Estou Cansado e Não Sei se Consigo Chegar a Casa

Ainda é de noite quando saio da fábrica. É fim de turno. Início de outro. Cruzo-me com alguns conhecidos. Alguns já foram meus amigos. A amizade foi esbatida pelos turnos. Deixámos de nos encontrar. Agora cruzamo-nos aqui. Eu a sair. Eles a entrar. Já foi ao contrário. Há-de voltar a ser.
Já se percebe o céu mais claro lá do lado de onde vai nascer. Mas ainda é noite. Algumas pessoas já andam aí. A caminho do trabalho. Mas a maior parte deles ainda está a dormir.
Estou cansado.
Dormir de dia não me deixa descansar. Tudo em troca de mais uns parcos euros ao final do mês. Nem sei bem para quê. Vai-se todo da mesma forma. Mais euro, menos euro, ele esfuma-se.
Estou cansado.
Chego à estação de comboio. Sou o único que espera para ir em contra-ciclo. Aguardo sozinho no apeadeiro. Não me sento num destes bancos vazios. Se me sento adormeço e perco o comboio. Não posso adormecer. Não posso perder o comboio. Preciso de ir para casa. Preciso de chegar a casa antes dos meus filhos saírem para a escola. Preciso de vê-los. Quero vê-los. Dar-lhes um beijo. Dizer-lhes que os amo. Desejar-lhes um bom-dia de escola.
Acendo um cigarro. Mas não me apetece fumar. Estou cansado. Fumei muitos cigarros durante a noite, durante o meu turno. Mas esta espera, deixa-me ansioso. Preciso de um cigarro entre os dedos. Mais que o fumo nos pulmões, o cigarro nos dedos.
Já está mais claro. O céu. Ainda não é dia. Mas acelera.
Ouço o comboio a chegar. Tenho um arrepio de frio. Mas não está frio. Deve ser só o cansaço.
O comboio chega. Chega à hora. Mando fora o cigarro. As portas abrem-se. Há muita gente a sair. Já há muita gente a vir de casa para colocar a cidade a funcionar. É madrugada mas a cidade está a acordar.
Eu sou o único a regressar no comboio. A voltar para trás. A ir para casa.
Entro na carruagem. Olho em volta. Posso escolher o lugar que quiser. Estão todos vagos. Sou o único passageiro. Sento-me na direcção da viagem. Junto à janela. A ver o rio. Gosto de ver o rio. Gostava de lá estar. No rio. Num barco dentro do rio. Acima e abaixo na pequena ondulação do rio. À pesca. À pesca de… O que é que se pesca neste rio?
Estou cansado.
Encosto a cabeça no vidro da janela e sinto a trepidação do comboio que me faz vibrar como um telemóvel.
Penso no momento em que chegar a casa. No banho que vou tomar antes dos miúdos se levantarem. Do pão que irei pôr na torradeira. No leite que irei aquecer. Nunca irei perceber como é que gostam de leite quente. Eu detesto.
Estou a listar a minha futura manhã quando chega o fiscal. Pede-me o bilhete. Sou o único passageiro. Estou cansado. Levo a mão ao bolso das calças e mostro o passe. O fiscal segue em frente. Irá percorrer o resto do comboio vazio. Há-de voltar cheio outra vez, o comboio, na viagem de volta.
Estou cansado.
Pergunto-me se as coisas vão ser sempre assim.
Estou cansado e sinto-me farto. Não consigo perceber o sentido de tudo isto. Destes dias iguais que se repetem, sem sentido, uns a seguir aos outros. Iguais. Sempre iguais. Dia-após-dia. Sempre o mesmo rame-rame. Vale a pena?
Volto a encostar a cabeça ao vidro da janela. Pareço sair de mim. Pareço desfalecer. Como se fosse um sonho. Estou cansado. Não sei se consigo chegar a casa. Gostava de ver os meus filhos uma vez mais. Gostava de conseguir chegar a casa. Mas sinto-me cansado. Cansado da vida.
Acho que saio do comboio. Voo por cima dele, da linha, do rio, da cidade…

[escrito directamente no facebook em 2019/10/02]

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Caído no Chão sem Me Conseguir Mexer

