Setenta e Cinco Anos

E então?
É noite, embora fosse ainda dia. Fumo um cigarro à janela e ouço a telefonia na cozinha.
Hoje é dia de memórias. Passam setenta e cinco anos da libertação do campo de Auschwitz. Mas parece que ninguém aprendeu nada.
Continuamos a cuspir-nos ao espelho.
Espelho meu, espelho meu, existe alguém melhor que eu?
O trabalho liberta.
Soares é fixe.
O partido é sexy.
Diferentes mas iguais.
#MeToo.
Fumo o cigarro cá em cima, à janela. Lá em baixo passam as pessoas apressadas. Para o trabalho. Para casa. Fazer o jantar. Lavar a roupa. Passar a ferro. Fazer os TPC. Aspirar o pó. Cerzir as meias. Mudar a roupa da cama. Apanhar as batatas. Plantar milho. Cozer as couves. Assar um frango. Amanhar o peixe. Pintar as unhas. Cortar o cabelo. Lavar o carro. Ver o jogo. Corrigir as provas. Coçar um olho. Coçar os dois. Abrir a boca num bocejo. Que horas são?
Fumo o cigarro cá em cima, à janela. Lá em baixo passam as pessoas apressadas.
Uma voz grita Bebes um copo? As cabeças abanam. Todas as cabeças abanam. As pessoas estão atrasadas. Estão sempre atrasadas para irem fazer o que têm de fazer.
O trabalho liberta. Liberta quem?
Continuo a fumar o cigarro à janela enquanto ouço a telefonia na cozinha.
A mulher mais rica de África, ouço.
A mulher é uma ladra, ouço,
As provas não têm legalidade no país, ouço.
O trabalho liberta, lembram-me.
Não. O dinheiro liberta.
Setenta e cinco anos da libertação de Auschwitz. Não aprendemos nada.
Continuamos no ódio. Ao judeu. Ao árabe. Ao cristão. Ao preto. Ao amarelo. Ao vermelho. Ao comunista. Ao fascista. À mulher. Ao homem. Ao velho. Ao novo. Ao careca. Ao cabeludo. Ao albino. Ao cigano. Ao transmontano. Ao alentejano. Ao vizinho. A ti. A mim.
E então?
Está escuro e é já quase noite. Acabo de fumar um cigarro à janela e ouço a telefonia na cozinha.
Hoje é dia de memórias. Passam setenta e cinco anos da libertação do campo de Auschwitz. Mas parece que ninguém aprendeu nada.
Mando fora a beata do cigarro. Fecho a janela. Desligo a telefonia.
Silêncio.
Não estou.
Não estou para ninguém.
Tenho o jantar por fazer. A roupa por lavar. As camisas por passar. Os TPC por fazer. O pó por aspirar. As meias por cerzir. A roupa da cama por mudar. As batatas por apanhar. O milho por plantar. As couves por cozer. O frango por assar. O peixe por amanhar. As unhas por pintar. O cabelo por cortar. O carro por lavar. O jogo para ver. As provas por corrigir.
Foda-se!
Visto o casaco. Apanho o maço de cigarros, o telemóvel e a carteira. Saio de casa. Preciso de rua. De ar fresco. De gente. De conversar. Beber um copo. Rir. Dançar.

