O Cheiro do Papo-Seco Fresco

Naqueles tempos eu acordava cedo. Bastante cedo. Muito mais cedo do que alguma vez viria a acordar mais tarde, mesmo quando o trabalho assim o exigia. Acordava cedo para aproveitar o dia. E, naquele mês de praia, para aproveitar a baixa-mar e andar a brincar na água até ter os dedos das mãos todos engelhados, saltava da cama aos primeiros raios de sol que entravam pela janela aberta para que o dia me acordasse com ele.
Levantava-me da cama. Lavava a cara. Vestia uns calções e uma camisola, enfiava os pés nos chinelos de borracha, pegava na saca do pão, uma saca de pano com uns desenhos bordados pela minha avó e que, segundo constava, era enxoval da minha mãe, agarrava as moedas que estavam ao pé da saca e saía de casa em silêncio para ir à abertura da padaria. Ainda hoje me lembro daquele cheiro a pão que nunca mais vim a reconhecer em lado nenhum. Ainda cruzava eu a praça deserta, às vezes com gente ainda dos restos das noites que me estavam proibidas, gente que dormia caída à entrada das portas, com poças de vomitado ao lado e restos de garrafas de cerveja tombada pela calçada portuguesa, e já sentia no ar aquele cheiro ao pão acabado de fazer. Às vezes ainda tinha de aguardar alguns minutos pela abertura da porta e, quando abria, era eu o primeiro cliente, levava pão fresco, papo-secos ainda quentes e às vezes uma arrufada que não chegava inteira a entrar em casa. Depois, sentado sozinho na mesa da cozinha, a ler um livro qualquer de quadradinhos, o Major Alvega, a Revista do Tintim ou o Jornal do Cuto, bebia um copo e leite frio e comia um papo-seco com manteiga, rasgado aos pedaços, que enfiava na boca sem tirar os olhos das páginas cheias de desenhos fantásticos e estórias do arco-da-velha.
Depois ia para o sofá da sala esperar que o resto da casa se levantasse. O resto da casa era a minha mãe e a minha irmã. Às vezes o meu pai. Mas o meu pai nunca ia para a praia connosco. Dava-se mal com o calor. Ficava com o corpo cheio de borbulhinhas que lhe davam muita comichão. Eu herdei essa alergia ao calor, mas acabei a contornar esse problema com o Zyrtec.
A minha mãe levantava-se. Acordava o resto da família. Arranjava as coisas. Comia. Dava de comer. E depois íamos.
Eu levava a minha toalha sobre o pescoço e uma sacola com dois ou três livros de quadradinhos para ler nessa manhã na praia.
Quando lá chegávamos eu ia logo ao mar molhar os pés e ver como é que seria o resto do dia. Depois voltava para a barraca, estendia a toalha, fazia um montinho para a cabeça, agarrava num dos livros de quadradinhos e evadia-me.
Regressava quando a minha irmã me chamava para ir com ela ao banho. E então íamos ao banho e ficávamos por lá até a minha mãe nos chamar, depois de estar a chamar-nos durante algum, bastante, tempo. E de nós fingirmos que não a ouvíamos.
Voltávamos para a barraca. Eu estendia-me ao sol. A minha mãe dava-me um pão com manteiga que eu devorava em três dentadas e ficava ali um bocado, de barriga para baixo, as costas para o sol, a imaginar-me nas aventuras com o agente Ene 3, o Buffalo Bill ou o Tarzan, o rei da selva.
Mais tarde haveria de voltar a casa para almoçar, que a minha mãe fazia sempre almoço para nós e para o meu pai, quando o meu pai estava. Iria dormir a sesta. Lancharia. E ainda iria para a praia lá mais para o fim da tarde. Nessa altura dava um passeio até às rochas e depois voltava a ir para o mar, nadar, mergulhar, brincar. Voltaria à toalha. Estender-me-ia ao sol. A minha mãe dar-me-ia um pequeno Tupperware com pedaços de fruta que eu devoraria e, quando o sol começasse a desaparecer no horizonte, voltaríamos para casa onde a minha mãe iria preparar o jantar enquanto eu e a minha irmã tomávamos um banho de chuveiro, rápido. Iria queixar-me das queimaduras nos ombros. A minha mãe iria dizer Eu bem te avisei, enquanto me iria passar um creme hidratante, provavelmente Nivea, nos ombros e, depois de jantar, iríamos dar um passeio pela marginal, regressaríamos a casa e, antes de dormir, eu iria ler mais uns livros de quadradinhos.
No dia seguinte tudo se repetiria. Da mesma maneira. Exactamente da mesma maneira. Pelo menos é assim que o recordo. E aquele cheiro ao pão fresco, acabado de cozer. Que vontade tenho agora de voltar no tempo por um daqueles papo-secos acabados de sair do forno.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/14]