Estou caído no chão da cozinha e ouço os cães a ladrar lá ao fundo.
Não me consigo mexer. Estou caído no chão da cozinha e não me consigo mexer. Vejo o fumo que o cigarro que tinha na mão ainda deita. Vejo-o subir pelo ar e desaparecer. Apetecia-me ter fumado aquele cigarro. Apetecia-me fumar um cigarro.
Não sei o que me aconteceu. Estava a fumar um cigarro aqui, à janela, e, de repente, fiquei paralisado, comecei a transpirar muito, senti muito calor, senti todas as gotas de suor que começaram a descer por mim abaixo, senti as pernas a tremer, a fraquejar, perdi a força nas mãos, deixei de sentir os dedos, o cigarro caiu para o chão e a seguir caí eu. Caí no chão.
Não consigo falar. Nem gritar. Não consigo mexer nada. Não, mentira, consigo mexer os olhos. É a única coisa que consigo mexer. Os olhos. E posso olhar em vários sítios, os sítios onde os olhos podem alcançar dentro das órbitas.
Não perdi os sentidos. Estou consciente. Assustado, mas consciente.
Agora começo a ouvir os carros na rua. É estranho como só ouvia os cães a ladrar e, agora, o barulho dos carros a passar na rua está a fazer-me deixar de ouvir os cães.
Já não vejo o fumo do cigarro a subir para o tecto. Já deve ter-se apagado. E eu não o fumei.
Queria fumar um cigarro.
Queria não estar aqui assim, caído no chão sem me conseguir mexer.
Queria não estar sozinho em casa para ser socorrido.
Queria estar à janela a fumar um cigarro e a olhar para as pessoas que entram e saem da pastelaria da rua.
Queria ir à Lua. Queria ir a Marte. Queria ir à Terra do Fogo.
Queria ter escrito o Space Oddity.
Queria ter escrito A Mancha Humana.
Queria ter pintado o No.301.
Queria ter dançado o Lago dos Cisnes.
Devia sentir as costas frias e húmidas da transpiração e do chão da cozinha. Mas não sinto nada. Continuo sem sentir nada. Continuo sem conseguir mexer-me. Pareço morto. Um morto consciente.
Não virá ninguém cá a casa.
Vão passar as horas.
Se calhar, os dias.
Vou sentir fome. E sede. E uma vontade diabólica de fumar um cigarro.
E eu vou estar aqui assim, caído, paralisado, consciente.
A luz mudou. A luz lá de fora mudou e alterou a luz aqui de dentro. Já é noite.
Agora ouço o som de conversas. As conversas sobrepõem-se ao barulho dos carros. A ruas devem estar cheias de gente a passear. A passear a pé.
As horas estão a passar. Gostava de me passear também pelas ruas da cidade. Gostava de me passear debaixo das luzes de néon da cidade. E fumar um cigarro.
Mas continuo aqui. Não sinto o meu corpo. Não sinto nada. Não… Sinto medo.
O que é que eu posso fazer?

[escrito directamente no facebook em 2019/09/19]