Em Alcobaça Há Maçãs, Mercedes, Turistas e um Rei do Toys R Us

Alcobaça. Praça 25 de Abril. Frente ao Mosteiro. Estou na esplanada. Numa das esplanadas viradas para a fachada do Mosteiro. Nas escadas de acesso à entrada, Dom Pedro V, rei de coroa de plástico falsa, espada do Toys R Us e capa de cetim vermelha, estende a mão ao grupo de turistas asiáticos (devem ser de um só país, mas não sei qual) que o fotografam em inúmeras fotografias todas iguais.
É fim-de-dia. Ainda está sol. Está frio. Estou numa esplanada em frente à fachada a beber um café e quando levo a chávena aos lábios, o café está frio. Frio e queimado.
Na Praça 25 de Abril, na praça onde em certos fins-de-semana se vendem velharias como antiguidades, está uma mãe com uma criança pequena. A mãe agarra a pila da criança na mão e aponta para uma árvore. A criança mija como os cães, contra a árvore raquítica e despida como são todas, ou quase, neste Inverno onde começou realmente, agora, a fazer frio.
O sol começa a baixar rápido. As sombras começam a invadir a fachada do Mosteiro. O rei continua de mão estendida. Dois autocarro param no parque de estacionamento ao lado e os asiáticos enfiam-se, rápidos, lá dentro. Vão-se embora. O rei bate com os pés no chão de pedra das escadas. Tem frio, provavelmente. O rei não é um cão. O rei tem frio.
Um Mercedes pára na berma da estrada frente à esplanada. Estaciona onde não pode estacionar. Mas é um Mercedes. Os velhos, que perderam a vista para o Mosteiro, refilam. Mas refilam em voz baixa. Nunca se sabe quem sai de dentro de um Mercedes. E quando a porta se abre, sai lá de dentro o filho do dono do Mercedes. Os filhos são sempre mais desligados destas coisas que os pais. Os filhos já nasceram assim, donos da vida. Da vida deles e da vida dos outros. Que importa que não se possa estacionar ali onde se quer estacionar? Que importa que se tape a vista aos velhos? Não deviam estar no lar? No cemitério?
Estava no meu solilóquio quando estaciona outro Mercedes atrás do primeiro. Agora é uma carrinha. Duas senhoras. Meia-idade. Bem vestidas. Cabelo de cabeleireira. Casacos quentinhos. Carros elegantes. Há muitos Mercedes em Alcobaça.
Alcobaça também é uma zona de muita fruta. A Maçã de Alcobaça é bastante conhecida e apreciada em todo o lado. Mas é impossível de encontrar no Pingo Doce. Santos da casa não fazem milagres.
Já não há sol. O céu ainda está azul, mas já não há sol. Fecho o casaco. O frio está mais forte. O rei foi embora e nem dei por isso. Os asiáticos também. Nem vi os autocarros a partirem. A mãe e o filho que mijava nas árvores do 25 de Abril também desapareceram. Já não há ninguém na praça frente ao Mosteiro de Alcobaça. Há algumas pessoas nas esplanadas, senhoras de casacos-de-pele e homens de sobretudo. Alguns jovens de fato-de-treino e banho por tomar.
Olho à volta e espero que alguém me convide para uma Cornucópia no Alcoa. Não há ninguém. Onde estão todas as pessoas da minha vida?

[escrito directamente no facebook em 2020/01/25]

