A Queda, parte 03 e final

Acabou-se-me o cigarro. Morreu entre os meus dedos. A incandescência queimou-me as peles soltas nos cantos, junto às unhas, onde a pele está amarelada, um amarelo-hepatite que é, afinal, dos cigarros.
Estou sentado no chão da varanda, encostado à parede. Preso na minha incapacidade de reacção.
Reajo. Tento reagir. Mas não me mexo. Sinto um fio de baba a cair-me do canto da boca e levanto, a custo, a manga da camisola. E limpo-me.
Cruzo as pernas nelas próprias. Endireito as costas. Ergo os braços como numa prece. Junto polegar e dedo do meio. Fecho os olhos. Expiro todo o ar que tenho nos pulmões. Esvazio-me.
Sinto-me desacelerar. Sinto as batidas do coração espaçarem-se. Espaçarem-se cada vez mais. Cada vez um bater mais distante. Cada vez um bater mais silencioso. Até deixar de bater. Até deixar de o ouvir bater. Até parar.
Tudo pára.
Rebobino o filme.
Faço a estória regressar atrás. Não ao início, ao princípio de tudo onde tudo era o verbo e o início do livro. Mas ao início do último capítulo. Este capítulo onde ainda estou. Regresso.
Refaço.
Recomeço.
Chego ao Vale Furado, paro o carro na arriba e deixo-me ficar sentado no interior. Bebo uns goles de vodka. Fumo um cigarro. Sinto o calor do sol passar através das janelas abertas do carro e a sonolência a tomar conta de mim. O barulho da rádio embala-me. Penso no trabalho que acabara de mandar à merda, como já tinha mandado a minha mulher, os meus filhos, o meu pai, a minha mãe, a maior parte dos meus amigos… Suspiro. Sinto-me adormecer a pensar que o dia de amanhã nunca será a véspera de hoje.
E então, vejo-a. Desperto.
Os raios de sol brilhantes a baterem-lhe no cabelo. O fumo que se desprende do cigarro que, imagino, está a fumar, corre em espiral para o céu e desfaz-se antes de lá chegar. Ela está sentada na cerca que protege as pessoas da queda abrupta sobre o mar. As pessoas chegam-se ali, encostam-se à cerca de madeira e olham as ondas a baterem nas rochas. Olham o mar a forçar a entrada pela areia acima. Um pouco mais longe é possível ver a Praia do Norte. Em dias claros conseguem-se ver as Berlengas, os Farilhões e as Desertas.
Ela está sentada na cerca, virada para o mar. Coisa mais natural. Fuma um cigarro. Adivinho-lhe o cigarro entre os dedos da mão que leva à boca. O fumo dissipa-se logo acima do cabelo dela brilhante pelo sol. E penso A miúda é gira. E é. É bem gira. E ainda penso O que faz uma miúda gira como ela sozinha aqui, num sítio como este? Depois sorrio e penso O mesmo que eu. E dou uma gargalhada. Uma gargalhada tonta.
E, de repente, sinto uma vontade louca de sair do carro, dirigir-me a ela e convidá-la para beber uma cerveja na esplanada do Mad. E é o que faço. Saio do carro. E nesse mesmo momento, ela levanta-se da cerca. Eu chamo-a. Ela vira-se para mim. Eu aproximo-me. Encosto-me à cerca. Peço-lhe lume. Ela diz que tenho o cigarro acesso. E tenho. Tenho o cigarro a fumegar entre os dedos da mão. Sinto-me corar de vergonha. Ela sorri. Eu também. Encho o peito de ar. A alma de coragem. Convido-a para beber uma cerveja na esplanada do Mad. Ela pára de sorrir. Hesita. Olha para o penhasco. Olha para o mar ao fundo do penhasco. Olha para longe, para longe no mar, talvez para as Berlengas. Olha de novo para mim. Volta a sorrir. Aceita.
Eu estendo-lhe a mão para a ajudar a passar a cerca para o lado da cá onde eu estou. Ela agarra-me na mão. Sinto-lhe a palma da mão transpirada. Sinto-a nervosa. Ajudo-a a passar a cerca. Quando passa próximo de mim vejo umas gotas de suor a escorrerem pelas frontes. Cheiro-a. Cheiro-lhe o medo. Não de mim. Mas medo. Sinto-a com medo. Aperto-lhe a mão com segurança. Ela quase tomba ao passar uma das pernas por cima da cerca mas eu agarro-a. Estou aqui, afirmo sem falar.
Caminhamos em silêncio até à esplanada do Mad. Bebemos umas cervejas. Depois, e com ajuda do álcool, começamos a falar. A conversar. Na verdade ela fala. Eu ouço. E que prazer é ouvi-la. As conversas dela são música. E o tempo passa. E chega a noite. A esplanada fecha. Passamos para o interior. E o interior fecha. E saímos para a rua. O céu está estrelado. Não está frio. Apetece-me ir ao banho. Apetece-me ir nu a um banho nocturno no Vale Furado. Mas não digo nada. Não lhe revelo as minhas vontades. Ofereço-lhe boleia para Leiria. E ela aceita.
E depois… E depois é uma outra estória que não cabe aqui.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/06]

