Um Fantasma Caminha pela Cidade em Tempos de Emergência

Caminho pelo passeio irregular de calçada portuguesa. Quando era criança caminhava só pelas pedras azuis, fazia as curvas com ângulos de noventa graus e às vezes, a minha mãe tinha de esperar por mim ao fundo da rua que as pedras azuis afastavam-me dela, do trajecto dela, e depois era o cargo dos trabalhos para regressar ao regaço familiar sem pisar nas pedras brancas. Agora ignoro as linhas, os desenhos, as cores das pedras. Agora caminho a direito ao longo do passeio indiferente aos desenhos marcados na calçada.
Caminho numa cidade quase-fantasma. Não há mais ninguém a caminhar na rua. Algumas lojas estão fechadas. Outras estão abertas. Mas estão vazias. Não há clientes. Vejo, através das montras, um solitário atrás do balcão à espera do improvável cliente para um qualquer produto não-essencial. Caminho sozinho pelo passeio, mas há mais carros na estrada, parece-me. Sinto o cheiro do combustível queimado. Não é normal sentir este cheiro. Talvez eu esteja demasiado sensível. Talvez o cheiro esteja mais forte. Talvez haja mais carros na cidade. Talvez se queime mais combustível. Talvez seja as profundezas da cidade em ebulição.
Passo ao lado da garagem dos autocarros. A enorme porta de ferro pintada de azul celeste está corrida. Não há autocarros a partir dali. Talvez passem pela cidade a caminho de outros destinos mais distantes e mais importantes. Talvez passem pela cidade e larguem algum passageiro. Talvez levem outro. Mas daqui não sai nenhum autocarro. A cidade é pequena. Não tem importância política e muito menos económica. Ninguém vem para esta cidade. Só eu.
O tempo está cinzento. Não está frio, também não está calor, mas está desagradável. Sinto um desconforto desde que cheguei à cidade. Como se alguma coisa se abatesse sobre mim. Mas eu tive sorte. A mim vieram trazer-me. Eu estava fora e trouxeram-me. Livraram-me de uma viagem de autocarro, provavelmente cheio, cheio de gente que não saberia de onde vinha, com quem teriam estado e se transportariam algum inferno dentro deles.
Páro um pouco na rua e olho os prédios em frente, do outro lado da estrada. Há gente nas casas. Mas não há gente nas varandas. Como se estivessem escondidos. Com medo. Acendo um cigarro. Retomo o caminho. Penso no Harrison Ford de cigarro ao canto da boca (se calhar não havia cigarro) e gabardina de três quartos, gola levantada a proteger o pescoço da chuva miudinha que teima em cair, a caminhar ao longo de uma rua de neons e fumo que sai de vários sítios e ampliam aquela imagem de herói-anti-herói rebelde do Blade Runner, que por vezes se mistura com as sombras que o devoram, e sinto-me como ele, de casaco curto e de corte mais clássico, cigarro nos dedos da mão a caminhar ao longo de uma rua deserta à luz de um dia cinzento. Não, eu nunca poderia ser um Rick Deckard. Não sei caminhar daquela forma como se dominasse o mundo e o fosse devorar. Eu encolho-me a um simples aviso de alerta. Eu evito entrar em autocarros que possam vir cheios e contaminados. Eu sou um medricas que só não é cobarde porque nem tem coragem para o ser.
Ouço um som melodioso. Um som de piano que vem lá da frente. Aproximo-me e o som aproxima-se de mim. É uma melodia bastante agradável. Suave. Parece pegar em mim e levantar-me no ar e, por momentos, pareço flutuar. Aproximo-me do largo do Teatro e vejo um homem sentado a um piano de cauda a tocar. Não há ninguém ao pé dele. Está sozinho. Ele e o seu piano. E as notas que produzem em conjunto. Sinto-me como uma personagem de uma leve comédia-romântica. Agora vejo algumas caras coladas aos vidros das janelas das casas a olhar para o homem. Não sei porque é que ele está ali. Não sei porque é que ele está ali a tocar piano, mas sinto-me agradado com o encontro, com aquela surpresa, e páro por momentos ao pé dele a vê-lo e ouvi-lo enquanto acabo de fumar o cigarro. Belisco-me para perceber se estou acordado e magoo-me. Não importa. Penso como às vezes a vida pode ser tão bonita. Sempre gostei do som de piano. Gostava de ter aprendido música. Gostava de saber tocar guitarra. Gostava de saber tocar piano. Gostava de saber tocar com as baquetas numa bateria e produzir um som agradável, ritmado. Mas sou uma nulidade sem par. Não tenho jeito para a música. Não sei cantar. Tenho uma voz de merda e nem no coro da igreja me quiseram. Aguentaram-me dois dias. Ao fim do segundo dia disseram-me para não voltar no dia seguinte. Foi aí que decidi jogar andebol. Também não fui grande coisa, mas fui um pouco melhor.