O Regresso à Cidade

Era hoje. Era hoje o dia. Estava nervoso. Já vinha nervoso desde ontem à noite. Fui várias vezes à casa-de-banho. À noite. Durante a madrugada. Mal dormi. Passei metade do tempo a levantar-me. A ir à casa-de-banho. Passava pela cozinha. Bebia um copo de água. Regressava à cama. Virava. Revirava. Completamente desperto. Acendia a luz do candeeiro. Ligava o iPad. Lia as gordas dos jornais online, mas era tudo igual. Não havia notícias novas. Ou os jornalistas estavam a dormir.
De manhã levantei-me. Não despertei porque não cheguei a adormecer. Levantei-me e arrastei-me para debaixo do duche onde fiquei a vegetar por longos minutos. A absorver a água quente que me caía em cima e deslizava por mim abaixo. Acabei por acordar em sobressalto com a água fria. Acabou o gás. A botija tinha ficado sem gás. Eu tinha adormecido. Finalmente. Tinha adormecido debaixo do duche quente. Despertei com a água fria. Saí do duche. Sequei-me. Olhei-me ao espelho. Vi as enormes olheiras. Pesei-me. Pensei Tenho de emagrecer. Olhei para a rua através da janela da casa-de-banho e disse Estou nervoso.
Vesti-me no quarto. Uma roupa sóbria. Menos eu. Mais outro eu. Pedi uma certa elegância. Tentei-a. Talvez a tenha conseguido. Olhei-me ao espelho. Não desgostei do que vi. Não sei se é bom sinal. Mas enfim. Não me sentia mal. Estava nervoso. Mas ao mesmo tempo, decidido. E até, de certo modo, confortável.
Vestido e calçado fui sentar-me no sofá. Sentei-me direito, para não engelhar a roupa. Para não fazer dobras.
Fumei um cigarro.
Abri a janela para arejar a sala. Para o fumo sair. Para eu não ficar impregnado naquele cheiro enjoativo do tabaco frio.
Não almocei. Estava demasiado nervoso para almoçar.
Também não lanchei. Não conseguia ingerir nada. Tinha o estômago às voltas. Nervos.
Continuei a fumar. O fumo do tabaco a invadir-me os pulmões, acalmava-me.
Foi ao final da tarde que me levantei do sofá. Já me doía o rabo. Tinha as pernas presas. Saí de casa e dei umas voltas a pé pela estrada. Fui até ao largo da igreja e regressei a casa. Em passo rápido. Para desentorpecer as pernas. Depois entrei no carro. E arranquei.
Finalmente estou na Praça. Na Praça da minha cidade. Na cidade onde não ia há muito tempo. Tanto tempo que já nem sei há quanto.
Vejo gente conhecida. Vejo que, alguns, falam de mim. Falam baixo. Mas eu ouço. Percebo. Eles cochicham. Eu apanho.
Estou nervoso. Olho para mim. Fecho os olhos e olho para mim. E digo-me Estás bem. Estás muito bem, assim. E na verdade estou. Estou nervoso, mas sinto-me bem.
Estou na esplanada da Praça. Bebo uma imperial. Trinco uns tremoços. Está tudo igual. Está tudo na mesma. Reconheço as pessoas. E elas reconhecem-me. Algumas fazem-me um gesto de reconhecimento. De cumprimento. Retribuo. Com um ligeiro aceno de cabeça. Com um movimento insonoro dos lábios.
Aguardo por quem me convocou. Aguardo na esplanada da Praça. Estou nervoso pelo regresso a uma cidade que já foi a minha cidade. Estou nervoso, mas estou tranquilo.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/20]

