Escondido, parte 03

[continuação de ontem]

Apetecia-me fumar um cigarro. Estava a começar a ficar nervoso. Agora que o tempo já tinha passado, o dia já se tinha ido e a noite já tinha chegado, eu já estava mais calmo mas, ao mesmo tempo, estava a doer-me o rabo e as costas de estar ali assim, sentado no chão de uma casa abandonada e em avançado estado de destruição, sem fazer nada a não ser esperar, de ouvido à escuta, que tudo já tivesse passado e eu pudesse finalmente sair daquele buraco e regressar a casa.
Mas eu podia regressar a casa? Depois do que acontecera, eu podia regressar a casa como se nada tivesse acontecido? A vida continuaria a sua marcha imparável em direcção ao futuro? Bom, isso achava que sim. Fosse como fosse, iríamos em direcção ao futuro. Mas que futuro?
Ainda ouvia alguns barulhos vindos da rua, mas já não como anteriormente. Talvez já tudo tivesse acabado. Talvez já fosse seguro sair dali e voltar à rua. Procurar os meus amigos. Tentar saber o que lhes tinha acontecido. Procurar os noticiários. Procurar saber o que é que tinha, afinal, acontecido.
Ia então levantar-me para esticar as pernas e as costas e aliviar-me de ter estado sentado no chão todas aquelas horas, quando senti a porta da rua a abrir-se. Era a porta do prédio. A porta do rés-do-chão. Um som muito sumido, mas que eu percebi. Quem era, estava a tentar não fazer barulho. Mas eu estava já há muito tempo naquele prédio em silêncio. Já lhe conhecia a respiração. Fui contando os passos a subirem as escadas. As pausas nos patamares dos andares. Quem era, estava a tentar perceber se havia gente naqueles apartamentos. Se sentia alguma respiração. Uns ossos a estalar. Um piscar de olhos. Um cheiro a cigarro acabado de fumar. Depois recomeçava a subir as escadas. Voltava a parar no patamar. Eu sentia a pausa à procura de barulho, de alguma vida. E, depois, de novo o recomeçar a subir o último lance de escadas, o que levava até ao último andar, o andar onde eu estava. Parecia-me só um par de pés a caminhar, a subir pelos degraus de madeira envelhecida do prédio. Um andar silencioso e calmo. Cada vez que um pé quebrava um pedaço de tijolo, os passos paravam. Esperavam um bocado e retomavam a subida.
Eu ia chegando-me cada vez mais para o canto. O quarto estava escuro. Já era de noite e aquela rua era sombria. Entrava alguma luz através da janelas partidas, e menos através das janelas sujas, mas o ambiente era de escuridão. O meu olhar habituado aquela escuridão, quase que não conseguiam abarcar todo o espaço do quarto, tão pequeno. No entanto, tentava ir mais para o canto, mais para o escuro, esconder-me, desaparecer.
Ouvi os passos chegarem ao patamar do último andar. Pararem. Percebi a dúvida daqueles passos. A mesma que eu tinha tido. Direita ou esquerda?
Foda-se!
Os passos optaram pela esquerda. Vinham ter comigo. Eu sentia-lhes o andar. Os pés a pisarem o chão cheio de ruídos. A aproximarem-se de mim, cada vez mais perto. E eu camuflei-me de parede em ruínas, fui papel de parede bolorento e cheio de humidade, fui um resto de estuque, tabique.
Os passos deram a volta ao apartamento e aproximaram-se do quarto. Eu vi a silhueta à entrada da porta. Vi a sombra entrar no quarto e ir até à janela e olhar lá para fora. Depois encostou-se à parede e deixou-se escorregar pela parede abaixo e sentou-se. Como eu. Mas na parede em frente.
Eu tentei manter calma a minha respiração. Rezei para não ter nenhum ataque de bronquite. Eu tentava manter-me ausente daquele espaço. Ouvia a respiração cansada do meu companheiro de quarto. Depois um suspiro. Um pequeno choro. Ele estava a chorar. A chorar baixinho. Percebi o braço a passar debaixo do nariz para limpar as lágrimas e o ranho.
E então, arranjei coragem, respirei fundo e disse Não tenhas medo. E o corpo na parede em frente pareceu agitar-se, levantou-se, vi-o meio iluminado pela pouca luz da janela e senti os passos a afastarem-se do quarto de volta para o interior da casa. E voltei a dizer Não tenhas medo. Também estou escondido.
Os passos pararam. Eu mal via a silhueta à entrada do quarto a olhar para de onde eu tinha falado, a olhar para mim. A olhar é como quem diz, que eu só via uma silhueta e não via mais nada. E então ouvi Estás escondido? E eu respondi Sim! E percebi, pela voz, que era uma rapariga.
A rapariga voltou para onde já tinha estado enquanto silhueta. Voltou a encostar-se à parede do lado da janela e voltou a deixar-se escorregar parede abaixo até se sentar como já tinha estado sentada. Sentada como eu estava sentado.
E eu disse Não tenhas medo. Eles não vêm aqui.
E ela perguntou Estás aqui há muito tempo?
E eu disse Desde meio da tarde. Desde que tudo começou.
E ela disse Ah! E foi tudo o que disse durante algum tempo.