Voyeur

Houve um tempo, há uns anos, ainda eu era um miúdo, em que partilhei uma casa com outros miúdos como eu. Éramos estudantes. Com pouco dinheiro mas, mesmo assim, o suficiente para pagarmos uma casa nos subúrbios e todas as despesas que lhe vinham agarradas. Cada um tinha o seu quarto. Partilhávamos a cozinha, a casa-de-banho e a sala onde víamos televisão, principalmente os jogos de futebol.
Nessa altura eu era um miúdo muito tímido. Principalmente com as miúdas. Não sabia o que lhes dizer. Como lhes dizer. Bloqueava. Começava a tremer. E fugia.
Nas aulas não. Nas aulas não era tímido nem com elas nem com os professores. Acho que isso também contribuiu para que as minhas notas não fosse melhores. Fui tomado de ponta muitas vezes. Estava sempre a colocar em causa alguns conhecimentos. Alguns dados adquiridos. Estava sempre a levantar dúvidas. Naquela altura, além de muito tímido, também era muito chato.
Não me metia com as miúdas porque era tímido e elas não se aproximavam de mim porque eu era um chato.
Por outro lado, os meus companheiros de casa não tinham problemas com as miúdas. Eram aquele género de miúdos de quem as miúdas gostam e um tipo nem sabe porquê. O que é que eles tinham que eu não tinha? Nunca soube. Mas havia qualquer coisa neles que não conseguia compreender. Ainda hoje é um pouco assim. Estou é um pouco mais velho. Estamos. Mas alguns envelheceram mais que eu. Acho que consegui ganhar alguma coisa por aqui.
Haviam sempre muitas miúdas lá por casa. Muitas delas dormiam por lá. Dormiam com os meus colegas. Não comigo. Nunca comigo.
Eu era o solitário. O miúdo que estava sempre lá por casa. Sozinho. Disponível. Fazia recados. Dava recados. Ficava com recados.
Mas era à noite, tarde da noite, que eu me transformava.
Quando a casa já estava em silêncio, ou quase, quando já toda a gente estava a dormir, ou quase, ouviam-se uns distantes e abafados sons. E eu já sabia o que era.
Ao ouvir esses sons levantava-me da cama, saía do quarto, e aproximava-me da porta do quarto de onde vinham esses barulhos. Ia às escuras. Descalço, mesmo durante o Inverno. Encostava o ouvido à porta e ficava ali, a ouvir o que se passava no interior do quarto. A ouvir as conversas íntimas. Os desejos. As confissões. Ouvia os corpos a tocarem-se. A roçarem-se. Baixava-me e colava um olho à fechadura da porta. E entrava lá dentro com o meu olhar. E via-os na cama. Despidos. Descobertos. A pele dela arrepiada. A dele nervosa. As mãos que se tocavam. E se aventuravam. Os gemidos baixinho. As contracções do corpo dela. A pujança do corpo dele. A doçura, primeiro. A fúria depois. E eu ali, a sentir a minha respiração galopante. O ouvido na porta. O olho na fechadura. A minha mão no meu sexo. Com atenção à casa. A toda a casa. Com rota de fuga traçada até à casa-de-banho, o melhor sítio para onde fugir e não ser apanhado.
Às vezes, mais tarde, muito mais tarde, já depois deles terem adormecido e eu sem conseguir adormecer, abria a porta dos quartos deles, dos quartos onde se permitiam estar íntimos e descansados, corpos tombados sobre os lençóis encharcados, e entrava. Primeiro com muito cuidado. Em silêncio. Prostrava-me aos pés da cama a olhar para aqueles corpos abandonados. Brancos. Às vezes queimados do sol. As marcas dos biquínis delas. As marcas dos calções de banho deles. O triângulo branco sobre os seios tão redondos e perfeitos. As pernas que a meio passavam de uma cor a outra.
Um dia aventurei-me. Aproximei-me de uma. Era nova. Nunca a tinha visto lá em casa. Aproximei a minha cara da dela. Senti-lhe o bafo da respiração na minha cara. Uma respiração tranquila. Os cabelos caídos sobre a almofada. As mãos sob a cara, em suporte. Puxei os lençóis para baixo. Vi-o a ele encostado, por trás, a ela. A mão dele pousada sobre a anca dela. Soprei levemente sobre o corpo nu dela e vi-lhe os pêlos a eriçarem. Ela mexeu-se. Eu fiquei quieto. Esperei. Ela acalmou. Eu levantei-me e afastei-me para sair do quarto. À porta olhei para trás, de novo para eles. E foi então, ao vê-los assim, à distância, que senti um desejo enorme de estar ali no meio deles, deles os dois. E fui a correr para a casa-de-banho.
Ainda hoje, depois da minha mulher adormecer, levanto-me sozinho, em silêncio, com pouca luz, puxo o edredão para o fundo da cama e fico ali assim, a olhá-la. Percorro-lhe o corpo nu com o olhar e sinto-o como se lhe tocasse com as minhas mãos. Às vezes tiro-lhe fotografias. Já a desenhei. Às vezes tenho de ir para a casa-de-banho.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/03]