Gosto muito de ouvir o som de um piano. E a cidade ganha outra dimensão. Ganhou pulsão nas suas artérias, mesmo que vazias de almas. Até parece que as nuvens se abriram aos raios de sol, mas é mentira. O cinzento do céu mantém-se. Eu é que, por momentos, fiquei um pouco mais feliz. Por momentos esqueci os tempos difíceis que vivemos e senti um fogo no peito, um fogo que me aqueceu e me deu alento.
O alento comigo é sempre sol de pouca duração.
Largo a beata no chão, aos meus pés. Deixo o pianista inundar as ruas da cidade com as suas notas melodiosas e entro no Pingo Doce lá mesmo ao lado. E fico parado à entrada. Eu só ia comprar umas carcaças e um pacote de manteiga e há toda uma multidão de gente no que parece um happening com vários carrinhos-de-supermercado cheios até cima, a abarrotar com o que me parecem ser pacotes de papel-higiénico, garrafões de água, latas de conserva e frescos. Parece que se anunciou o fim-do-mundo e há que fazer uma festa. Que é o que está a acontecer ali, nas filas para as caixas do supermercado. As pessoas conversam. Riem. Mantém uma certa distância entre elas, mas comunicam e, em certa medida, divertem-se. Talvez tentem iludir-se. Ou sou eu que estou iludido.
Saio por onde entrei. Não tenho paciência para esperar sobreviver aquele mar de gente e confusão. Eu não me sinto alegre como eles, mesmo que o piano no largo do Teatro me tenha deixado bem disposto.
Saio para a rua. Acendo novo cigarro. Penso que as ruas da cidade estão desertas porque está toda a gente nos supermercados a comprar tudo o que podem para se fecharem em casa e esperar pela salvação.
Há um café mais à frente. Vou até lá. Espreito pela montra. Também tem muita gente, mas menos que o supermercado. Fico à entrada a acabar o cigarro. Depois entro. Vou ao balcão. Descubro que têm pão. Compro três carcaças. Compro mais três rissóis de camarão. Peço um café mas depressa descubro que vem queimado e fico logo com azia. Penso que tenho Kompensan em casa. Ao mesmo tempo descubro um pastel-de-nata queimado a sorrir para mim. E digo-me que dias-não-são-dias. A rapariga que está ao balcão percebe-me e sorri. Coloca-me o pastel-de-nata à frente. E um frasquinho de canela. Agradeço com um Obrigado! que é mais gesticulado pelos lábios que audível. Ouço uma senhora ao meu lado perguntar se o café vai fechar e o dono dizer que não. Que tem de trabalhar. Que não sabe nada de política. Que a política dele é o trabalho. Que tem a família para sustentar. Que tem doze pessoas a dependerem do trabalho dele. Que não tem medo do medo. E eu como o pastel-de-nata, acabo de beber o café queimado, pego no saco de papel com as carcaças e os rissóis, pago tudo e saio do café.
Na rua olho para o caminho que vou ter de percorrer até casa e vejo-o deserto. Não entendo por onde é que caminham todas estas pessoas que estão ali no café e as que  estavam no supermercado. Não caminham pelas ruas, isso é uma certeza. Pelas ruas caminho eu. Sozinho. E pergunto-me se não serei eu um fantasma.
Se não for para casa quem dará pela minha falta?

[escrito directamente no facebook em 2020/03/13]

Eu Também Sou uma Vítima

Os meus anos de liceu foram complicados.
Era um miúdo enfezado. Aluno mediano. Algumas borbulhas. Vestia a roupa que a minha mãe escolhia. Tinha poucos amigos. Ou nenhum. As miúdas não me viam e era sempre dos últimos a ser escolhido para as equipas de desporto. Mesmo nos trabalhos de grupo era sempre dos últimos a ser escolhido. E até era mais ou menos aplicado. Mas os outros miúdos tinham tendência a não me ver ou a esquecer-me. Quase sempre ignorado. Era raro ser convidado para as festas de aniversário dos outros. Mesmo na rua as coisas também não eram muito melhor. Na rua tinha um grande amigo. O único. E passava os dias de férias sempre em casa dele.
