Cristina Ferreira

Hoje acordei e era a Cristina Ferreira.
Não me assustei.
A primeira coisa que fiz foi olhar dentro dos lençóis. Costumo dormir nu. Ela também. Toquei-me. Nas mamas. Nas ancas. Nas coxas. Foda-se! Sou mesmo boa.
Senti-me feliz. Pela primeira vez desde há muito tempo, sentia-me feliz. Empurrei os lençóis para os pés da cama. Levantei-me nua da cama. Olhei para o espelho grande. Gostei de me ver. É estranho ver-me no feminino. Mas ao mesmo tempo, não desgostei. É o que eu sou agora. Uma mulher. Uma mulher gira. Boa. Sexy. E cheia de sucesso.
Primeira preocupação. O que fazer? Telefonei para a SIC. Avisei que estava derreada dos Globos de Ouro, afinal a gala tinha sido eu, e que chamassem o Cláudio Ramos para fazer o Programa da Cristina.
Eu tinha um dia para viver.
Tomei um duche morno e gostei de passar gel pelo corpo. Vesti uma roupa simples. Um vestido leve e esvoaçante que uma antiga namorada por cá tinha deixado. Gostei de me sentir dentro do vestido e do fresco que me subia pela pernas acima. Calcei uns chinelos de salto alto. Eu não me saberia equilibrar naquilo. Já ela!… Observei as pernas. As pernas em cima dos saltos. Sou muito bem desenhada.
Saí de casa e fui ao café aqui da rua. Senti em mim o olhar dos homens. E das mulheres. Pela primeira vez na vida não era uma pessoa ignorada. Agora olhavam cada pedaço do meu corpo. Os passos que dava. O esvoaçar do cabelo solto e caído sobre os ombros. Os meus olhos brilhantes. O gloss nos lábios. O sorriso maroto.
Pedi um croissant folhado e uma bica. Pensei se um croissant faria bem a este corpo, mas depois pensei que, na realidade, não era meu. Comi o croissant folhado. Bebi a bica. A rapariga do café não quis receber. Disse que era por conta da casa e sorriu-me muito. Acho que me piscou o olho, mas pode ter sido só um tique.
Passeei-me pela cidade. As buzinas andavam activas. Ouvi algumas travagens bruscas. Chapa a bater em chapa. Oh, boa!, ouvi eu gritar lá do fundo e aposto que era para mim.
Entrei no quiosque onde nunca entro e comprei todas as revistas sociais que encontrei. Não paguei nenhuma. O rapaz pediu-me para referir o quiosque lá no programa. E eu disse Está bem!
Cruzei-me na rua com o presidente da câmara. Há muito tempo que não o via a pé pela cidade. Mirou-me de alto a baixo. Malandro! Parei numa montra e vi toda a gente do outro lado da rua a olhar para mim.
Entrei numa livraria e comprei uma edição de Os Maias. Ofereceram-ma em troca de uma fotografia com as meninas da loja. Mais tarde vi a fotografia na montra. Devia ter trazido mais livros.
Sentei-me numa esplanada da Praça e dei uma vista de olhos pelas revistas. Nada de especial. Mexericos. Deixei-as em cima da mesa.
Apanhei um táxi e fui até São Pedro de Moel. O taxista não quis receber. E esperou que eu quisesse regressar. Estava nevoeiro. Não fui ao mar. Mas tive pena. Gostava de ter mergulhado em São Pedro de Moel só de fio dental. Contentei-me em molhar os pés. Reparei nas unhas pintadas de vermelho-sangue. Gostei de ver os meus pés a enterrarem-se na areia molhada.
Não comprei pevides nem tremoços que a senhora não estava lá. Regressei. Dei mais uma volta a pé pela cidade. Entrei em boutiques mas não comprei nada. Quiseram oferecer-me coisas. Alguns homens vieram ter comigo. Prometeram-me a Lua. Eu ri-me. Conhecia alguns deles. Homens de família. Com filhos. Com responsabilidades na cidade. Com a língua de fora a salivar. Como cães. Cães com cio. Fartei-me de rir. Parvalhões.
No final do dia fui jantar ao Salvador. Chamaram-me Catarina e trataram-me muito bem. Também quiseram uma fotografia. Acedi. Depois voltei para casa. Sentia-me cansada. Não era fácil ser a Cristina Ferreira.
Quando entrei em casa fiquei apreensiva. Depois de dormir como acordaria? Seria eu? Ou seria ela?
Fui para a cama. Por via das dúvidas, despedi-me da Cristina. Masturbei-me, em jeito de adeus. Gozei a pensar em mim, a pensar nela, a pensar em tudo aquilo que me tinha acontecido.
Agora estou à espera que o sono me leve. Amanhã, logo se vê.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/30]