O Coronavírus

Quando finalmente resolveram fechar os aeroportos, já era demasiado tarde. O vírus já se tinha espalhado por todo o lado.
A resposta das autoridades à epidemia do Coronavirus foi muito lenta e tardia. As poucas decisões, titubeantes, esbarraram sempre na impossibilidade política: não se podiam fechar os aeroportos; não se podiam parar os comboios; não se podiam fechar as estações de Metro e de autocarros. Havia sempre algo em jogo. Nomeadamente dinheiro. Havia sempre demasiado dinheiro em jogo para impedir as pessoas de circular e, eventualmente, espalhar o vírus. Que importa algumas mortes se o dinheiro continuar a circular, junto com as pessoas e a economia. Nada pode parar. Parar é morrer. O objectivo é sempre o crescimento. Parar a circulação de pessoas e bens materiais é parar o crescimento. E isso é impossível.
Lembrei-me do Tubarão, o filme-marco da inauguração dos blockbusters de Steven Spielberg. Quando um grande tubarão aparece numa praia americana a trincar pessoas, o governador não permite que se feche a praia porque as pessoas dependem do Verão para viver o resto do ano – a economia, percebem? E assim vamos indo. O primado da finança sobre a humanidade. Onde é que isso nos levou? Para já, e segundo parece, ao fim-do-mundo. É onde estamos.
Eu estou melhor aqui em casa que as pessoas que estão em Lisboa ou, pior ainda, em Hong Kong. Tenho mantimentos no meu quintal. Comecei a produzir outros mal percebi que as coisas iam descarrilar, como descarrilaram.
Quando finalmente resolveram fechar os aeroportos, já tinham morrido alguns milhões de pessoas em todo o mundo. Como foi possível esperar tanto tempo?
Tenho seguido as notícias através da internet. A internet continua a funcionar. Algumas estações de televisão e rádio também.
Aqui no meu canto, numa aldeia perdida no sopé das Serras de Aire e dos Candeeiros, não tinha a noção de como as coisas estavam. Estão. Agora, nos grandes centros urbanos, ninguém pode sair de casa. O exército patrulha as ruas. Quem for encontrado na rua, é morto a tiro, esteja contaminado, ou não. Quando decretaram o recolher obrigatório total, quem estava em casa ficou em casa, quem estava no trabalho, ficou no trabalho. Algumas dessas pessoas puderam continuar a fazer o seu trabalho, como os que estavam na televisão, um trabalho limitado, claro, mas que mesmo assim, ia tentando pôr alguma ordem na informação que circulava pelas redes sociais.
Houve alguns movimentos de revolta que quiseram desafiar as autoridades e saíram para a rua. Um grupo de pessoas, em Lisboa, arrancou para a cidade em cima de uma camioneta, munida com colunas e música techno. Uma festa ambulante. Foram apanhados por um pelotão da Cavalaria e foram mortos a meio da Avenida de Roma. Alguém filmou do interior de um dos apartamentos. As imagens circularam rápidas pelas redes sociais. A indignação subiu de tom. Havia sempre dois grupos em confronto: os que achavam que a Cavalaria tinha feito o que lhe competia; e os que achavam que as pessoas deviam ter opção de escolha. Eu? O que é que eu acho? Onde estou é diferente. Aqui as pessoas circulam entre as casa de uns e outros. Os militares passam por cá, de vez em quando, mas não ficam. Há pouca gente. Numa cidade grande é diferente. De qualquer forma, eu não costumo sair de casa. Já antes não saía. Mas faço algumas trocas com os meus vizinhos. Ajudamos-nos dentro do possível.
A primeira coisa que fiz quando senti que o caos se estava a instalar foi colocar arame-farpado à volta do quintal. Tenho de proteger a minha horta, o meu pomar. As galinhas e os patos. Anda muita gente por aí no saque. Já disparei sobre dois indivíduos que tentaram saltar o arame-farpado. O cão começou a ladrar e eu disparei a espingarda sobre eles. Acho que lhes acertei, mas não tenho a certeza. Havia sangue sobre o muro, mas podia ter sido das feridas motivadas pelo arame-farpado.
Não sei como é que tudo isto vai terminar. As expectativas não são boas. As últimas notícias davam conta da impossibilidade de controle da epidemia do Coronavírus.
Estão-se-me a acabar os cigarros. Ainda tenho algumas garrafas de vinho na adega. Tenho algumas caixas de balas. Limpo a espingarda todos os dias. O cão e os gatos patrulham o quintal. Arranjei a câmara, que não funcionava, do portão de entrada. Tenho pena de não ter outra para o muro das traseiras.
O céu promete chuva.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/24]