Na Linha do Oeste

Apanhei o comboio nas Caldas da Rainha. Queria fazer a Linha do Oeste. Uma desgraça de Linha. Poucos comboios. Poucos horários. Uma Linha abandonada. Gente abandonada. Uma terra abandonada. É o abandono do interior Litoral. Mas só pelo comboio. É uma terra cheia. Farta. Toda a gente tem carro. Aceleram pelas auto-estradas que as servem. A1. A8. E os outros?
Apanhei o comboio nas Caldas da Rainha. Queria ir para norte. Para onde me levasse. Não tinha destino. Queria ir. Só.
Apanhei o comboio nas Caldas da Rainha. De phones nos ouvidos. Uma mixtape em formato digital. AAC. Sentei-me. O comboio arrancou. Tive de trocar de banco. Estava sentado ao contrário. Comecei a ver o mundo a fugir de mim, quando o que eu queria era abraçá-lo. Às vezes dá-me para isto. Para a lamechice.
Sentei-me de frente, portanto. Abri os braços e deixei vir a mim o mundo. O mundo que me vinha era ali as bordas da zona saloia. Já quase não era. Estava no Oeste. Acho que na Beira Litoral que, afinal, parece que já não existe. Gosto de ver estas paisagens. São paisagens sujas. Cheias de ruído imagético. Nunca se está verdadeiramente isolado. O campo tem sempre gente. Há sempre uma casa. Um terreno lavrado. Um pinhal. Uma pequena floresta. E casas. Sempre casas. Vizinhança à distância. Mas vizinhança. Não se está só. Não se está sozinho. Só o comboio é uma miragem. E eu numa. Numa miragem. Eu sou uma miragem. Não existo. Imagino-me.
Levantei-me do banco. Abri a janela. Uma das liberdades do isolamento da Linha do Oeste. As janelas ainda abrem. Fui fustigado pelo vento. Soube-me bem. Ar frio. Era final de dia e eu ali, na zona do Valado, via o sol colocar-se atrás das árvores e acompanhar-me, num enorme travelling, durante alguns minutos, a descobrir-se e esconder-se, como se brincasse comigo às escondidas.
Nos phones percebi a chegada de Benjamin Clementine. E lembrei-me como o descobri, por acaso, quando estava a roubar umas músicas através de um blog na net. Era uma aposta do blog. Uma sugestão. E que sugestão! Um tipo com corte de cabelo esquisito e um som de piano de morrer. Roubei-o. Roubei-o logo. Mostrei-o. Falei dele. Ninguém conhecia. Ninguém tinha ouvido falar. Ninguém com muita paciência para as minhas descobertas. Ninguém com muita paciência para as minhas apostas. Um ano ou dois, depois, concertos esgotados. Toda a gente a fazer fila para o ver ao vivo. A grande descoberta da indústria. Muitos deles já o esqueceram. Eu ainda funciono com listas. Repito-as. E não esqueço o que gosto. Estou sempre em reciclagem. De vez em quando regresso. Não deixo morrer a memória. Mesmo a recente. Então, foi esta.
E que bem que encaixava ali. O piano de Clementine e o sol a piscar por trás das árvores do Oeste. Um clip de vídeo em directo e em tempo real.
O sol acabou por cair rapidamente. A luz foi-se. A noite chegou. Mas ainda era cedo. Uma luz nocturna em horário de diurno. A porra do Inverno rouba-nos a luz. Lá fora, nos campos do Oeste, pequenos pontos de luz não deixavam implantar a escuridão. Nunca há completa escuridão. Nunca há deserto. Nunca há solidão. Há sempre vida no Oeste.
Até onde iria o comboio? Já não sabia onde estava. Tinha parado várias vezes, em estações e apeadeiros. Tinha perdido a noção do espaço, perdido no tempo a partir do momento em que a noite caiu. O exterior é sempre o mesmo, mesmo na lonjura do espaço. Mas sabia que teria de passar por Leiria. Sabia que tinha de chegar à Figueira da Foz.
E foi então que entrámos numa estação. Eu estiquei-me pela janela para ver o nome. Para ler onde estava. E vi. Mas não consegui ler. Estava em cirílico. Acho. Achei, na altura. Achei que era cirílico. Onde raio é que afinal estava? Não era na Linha do Oeste, com certeza.
Que merda!

[escrito directamente no facebook em 2018/12/28]

Sufocado pelas Palavras

Hoje sentei-me à janela a ver o dia morrer.
Um copo de vinho numa mão e um cigarro na outra. O olhar para além da casa. Para além da janela. Também há vida lá fora. Às vezes não parece.
O céu esteve azul na maior parte do dia. Azul com nuvens branco-sujo espalhadas um pouco ao acaso lá por cima. Depois a luminosidade começou a cair. O céu perdeu o azul e começou a ficar cinzento. O cinzento foi escurecendo. Ainda não é noite. Já há uns pontos de luz lá fora, na rua. É a iluminação pública. Os candeeiros nas ruas. As janelas das casas. Nas cozinhas. Nas salas. Nos quartos. Nas casas-de-banho. Há sempre gente a viver qualquer uma das partes da vida. A comer. A ver televisão. A fazer amor. A cagar. E, depois, também nalgumas lojas, que aqui não há muitas. O supermercado. A padaria. O talho. O café. Que mais um gajo precisa para viver?
Ainda não é de noite mas comecei a perder os contornos da montanha. Algumas casa perdem-se nas sombras que já tombam sobre a terra. Eu acabo uma garrafa de vinho. Levanto-me para ir abrir outra. Descubro que já não tenho mais garrafas de vinho. Tenho um pacote de cinco litros de Cruz d’Aviz, da Cooperativa da Batalha, que um amigo me trouxe do Lidl. Marcha. Abro o pacote. Encho o copo. Volto para a janela.
Sento e vejo que já é noite lá fora. Não demorou muito. Nesta altura, a noite cai rápido. Bebo um golo de vinho e sinto a garganta a queimar. Eh, pá! digo alto, e estranho a minha voz.
E o que é que estou aqui a fazer? A contar as horas para o Natal? Só espero que passe rápido e indolor.
Já não vejo nada lá fora. Só pontos de luz, como bolas coloridas nas árvores de Natal. O céu também está sombrio. Nem uma estrela para amostra. Nem uma estrela para pontuar, lá do alto, a árvore de Natal e o presépio.
Toca o telemóvel. Dou um pequeno salto na cadeira. Assusto-me. Não estou habituado a receber chamadas telefónicas. Atendo sem ver quem é. Alguém diz Vai haver greve dos trabalhadores dos impostos antes do fim do ano! Feliz Natal! e desliga. Não sei quem é. Quem era. Não sei porque havia de me interessar a vida dos trabalhadores dos impostos. Nem sei porque haviam de me desejar um feliz Natal.
Estou mais interessado em continuar a ver o que se passa lá fora, para além da minha janela. Os candeeiros da iluminação pública apagaram-se. Os pontos de luz são agora bem menos. Acabo o copo de vinho. Estou a beber depressa. Levanto-me e vou enchê-lo. Regresso à janela. Acendo um cigarro. Começa a chover. A chover bastante. A chuva faz um barulho ensurdecedor a cair aqui à frente. Vejo um raio de luz que ilumina a noite e me permite voltar a ver as montanhas lá em frente. Depois o trovão. Estrondoso. A tempestade está mesmo aqui por cima. Apagam-se as luzes todas. Mesmo cá em casa. A única coisa que vejo são alguns reflexos na água da chuva e o borrão do meu cigarro a queimar. Sinto-me o último homem na Terra. Apetece-me falar. Não tenho com quem. Acho que vou morrer com as palavras atravessadas na garganta. A sufocarem-me.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/14]