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Gosto de Cheiro Dela

São duas e meia da manhã.
Acordei com a chuva a cair lá fora e a bater nos vidros da janela. Ouço os gatos a correr à volta da casa à procura de abrigo. A laje aqui ao lado da janela bate cada vez que um dos gatos passa lá por cima. Está solta.
Ela está deitada ao meu lado. Dorme. Não acordou com a chuva. Nem com a luz do candeeiro que acabei por acender. Está nua. Tem uma mama destapada. Puxo o edredão para cima da mama para que não arrefeça. Vejo o braço nu à minha frente. Cheiro-o. Gosto do cheiro dela. Do cheiro dela na cama. Beijo-lhe o braço. Gosto da pele dela. É macia. Suave. Seda.
Trinco o braço. Sinto os dentes a rasgar a pele e a penetrar, suavemente, na carne. Vejo o sangue a cair ao longo do braço. Sinto o sabor metálico do sangue na boca. Puxo um pedaço de carne do braço com os dentes. Ela grita. Eu cuspo o pedaço de braço dela, que tenho na boca, para o chão. Vejo o buraco que lhe deixei no braço. Levanto-me para ir buscar água oxigenada e betadine. Talvez uma gaze. Apanho o pedaço de carne do chão e coloco-o em cima da mesa-de-cabeceira. Lá fora continua a chover. Ouço-a a bater nos vidros da janela.
À porta do quarto viro-me para trás, e digo-lhe, Desculpa.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/10]