[continua amanhã]

[escrito directamente no facebook em 2020/07/20]

Estou Cansado

Chego ao cima da montanha. Estou ofegante. Há muito tempo que não fazia uma caminhada destas. Dobro-me e suporto-me com as mãos nos joelhos. Fico de cócoras. Tento recuperar a respiração.
Primeiro descubro o silêncio. Faz-me confusão nos ouvidos esta ausência de barulho. Depois percebo a pieira da minha respiração cansada. Uma respiração forçada. O tempo não foi complacente com a minha bronquite. Os médicos diziam aos meus pais que ela desapareceria com a idade. Não desapareceu. A idade foi passando e a bronquite continua por cá.
Levanto o corpo. Já me sinto melhor. Com a respiração mais normalizada. Viro-me para trás e tento ver a minha casa na lonjura do vale. Mas não consigo. A minha vista está cansada. Tão cansada quanto eu. Tudo o que vejo é uma enorme massa desfocada. Percebo uma estrada. Uma fábrica. Uns postes de alta-tensão. Uns tufos de verde. Imagino o mar lá ao longe. Não mais que isso.
Agora já me chegam sons. Sons distantes. Sons que voam lá de baixo cá para cima. Ouço um cão a ladrar. Ainda tento perceber se é o ladrar do cão lá de casa. Mas não consigo perceber. Ouço uma motorizada. Há sempre uma motorizada a esgalhar o motor até à exaustão e que se propaga através do espaço. Não vejo a motorizada na estrada, mas ouço-a. Começo a pensar que o som é mais importante que a imagem. Que quando ficar cegueta, ainda me restará a capacidade de ouvir. Talvez descubra no sentido para captar o som, uma espécie de radar. Como o que tem o Demolidor.
Acendo um cigarro e fico ali em cima, de pé, a olhar o vale aos meus pés, com a respiração normalizada, a fumar e a pensar no que é que vou fazer. Não me apetece fazer nada. Agora gostava de estar sentado no alpendre a ler o Serotonina do Houellebecq antes que o mundo acabe.
Depois percebo que tenho de fazer o caminho todo de regresso. A pé. E pergunto-me porque é que não pensei nisso antes. Antes de vir. Antes de vir a pé. Não tarda é noite. Ainda vou estar a descer a montanha quando começar a escurecer.
Sento-me numa rocha. Continuo a fumar o cigarro. E penso que tudo se irá resolver. Tudo se resolve. É preciso é não entrar em pânico.
Deito fora o cigarro e acendo outro. Acho que estou nervoso. Penso que devia ter trazido uma garrafa de vinho tinto. Alentejano, de preferência. Mas olho para o interior da mochila e vejo que só tenho uma garrafa de meio-litro de água e que já está quase vazia. Vejo as horas no telemóvel e percebo que está a ficar sem bateria.
Sorrio, sentado na rocha, e digo alto para mim Estou fodido.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/12]