Íamos os Três de Carro

Íamos os três de carro. Eu ia a conduzir. Ela ia ao meu lado. Ele estava atrás dela. Eu via-o pelo espelho retrovisor. Levava os auscultadores nos ouvidos. Os olhos fechados. Não sei o que ia a ouvir. Talvez música. Mas não havia rádio nem internet. Estava tudo offline. Se calhar levava os auscultadores nos ouvidos para se desligar de nós, para se afastar. Estava a dizer que estava ali mas não estava.
Íamos os três de carro e íamos em silêncio. Eu ia com atenção à estrada. Chovia muito. Não via quase nada. Por vezes, quando a chuva tornava a viagem mesmo impossível, parava debaixo dos viadutos que cruzavam a A1. Depois, quando abrandava, ou pelo menos, quando não era tão agressiva, voltava à viagem. Sempre com muita atenção. Sempre em silêncio.
Íamos os três de carro e eu levava um cigarro apagado na boca. Apetecia-me fumar, mas era impossível abrir as janelas com a chuva que caía lá fora. Não podia acender o cigarro. Quer dizer, poder, podia, mas não devia. Não é que não me apetecesse. Pelo menos para chatear o tipo, fazê-lo falar, sei lá Podes apagar essa merda, se fazes favor? ou qualquer coisa do género. Mas achei melhor estar quieto. A viagem já era complicada. Não precisava de a complicar mais.
Íamos os três de carro e, por vezes, pensávamos que éramos os últimos sobreviventes na Terra. Até ao momento ainda não tínhamos encontrado nenhum outro carro na auto-estrada. Nem na nossa direcção nem na direcção contrária. Ninguém é doido o suficiente para vir para a rua nestas condições. Só mesmo nós. Nem os carros da Brigada de Trânsito se viam. E ainda havia Brigada de Trânsito? Não sabia. Ninguém sabia. Há quanto tempo não tínhamos acesso a informação?
Íamos os três de carro pela auto-estrada A1. Íamos para Coimbra. Até ao momento ainda não tínhamos precisado de sair da auto-estrada. Não havia lençóis-de-água. Não tínhamos encontrado zonas alagadas. A estrada estava transitável. Estava quase a referir um milagre. Mas eu não acredito em milagres. Não depois de tudo o que tem acontecido.
Íamos os três de carro pela A1 até ao Hospital dos Covões, em Coimbra. Pelo menos esperávamos que o combustível que levávamos num jerricã fosse suficiente para lá chegar e que o hospital estivesse a funcionar e que a consulta que ele tinha marcada desde há um ano ainda se mantivesse. Muitos ses mas, mesmo assim, achámos que era melhor arriscar.
E assim fizemos.
Foi quando começámos a fazer a última subida antes da descida para a saída de Coimbra que nos deparámos com os primeiros sinais de vida desde que saíramos de casa. Estávamos já em cima deles quando a forte chuva que caía nos permitiu ver um camião TIR, a tentar ultrapassar outro camião TIR. Depois de uma viagem sem ver vivalma, apanhei com dois camiões a bloquearem-me a estrada numa subida. Fui atrás do camião da esquerda, o que ia a ultrapassar, mas mantive-me à distância para não ser entalado.
Quando chegámos ao cimo da subida e começámos a descer, o camião da esquerda, que ia a ultrapassar, começou a ganhar velocidade e, finalmente, parecia que ia conseguir ultrapassar o camião da direita e libertar a passagem para que pudéssemos seguir viagem.
Mas não foi o que aconteceu.
O camião da esquerda vez um movimento brusco para a direita, começou a deslizar pela água que escorria descida abaixo e foi contra o outro camião. Eu só tive tempo de tirar o pé do acelerador, baixar a alavanca de velocidades e travar o carro. Senti-o a deslizar pela descida, com os camiões à nossa frente, todos a deslizar, até que começaram a rebolar e foram assim durante vários metros e eu, entretanto, consegui, finalmente, parar o carro no meio da estrada.
Estávamos os três dentro do carro assustados e em silêncio a olhar para o que tinha acontecido. Eu sentia o coração a querer saltar para fora do peito. Ela vomitou para cima do tablier. Ele, vi pelo espelho retrovisor interior, tirou os auscultadores dos ouvidos como para ver melhor. Mas a imagem era muito deficiente. Tínhamos uma queda de água entre nós e os camiões engalfinhados um no outro.
Eu saí do carro para poder ver. Chovia que Deus-a-dava. Avancei uns metros. A auto-estrada estava bloqueada. Não conseguiríamos passar. Também não via sinal dos motoristas dos camiões. E a chuva não parava. Voltei para o carro.
Acendi um cigarro. Finalmente, alguém falou. Foi ela. E perguntou E agora? Eu olhei para ela, abanei a cabeça e disse Não sei!

[escrito directamente no facebook em 2020/01/23]