Queria Voltar para a Cama

Senti-me sacudir. Abri os olhos. Era ela. Estava com a mão no meu ombro. Tinha acabado de me sacudir suavemente. Viu-me abrir os olhos e disse Acorda!
Eu acordei. Ela ajudou-me a sentar na cama. Abriu as cortinas das janelas e libertou a luz do sol que me cegou momentaneamente.
Há quanto tempo não via a luz do sol?
Ela aproximou-se de mim e disse Vamos sair. Não sei como é que a minha cara expressou o meu desapontamento, mas ela sorriu e disse E não há discussões!
Ajudou-me a levantar da cama. Primeiro uma perna. Depois a outra. Os pés enfiados nos chinelos. Depois o corpo. Upa! E foi comigo até à casa-de-banho. Eu conseguia caminhar, arrastando um pouco os pés, é claro, mas conseguia caminhar. E levava a mão sobre o ombro dela para me equilibrar.
Mas eu queria era voltar para a cama.
Despiu-me o pijama. Ajudou-me a entrar dentro da banheira. Eu esperei, encostado à parede, enquanto ela colocou o banco dentro da banheira, em cima do tapete. Eu sentei-me. Ela ajudou-me. Ligou a mangueira do duche. Temperou a água. Deu-me o chuveiro para as mãos e saiu da casa-de-banho. Deixou-me sozinho para me conseguir lavar à minha maneira e não me sentir pior do que já sentia.
Quando sentiu o esquentador a desligar, veio buscar-me. Ajudou-me a sair da banheira. Secou-me o corpo com uma toalha de algodão já usada (não gosto de toalhas novas, não aderem). Amparou-me no regresso ao quarto. Perguntou-me o que eu queria vestir. Foi buscar as roupas e ajudou-me a vesti-las.
Depois saímos. Saímos de casa. E eu queria era voltar para a cama.
Entrei no carro com a ajuda dela. Depois entrou ela. Pôs o cinto. Ligou o carro. Perguntou Tens fome? E eu acenei a cabeça, na esperança que ela não notasse a minha concordância. Ligou a rádio e arrancou.
Sorri quando vi os arcos dourados. Já nem me lembrava da última vez que tive o prazer de comer um hambúrguer com as mãos, e os molhos a caírem pelos cantos da boca e o gás da Coca-Cola a fazer-me arrotar. Olhei para a escadaria e pensei que não ia conseguir subir aquilo. Mas ela foi directa ao McDrive. Para mim um McRoyal Cheese. Para ela um McBacon. Batatas fritas com ketchup para os dois. Coca-Cola para os dois também. Ela arrancou o carro mas parou logo ali, no parque de estacionamento, de frente para a estrada. Eu via os carros a passar à minha frente. Sentia-me num Drive In. A estrada era o ecran.
Estava calor. Abrimos os vidros do carro. Passava uma pequena aragem. O cheiro das batatas fritas ia embora. Trincava com prazer o hambúrguer. Lambia os molhos dos dedos. Sorvia a Coca-Cola. Ia olhando para ela. O prazer não era o mesmo que o meu. Mas notava-lhe a alegria de me ver assim, com este ar de satisfação. Quando acabei de comer, amarrotei tudo dentro do saco de papel. Ela também. Saiu do carro e foi depositar os sacos no lixo. Eu estava contente de ter saído de casa. Mas, agora, agora eu queria era voltar para a cama.
Ela arrancou com o carro. Meteu-se na auto-estrada e levou-me até à Nazaré. Fizemos a marginal de carro. Eu ia olhando tudo aquilo que já não via há tanto tempo. Subimos ao Sítio. Depois continuou para norte da Praia do Norte. Parou numa pequena arriba solitária. Não havia lá mais nenhum carro. Abrimos de novo os vidros do carro. Deixei-me inebriar pela maresia. Aquele cheiro da Nazaré é único.
Ela fumou um cigarro. Deixou-me dar uma passa. Depois sorriu para mim e disse Está calor! e sorriu. Saiu do carro, sempre a olhar para mim e a sorrir. Depois começou a correr e a descer a arriba. Deixei de a ver. Endireitei-me no banco para a procurar. Descobri-a já lá ao fundo, na praia, a acenar um adeus, e a despir-se enquanto corria, às vezes de frente, a despir-se, às vezes às arrecuas a dizer-me adeus. As peças de roupa iam ficando lá para trás, no caminho. As calças. A t-shirt. As meias. Não via as sapatilhas. Talvez tenham ficado fora do meu campo de visão. O soutien. As cuecas. Quando tirou as cuecas fê-las rodopiar por cima da cabeça e mandou-as para longe. Virou-se para mim, nua, abriu os braços e riu muito. Depois virou-me costas, foi a correr até ao mar e mergulhou na primeira onda que encontrou.
Vi-a a nadar por momentos, em frente.
Depois pensei E se ela não volta?
Eu queria voltar para a cama.
Não, não queria. Queria vê-la, ali assim, ao pé de mim. Nua. Molhada. Salgada pelo mar. Desejável. Não, eu já não queria voltar para a cama. Mas ainda tinha um longo caminho a percorrer.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/16]