Ao Passar a Ponte Sobre o Tejo

Íamos de carro a atravessar a ponte sobre o Tejo. Eu e ela. Ainda não estávamos bem no tabuleiro da ponte. Estávamos a caminho do tabuleiro, naquela parte em que todos os acessos já deram acesso e é tempo de continuar em frente, passar a ponte, e escolher a A2 e ir para o Algarve ou virar à direita e ir para a Costa da Caparica. Também se pode virar à direita e ir para Almada, Cacilhas e Cova da Piedade, mas não era esse o caso. Íamos seguir em frente, pela A2, e virar à direita mais à frente para irmos para o Meco.
Eu ia de calções. Uma t-shirt velha e muito coçada, de um material que fazia lembrar os pólos, mas não era um pólo, era uma t-shirt. Não tinha botões.
Ela ia de vestido leve e esvoaçante. Um vestido transparente que deixava ver o biquíni por baixo.
Ainda não tínhamos chegado ao tabuleiro da ponte, eu estava a mexer nos botões do rádio à procura de uma música que me agradasse, quando senti a mão dela a pousar na minha perna, na minha perna cá em cima, já na coxa, mesmo na pele, a fugir à perneira curta dos calções, e senti-me excitado, os pêlos eriçaram-se, fiz girar o botão do volume que largou o rádio num berreiro e eu tirei, por momentos, o olhar da estrada para ver o que é que estava a acontecer com o rádio e a retirar a mão dela de cima de mim, pelo menos enquanto eu estivesse assim, tão susceptível, quando senti o carro a dar uma pequena guinada, senti uma pancada seca, seca mas não muito forte e, logo de seguida, a buzina de um automóvel que, vim a perceber, me era dirigida.
Levantei a cabeça, procurei de onde vinha a buzina que não se calava e vi um sujeito a esbracejar dentro de um carro. Ao lado dele, uma mulher também esbracejava. Continuava a apitar e a agitar os braços, as mãos, os dedos e apontava, apontava para mim, parecia-me, e apontava para o rio e continuava a apitar.
Ela estava sentada no banco, afundada no banco, assustada. E disse Acho que batemos no carro. E eu pensei Se calhar batemos. Mas foi um pequeno toque sem consequências. E ela continuou Se calhar é melhor pararmos. E eu pensei Parar, onde? Estamos na ponte. E como se tivesse ouvido a minha pergunta, ela disse Vira à direita, como se fôssemos para a Costa. Há aí uma estação de serviço.
Fiz o resto da ponte com o outro carro a seguir-me e a buzinar, depois virei à direita e acabei por parar na estação de serviço a caminho da Costa da Caparica.
O outro carro seguiu-nos e parou atrás de nós. Finalmente a buzina calou-se e senti alívio.
Saí do carro mas ainda nem tinha os dois pés fora do carro, o tipo já me estava a agarrar pela t-shirt e a puxar-me para fora. Rasgou-me a t-shirt. Não era preciso muita força para rasgar a t-shirt. Estava coçada. Tinha muitos anos. Já tinha viajado muito comigo. Estava cansada. Como eu fiquei quando o tipo me puxou para fora do carro, rasgou-me a t-shirt e empurrou-me contra o capot. Senti-me cansado. Ao lado dele a mulher. Os dois estavam aos berros comigo. Não sei o que diziam. Não conseguia ouvir. Berravam. As bocas abriam-se e pareciam querer engolir-me. A ele faltavam-lhe dois ou três dentes à frente, na boca, a mulher tinha os lábios pintados de cor-de-rosa, mas com um batom muito pastoso.
Eu olhei dentro do carro e vi-a cheia de medo, afundada no banco. Levantei os braços a dizer ao tipo que estava tudo bem. Íamos falar. Íamos ver o que tinha acontecido e íamos falar. E ouvi-o dizer Cem euros! Cem euros!
Olhei para o carro deles à procura de estragos e o carro era um chaço todo batido e cheio de ferrugem. Se lhe bati, nem se notava.
Perguntei-lhe Queres cem euros? Porquê?
E o tipo e a mulher dele recomeçaram a cuspir-me palavras para cima, muito irritados, muito próximos de mim, sentia-lhes o bafo, o bafo azedo e a cheirar a tabaco frio, e levei as mãos aos bolsos e vi que não tinha nem a carteira nem dinheiro, nada.
Ainda disse Podemos chamar a polícia, e ai foi ela que me agarrou a t-shirt e ainda ma rasgou mais. Pensei que era nessa altura que me iriam mesmo bater. Os tipos estavam furiosos. Se calhar até tinham razão para estarem furiosos. Se calhar bati-lhes mesmo com o carro. E eles não tinham culpa de terem um carro tão velho e estragado e sem tinta e não se perceber o que é que eu tinha estragado, quando olhei para dentro do carro e vi que ela já não estava lá, olhei em volta, por entre as cabeças e os braços e as mãos dos outros dois e vi-a vir do interior da estação de serviço, e vinha com duas notas de cinquenta euros na mão e aproximou-se deles e deu-lhes o dinheiro.
Foi a mulher que agarrou no dinheiro. Pôs o dinheiro dentro do soutien e cuspiu para o chão. O tipo largou-me e ainda disse Para a próxima toma mais atenção. E foram os dois embora para o carro deles.
Ela acendeu um cigarro e passou-mo. Eu levei o cigarro à boca. Foi então que percebi que estava nervoso. O cigarro começou a acalmar-me e eu percebi, então, que estava mesmo muito nervoso.
O carro dos tipos passou por nós para voltar à estrada e vi que no banco de trás estava uma alcofa com uma criança de colo. A alcofa ia solta sobre o banco de trás. A criança ia solta na alcofa e a agitar os braços e as pernas. A mulher fez-me um pirete e o carro voltou à estrada.
Respirei fundo.
Ela veio encostar-se ao meu lado a fumar um cigarro também.
E disse-me Acho que batemos mesmo no carro deles. Mas não temos nada estragado no carro. Eu acenei, em silêncio.
Acabámos de fumar os cigarros. Apagámos as beatas no chão.
Eu perguntei Vamos?
Ela disse Estás todo rasgado. Ergueu-se um pouco e deu-me um beijo. Senti-me de novo excitado.
Antes de entrarmos para o carro disse-lhe Não me voltes a tocar até chegarmos à praia. E ela riu-se.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/01]