A Insatisfação

Os dias sucedem-se. Uns a seguir aos outros. Uns iguais aos outros.
A insatisfação.
Agora todos os dias são Domingo.
Mal vejo a claridade do dia a furar os buracos das persianas e entrar pelo quarto nas asas dos grãos de pó que navegam no ar, enfio-me debaixo do edredão. Tapo a cabeça. Fecho os olhos. Mantenho os ouvidos atentos. Não descolo da vida. Só fujo. Não estou cá.
Ouço o silêncio da casa. Não há os passos suaves da amante. Nem a corrida desenfreada dos filhos pelo corredor. Não há as patas impacientes dos cães à espera de ir à rua.
Ouço os sinos da igreja a chamarem os fiéis para a missa das oito. Não é para mim. Mas ouço as vozes em bando dos crentes. Vão em bando, como pardais. Comungam. Cumprimentam. Dizem ámen.
Acho que é imaginação. Estou debaixo do edredão, no quarto, numa casa de vidros duplos. Não posso ouvir as conversas de quem caminha ao fundo da rua, quatro andares abaixo de mim e da minha neura matinal.
E então…
Ouço o galo a cacarejar, como ouvia na aldeia do meu pai, na aldeia ao norte onde ia nas férias de Verão, na aldeia onde mergulhava no pequeno rio de água cristalina, na aldeia onde corria pelos arraiais populares e onde comia o caldo verde com chouriço e azeitonas onde o meu avô despejava um fio de azeite.
Ouço a minha mãe a chamar-me Levanta-te mandrião, enquanto puxava os estores, afastava as cortinas e deixava o dia entrar dentro do meu quarto, e me deixava um tabuleiro com torradas e um copo de leite frio em cima da cama. Vá, levanta-te!, insistia. E eu levantava-me na cama e lia uma banda-desenhada do Buffalo Bill enquanto devorava as torradas barradas com manteiga Primor meio sal.
Ouço o meu irmão gritar Despacha-te, pá! enquanto enfiava uns calções e uma t-shirt, os chinelos nos dedos dos pés, e se preparava para ir ao mar de madrugada antes que os turistas invadissem a praia e deixássemos de ter espaço para as braçadas que gostávamos de dar, livres, numa natação paralela à costa, das rochas até ao porto e regresso.
Ouço a minha amante sussurrar-me ao ouvido Chega-te para cá! Chega-te para mim! e eu chegar-me e colar o meu corpo ao corpo dela. E sentir-lhe o corpo fremir, a reagir ao meu e perceber o que era o desejo, a dimensão do meu desejo.
Sinto os pés do meu filho aos saltos na cama enquanto grita que quer ir andar de bicicleta comigo para a praça e eu desperto e levanto-me e vou para a praça andar de bicicleta.
Oh, a insatisfação.
A casa está em silêncio. Não há nada nem ninguém. Só eu, debaixo do edredão, num dia igual aos outros dias, e sem vontade de sair da cama, do quarto, da casa e pular para a vida de todo os dias.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/19]