Deixa-me Entrar

Eu já estava deitado na cama. Os olhos fechados. Quase a entrar no sono. Quando ouvi bater à porta do quarto, baixinho, suavemente, como para não incomodar. E depois ouvi uma voz pedinchar Deixa-me entrar. Deixa-me entrar no quarto.
Virei-me para o outro lado. Puxei o edredão sobre a cabeça. Mas continuei a ouvir a vozinha dela, suplicante Por favor! Deixa-me entrar.
Ela era chata. Insistente.
Eu já estava à espera que ela entrasse quarto dentro e se deitasse na cama comigo, e se agarrasse a mim, nua, nua agarrada a mim, a dizer-me ao ouvido que tinha saudades. E depois iria querer que fizesse sexo com ela. Claro que ela chamar-lhe-ia amor. Faz amor comigo!, diria. E depois iria fazer-me juras de amor eterno e iria querer ouvir o mesmo.
Por isso fechei a porta.
Só lhe cedi o sofá. Não o quarto. Não a cama. Não a minha cama comigo lá.
Era tarde para regressar a casa, tinha dito. Já não arranjo Táxis na rua, insistiu. Eu disse-lhe Chamo-te um Uber!, mas ela disse que não valia a pena, que ficava bem na sala, no sofá. Nem te incomodo, disse-me num sorriso rasgado.
Mas eu percebi.
Percebi porque foi lá a casa. Porque me levou jantar. E vinho. Duas garrafas. Duas garrafas que bebemos num instante. E num instante as coisas começaram a descontrolar-se. Ela beijou-me. Eu beijei-a. Mas depois afastei-a. E disse-lhe Não!
Não! Fica tranquilo! Não se passa nada!… disse-me. Afagou-me a cara com as mãos enquanto se afastava de mim e se foi sentar no sofá. Mandou-me um beijo à distância. Ligou a televisão. Disparou nas notícias. SICN. RTP3. TVI24. CMTV. Todas no mesmo. Nas mesmas notícias.
Fui à varanda fumar um cigarro. Senti o frio da noite no corpo. Fez-me bem. Entrei em casa. Fui buscar-lhe um cobertor, dois lençóis, uma almofada. Deixei tudo na poltrona. Ela pediu-me um Lexotan. Fui buscar-lhe um. Trouxe-lhe um copo com água. Deixei o copo e o comprimido na mesa de apoio da sala. Afaguei-lhe a cabeça com a mão enquanto me ia embora e disse-lhe Até amanhã.
Não me lembro se ela me respondeu. Acho que não disse nada. Pode ter falado baixinho. Posso não ter ouvido. Mas não dei muita importância. Fui para o quarto. Fechei a porta à chave. Deitei-me.
Estava quase a adormecer quando ouvi bater, suavemente, à porta do quarto. E ouvi Deixa-me entrar. Deixa-me entrar no quarto.
E só me lembro de ter pensado Chata do caralho!
Virei-me para o outro lado. Puxei o edredão sobre a cabeça. Mas continuei a ouvir a vozinha dela, suplicante Por favor! Deixa-me entrar.
Ela era mesmo chata. Insistente.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/25]