Demora a Fazer Efeito

Um breu.
Uma escuridão total. Não vejo um boi. Nada.
Tiro os óculos escuros, mas não ganho grande visão. São dezassete e trinta e já é de noite. Quase. Mas no meio do pinhal, onde eu estou, na estrada que passa pelo pinhal, já é noite quase cerrada. Não há iluminação pública. Não há luar. As luzes do carro são pouco mais que uma vela de cera a queimar no altar em Fátima. Brilha, mas não ilumina.
Este anoitecer tão cedo deixa-me deprimido. Não gosto desta escuridão. Não gosto do frio. Não gosto do Inverno. Não gosto de chá, nem de chocolate quente, nem de um conhaque à lareira. Não gosto da chuva fria e incómoda, da neve e do vento destruidor. Tudo se agrava por se aproximar o Natal. Vejo as pessoas com camisolas grossas de lã e gola-alta. De botas. Casacos de pelo. De penas. De lã. Meias grossas. Gorros. Cachecóis. Ponche quente. Bagaço para a constipação.
Sinto-me deprimir.
Tomo um Cipralex.
Penso que me vai reduzir a libido. Tirar a tesão. E deprimo ainda mais. Esta merda demora a fazer efeito.
Continuo pela estrada ao longo do pinhal e acelero. Tenho pressa em sair daqui. Sinto-me preso. Oprimido pela escuridão nocturna do Inverno. Nem uma estrela para amostra.
Saio do pinhal. Agora cruzo-me com feixes de luz de outros carros. Mas tudo me soa triste. Estas luzes brancas deixam-me nervoso. Irritado. Dirigem-se não-sei-para-onde mas até esse não saber me irrita. Fodam-se, pá!
Chego. Largo o carro e corro para casa. Entro. Acendo uma luz de candeeiro. Duas luzes de candeeiro. Sento-me no sofá e respiro fundo. Gostava de beber uma cerveja no alpendre. Beber uma cerveja e comer uns camarões da Figueira da Foz. Ou umas navalheiras do Tonico, ali da praia das Paredes de Vitória. E ver o sol ir caindo, devagar, lá ao fundo, atrás do mar. No Verão.
O sol já caiu. A lua, não sei por onde anda. Vadia.
Respiro fundo.
Levanto-me e acendo a lareira. Despejo um bocado de brandy num copo de balão e volto a sentar-me no sofá.
Acho que o Cipralex já começou a fazer efeito. Tenho de deitar fora a caixa. Antes deprimido que sem tesão.
Chego-me à lareira. Sento-me no chão. Beberico o brandy. Estou com frio. Mas a começar a aquecer.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/08]