I Feel Lois

Entrei dentro da sala e ouvi Bom-dia! Balbuciei qualquer coisa que nem eu ouvi. Depois disse o meu nome. E ouvi Desculpe? e pensei Desculpar o quê? mas vi a interrogação na cara da rapariga e repeti o meu nome. Ela sorriu e disse Peço desculpa mas ainda não percebi, e eu voltei a repetir o meu nome. Mais alto. Ela voltou a sorrir-me, olhou para o ecrã, tocou numa teclas e disse Aguarde na sala, por favor, e eu acenei silencioso com a cabeça e fui sentar-me na sala.
Estava nervoso. Fico sempre nervoso.
Há muitos anos, a caminho do exame de matemática do nono ano, estava tão nervoso que a barriga refilava comigo. Sentia a barriga revolver-se. Ouvia-a resmungar. Baixava aos intestinos e tudo por ali parecia estar em revolução. Tudo dentro de mim parecia vivo e com vontade de sair. Eu ia a pé, a caminho do colégio. De vez em quando tinha de parar. Parava e ficava muito direito, quieto. Para tentar dominar a dor e o mal estar que me consumiam. A vantagem é que enquanto pensava na barriga, não pensava no exame. A desvantagem é que enquanto pensava na barriga não conseguia pensar na matemática. Já não sabia nada. Nada de nada. Estava num terrível dilema. A que é que eu devia dedicar a minha atenção? Aos nervos que me afectavam os intestinos? Ou aos nervos que me impediam de pensar na matemática?
Tudo acabou por ser resolvido. Não por mim. Mas também por minha causa. Ao chegar ao colégio para fazer o exame, fui mandado de volta a casa porque não podia entrar de calções na sala de exame. Aquele tempo não era como o tempo de hoje. Aquele tempo requeria uma certa ordem no caos civilizacional. Naquele tempo o respeito tinha normas. Uma rapariga não podia ir fazer o exame de cai-cai e, um rapaz, não podia ir fazer o exame de calções. Calções eram para crianças do ensino básico. Um rapaz já é um homem e um homem não anda de calções.
Não sei o que é que isso diz de mim mas, hoje em dia, no Verão, só uso calções. Talvez tenha regredido. Talvez esteja a regressar à infância. Talvez esteja a viver a minha versão muito pessoal de Benjamin Button.
Voltei a casa. Tirei os calções. Vesti umas calças de ganga. Umas Lois. Naquele tempo era a marca que vestia. Lois…
Ooh, I feel love, I feel love
I feel love, I feel love
I feel love
Era o que a Donna Summer cantava no anúncio das Lois e que a fonética transformava em…
Ooh, I feel lois, I feel lois
I feel lois, I feel lois
I feel lois
As Levis chegariam mais tarde.
Eu vesti as calças de ganga Lois e regressei ao colégio. Ainda cheguei a tempo. Já estava toda a gente na sala mas o exame ainda não tinha sido distribuído. E com tudo isto, esqueci-me dos nervos. Sentei-me. Fiz o exame. Respondi sem pensar muito no assunto. Fui o primeiro a acabar. Fui o primeiro a entregar a folha com as respostas. Fui o primeiro a sair da sala. Vim a ter a melhor nota do colégio nesse ano. Com direito a um postal de parabéns assinado pela freira que tinha sido minha professora de matemática e que sabia que, o que tinha acontecido, fora um milagre. Eu tinha-me esforçado. Mas devo ter tido ajuda do divino. Ainda hoje não sei realmente o que aconteceu. Talvez os nervos. Ou a sua ausência. E então, fui levantado em ombros com toda a gente a gritar o meu nome. O meu nome. O meu nome.
Afinal era só a rapariga da clínica a chamar-me. Olhei-a, interrogativo, e ela disse Já o chamaram várias vezes, e eu levantei-me e pus-me a percorrer o enorme corredor labiríntico que levava a várias salas até chegar à sala que me estava destinada.
Entrei. O médico-dentista estendeu-me a mão para me cumprimentar e eu vi-o de alicate na mão a enfiar-me o alicate na boca e a arrancar-me os dentes à força, e o sangue a jorrar da boca, e eu a chorar, cheio de dores a pensar que nunca mais iria poder pão alentejano torrado com manteiga, quando percebi que já tinha sido tratado. Afinal, tudo acontecera rapidamente e de forma indolor. A primeira fase do tratamento já tinha acontecido. O médico-dentista estava a mostrar-me um raio-X e a explicar o que me tinha feito. E eu estava orgulhoso de mim. Aguentara estoicamente a bárbara invasão da minha boca para tratar dos meus dentes, quando percebi que, afinal, ainda faltavam mais duas fases.
Voltaram as dores de barriga.
Despedi-me do médico-dentista.
Paguei na rapariga à entrada da clínica. E ela disse, Depois telefonamos a marcar a próxima fase. E foi nessa altura que decidi deixar de pagar a conta do telemóvel.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/11]