O Hotel

Não o conhecia de lado nenhum. Mas, aparentemente, o homem conhecia-me. Pelo menos conhecia as coisas que eu escrevo. E tanto conhecia que me convidou para passar uma semana no seu hotel, à conta da minha escrita, para depois, ou durante a estadia, escrever uma pequena estória que lá se passasse.
Ele era dono de um hotel à beira-mar. Um bom hotel, diga-se. Hotel sobre o Atlântico, zona centro, a subir para norte. Mar agitado, portanto. O convite era para uma semana, dormida, comida, bebida, mini-bar cheio e utilização de todos os espaços do hotel (que ainda tem piscina, ginásio e SPA) à borla e, no fim, só tinha de escrever uma pequena estória localizada no hotel. Nem pensei muito. Claro que aceitei.
Mudei-me logo no dia seguinte ao convite. Um quarto grande, espaçoso. Num dos últimos andares. Uma vista deslumbrante sobre o mar. A casa-de-banho, enorme, com banheira de hidromassagem, chinelos e roupão de turco.
Os primeiros dois dias deixei-os ir ao sabor da maré, a apreciar os luxos que me tinham destinado. Refeições à la carte como se fossem buffet livre. Massagens com final feliz. Cocktails de todas as cores do arco-íris. Braçadas na piscina. Corridas na passadeira.
Experimentei de tudo o que havia para experimentar.
Observei os clientes. Os homens. As mulheres. Os filhos de algumas destas pessoas. Alguns solitários. Dois casais homossexuais. Quase todos com bastante dinheiro. Alguns, aparentemente, bastante felizes. Gente sem dramas. E, ao contrário do que estava à espera, não descortinava por ali nenhuma estória suculenta. Nem um caso de amantes a arrastar a sua traição palas salas do SPA. Nem uma filha adolescente, rebelde, ávida de atrair o desejo sexual dos velhotes agarrados à bengala mas de mente perversa. Ninguém fugido e procurado pela Interpol. Nenhum mercenário em semana de descanso. Nem um único caso de utilização de drogas pesadas ou de excesso de álcool.
Nada.
Ainda me tentei aproximar do grupo de trabalhadores para tentar vislumbrar algo pérfido. Queixas. Lutas. Mas nada.
Aquele hotel era a coisa mais tranquila do mundo, cheio de clientes calmos e empregados satisfeitos com o seu trabalho e os seus honorários.
Se estava contente pelo convite para usufruto do hotel por uma semana e pelo convite para a escrita de uma estória, por outro lado sentia-me desiludido pela vida demasiado tranquila que observava e pela minha incapacidade de sugar, dali, alguma coisa de útil.
Ao quinto dia de estadia decidi ter de tomar algumas providências. Algo teria de acontecer. Algo de estranho e bizarro teria de acontecer naquele hotel para que eu pudesse executar a segunda parte do acordo: escrever uma estória.
No dia seguinte, uma das camareiras, de origem brasileira, foi encontrada morta na sala de conferências do hotel. Estava sem roupa, tombada no chão, mesmo em frente ao quadro do Power Point. Tinha uma faca espetada na barriga, uma morte horrível, mas não havia sangue na sala. Nem a roupa da camareira. Fora morta noutro lado e levada para ali.
A minha estadia foi prolongada.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/18]

Na Praia do Malhão