Westworld

Tinha acabado de ver o Westworld. Tinha acabado de ver o último episódio da temporada. O oitavo episódio da terceira temporada. O genérico passou. A televisão ficou a transmitir uma imagem qualquer, uma imagem parada, à espera que eu desse seguimento à coisa. Um play qualquer. Um return. Uma escolha de menu. Mas, no momento, nem me apercebi. Não estava ali. Estava ali, no sofá, de cu enterrado no buraco do sofá a precisar de ser estofado, de cigarro consumido na mão, a cinza do tamanho do cigarro à espera de cair, à espera que eu a depositasse no cinzeiro antes de tombar livremente sobre o tapete da sala já de si bem sujo e a precisar, não já só de uma aspiradela, mas de uma limpeza a fundo, de escova e água com detergente, como a minha mãe me pagava para eu fazer, e foi assim que fui comprando os discos mais caros da minha vida, quando os discos eram em vinil, caros, de capas bonitas, e os ao vivo e duplos, coisa rara, e só raramente bons, esses raros mereciam todo o esforço que fizéssemos, como esfregar os tapetes de casa à mãe, assim, de cu para o ar, a esforçar os músculos ainda adolescentes, mas cheios de vontade de fazer a vontade e poder ter mais um disco fabuloso. Foi assim que consegui o Still. O Alchemy. Mas não estava lá. Estava ainda no interior daquela guerra entre humanos e androides, entre máquinas do destino e um qualquer ditador de algoritmos e razões de ser antes de verdadeiramente o ser. Quem é quem?
Despertei para a vida ao notar uma pequena baba a escorrer pela boca aberta. Estava de boca aberta de espanto. Não estava à espera da volta que Westworld viria a dar depois daquela primeira temporada tão sensaborona a fazer lembrar o Jurassic Park com mais dinheiro, melhores efeitos especiais e uma mais imaginativa equipa de argumentistas, com J.J. Abrams a segurar os fios para que tudo não se estilhaçasse. E, no entanto, aqui estamos.
Foda-se! foi o que me saiu sonoro. Foda-se!
Estava aterrado pelas possibilidades.
E se tudo fosse verdade? E se tudo é verdade?
Esqueci a cinza do cigarro e o cigarro e vi-os caírem sobre o sofá, não fizeram um buraco porque já estava frio, mas fizeram uma enorme mancha cinzenta, que tentei limpar com a mão e que acabei por espalhar ainda mais e tornar aquela mancha de sujidade numa mancha ainda maior. Levantei-me do sofá e fui até à mesa da cozinha onde tinha o computador e comecei a escrever o que me ia na cabeça assim, de jorro, sem ler nem reler o que estava a escrever, embora, ao escrever, tudo fizesse sentido e, no fim, publiquei-o no Facebook, sem ler nem reler, coisa que se pode confirmar, nem sei já o que é que lá está, nem as gralhas que possa ter, mas foi o que precisou de sair de mim naquele momento, naquele preciso momento, em que estava possuído pelo espírito da estória e pelo espírito digital de Dolores.
Depois parei. Respirei fundo. Tinha um resto de Herdade dos Grous que estava na bancada ao fundo a olhar para mim e servi-me de um copo. Acendi um cigarro, na esperança de me poder dedicar a espreitar os jornais online para bisbilhotar as notícias do dia quando dei por mim, de novo, ou talvez sem ter saído de lá afinal, naquele mundo de possibilidades.
Elon Musk já tinha avançado com a possibilidade de vivermos uma simulação. E se, mais que uma simulação, não passássemos de androides de última geração? Um mundo fabricado? Com 0s e 1s? E se o útero de uma mulher não for mais que uma impressora 3d que imprime crianças? Que a informação para essas crianças e para a sua impressão vai no esperma do homem?
Foda-se!
E toda esta guerra de informação, de dados pessoais, conquistados através de aplicações aparentemente tão inocentes como o FaceApp, não estarão a construir uma enorme base de dados que irá criar uma máquina tão potente e perversa como a Rehoboam, uma máquina transformada em deus, e se a máquina pode ser deus, porque é que nós não podemos ser máquinas? E já agora?… Não!…
Tinha acabado o copo de vinho. Tinha acabado o cigarro. Estava a enrolar um anel de cabelo nos dedos da mão direita.
Estava nervoso. Ansioso. Já não tinha mais vinho. Nem cigarros. Nem a porra de um Xanax.
Levantei-me da mesa e saí de casa. Precisava de mais vinho e cigarros para continuar a organizar as minhas ideias. Organizar as ideias antes que elas me abandonassem.
E foi nesse entretanto, entre o ir à mercearia e o regressar, que toda a estrutura da ideia que estava a construir se esboroou. O início estava cá. Tanto estava cá que consegui regressar a ele. Mas já não sabia para onde é que estaria a dirigir-me, para onde é que estava a ir. Ou a querer ir. Como se um algoritmo tivesse aproveitado esta pausa para me colocar no caminho de outra coisa qualquer. Uma coisa qualquer que não interessava para nada. Uma coisa inócua. Mas que deveria desviar-me do caminho que levava anteriormente.
E foi então que me lembrei que hoje era Domingo. Embora agora os jogos de futebol se prolonguem por toda a semana, e não haja um só dia sem futebol, a verdadeira forma de manter a adicção, hoje era o dia do Trio de Ataque, onde se fala de futebol por quem não o joga, mas por quem o analisa. Sim, hoje tenho de ver o Trio de Ataque. Beber aquela sapiência futebolística. Perceber o que se passa com o Benfica. Não é isso que importa na vida? Não?…
Há, no entanto, qualquer coisa cá dentro de mim que está a tentar esgravatar. Está a querer sair. Está a tentar dizer-me coisas. Como se o Trio de Ataque não fosse importante. Algoritmo. Desejo. Androide. Philip K. Dick. Westworld. Máquina. Deus. Porra. Porra. De repente tenho uma sopa de letras a formar-me palavras na cabeça.
Foda-se! Foda-se! Foda-se!