Uma Mulher Vai Destruir a Minha Vida, Outra Vai Salvá-la

Tudo começou na época em que fui despedido. A primeira vez em que fui despedido, bem entendido. Depois disso, já fui despedido muito mais vezes. Mas esses despedimentos foram consequência deste primeiro.
Na altura trabalhava num pequeno hotel. Fazia as noites. Dava entrada de pessoas que chegavam de madrugada, poucas, a maior parte delas vinha para aquecer a cama durante algumas horas antes da manhã, em encontros casuais, começados na boîte ali mesmo ao lado, e que continuavam nas camas do hotel, que eu às vezes ouvia-lhes os gritos, e cheguei mesmo a ter que pedir contenção a um ou outro casal mais afoito, e preparava as coisas para o pequeno-almoço dos clientes, antes ainda de me ir embora, e que a pessoa que me vinha substituir mantinha a funcionar até meio da manhã.
Eu estava casado há pouco tempo. O dinheiro que ganhava no hotel não era muito, mas era importante para aquele início de vida. O facto de trabalhar à noite, começou a minar a relação logo ao fim de algum tempo depois de termos casado. E o ter sido despedido acabou por ser a gota de água que fez transbordar o copo. O meu casamento não durou muito tempo.
Ao fim de uma semana depois de ter sido despedido, ela foi-se embora. Os papéis para assinar o divórcio acabaram por chegar mais tarde, através do advogado dela.
De um dia para o outro descobri-me sem trabalho, sem dinheiro e sem mulher.
Achei que a minha vida andava azarada. Aquilo era mau-olhado, com certeza. Inveja. Mas inveja de quê?, perguntava-me. Ora, as pessoas são muito invejosas, não importa do quê! É só inveja pura. Pura maldade.
Como a minha vida parecia não descolar, nem trabalho nem amor e o totoloto também não queria nada comigo, pensei mesmo que havia ali obra do demo.
Fui à bruxa.
Tinha ouvido falar num mulher que havia ali na Gândara dos Olivais, ali à saída de Leiria, a caminho da Figueira da Foz. Disseram-me que não cobrava nada, que era um dom que tinha e não podia cobrar por esse dom, mas que as pessoas deixavam sempre uma lembrança monetária porque a senhora também precisava de comer, pagar a renda da casa, a água, a luz, o gás e o telefone para onde as pessoas ligavam a pedir ajuda. Eu não telefonei, que não sou pessoa de telefonar, e fui lá directamente.
Estive muito tempo parado dentro do carro à porta da casa da senhora. A ganhar coragem para lá entrar. A rezar para que ninguém me visse e me reconhecesse.
Respirei fundo. Abri a porta do carro e fui até à casa, de olhos a rojar chão fora. Se não visse ninguém, ninguém me via.
Toquei à campainha. Alguém abriu a porta. Fizeram-me entrar. Levaram-me para uma sala onde me fizeram sentar. E esperar.
Esperei.
Esperei algum tempo.
Vieram buscar-me e levaram-me para uma espécie de sala de estar, mais pequena e vazia, mais sombria, mas com santinhos e fotografias e terços e velas a arder e incenso, numa espécie de altar… A senhora estava sentada numa poltrona a um canto. Ela indicou-me a outra poltrona. Em frente a ela. Olhou para mim. Para os meus olhos. Pediu-ma as mãos. Agarrou-as nas dela. Fechou os olhos. Inspirou fundo. E disse-me Os amores, os amores!… E eu não disse nada. Ela também não perguntou nada. Depois voltou a dizer Vão existir duas mulheres muito importantes na sua vida. Uma vai fazer-lhe muito mal. Outra vai fazer-lhe muito bem. Cabe-lhe a si a ordem pela qual as vai encontrar.
Depois abriu os olhos de novo. De novo fixou o olhar em mim. Nos meus olhos. Largou as minhas mãos e sorriu-me. E ainda disse Não há mal que sempre dure, nem sorte que perdure.
A mesma rapariga que me abriu a porta da rua foi buscar-me à sala.
À porta da rua, antes de a abrir, ficou parada a olhar para mim. As mãos presas uma à outra, à frente do colo. A olhar para mim. Em silêncio. E só então percebi. Tirei uma nota de vinte euros do bolso das calças e dei-lhos. Ela agarrou no dinheiro. Dobrou-o na palma da mão. Abriu a porta da rua e deixou-me sair. Boa sorte, disse-me.
Eu entrei para dentro do carro. Estava nervoso com o que tinha assistido. Acendi um cigarro. Fiquei ali parado a pensar no que tinha acontecido. Ou não tinha acontecido. O que é que fui ali fazer? O que é que isto ia resolver a minha vida? Quem seriam aquelas mulheres?
Passaram já alguns anos depois desta minha ida àquela casa. Bastantes, na verdade. Já fui despedido outras vezes. Aliás, fui sempre despedido dos trabalhos que tenho feito. Já tive várias relações. Nenhuma delas muito séria.
Ainda hoje estou à procura dessas mulheres de quem a senhora falou. A mulher que ia destruir a minha vida. A mulher que ia salvar a minha vida. Estava esperançado em encontrar primeiro a mulher que me ia destruir a vida. Não sabia se já a tinha encontrado ou não. Tenho dúvidas. A vida tem-me sido madrasta, mas não tenho a certeza que tenha sido destruída. E não quero encontrar a mulher que me vai salvar sem antes ter encontrado a mulher que me vai destruir. Porque prefiro ser salvo depois de ser destruído, que destruído depois de me julgar salvo.
Cada vez que uma mulher olha para mim, penso sempre qual delas será? Aconteceu agora mesmo. No linear dos frescos. A mulher olhou-me nos olhos e sorriu. Era um sorriso nos lábios, que eu percebi bem. Mas qual delas é que será esta mulher? E será mesmo alguma delas?
Tenho a vida condicionada pelo que me foi contado. Às vezes preferia não ter lá ido.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/22]