A Fotografia de Joana Gil

Deram-me um prémio. Uma fotografia. Uma fotografia de um trabalho nota vinte.
Uma mão entregou-me a fotografia na mão. A mão agarrou a fotografia mas os olhos é que viram a nota vinte.
Um primeiro olhar. Um cacifo. Um recanto íntimo de memórias guardadas. As meias com cheiro a chulé; a camisola transpirada; as botas Doc Martens cheias de óleo; umas luvas de borracha; outras luvas de borracha mas guardadas dentro de uma embalagem de plástico inviolável, que o tempo escureceu, mas preservou; uma caneta Bic Cristal Azul; outra caneta Bic Laranja de escrita fina preta; um maço de cigarros CT vazio, um pouco amarfanhado; uma boina basca; um capacete de protecção amarelo; uma embalagem de graxa preta; várias embalagens de preservativos, algumas delas abertas e vazias; um preservativo usado, com um nó na ponta, preservado nos seus restos – um horror!; um recorte de jornal com a imagem da Gina Lollobrigida; um pente de plástico com alguns dentes partidos; uma caixa com brilhantina; um canivete com cabo de madeira e lâmina cega; umas moedas de cinco escudos – quanto valeria isto no tempo em que valia? e hoje, quanto vale isto que já não vale?; uma bola insuflável, azul, vazia, da Nívea – queria levá-la para a praia e jogar com o vizinho anónimo da barraca do lado; um cinto de couro claro com uma fivela com um s estilizado – um cinto da Mocidade Portuguesa perdido num mundo comunista, a ironia da vida; um número da Crónica Feminina – o que raio fazia isto lá?; um exemplar d’A Batalha; uma garrafa de vidro, vazia, da Sagres, com uma aranha a viver no seu interior; uma Nossa Senhora de Fátima luminosa; uma cautela perdedora; um boletim do Totobola; uma vela de aniversário com um três numérico desenhado a cores na haste da vela; uma canção do António Calvário que se adivinha; ou do Zeca Afonso; uma pastilha May, bolorenta, embrulhada num cromo de papel com a imagem do Vítor Baptista equipado com o vermelho e com um brinco na orelha; um cartão de sócio do Benfica com o nome rasurado e a cota de 19… é difícil de perceber de quando.
Suspiro. Respiro.
Um segundo olhar. O cacifo amarelo de um operário-anónimo. O cacifo amarelo de um operário-metalúrgico da Lisnave. O cacifo de um constructor de barcos que vê o seu suor transformado em espelho-de-água para os sultões da finança se babarem com Lisboa viva na menina-dos-olhos. Um cacifo amarelo vazio ao lado de outros indistintos cacifos amarelos vazios, sujos, depósitos de memórias numeradas mas que não consigo identificar. Um cacifo amarelo onde estão coladas fotografias de mulheres nuas em poses eróticas. Desejáveis. E vejo o operário-metalúrgico que já esteve em construção, a masturbar-se sobre estas mulheres-fotografia que saíram do passado para o meu presente.
Está calor. Transpiro. Um pingo de suor tomba sobre as fotografias das mulheres-fotografia na fotografia premiado que a mão colocou na minha.
Não limpo. Não seco. Deixo escorregar. Até cair do papel mate que transporta até mim essa memória.
A fotografia é da Joana Gil. E eu sinto-me agradecido pelo que a fotografia me dá.
Sento-me no sofá e espero que me tragam também à mão um copo de vinho enquanto continuo a contabilizar o que o cacifo amarelo continha lá dentro: uma caixa de fósforos; um bloco de papel com linhas; um mata-borrão – e para que é que servia, ao operário, o mata-borrão?; uma régua de plástico incolor com 25 centímetros; uma primeira página, rasgada, de A Bola; uma caixinha de pó-de-arroz vazia e um espelho redondo quebrado; uma sapatilha da Edmar, número 40, mas solitária, sem par; uns calções de banho azuis escuros; uma caixinha para isco de pesca mas sem isco; uma embalagem de rebuçados Dr. Bayard, todos colados uns aos outros; um coração tosco desenhado com batom vermelho num guardanapo de papel. E percebi que o operário também foi amado.
A fotografia cai-me das mãos. E sinto-me adormecer até deixar de sentir o que quer que fosse porque já devo estar a dormir. E ninguém me traz copo de vinho.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/09]