Eu nasci já os meus pais eram velhotes. Pareciam meus avós. Fui uma espécie de restolho. O último de três irmãos. O mais fraquito. Problemas respiratórios. Músculos atrofiados. Pés chatos. Vista curta, o que me levou a usar óculos desde sempre. Na escola não gostava de ginástica. Mas a ginástica também não gostava de mim. E os meus colegas evitavam ter-me na equipa. Não conseguia dar um chuto na bola. Não tinha força para levantar uma bola ao cesto. Uma nulidade no vólei. E, no andebol, não conseguia agarrar a bola que me passavam sem a deixar cair. Normalmente punham-me à baliza. Pior o soneto. Eu tinha medo das bolas. Das bolas lançadas com força pelos adversários. Fosse com os pés ou com as mãos. Virava as costas aos remates e, com sorte, a bola batia-me no corpo. Nódoa negra na certa.
Não era mau aluno, mas também não era um grande aluno. Era um aluno mediano. Mas era um aluno mediano para não dar nas vistas. Às vezes dava respostas erradas, mesmo sabendo as respostas certas, para que não achassem que eu era marrão. É que não era marrão, mesmo. Sabia as coisas com uma certa naturalidade. Mas isso ia levar-me para as luzes da ribalta e eu não gostava de ser o centro das atenções. Se fosse bom aluno tinha os maus alunos a pedirem para copiar por mim, para lhes fazer os trabalhos, para lhes explicar as coisas. E eu preferia não dar nas vistas. Durante todo o liceu esforcei-me por ser um aluno mediano. Dá trabalho ter que não ser bom.
Fisicamente era muito enfezadito. Pernas magrinhas. Sem músculos. Quase só pele e osso. Sem rabo. A pilinha pequenina e, até muito tarde, sem pêlos. Como a minha mãe dizia, um pau de virar tripas. Tive sempre muitas borbulhas. Mas como a barba também apareceu muito tarde, nunca tive muitos problemas por escavacar a cara borbulhosa. Simplesmente não precisava de fazer a barba. Mas isso também não me granjeou grande sucesso com as miúdas. Não tive nenhuma namorada durante os anos de liceu. Talvez fossem as borbulhas. Talvez fosse a minha inépcia para exercícios físicos. Talvez fosse não ter lábia para nada nem ninguém. O facto de vestir a roupa que a minha mãe me escolhia também não abonava muito em meu favor. Eu era um menino. Chegava a Primavera e a minha mãe insistia nos calções, meias de renda pelos joelhos e sapatinho de verniz. Claro que isto foi em criança. Mais velho ainda lutei pelas calças de ganga. E as sapatilhas. As sapatilhas foi mais fácil. Toda a gente usava Sanjo. A minha mãe também as comprou. Eram baratas. As calças de ganga foi mais complicado. Nunca consegui explicar porque é que as Lois eram as calças mais fixes. Tinha de me contentar com sucedâneos da feira de Sábado, como as Gois, as Loise e as Louise.
Durante os anos de liceu nunca fui dormir a casa de nenhum amigo. Nenhum amigo meu, dos poucos que ainda consegui ter, veio dormir a minha casa. Nem o meu melhor amigo lá da rua. Contam-se pelos dedos de uma mão às vezes que fui a festas de aniversário sem ser às da Malta da Rua. Dançar, só dançava em casa, frente ao espelho do guarda-fatos dos meus pais, quando eles não estavam em casa.
Foi só quando fui para a universidade que tive a minha primeira namorada. Namorada?! Uma miúda com quem tive umas experiências sexuais. Que não correram lá grande merda. Foi também com ela que tive as minhas primeiras experiências com drogas.
Aliás, para mim, o sexo e a droga andam juntos, percebes? Um traz o outro. É por isso que cheirei este frasquinho. Conheces? Queres cheirar? Vá lá! Só um cheirinho. Não? Pronto, está bem. Mas ia ajudar-te, sabes? Quando eu te espetar a faca. Porque eu vou espetar-te a faca. Tenho de te espetar a faca. Preciso de espetar-te a faca.
A culpa não é minha, percebes? Eu também sou uma vítima. A culpa não é minha. Eu tenho mesmo de te fazer o que te vou fazer. Não chores, vá lá. Não adianta. Eu tenho mesmo de te espetar a faca. Sabes, a culpa é da minha mãe. Não consigo deixar de pensar naqueles sapatinhos de verniz com uma fivela prateada. Tive de os levar para a escola várias vezes. Sabes que eu sou uma vítima, também. A culpa não é minha. Mas tenho de te espetar a faca.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/20]