O Dia Acordou Cinzento

O dia acordou cinzento. Não o dia, propriamente. Mas o que o dia me trouxe quando eu acordei.
Estava uma manhã clara. Não havia sol. Mas o dia estava luminoso.
Não consegui levantar-me logo da cama. Acordei assim, sem grandes vontades de abraçar o dia. A cara fechada. Como se alguma coisa não muito boa estivesse à minha espera. Como se estivesse alguma coisa para acontecer. Uma angústia que precede um pressentimento. Virei-me para um lado. Virei-me para o outro. Mas já estava desperto. Não consegui voltar a adormecer. Não me apetecia levantar. Queria adiar a manhã. O dia. Queria adiar o dia até ele ser outro. Amanhã.
Lá acabei por me levantar. A contragosto.
Sentei-me na cama. Sentei-me nu na cama a ouvir o silêncio. Não me trazia nada. Escutei-o. E era só silêncio. Não era dali que vinha.
Levantei-me. Os passos arrastados pelo chão. Entrei no duche e deixei-me cozer em água quente. Não via nada à minha volta. Só vapor de água. E, no entanto, sentia que havia qualquer coisa. Não ali. Não ali na casa-de-banho. Não ali no duche. No duche só havia vapor de água que me entrava nos pulmões e voltava a sair. Abri a janela da rua e vi o vapor de água fugir em golfadas de nuvens e deixar-me ali assim, sozinho, eu a minha pouca-disposição para a vida.
Voltei ao quarto. Umas cuecas. Umas calças. Uma sweat. Sentado na cama entre o vestir de cada peça. Como se não quisesse sair dali. Do quarto. Da cama. Vesti as cuecas e sentei-me. Pensei no que se seguia e percebi que era melhor vestir as calças. Peguei umas calças de ganga caídas sobre uma pequena poltrona ao canto do quarto. Sentei-me de novo. Meias. Calcei meias pretas. Calcei as sapatilhas da véspera que estavam caídas ao lado da pequena poltrona. Deixei-me cair para trás, na cama, e olhei para o tecto. Vi uma cagadela de mosca. Pensei que tinha de lá ir com lixívia. Mas noutra altura.
Senti um aperto no coração. Nos pulmões. Tive de puxar o corpo para cima para conseguir respirar.
Olhei os dedos das mãos. As unhas. Pensei que tinha de as cortar. Mas não me apetecia.
Levantei-me da cama. Escolhi uma sweat-shirt e enfiei-a pela cabeça.
Virei a cabeça. Virei a cabeça à volta. Estava à procura de qualquer coisa. Estava vestido. Ia sair do quarto. Talvez beber um café. Talvez fumar um cigarro. Ia sair do quarto mas faltava qualquer coisa.
E, então, vi-o. Vi o telemóvel. É o telemóvel. Mas parei. Parei onde estava. Parei a olhar para o telemóvel e disse Foda-se!
Vi o telemóvel pousado em cima da mesa-de-cabeceira. Mas não o agarrei. Fiquei parado. Parado a olhar para ele. E antecipei. E disse Foda-se! e percebi que alguma coisa ia acontecer. Que ele ia ganhar vida. E eu não ia gostar. Era um pressentimento. E fiquei parado por instantes. Uns micro-instantes que me pareceram uma eternidade. E então…
O som de chegada de mensagem.
Como que despertei. Movi-me em direcção ao telemóvel. Agarrei-o. Sentei-me na cama. Sentei-me, outra vez, na cama. E abri a mensagem. E li-a.
Fiquei ali sentado na cama a olhar para o telemóvel. Já tinha lido a mensagem. Já tinha lido a mensagem várias vezes. Até parar de lê-la mas a continuar a olhar para o telemóvel. Por fim larguei-o em cima da cama e saí do quarto.
Saí para a rua. Bati com a porta nas minhas costas. Acendi um cigarro. Estava nervoso. Tinha dificuldades em acender o cigarro.
O telemóvel ficou em cima da cama. Com a mensagem no visor. Depois o telemóvel desligou-se. Apagou o visor. A mensagem desapareceu e o telemóvel pareceu morrer.
Eu estava na rua e pensei que preferia ter ficado na cama. Em dias que acordam cinzentos gosto de ficar na cama.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/05]