Um Agente da G.N.R. Tocou a Campainha da Porta da Rua

Fiquei sem gasolina na motorizada. É uma merda ficar sem gasolina na motorizada às sete da manhã, depois de uma noite de trabalho em dia que promete chuva.
Sou o único a fazer as noites aqui na fábrica. O que fica a funcionar à noite é tudo automatizado, mas alguém tem de estar de vigia não vá o diabo tecê-las e alguma das máquinas parar, ou aquecer demasiado. Quando a fábrica acabou com o turno da noite, ninguém se prontificou a continuá-lo. Eu ofereci-me. Gosto de trabalhar à noite. Recebe-se um pouco mais. Não é muito mais. Mas ainda é algum. De qualquer forma, não tenho ninguém à minha espera em casa. Com excepção da minha filha quando cá vem. Ela vem e vai assim, quando lhe dá na telha. Nem diz água vai. Quando se farta da faculdade, dos colegas, do namorado, vem cá passar uns dias a casa. Às vezes mal a vejo. Ela entra e sai. Eu também entro e saio. Às vezes jantamos. Jantamos cedo para eu entrar ao serviço. Mas jantamos. Às vezes também tomamos o pequeno-almoço juntos. Já aconteceu eu estar a chegar a casa e ela ter a mesa posta, torradas feitas e barradas com manteiga e uns ovos mexidos, coisa que nunca como ao pequeno-almoço mas que me agrada que ela faça. Mas não acontece muito. Geralmente está a dormir quando chego a casa. E quando acordo, ela já não está por lá.
Começa a chover. Uma merda nunca vem sem companhia. Gaita.
Logo à noite tenho de vir mais cedo para fazer o caminho a pé e trazer um jerricã com combustível para a motorizada. Até me faz bem andar a pé mas, ao fim de uma noite de trabalho, quero é esticar-me na cama e deixar-me adormecer. Não andar a fazer maratonas. Já não tenho idade para maratonas. E agora chove. E começa a chover com alguma força.
Não vale a pena acelerar o passo. Já estou encharcado. E não consigo andar muito mais depressa com esta perna apanhada pelo reumatismo. Maldita velhice. Maldita vida de pobre.
As luzes dos candeeiros de rua ainda estão acesos. Já há alguns carros na estrada. E ali vai a carreira para Lisboa. Também ia nela para Lisboa. Ia ao Estádio da Luz ver o voo da águia Vitória. Ia a Belém comer um Pastel de Nata, daqueles a sério. Apanhava o comboio no Cais do Sodré e ia até Cascais. Depois voltava. Gosto de viajar ali assim, ao lado do rio que é quase já mar. Há zonas lá que quando as ondas estão mais furiosas quase que atingem o comboio. Gosto de ver isso. Gosto de ver a fúria daquele quase-mar quase em cima de mim. Já uma vez lá fui. E gostei. Prometi que voltava. Nunca mais voltei.
Também gostava de apanhar o Cacilheiro e cruzar o rio até à outra margem. Passear-me ali pelo Cais do Ginjal. Ver aqueles carros que se enfiam por lá, a tentar sair sem cair ao rio. Há gente muito doida. Muito doida mesmo.
Fumava um cigarro, mas molhava-se todo. É melhor não.
Também ia comer um bife à Portugália. Um dia não são dias. E levava a miúda. Se ela quisesse ir comigo. Gosto daqueles bifes com molho. Acho que é um molho de mostarda, não é? E um ovo estrelado por cima do bife. E as batatas fritas. Gosto de molhar as batatas fritas naquele molho. E tenho de pedir o bife mal passado. Quase cru. Senão, torram-no todo. Há quantos anos não vou a Lisboa?
Nem sei porque é que estou a pensar nestas coisas. Sei que não vai acontecer. Eu nem posso sair daqui. Quem é que iria fazer as noites na fábrica? Ninguém quer fazer as noites na fábrica. Só eu.
Tenho de fumar um cigarro antes de entrar em casa. Não fumo em casa com a miúda lá. Ela não gosta do cheiro. Eu percebo-a. E não me custa nada, não é?
Aqui. Aqui na paragem dos autocarros. Sento-me aqui um pouco e fumo um cigarro. A casa é já ali. Fumo um cigarro e depois vou descansado para casa.
Acendo o cigarro. Faço um esquema do meu dia. Tomo um banho. Seco-me. Deito-me. Adormeço. Tenho de me levantar mais cedo, amanhã. Para ir buscar combustível para a motorizada e fazer o caminho a pé até à fábrica. Como qualquer coisa. Arranjo o farnel para a noite. E vou à estação de serviço. E agora, um banho antes de me deitar. Estou encharcado. Encharcado e com frio. Talvez ela tenha feito o pequeno-almoço.
Acabo com o cigarro. Vou até casa. Entro. A casa está às escuras. E em silêncio. Cheira-me a café. Vou até à cozinha. A máquina do café esta ligada. Ela fez café, mas não fez pequeno-almoço.
Está uma folha de papel em cima da mesa da cozinha. Agarro no papel.
Fui-me embora. Não sei quando venho outra vez. Arranja um telemóvel. Xi♥. A tua filha.
Fico ali um bocado em pé com o bilhete na mão. Sei que nos vemos pouco. Que não conversamos muito. Mas agora que sei que ela voltou, de novo, para Lisboa, sinto a casa ainda mais triste. Triste e fria. Tenho um arrepio de frio. Lembro-me que estou molhado. Bebo uma caneca de café que ela deixou feito e vou para a casa-de-banho. Tomo um duche quente. Seco-me. Vou para o quarto. Deito-me na cama. Estou cansado. Ponho o despertador e fecho os olhos. Aguardo que o sono me leve.

Sou acordado com a campainha da porta da rua a tocar. Abro os olhos. Vejo as horas. Ainda é muito cedo. Muito cedo para mim. Levanto-me. Visto umas calças. Calço uns chinelos. Saio do quarto. Percorro o corredor e abro a porta da rua. Está um agente da G.N.R. do outro lado da porta aberta. Conheço-o. Faço uma interrogação com a minha cara. Ele diz Houve um acidente com a carreira que ia para Lisboa.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/14]