[escrito directamente no facebook em 2020/06/21]

Estrela Rock

Deixa-me dizer-te uma coisa. Se eu fosse artista, seria um músico de rock. Guitarrista. Provavelmente também vocalista. Tenho pinta de vocalista. Mas guitarrista é que era. O guitarrista é o gajo da música. O gajo que caracteriza o som da banda. E acho que tenho estilo para estrela rock. Estar em cima de um palco e captar em mim todo os olhares sem me deixar amedrontar. Olha aqui o meu air guitar! Olha, olha! Estás a ver? Dou a volta ao braço. Como o Pete Townshend, estás a ver? Sabes quem é, não sabes? O gajo dos Who. Aquele que há uns anos foi acusado de pedofilia. Ou foi só de ter entrado em sites de pornografia infantil? Já não sei. Mas também não interessa muito. O que interessa é que um gajo destes, com pinta, com estilo, tinha as gajas todas na palma da mão, estás a ver? É preciso ter estrutura para se ser estrela rock. Eu acho que tenho essa estrutura. Tenho pena é de não saber tocar guitarra. A culpa foi dos meus pais. Nunca me puseram a aprender a tocar guitarra. Naquela altura os miúdos jogavam andebol e iam para o escutismo. Tive uma semana no escutismo. Andei quatro anos a jogar andebol. Nenhuma das actividades me serviu de nada ao longo da vida, e se ela vai longa. Ainda cheguei a jogar andebol na União de Leiria, sabes? Foi o meu momento de glória. Mas não ganhei nada. Nunca cheguei a fazer nada de glorioso no andebol. Ganhei uma vez uma medalha num campeonato de futebol de salão. Naquela altura chamava-se assim, futebol de salão. Futsal é uma frescura amaricada de gajos que não são bons o suficiente para jogarem futebol a sério, sabes? futebol de onze. Ainda joguei futebol de onze em campos pelados. Esfacelei muitas vezes os joelhos, mas eram jogos entre amigos. Às vezes os jogos terminavam à porrada. Éramos todos muito nervosos. E quando perdíamos, tínhamos todos muito mau perder. Mas eu devia era ter aprendido a tocar guitarra. Se tivesse aprendido a tocar guitarra, poderia ser hoje uma estrela no firmamento e no Walk of Fame ou no Rock and Roll Hall of Fame. Apareceria nas colectâneas dos melhores sucessos do ano. Ia tocar aos festivais de Verão. Qual David Fonseca? Qual Paulo Furtado? Qual Afonso Rodrigues? Era eu, pá! Ao pé de mim, todos eles seriam uns meninos. Porque eu tenho garra para isto. Sou um animal de palco. Um dia fui convidado por um professor, no liceu, para declamar poesia na festa de final de ano lectivo. Eu, que nem gostava de poesia, estás a ver? Quando senti as tábuas do palco debaixo dos meus pés, oh meu Deus, ofusquei todas as outras participações. Até não há muito tempo, ainda se falava da minha prestação. Fumei uma ganza antes de subir ao palco e destruí os poemas que me tinham destinado. Ficou toda a gente admirada comigo. E chegaram-me a dizer Tu tens pinta para o espectáculo. Tu devias ir para teatro. Devias ser actor. Acabei em economia. Também não fiz nada com a merda do curso. Economia! Quem é que quer saber da merda da economia? Como é que engatas uma gaja a dizer que estás a estudar economia? Foi aí que comecei a mentir. Trabalhava em cinema, estás a ver? Comecei por dizer que era assistente de produção, depois assistente de realização, depois argumentista, mas foi quando comecei a dizer que era realizador que as coisas ganharam uma dimensão tal que tive de abandonar a mentira. Já não tinha mãos a medir com o assédio que sofria por parte das gajas. Das gajas e dos gajos. Que aquilo ali, marchava tudo. Mas nunca gostei de gajos. E foi aí que deixei de sair como saía. Acalmei. Terminei o curso. Comecei a trabalhar. Uma vida de merda, estás a ver? Eu que me imaginava o novo Jim Morrison a enfiar pelas goelas abaixo todas as drogas que me ofereciam, como o Jim Morrison fazia com aquela tipa dos Jefferson Airplane, nunca sei o nome dela, quando fizeram a digressão peça Europa, percebes? Estavam sempre a voar, sem aterrar, sem precisarem de abastecer, sempre abastecidos, numa trip do caralho, mas afinal, percebi que já era tarde demais para aprender a tocar guitarra e ser uma estrela rock. A culpa, no fundo foi dos meus pais, não é? Nessa altura ainda me dei com uns gajos da faculdade que tinham uma banda. Cheguei a tentar escrever umas letras para eles. Mas não tinham pinta para aquilo, pá! Aquilo era pessoal que fez uma demo, chegaram mesmo a editar um disco, mas nunca foram a lado nenhum, não tinham estaleca e nunca venderam o suficiente para serem alguma coisa. Eu, eu se tivesse sido músico, acredita, seria mesmo uma estrela do caralho que toda a gente conheceria, como o António Variações, estás a ver? Um gajo excêntrico. Eu também seria excêntrico. As estrelas têm de ser excêntricas para que as vejam acima da mediocridade do pessoal normal. Se os meus pais me tivessem posto a aprender a tocar guitarra…
…e foi aqui, precisamente aqui, neste queixume familiar, que a gaja conseguiu aproveitar uma pausa na minha conversa para me perguntar Mas, afinal, queres que te faça o broche, ou não? ao que eu tive de responder Estou sem dinheiro, pá! E estava. Estava sem dinheiro e tinha acabado de ser posto fora do quarto que tinha alugado na parte velha da cidade. Ah, se eu fosse uma estrela rock!