Croquetes

De vez em quando há um estagiário mais afoito que vai ao fundo do baú recuperar listas perdidas com nomes improváveis. Nomes de gente que já morreu. Nomes de gente proscrita. Nomes de gente banida e esquecida. São os restos. Os que já não contam.
Hoje de manhã tocou o telemóvel. Era um convite. Um convite para uma apresentação ou inauguração ou qualquer coisa assim do género. Que não percebi bem. Que, por defeito, não me interessa. Faço parte dos esquecidos. Mas que acabou por interessar. Ponderei. Pensei que talvez houvesse croquetes. Talvez houvesse vinho tinto. Branco. Espumante. Cajus. Amendoins. Sabem o preço dos frutos secos? Aceitei.
Desliguei o telemóvel e olhei-me reflectido no vidro da janela da sala. A barba grande e compacta. O cabelo desgrenhado. Cheirei os sovacos. E pensei que tinha de tomar um banho.
Primeiro fiz a barba. Cortei a maior parte com uma tesoura. Depois usei a máquina para que não ficasse completamente rapada. Não queria não me reconhecer. Só queria parecer limpo. Apresentável. Social.
Depois tomei um duche de água quente. E deixei-me lá estar em baixo durante algum tempo. A marinar debaixo da água quente. Fervente.
Cortei as unhas dos pés. Cortei as unhas das mãos. Fiquei estafado. Preparei um gin tónico para descansar. Fumei um cigarro à janela. Bebi o gin. Na janela do prédio em frente, uma mulher sacudia tapetes e começou a rir a olhar para mim. Mandou-me um beijo à distância. Percebi que estava nu. À janela. A fumar e a beber. Nu. Sem frio. Para gozo alheio.
Vesti-me. Andei ali às voltas entre uma camisa, um polo, uma t-shirt. Umas calças de ganga azul ou pretas. Sapatilhas, sapatos ou botas? Sapatilhas, claro. E que sapatilhas? Ora, gaita!
Fui preparar outro gin tónico enquanto pensava nas sapatilhas. Pinguei o polo com pingos do limão. Merda! Acabei de beber o gin tónico de novo à janela. A fumar mais um cigarro. Já não estava nu. A mulher dos tapetes também não estava lá.
Depois tirei o polo e vesti uma camisa. Pensei melhor. Ainda era cedo. Tirei a camisa e voltei a vestir o polo sujo até sair de casa.
Voltei à janela. Fumei outro cigarro. Sentia-me nervoso. O sair de casa. O ir para o meio de gente. De muita gente. O ter de falar com pessoas. Estava nervoso com o que lá vinha.
Fui preparar outro gin. Apaguei o cigarro. Bebi o gin enquanto punha roupa suja dentro da máquina de lavar. Lembrei-me do polo. Tirei-o. Pu-lo na máquina. Programa de sessenta minutos. Devia chegar.
Sentei-me à mesa da cozinha com o computador ligado. Procurei as notícias do dia.
Donald Trump a condecorar um cão.
Jair Bolsonaro vociferar como um cão.
No Chile, pessoas a serem tratadas como cães.
Pensei que o mundo estava cão.
Descobri o copo de gin vazio. Olhei em volta. Atrás de mim. Quem o teria bebido?
Preparei outro gin. Olhei as horas no relógio de parede da cozinha. Não percebi imediatamente porque vira as horas. Depois lembrei-me. Tinha onde ir. Mas não consegui perceber se estava a tempo ou atrasado. Acabei de preparar o gin.
Voltei a sentar-me na mesa da cozinha. Frente ao computador. Queria ver as notícias do dia. Mas eram as mesmas em todo o lado e todas diziam o mesmo.
Sentia saudades dos jornais em papel. De outras notícias mais pequenas e só interessantes para mim. Acendi outro cigarro. Gostava de ler notícias em jornais de papel. Gostava de sujar os dedos. Gostava de sentir o cheiro a tinta. De ler aquelas pequenas notícias nas últimas páginas. As locais. Os artigos de opinião. A tira de banda-desenhada. Sentia-me analógico. É verdade que lia todos os dias as notícias online. Mas não era a mesma coisa. Não sentia diferença entre as diferentes origens. Mesmo na televisão, os alinhamentos eram muito parecidos. Havia notícias que só lá chegavam depois de serem mortas pelas redes sociais e, nessa altura, já não eram notícia nem interessavam a ninguém.
Ao puxar o cigarro da boca, ele ficou colado aos lábios. Os dedos escorregaram e queimaram-se na incandescência do cigarro. Depois caiu sobre mim e queimou-me o peito antes de tombar para o chão. Descobri que estava em tronco nu. Percebi que estava a ficar com frio.
Se calhar era tempo de ir embora. Olhei o relógio na parede. Não vi as horas. Esqueci-me de ver as horas. Mas também não me preocupei. Pensei em fazer um último gin antes de sair. Bebi o que tinha de um trago e fui fazer outro.
Enquanto o bebia, vesti a camisa. Vesti um casaco por cima da camisa. Pensei na possibilidade de haver mesmo croquetes lá onde eu ia e para onde tinha sido convidado. Pensei na possibilidade de haver vinho. Pensei que não ia poder fumar lá, onde quer que fosse e acendi um cigarro. Acabei o copo de gin. Larguei-o num sítio qualquer. Pensei na possibilidade de haver mulheres lá onde eu ia. Mulheres como eu. Disponíveis. Ou tão só cheias de vontade. De desejo.
O cigarro caiu-me das mãos. Olhei para baixo à procura dele mas não o encontrei. Levei a mão à boca mas estava vazia. Onde estava o copo de gin?
Abri a porta da rua. Olhei para o corredor que levava ao elevador e pensei Deve estar na hora de me ir embora. E decidi ir-me embora, Vou-me embora! E então o chão moveu-se. Eu tropecei em mim próprio. Desequilibrei-me. Caí. Devo ter caído. Caí entre a entrada de casa e o corredor que levava às portas do elevador. Caí no meio da porta da rua aberta.
Caí e fiquei lá caído. Senti o mundo a andar muito depressa. Como o carrossel da Feira de Maio. Tentei levantar um braço. Tentei agarrar-me a alguma coisa com a mão aberta como uma garra. Mas não agarrei em nada. Os olhos não queriam abrir. Senti um vómito e vomitei à entrada de casa. Não me consegui levantar. Estava tudo escuro. Eu sentia-me bem. Sentia-me confortável. Estava deitado. Apetecia-me um croquete. Sentia-me cansado. Com sono. E deixei-me ir. Sono fora. Senti uma escuridão a ir por mim abaixo e a desligar-me todo. Aos poucos. Até já não sobrar mais nada ligado.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/30]