O Verão que Passei Sentado no Banco Corrido do Café

Passei aquele Verão quase todo sentado num banco corrido encostado à parede do café. Ia para lá de manhã. E passava lá o dia. Via chegar os clientes habituais. Pessoas que precisam de uma bica para funcionar. Bebia café com eles. Fumávamos um cigarro juntos. Contavam-me coisas. Algumas sem interesse. Outras fantásticas. Umas poucas diabólicas. Eu ouvia.
Bom-dia! Bom-dia! E isto repetia-se.
Às vezes lia o Correio da Manhã. Quase todos os dias A Bola.
Às vezes levava a máquina fotográfica e fotografava as caras das pessoas que por ali passavam. Os velhos cheios de rugas e cara curtida do sol. As crianças à procura de um gelado, ou de um chupa-chupa. As mães para três dedos de conversa entre elas e saberem as novidades do dia.
Às vezes passava um turista. Alguém que se perdia a caminho da praia. Alguém a pedir uma informação. Alguém que precisava de uma garrafa de água. Geladinha.
Depois de almoço, geralmente petiscava qualquer coisa, dava-me a moleza. Dormitava por ali um pouco. Encostava-me à parede. Fechava os olhos. Um chapéu-de-sol da Olá protegia-me do sol. Depois acordava. Bebia uma imperial. Lia um bocado de um livro que se arrastava. Escrevia notas para um futuro livro. Via chegar os vespertinos.
Boa-tarde! Boa-tarde! E isto repetia-se.
Ao final da tarde começavam a chegar os homens. Vinham beber um bagaço. Uma mini. Um copo de tinto. Comiam um pastel de bacalhau. Discutiam. Discutiam muito. Sobre futebol. Diziam mal da Junta de Freguesia. Aliás, do Presidente da Junta. Maldiziam a vida. Depois diziam bem dos filhos. Das mulheres, variava. Às vezes esqueciam o tempo. Às vezes as mulheres iam lá buscá-los. Às vezes mandavam os filhos mais novos. Às vezes havia barulho. Zangas. Desconcertos entre eles. Eles, marido e mulher. Mas também eles, amigos. Vizinhos. O álcool fazia-os irritar. Falar alto. Odiarem-se ódios velhos que morriam rapidamente. Mas às vezes aqueciam as nozes dos dedos nas caras uns dos outros. Nada de muito grave.
Às vezes puxavam uma mesa cá para fora e jogavam Dominó comigo. À Bisca Lambida. À Lerpa. Ao Sete e Meio.
Sentavam-se muitas vezes lá comigo. A beber cerveja. Um vinho. A fumar um cigarro. À espera que a noite chegasse. A noite que os arrastava para casa. Às vezes iam a contra-gosto. E eu? Eu também partia com a noite.
Boa-noite! Boa-noite!
Depois, mais tarde, em Agosto, chegaram os emigrantes. Regressavam à terra. Vinham abrir as janelas das casas fechadas. Vinham arejar o bafio das casas. Vinham mostrar os carros potentes e vistosos. As roupas coloridas que não há cá. As sapatilhas de marca. Mas então? Agora a época era outra. Estava já tudo desfasado no tempo. Quem não vinha de fora ia ao Continente e tinha as mesmas coisas. As mesmas marcas. Os filhos confundiam-se já todos. Mas era bom estar ali sentado. Estar sentado e ouvir falar aquele francês, às vezes mal arranhado, mas sempre com sotaque. Como uma música velha num tijolo fanhoso. O sotaque dali. Um sotaque que eu já reconhecia.
Essa era também a época das festas. O banco estava sempre cheio de gente. Mas o meu lugar estava sempre reservado. Fotografei caras. Filmei a procissão. Escrevi estórias. Descrevi o baile. Gravei sons de conversas. De discussões. De namoros. Nesse Verão fiz uma bela recolha da vida que se cruzava ali, frente ao café.
Chegou o Outono. As pessoas foram embora. Ficaram as que ficam sempre. Passei a estar mais vezes sozinho. A apreciar mais a chegada solitária de um ou de outro. Aproveitava o pouco sol. Evitava a chuva. Enfrentava o frio.
Um dia, já perto do Natal, o café não abriu. O dono, já velhote, tinha morrido. Durante a noite. Sossegado. Em paz. O banco nunca mais voltou à rua.
Alguém comprou o café. Transformou-o em alojamento local. Anunciou-o no Airbnb. Eu deixei de lá ir. Deixei de ver pessoas. Deixei de ver a vida a acontecer por ali.
Agora não passo do alpendre de casa.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/05]