Volto a arrancar.
Na rádio, percebo que está a começar o jogo da final da Taça de Portugal entre o Sporting e o Porto. Estou perto de Porto de Mós. Estou nas margens do rio Lena. Volto a parar o carro. Estou no pinhal. Saio. Ouço a água do rio a correr suavemente. Este rio é pouco caudaloso. Às vezes seca. Mas agora ainda leva água. Refresca o ambiente. Tiro uma manta do porta-bagagens. Olho para as cerejas, mas vejo-as tão pouco convidativas que as ignoro. Agarro na melancia. E no canivete-suíço que anda sempre no porta-luvas do carro. Deixo a porta aberta para ouvir o relato no rádio do carro. Sento-me na manta. Começo a cortar a melancia. A tarefa não é fácil porque a lâmina é curta e não chega ao fim da melancia. Corto pedaços pequenos. Vou comendo-a aos poucos. Devagar. E ouço o relato.
Sabe-me bem a melancia. Não está muito fresca. Mas está saborosa.
Acendo um cigarro. Deixo-me cair na manta. Olho para o céu. Não há nuvens. Não posso imaginar caras, bonecos, animais nas nuvens brancas do céu porque não estão lá. Olho o céu azul limpo. Um azul chroma. Vejo o fumo do cigarro a subir. Ouço o Lena a correr ali ao lado. O Sporting a medir forças com o Porto. Gosto desta calma. Gosto desta solidão.
Levanto-me da manta e vou até ao rio que mais parece um pequeno ribeiro. As margens estão verdes. Há uma mulher a molhar os pés nas águas frescas do rio que mais parece um ribeiro. Levanta ligeiramente o vestido, com as mãos, para não o molhar. Ela vira-se para trás. Olha para mim. É belíssima. A mulher mais bonita que vi na vida. Ela sorri. Eu vou até ela. Entro com as sapatilhas e as calças dentro de água. Aproximo-me dela. Vou para falar mas não sai nada. Estou mudo perante a sua beleza. Ela levanta uma mão à minha cara. Afaga-a. Puxa-me. Abraça-me. Envolve-me. Beija-me. E eu deixo-me ir. Beijo-a. Abraço-a. Sinto uma força electrificada a percorrer-me o corpo. Sinto que caímos abraçados. Caímos no rio. Caímos mas flutuamos. Abraçados um ao outro. Num beijo longo e molhado. As mãos percorrem os corpos. As minhas e as dela. No meu e no dela. E parece que temos quatro. Oito. Doze mãos. Mãos que libertam os corpo e os levam para fora da realidade. Para lá do rio. Para lá do céu azul.
E depois ouço Grandes penalidades. E não entendo. Grandes penalidades. Um bruá geral. Gritos. Palmas. E está tudo azul. Um azul menos forte. Mas ainda azul. É o céu que está azul. Um céu sem nuvens. Tenho uma beata apagada entre os dedos. Há cinza na manta. Uma melancia quase inteira. Ouço a água a correr no Lena, ali ao lado.
E alguém muito histérico grita Sporting, Sporting, Sporting!
E percebo que estava a sonhar. Não existe a mulher mais bonita que já tinha visto. Ouço o final da Taça de Portugal. Percebo que o Sporting venceu o Porto nas grandes penalidades. Depois de noventa minutos empatados. Depois de mais um prolongamento empatado. Venceu nas grandes penalidades.
Levanto-me. Arrumo a melancia. A manta. Desço ao rio para lavar as mãos. E vejo uma mulher no rio. A mulher mais bonita que vi na vida. Está a molhar os pés nas águas frescas do rio. Com as mãos, levanta ligeiramente o vestido para não o molhar. Olha para mim. Olha para mim e sorri.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/25]