Melancolia

Forço-me a sair de casa.
Não posso estar sempre deitado na cama. Preciso de me mexer. Mexer o corpo. Sentir o sol sobre mim. Ver claridade. Respirar o CO2 dos automóveis em despique.
Saio de casa com as mão nos bolsos. Os ombros descaídos. Está um dia claro de sol amarelo, nem quente nem frio. Algumas nuvens. Uma ligeira aragem. Um dia sem história.
Caminho.
Caminho ao longo do passeio. Circulo perdido pela cidade. Vou onde me levam os passos. Os meus pés numas All Star rotas, todas escavacadas, sapatilhas que já calcorrearam mundo, mas confortáveis. Espero que não chova. As calças de ganga caem sobre as sapatilhas e prendem-se debaixo do rasto. Rasgam-se. Vejo um fio da ganga a bailar com os meus passos, perdido que estou pelas ruas da cidade.
Caminho.
Caminho até ao rio. Sento-me num banco de madeira a olhar o rio frio que está parado no seu leito. Uns miúdos brincam no muro mais à frente. Um deles cai. Cai ao rio. Devia ir ajudar. Talvez mergulhar no rio. Talvez telefonar à polícia. Talvez telefonar aos bombeiros. Talvez ligar ao cento e doze. Mas não o faço. Não consigo fazer. Nem coloco a mão no bolso das calças à procura do telemóvel. Nem me levanto do banco, excitado, nervoso, curioso com o sucedido. Deixo-me ficar sentado. Suspiro sem grande força. O olhar perdido na direcção dos outros miúdos que chegam com um agente da polícia. E eu olho. Limito-me a olhar. Depois deixo cair o olhar no chão. Levanto-me.
Caminho.
Caminho de novo com as mãos nos bolsos. De novo os ombros descaídos. Os pés arrastam-se pelo macadame e puxam o meu corpo quase-morto. Deixo o miúdo caído ao rio nas mãos do polícia. Dos amigos. Do socorro que o polícia há-de providenciar. Deixo tudo lá para trás. Para trás de mim. Devia ter trazido o iPod. Devia estar a ouvir música. Os ouvidos mudos à cidade. Mas não me apetece. Não me apetece ouvir música. Quero silêncio. Quero vazio. Quero nada. Não quero o iPod.
Acendo um cigarro. Os patos cruzam o macadame a caminho do rio. Um miúdo passa a correr e, rápido, apanha um dos patos e foge com ele a grasnar debaixo do braço. Eu viro-me. Vejo-o desaparecer entre as árvores que acompanham o rio. Vejo-o desaparecer e deixar de existir. Aconteceu o que eu julgo que vi? Ou não aconteceu nada? Nem eu vi nada? Passou por aqui um miúdo? Ou não? Mas continuo. Continuo em frente. Não sei para onde vou.
Caminho.
Só caminho em frente. Vejo as folhas a cair das árvores. Ouço o barulho que faço ao pisá-las. É mesmo uma manhã outonal.
O sol amarelo que clareava o dia acabou por se ir, envergonhado. O céu ficou cinzento. Levantou-se um ligeiro vento. Caiu o frio. Estou sem casaco. Mas vou continuar em frente.
Queria regressar a casa. À cama. Ao conforto da minha cama.
Ultrapasso uma velhota que treme no seu passo inseguro apoiada a uma bengala. Penso que não vai chegar ao seu destino. Afasto-me, devagar. Mas o meu devagar é muito rápido para a velhota. Ouço um barulho seco atrás de mim. Imagino que a velha caiu. Mas não me viro. Não me quero envolver.
Caminho em frente. E depois páro.
Não sei mais para onde ir. Os pés não se mexem. Posso virar à direita. Posso ir para a esquerda. Mas não tomo nenhuma decisão. Os meus pés não se mexem. O meu corpo não sugere. E então começa a chover. Primeiro uma pequena e leve borranha. Depois as gotas engrossam. E começa a chover copiosamente. Chove sobre mim. Mas eu não me mexo. Os meus pés parados. Os buracos nas All Star a deixar entrar a água fria. Sinto as meias a encharcar e os pés molhados. Suspiro de novo.
Já não caminho. Estou aqui. Não sei o que estou a fazer, mas parece-me que não estou a fazer nada. Estou só aqui porque não consigo não estar. Não me mexo. Não me apetece fazer nada.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/29]

Sim, Mãe

Faltam quatro dias. Faltam quatro dias para o dia Um de Novembro. O Dia das Bruxas, do Bolinho e de Todos os Santos. Especialmente o Dia de Todos os Santos. O dia em que se veneram os mortos. Os mortos queridos ao lado dos Santos. Não que os mortos sejam Santos. Ou tivessem sido. Que porra de conversa, a minha.
Acordo ainda de noite. É quase de manhã mas ainda é de noite. Acordei antes da hora. Ando agitado. Aproxima-se o dia. E eu fico assim. Nervoso.
Já consigo distinguir algumas formas no quarto com a pouca luz que entra pelas janelas abertas.
Estou deitado na cama. O edredão tapa-me. Deixa-me a cabeça de fora. Os olhos circulam pelo quarto a tentar visualizá-lo através da pouca luz. Vejo uma massa escura sobre a cadeira ao fundo do quarto. Sei que são as calças que lá larguei mas, visto daqui, assim, com esta luz, parece uma massa disforme, talvez uma forma de vida alienígena. Um pouco de sugestão e parece-me que se mexe. Parece deslizar pelas costas da cadeira. Mas nunca chega ao chão.
A minha mãe vai telefonar-me hoje. Daqui a pouco. Quando estiver a sair do duche. Encharcado. Com frio. E o telemóvel a tocar. E eu vou atender e ela vai perguntar-me se eu vou ao cemitério. Se eu vou ao cemitério no dia Um de Novembro. E eu vou dizer que sim, que Vou sim, mãe. E ela vai perguntar se quero que vá comigo. E eu vou dizer que não. Que prefiro ir sozinho. Prefiro ir sozinho, mãe. E ela vai fingir que acredita. E eu vou fingir que ela não sabe que vou ficar na cama. Que vou ficar o dia e a noite, inteiros, na cama, a imaginar que ela não morreu, que está aqui, aqui ao pé de mim, a rir-se comigo de tudo isto. E vai telefonar amanhã com a mesma conversa. E todos os dias até ao dia Um para ver se consegue que eu saia de casa e vá ao cemitério levar-lhe umas flores e dizer-lhe adeus. A minha mãe acha que eu devo dizer-lhe adeus. Mas eu não consigo. Não consigo dizer-lhe adeus. Porque ela está aqui, aqui ao meu lado, na cama, quentinha, quentinha como ela estava sempre debaixo do edredão, e eu tinha de me chegar a ela para me aquecer, que tenho sempre os pés frios e ela gritava comigo quando eu lhe tocava com os pés frios, mas ficavam logo quentes mal lhe tocavam porque ela estava sempre quente, a ferver, e fervia-me a mim ao mínimo contacto com o seu corpo branco, limpo, cheiroso e quente. Um cheiro a conforto. Um cheiro de colo. E ainda baloiço no seu colo. No seu colo quente e acolhedor. Um colo-casa. Uma casa que não quero perder.
Não posso dizer adeus. Não quero dizer adeus.
E a minha mãe vai telefonar-me para saber e eu vou dizer-lhe que sim. E ambos sabemos que estarei a mentir mas que não posso fazer de outra maneira.
Apetece-me um cigarro.
Ponho a mão fora do edredão. Agarro num cigarro. Agarro no isqueiro. Acendo o cigarro. Sinto o fumo a encher-me os pulmões. Sinto a cabeça a andar à roda. Fico um pouco mal disposto. Olho o fumo a sair da minha boca, olho o fumo a sair do cigarro incandescente, e subir até ao tecto do quarto e depois espalhar-se em mil e um pedaços de fios e desaparecer da minha vista. Fica lá o cheiro. O cheiro enjoativo do tabaco fumado de manhã, antes de comer, antes de beber café, antes ainda de tomar banho e penso que ando parvo. Ando a fazer parvoíces. Nunca tinha fumado na cama. Não gosto de fumar na cama. E no entanto… Penso que esta solidão a que me forcei nestes últimos anos me está a deixar parvo.
E é então que sinto o cheiro das torradas e do café acabado de fazer, que se sobrepõem ao cheiro acre do tabaco, e vejo-a entrar radiante, um sol de Inverno que entra pelo quarto dentro, deposita uma pequena bandeja como o café, umas torradas já barradas com manteiga e um solitário com uma rosa escura roubada já hoje de manhã no jardim da vizinha. Depois dá-me um beijo na face e volta a desaparecer de novo. Levando o brilhante sol de Inverno com ela. E regressa o cheiro do tabaco.
Cai um pouco de tabaco incandescente na cama e fura o edredão. Eu olho para o buraco. Não tenho reacção. Podia dizer Foda-se! podia dizer Que merda! mas não digo nada. Limito-me a olhar para o edredão queimado e ver o buraco a alastrar. Até parar. Estou indiferente.
Acabo de fumar o cigarro. Apago-o. Levanto-me da cama. Abro a janela. Está frio na rua. E deixo o frio entrar no quarto. E vou para a casa-de-banho tomar o duche e preparar-me para o telefonema da minha mãe. E exercito a voz. Sim, mãe. Estou acordado, sim. Sim, vou ao cemitério. Não, mãe. Prefiro ir sozinho. Sim, mãe.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/28]