Preciso de Sair Daqui

Mexo o braço debaixo de água. Vejo-o a mover-se lento, travado pelo atrito da água. O sol brilha, reflecte no espelho de água e, por momentos, deixo de ver o braço. Mas sinto-o a flutuar. Suave.
Deixo-me cair na água. Flutuo. Sinto pequenas ondas passarem por cima de mim. Está calor. Sinto-me bem aqui.
Tenho os olhos fechados aos raios de sol. E no entanto vejo. Vejo gente a mergulhar. A saltar da pequena prancha meio-metro acima da piscina. Vejo as explosões provocadas pelas bombas humanas lançadas em peso sobre a água da piscina para molhar as cercanias. As miúdas fogem. Fogem a rir. Algumas ainda são salpicadas por pingos de água. Despem os vestidos que largam abandonados pelo chão e mergulham na piscina. Brincam. Riem.
Alguém manda uma bola grande, insuflável. É azul. Tem escrito Nivea. É uma gigantesca bola insuflável da Nivea. Saltita na piscina. Mãos lançam-na de um lado para o outro. Não pára. Não cai à água. Alguém mais afoito bate com mais força e a bola foge para longe da piscina.
Há música no ar. Uma música alegre, fresca, dançável. Sinto-me a bater o pé. Não sei onde. Não me vejo. Mas sei que estou ali. Sei que estou ali porque sou eu que vejo o que se passa. E sinto-me a bater o pé ao ritmo da música que paira sobre o jardim, a piscina, a multidão de gente jovem e bonita.
Um casal beija-se. Um pequeno grupo dança. Uma trupe de pequenos diabretes corre de um lado para o outro disparando jactos de água de pistolas e metralhadores de plástico.
Alguém passa com uma cerveja na mão.
Uma rapariga está deitada numa chaise-longue enquanto bebe um longo cocktail colorido e cheio de adereços à volta do copo.
Um rapaz está sentado no meio da relva a comer uma fatia de melancia. Pinga-se. O sumo da melancia escorre-lhe pelo peito. Duas raparigas sentam-se ao pé dele e cortam mais fatias da melancia e também comem. Uma criança aproxima-se de uma das raparigas e senta-se ao colo dela. A rapariga dá-lhe a comer um bocado de melancia. O miúdo trinca. Depois levanta-se e vai a correr ter com os outros miúdos.
Abro os olhos. O sol já está mais baixo. Vejo o azul do céu. Não há uma nuvem. O céu está limpo. Ouço o restolhar das pequenas ondas da piscina a bater nas margens. Ainda está calor. As folhas das árvores não se mexem.
Viro-me. Nado até ao muro. Ergo-me. Saio da água. Entro em casa molhado. Deixo um rasto de água no chão da cozinha. Abro o frigorífico. Agarro numa cerveja. Abro-a. Dou um grande gole. Vou até ao jardim com a garrafa na mão. Sento-me numa cadeira e olho a piscina vazia. O jardim deserto. O silêncio. Não, o silêncio não. Ouço as cigarras. O som das cigarras é a minha companhia.
Preciso de sair. Preciso de sair daqui. Preciso de ver gente. Preciso de conversar. Tocar em alguém. Preciso de um pouco de confusão.
Mas não me levanto. Continuo sentado na cadeira. Sinto a garrafa a escorregar-me dos dedos, não a consigo agarrar e cai sobre a relva. Ouço a cerveja a sair da garrafa. Mas não me levanto. Continuo sentado na cadeira. A olhar as pequenas ondas na piscina vazia.

[2019/06/24]