As Tardes Frias de Inverno

Então era assim que eu passava as tardes frias de Inverno até à noite, tarde da noite, altura em que, já bêbado de sono, me arrastava para a cama, num quarto frio, e me enfiava debaixo do edredão com uma botija de água quente da loja dos chineses a aquecer os lençóis e, talvez os pés.
Acordava todos os dias tarde para estar o máximo de tempo possível no quente da cama. Depois ia para a cozinha, comia uma papa Nestum com Mel, quando havia, ou aquelas papas de aveia, que os supermercados têm na zona dos integrais ou da vida saudável, por causa dos dentes, não podia mastigar comida sólida e as papas escorregavam pela garganta abaixo até ao estômago sem grandes trabalheiras. Mas não gostava de papas. Nunca tinha gostado. Era um martírio comê-las. Mas, ao almoço, era com elas que convivia.
Ia para a cozinha, acendia a salamandra e ficava por lá sentado à mesa a escrever no computador, a tarde e a noite, no quentinho, ainda calçava umas luvas sem dedos para poder trabalhar e, às vezes, em dias de maior frio, um barrete de lã que enfiava pela cabeça abaixo. Duas ou três vezes por semana saía de casa e ia procurar lenha perdida no mato perto de casa. Uns gravetos. Pinhocas. Ripas de pequenas construções abandonadas. Restos de madeira, qualquer tipo de madeira, às vezes até antigos móveis abandonados que partia em pedaços pequenos e levava para casa para alimentar a salamandra. Ainda encontrei duas cadeiras, tipo poltrona, de madeira, que estavam em condições, talvez um pouco velhas, essas não as parti em pedaços mais pequenos, lixei-as, dei-lhes tratamento, arranjei umas almofadas e ainda hoje tenho essas cadeiras.
Ao meu lado uma chávena de chá que estava sempre cheia. Então gostava muito de chá. Bebia bastante. Tinha, em cima do balcão da cozinha, uma chaleira onde estava sempre a aquecer água. Tinha sempre uma caneca fumegante ao lado. Às vezes acompanhava com um cigarro. Mas tinha de controlar os gastos com o tabaco. Não podia fumar mais de meio-maço por dia. Com o chá estava à vontade. Reciclava-o. Um pacote de chá dava para várias canecas, até perder o sabor.
Escrevia até cansar-me. Depois levantava-me, ia até à janela e olhava para fora, para a rua. Olhava as janelas da vizinhança. As pessoas que passavam lá em baixo, na rua. Enfiadas nos seus grossos casacos. Não conhecia ninguém. Às vezes estes olhares tornavam-se histórias e serviam-me de inspiração, outras vezes era só mesmo para desentorpecer as pernas e descansar do ecrã branco e das letras que se posicionavam como pulgas atrás umas das outras.
Ao início da noite olhava para o fogão e via lá a panela de sopa. Geralmente tinha sempre sopa que fazia numa panela grande e que durava alguns dias. Ia ao supermercado da rua, comprava batatas, às vezes chuchu, cenouras, nabos, alho francês. Triturava tudo. Deixava um ou outro pedaço maior para poder saborear. Depois mandava tudo para dentro da panela. Às vezes juntava alguns feijões de lata, já previamente cozidos, ou umas massas, tipo cotovelo, ou macarrão. Uma couve lombarda. Enfim, os legumes que conseguisse comprar. Ia tudo para dentro da panela. As minhas sopas eram sempre iguais e, ao mesmo tempo, sempre diferentes. Dependia do que arranjava. E conseguia comer aquilo, mesmo sem mastigar.
Em certos dias, dias com mais fome e saturado daquelas papas e da sopa, apetecia-me comprar carne moída para fazer um chili com carne. Sonhava com esse dia. O dia em que os dentes já não me doessem e eu conseguisse mastigar. Estava então sentado na mesa da cozinha a trabalhar, depois de ter comido o Nestum com Mel, quando olhava para o fogão e via a frigideira com o chili e sentia uma fome danada. Um desejo de fome. Mas não estava lá chili nenhum. Era só a minha vontade. Há muito tempo que não comia chili com carne nem outras comidas sólidas. Não gostava das papas, mas gostava bastante de sopa. E não me queixava.
Então, era raro o telefone tocar. A campainha da casa, nem sequer me lembro de a ouvir. Todos os trabalhos que queriam de mim, todos os trabalhos que me encomendavam, era pedidos por e-mail. Não tinham que me encarar. Nem de ouvir a minha voz. Não havia contacto.
Naquela altura passei bastante tempo em silêncio. Em casa e em silêncio. Às vezes nem reconhecia a minha voz.
Então, no calor da salamandra, desejava que chegasse o Verão.
Porque tudo passa. Ou não?

[escrito directamente no facebook em 2020/01/13]