Ela pôs-me as mãos em cima e eu senti-me logo excitado.
Estávamos na praia do Malhão. Mal chegámos à praia e tirámos a roupa eu comecei logo a sentir um certo frémito pelo corpo.
Não era só a vista dos corpos nus ali à minha volta e dos quais não conseguia desviar o olhar. Era o facto de estar livre, de me sentir solto e perceber a leve brisa fresca que vinha do mar a acompanhar o balanço que a pila levava, de um lado para o outro, à medida que íamos caminhando ao longo da praia, à procura do nosso sítio.
Encontrámos o nosso local. Era mesmo ali aquele. Afastado, mas perto. Havia gente, mas não estava à pinha. Tínhamos companhia, mas não precisávamos de ouvir a respiração de cada um deles. Cada pessoa naquela praia, tinha espaço suficiente para estar descansado. Poder deitar-se ao sol e deixar-se adormecer enquanto o sol nos trabalhava o bronze.
Uma espécie de paraíso alentejano. E tudo isso estava a contribuir para a minha excitação.
Então, quando ela colocou o factor 25 nas mãos e o começou a espalhar pelos meus ombros e costas, foi o clique.
E aqui estou eu. De costas para ela. De pau feito. A tentar esconder a minha tesão de toda a gente. Que vergonha! Quando ela acabar de colocar o creme, dou uma corrida rápida até ao mar e mergulho logo.
Qual é a equipa do Benfica para este ano? O guarda-redes é o…
Ainda me lembro quando fui pela primeira vez ao Meco. Com umas amigas. Ainda um puto um pouco mais que adolescente. E ainda me lembro de como fui logo a correr até ao mar e mergulhei vestido para esconder o volume que me crescia dentro dos calções. A água ajudou a matar aquela excitação precoce, mas tive de andar a fugir aos corpos nus que se cruzavam à minha frente. Tive de ignorar os corpos das minhas amigas. O que não deixou de ser uma tristeza. Fui ao Meco com elas, várias vezes, e nunca as vi nuas. Tinha sempre de desviar o olhar. Naquela altura tinha o sangue ainda mais quente. E qualquer coisa mínima, que lembrasse sexo, era suficiente para me excitar.
Portanto o guarda-redes do Benfica é… Este ano, é…
É agora. Vou agora ao mar.
E ela pergunta Onde é que vais? Vira-te para cá para te colocar protector no peito.
E eu digo Já venho. Tenho mesmo de mergulhar. Estou muito quente. Estou com muito calor.
Levanto-me e corro. Corro e tento esconder aquela excitação com as mãos enquanto estico as pernas pela areia quente da praia e rezo para que ninguém me veja. Chego ao mar, mergulho de imediato, nem sequer tenho tempo para pensar que a água está fria e eu quente do sol e que devo ir devagar por causa do choque térmico e…
Mergulho.
Nado. Dou umas braçadas lá para a frente. Volto para trás. Sinto as coisas mais calmas. O corpo mais tranquilo. Saio do mar. Olho-me e vejo a minha pila encolhida com o frio da água. E sinto que já estou em condições para andar ali no meio das outras pessoas.
Subo à toalha. Deito-me. De barriga para cima. Ela dá-me um beijo. Eu abro um pouco os olhos, semi-serrados pelo brilho do sol, e vejo-a nua. E sinto que estou tranquilo. Tudo estava tranquilo. E sorrio-lhe.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/11]