[escrito directamente no facebook em 2020/05/12]

O que É que Terá Acontecido?

Vinha a atravessar os Pirinéus. Estava ainda nos Pirinéus franceses. Vinha cansado. Era fim-de-dia e estava uma luz bonita, tinha estado sol, mas não estava de óculos escuros porque havia muita densidade negra nas sombras da floresta e já via mal nalgumas zonas mais fechadas, onde as árvores quase que formavam um túnel à volta da estrada, e o carro acendia automaticamente os faróis para eu ver melhor o que estava à minha frente. O sol adormecia para além do horizonte, depois das montanhas. Eu vinha a conduzir há muitas horas. Só com paragens para fazer xixi, beber Red Bull e café. De vez em quando passava a mão pela cara. Para acordar. E sentia a barba a cortar-me as mãos.
Tinha ido até Budapeste, na Hungria. Alguém tinha-me pedido para ir lá entregar um pacote. Em mãos. Achei estranho. Ainda perguntei pelos CTT e a DHL, mas frisaram Em mãos! O dinheiro era bom. Precisava de dinheiro, na altura. Ainda pensei que me estava a meter numa merda de onde não sairia vivo, mas o dinheiro que me ofereciam era o suficiente para me aguentar uns meses.
Aceitei. Passaram-me um Hyundai Santa Fe para as mãos. Fui a casa buscar o iPod e um cabo. Uma mochila com umas cuecas e umas meias. Um livro. Não sei bem porque levei um livro, mas ando sempre com um livro atrás, mesmo que não leia nada. Acho que é um apoio psicológico. Com um livro nunca me sinto só. Deve ser esse o princípio, não sei.
Mais de três mil quilómetros para lá chegar. E depois o regresso. Fui sempre a andar. Demorei três dias. Três dias sem ir à cama. Algumas pausas para passar pelas brasas. Mas nunca dormi mesmo. Dormitei no carro. Com o volante à minha frente e as colunas a passarem a selecção musical do iPod. Acordava. Dava uma volta pelo parque de estacionamento da Estação de Serviço, fumava um cigarro, bebia um café e levava um Red Bull para a viagem. Fui alimentando-me a sandes, hambúrgueres e pizzas.
Sempre estrada fora. Sempre a cumprir as regras de trânsito. Sempre dentro da velocidade permitida. A pagar as auto-estradas com dinheiro. Durante este tempo ninguém me telefonou. Não postei nada no Facebook nem no Instagram. Não vi nenhum filme. Ouvi música. Alguns noticiários. Comecei a ler o livro que tinha levado três ou quatro vezes. Nunca passei da primeira página.
Em Budapeste fiz um telefonema de uma cabina telefónica pública. Deram-me uma morada de um sítio público. Nas margens do Danúbio. Não foi difícil dar com o local. Parecia uma cena de um filme de espionagem. Sentei-me num banco de jardim a olhar o rio. Alguém chegou de bicicleta. Parou à minha frente. Disse qualquer coisa que não percebi. Mas percebi o meu nome. Acenei coma cabeça. Estendeu-me um envelope. Eu agarrei no envelope. Ele continuou com o braço estendido e estalou os dedos. Estendi-lhe o pacote. Ele voltou a dizer qualquer coisa que não percebi e arrancou na bicicleta.
Percebi que a minha viagem tinha terminado. Simples. Olhei dentro do envelope. Várias notas de cinquenta euros. O combinado. Dei uma volta ao longo do Danúbio. Estiquei as costas. Estavam doridas. Estalavam quando eu me endireitava. Percebi que tinha fome.