Atento

Quando o vi, a minha primeira reacção foi vomitar. Apoiei-me na parede, o corpo curvou-se para a frente e vomitei sobre as sapatilhas. Limpei a boca à manga da camisola. Virei-me e procurei-o de novo.
Já não o vi.
Ainda dei algumas voltas pelas ruas adjacentes, mas não voltei a vê-lo. Pensei que não estivesse por cá. Pensei que tivesse ido embora da cidade. Na verdade nunca pensei. Presumi que sim. Que depois de tudo o que se tinha passado, ele tivesse ido embora da cidade.
Agora estou a tremer. Fiquei nervoso. Fiquei nervoso ao vê-lo.
Sento-me no lancil do passeio. Não consigo andar. Preciso de descansar. Preciso de pensar noutras coisas. Acendo um cigarro. Encosto-me ao marco do correio.
Passa um polícia. Olha para mim. Aproxima-se e pergunta Está tudo bem?, ao que respondo Só uma quebra de tensão, senhor agente. Não quero ter de explicar tudo outra vez. Mais uma vez. Reviver tudo de novo. Não, não quero. Por isso digo Só uma quebra de tensão!
O polícia insiste. Se calhar pensa que estou na ressaca. Insiste Precisa de alguma coisa? Quer que chame os bombeiros? E eu volto a fugir à justificação. Obrigado, senhor agente. É só fumar este cigarro que já fico bem. Mostro-lhe o cigarro nos dedos. Também o olho.
O polícia ainda olha um pouco para mim. Depois levanta a mão, numa forma de cumprimento, e segue o seu caminho, de bloco na mão. Vai olhando os bilhetes nos tabliers dos automóveis.
Eu fumo o cigarro e sinto-me descontrair. Por instantes esqueci quem vi. Por instantes regressei ao esquecimento.
Acabo o cigarro. Levanto-me. Sinto-me mais calmo. Regresso ao meu caminho, mas vou atento. Os meus olhos percorrem todas as caras com que me cruzo, as que vejo à distância, as que passam, rápidas, pelo canto do olho.
No início pensei muitas vezes no que lhe faria se me cruzasse com ele. E desenvolvi muito modelos gráficos da minha vontade. Depois fui deixando de pensar nele e no que aconteceria se me cruzasse com ele. Não que tivesse esquecido, perdoado, ultrapassado tudo. Mas o tempo ajuda-nos a livrar do mal. Segui em frente. O melhor que consegui. Que pude. Ainda pensei mesmo que tivesse saído da cidade e ido, sei lá, para fora, para o estrangeiro, recomeçar a vida longe, longe de tudo isto, longe de mim e das minhas dores.
Lembro-me que cheguei a comprar um revólver. Ainda andei uns tempos com ele, mas acabei por o lançar ao rio. Não gostei daquilo em que me estava a tornar. Depois andei com um facalhão de mato. Pelo menos, não era a brutalidade de uma bala disparada à distância, sem pensar. Para o facalhão tinha de me aproximar dele e espetar-lho. Sentir-lhe a dor. O grito. Ver o sangue a jorrar, provavelmente para cima de mim. Guardei o facalhão na arrecadação, junto com as revistas do Tarzan do Burne Hogarth. Depois só trazia o canivete-suíço. Hoje, nem isso.
Mas agora que o voltei a ver, já não sei. Já não sei nada. Dói-me o estômago. E a cabeça. Espero não voltar a vê-lo. Nunca mais. Mas estou atento.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/16]