Maria É Nome de Mulher

Ela acorda todos os dias às sete da manhã.
Levanta-se. Toma um duche rápido. Veste-se na casa-de-banho uma roupa escolhida de véspera sem grande prazer. Come uma torrada. Bebe uma caneca de café. Deixa comida aos gatos. Vai deitar milho às galinhas. Põe uma máquina de roupa a lavar. O pequeno-almoço pronto para os filhos. Deixa as coisas preparadas para um almoço rápido que virá fazer a casa.
Às oito menos dez está a sair. De carro.
Das oito à uma da tarde anda para cima e para baixo. Limpezas num lado. Passar a ferro e cozinhar noutro. Às vezes uns pontos de costura. Mas o normal é o aspirador na mão. A vassoura. O ferro de engomar. O tacho. A frigideira.
À uma da tarde regressa a casa. Prepara qualquer coisa rápido que já deixou adiantado de manhã. Uns ovo mexidos com espargos. Umas coxas de frango assadas. Umas cavalas em lata. Acompanha com uns brócolos. Alface. Tomate. Senta-se sozinha à mesa da cozinha. Come. Bebe um copo de vinho. Vê as notícias na televisão pequena, em cima da bancada. Aquece uma caneca de café no micro-ondas e vai bebê-lo para a entrada de casa enquanto fuma um cigarro e vê as galinhas de um lado para o outro, tontas, a debicar no milho que lhes deixou de manhã.
Acaba o cigarro e são duas menos dez. Deixa a louça por lavar no lava-louça. Arranca de carro. Às duas horas está noutro lado. Muda as roupas de cama. De muitas camas. Põe roupa a lavar. Limpa o pó. Aspira os tapetes. Faz pequenos arranjos. Às cinco horas sai. Ou devia sair. Às vezes ainda dá mais uma ajuda. Aqui. Ali. Onde for preciso. Na cozinha. Nos quartos. Às vezes lavar um carro urgente. Regar a relva porque o sistema de rega está avariado. E avaria muitas vezes. Uma ida à farmácia Por favor! buscar qualquer coisa de muito urgente para alguém muito necessitado mas sem tempo.
Chega a casa às cinco e meia. Às seis. Ou às sete. Põe a louça do almoço na máquina. Prepara o jantar. Para ela e para os filhos. Jantam. Verifica os trabalhos de casa. Dos dois. Ouve as queixas. De um. De outro. As sapatilhas que estão rotas. As calças que estão curtas. A camisola que está pequena. As meias novas para o ballet que as velhas estão rotas. O livro do Plano de Leitura que não se vai ler mas tem de se comprar. O fato para a ginástica. As senhas de almoço para a próxima semana. A amiga que amuou. O amigo que já não é. As dores de crescimento dos filhos enquanto, ao mesmo tempo, os vê afastarem-se de si. Mas, para já um ombro. Outro. Limpa umas lágrimas. E quem lhe seca as dela?
Arruma a mesa de jantar. Põe a louça na máquina, a lavar. Tira a roupa da máquina e estende-a à espera que não chova.
Senta-se frente à televisão.
Olha para qualquer coisa que está a dar. Não liga muito. Mas ajuda a espairecer. Dantes ainda via umas novelas. Mas começaram todas a parecerem-lhe iguais. E já não lhe chega as vidas dos outros para animar a sua.
Vai fechando os olhos enquanto olha para a televisão. Entretanto são onze horas. Levanta-se. Prepara a roupa para o dia seguinte. Prepara a roupa para os filhos, mesmo sabendo que eles vão acabar por vestir o que querem.
Na casa-de-banho, enquanto lava os dentes, olha em frente, para si reflectida, e pensa que tem de limpar o espelho. Os vidros das janelas. De aspirar a casa. Limpar o pó. Mudar a roupa das camas. Pelo menos das camas dos miúdos. E tem de comprar pasta dos dentes. Mudar a escova que aquela já tem, o quê?, quase um ano? Pensa que tem de fazer uma lista de coisas que precisa de comprar. E depois precisa de ver se tem dinheiro para tudo e escolher as prioridades.
Enquanto vai pelo corredor, e passa pelos quartos dos filhos para dar o beijo de boas-noites sem que tirem os olhos do telemóvel, pensa que é melhor, no dia seguinte, passar em casa dos pais. Talvez traga umas couves. Um coelho já esfolado. Talvez uma sopa de feijão. Dava bastante jeito uma sopa de feijão seco, pensa.
Deita-se nua na cama fria e solitária e pensa que já passou mais um fim-de-semana e nem deu por isso. Os dias são sempre iguais. Banais. Solitários. Cansativos. E entre um pensamento e outro há um interlúdio e são outra vez sete da manhã. O telemóvel toca a despertar e tudo recomeça da mesma maneira.
Tudo se alterou quando chegaram as primeiras dores de cabeça. Depois as dificuldades em adormecer. Por fim as dificuldades em levantar-se de manhã.
Vai ao médico de família. Análises. Testes. Nada. Não tem nada. Não tem nenhum problema. É só cansaço, ouve. É o stress do dia-a-dia, dizem-lhe. E começam os comprimidos.
Os comprimidos para as dores de cabeça cada vez mais frequentes e intensas.
Os comprimidos para adormecer e esquecer todos os pensamentos que lhe invadem a cabeça enquanto se lança para a cama à procura de um pouco de repouso.
Os comprimidos para acordar e forçar a levantar-se para retomar o seu dia-a-dia de contribuidora para o bem comum.
Foi num fim-de-dia que lá fui para lhe comprar uns ovos. Ovos a sério. Ovos de galinhas do campo. Galinhas que andam a passear dentro do galinheiro a debicar milho e que todos os dias põem ovos frescos com que se equilibram as contas da casa. Foi nesse dia que lá fui aos ovos e a vi caída no chão. Alguma roupa pendurada no estendal. Outra caída. Umas peças tinham voado para cima da figueira.
Não tinha pulso. Chamei o INEM. Mas já foi tarde. Os filhos agora estão a viver com os avós.

Abriram uma vagas de emprego.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/16]