Entrei num restaurante e fui comer um goulash. Comi tudo o que me puseram à frente. Acompanhei com um copo de vinho tinto. Bebi dois cafés. E arranquei de regresso.
Eram duas viagens sem história. Para lá e para cá. Duas viagens solitárias. À velocidade legal. A música como companhia. Mas no regresso cheguei a vir algum tempo em silêncio, só a ouvir o motor do carro a galgar asfalto, um cigarro aceso entre os dedos da mão direita e o olhar à espera de ver Portugal. Mas ainda faltavam muitos quilómetros.
Cheguei aos Pirinéus franceses.
Estava cansado. O dia estava a chegar ao fim. Tinha estado um belo dia de sol mas, agora, estava a entrar no lusco-fusco. Tinha pensado parar numa Estação de Serviço e descansar um pouco antes de entrar em Espanha, quando aconteceu.
Estava numa recta em planalto, rodeado de árvores frondosas de um lado e de outro da estrada. À frente, pareceu-me ver alguém na berma da estrada. Mantive a velocidade e foquei-me no que estava a ver. Era uma criança. Uma menina, mais concretamente. De vestido rodado. Cabelo loiro. Apanhado em tranças. Tinha qualquer coisa ao colo. Talvez uma boneca. Talvez um gato. E achei a situação bastante peculiar. E pensei O que é que faz uma criança aqui à beira da estrada? E quando me estava a aproximar da criança, ela virou a cara para mim. Eu vi-a a olhar-me directamente nos olhos. Uns olhos sem expressão. Olhos frios. Mortos. E precisamente quando estou quase a passar à frente da criança, ela dá dois passos para dentro da estrada e eu bato-lhe com o carro, ouço o impacto, um Pam terrível e doloroso, ainda travei a fundo, espetei os pés no travão, levei a mão direita ao travão-de-mão e puxei-o, senti o carro a deslizar, pareceu-me perder o controle do carro, mas acabei por conseguir imobilizá-lo e pará-lo um pouco mais à frente do sítio do impacto.
O carro estava parado junto à berma, mas ainda na estrada. Eu estava com as duas mãos agarradas ao volante, como duas garras. Paralisado. Estava a transpirar. Estava muito nervoso. Olhei pelo espelho retrovisor e tentei ver para trás de mim. Mas não conseguia ver nada. Estava tudo desfocado. Tirei o cinto de segurança, abri a porta do carro e deixei-me tombar para o lado e vomitei no chão. Limpei a boca às mangas da camisola. Levantei-me a custo e voltei atrás. Vi as marcas dos pneus no asfalto. As marcas da travagem. Fiz o trajecto a pé, a olhar à volta. À procura da criança. E continuei um bom bocado. Entrei pela floresta. Chamei por alguém em francês. Em inglês. Em português. Não havia ninguém. Eu não via ninguém.
Voltei ao carro. Passei pelo vomitado e fui até à frente. Não havia nada amolgado nem partido. Não parecia que tivesse batido em nada nem em ninguém. Encostei-me ao carro e deixei-me descair para o chão. Acendi um cigarro. Fumei-o. E neste tempo todo não passou nenhum outro carro.
Depois de ter fumado o cigarro voltei a levantar-me e dei outra volta à volta do carro. Entrei. Liguei-o. Arranquei.
Durante o resto da viagem até Lisboa não voltei a pôr música. Fui fumando uns cigarros atrás dos outros. E só pensava O que é que teria acontecido?
Ainda hoje pergunto O que é que terá acontecido?

[escrito directamente no facebook em 2020/04/29]

Álcool Etílico a 90%

Apanhei a via rápida para ir à cidade. Há pouco trânsito. Na maioria, camiões. Podia ir pela nacional, mas está cheia de guardas. Há agentes da Brigada de Trânsito em todas as rotundas. Há carros da GNR a passearem-se pelas estradas do concelho. Como o trânsito é muito reduzido, os agentes até parecem mais. Mas são mesmo mais. Andam mais por aí.
Apanhei a via rápida para fugir ao controle cerrado da Brigada de Trânsito. Sabia que à chegada à cidade, haveria muitos agentes da PSP a vigiar as ruas. A vigiar o trânsito nas ruas. Estava preparado.
Na via rápida, ultrapassei dois camiões e cruzei-me com outros dois que iam no outro lado, em direcção contrária. Saí da via rápida e cruzei-me com uma operação Stop, logo na primeira rotunda. Olhei descontraidamente para os agentes. Não me mandaram parar. Segui para a cidade.
À entrada da cidade, um carro da polícia e dois agentes. A ver quem chega. Continuei numa velocidade tranquila, inferior a cinquenta quilómetros por hora. O meu olhar pousado neles. O meu olhar tranquilo pousado neles. No carros deles. Nas caras deles.
Fui até ao centro da cidade. Circulei por uma cidade quase-fantasma. Não se via ninguém a pé. As lojas fechadas. Os poucos carros na cidade estavam parados, estacionados ao longo dos passeios desertos. Mais carros da polícia a circular devagar, a olhar para todo o lado, a olhar para a poucas pessoas que se aventuravam. Eu. Olhavam para mim. Sentia-me a passar por entre os pingos da chuva.
Tinha um razão estudada se precisasse de usar.
Continuei aos esses pelas ruas vazias da cidade. Era bizarro ver a cidade, normalmente tão pulsante, entregue aos vazios. O vazio das ruas. As lojas vazias. Vazio de gente. Vazio de barulho. Vazio da poluição que me ataca a asma.
Cheguei onde queria chegar. Estacionei. Estacionei com facilidade. Havia inúmeros lugares vagos. Parei o carro. Olhei para o prédio em frente. Para a fachada do prédio em frente. Percorri as janelas. Fixei-me numa delas. Agarrei no telemóvel e mandei uma mensagem. Aguardei. Com a mão esquerda procurei junto ao banco e senti. O cutelo. O cutelo estava lá enfiado, entre o banco e a porta de saída. Não seria necessário mas todo o cuidado é pouco. Muito mais nos dias de hoje. É preciso muito cuidado. Passei com o dedo do polegar esquerdo pelo fio da lâmina do cutelo e senti o dedo a rasgar. Foda-se! disse. Levantei a mão e levei o dedo à boca e chupei o sangue que já escorria.
Ao fundo vi o tipo. Acabado de sair da porta de casa e vindo pelo passeio com um saco de lixo na mão. Não vinha direito a mim. Já me tinha visto mas não vinha direito a mim. Caminhava ao longo do passeio, passou pelo carro e foi até ao ecoponto. Largou o saco de lixo no RSU. Parou a olhar a rua. Acendeu um cigarro e voltou para trás. Aproximou-se do carro, abriu a porta do lado e entrou. O fumo do cigarro entrou com ele. Disse Olá! Estava nervoso. Era a primeira vez. Eu respondi Olá! Ele mostrou-me duas notas na mão e eu agarrei-as. Tirei um pequeno frasco debaixo do banco e entreguei-lho. Disse Álcool etílico a 90%. Ele sorriu. Um sorriso nervoso. E disse Obrigado! Saiu do carro. Eu vi-o percorrer o passeio de costas, a fumar o resto do cigarro e, à entrada de casa, lançá-lo fora, virar-se para trás, olhar, e entrar no prédio. Nessa altura eu liguei o carro e arranquei. Também regressei a casa. Regressei a casa pela estrada nacional.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/02]

Interrompido

Tinha agarrado nas quatrocentas páginas de O Amor nos Tempos de Cólera e ido para o alpendre, sentado numa cadeira, um copo de gin na pequena mesa de apoio ao lado e um cigarro aceso nos dedos quando o telefone tocou. Era ela. Atendi.
Olá!, disse. Ela ficou em silêncio depois do meu cumprimento e demorou a dizer Olá!
Ela é que tinha telefonado, mas eu é que fiz a conversa. Percebi que estava nervosa. Talvez arrependida de ter ficado em casa sozinha. Talvez arrependida de não ter aceite o meu convite. E eu disse-lhe Estou no alpendre. De papo para o ar a adormecer esta solidão. Podias estar aqui. Podíamos estar a jogar Monopólio.
Ela deu uma pequena gargalhada. Talvez a primeira desde…
Tossicou um pouco e disse Estou à janela a olhar para a rua. Não passa ninguém.
Aqui também não passa ninguém, respondi-lhe, solidário. Mas era verdade. Desde manhã que não via ninguém a passar na estrada lá ao fundo. Nem a pé nem de carro. Nem as motorizadas de motor estridente que se ouvem normalmente a passar na aldeia se ouviam. Mas ouvia vozes ao longe. Devia haver gente no campo, a tratar das hortas, dos pomares, do gado.
Olhei para o fundo do quintal. Tentei focar o olhar.
Pousei o livro na mesa ao lado do copo de gin e levantei-me da cadeira. O olhar ao fundo. Ao fundo do quintal.
Ela disse Já contei os mosaicos da casa-de-banho. São bastantes. Mas já esqueci quantos eram. Eu respondi Cá em casa não há mosaicos na casa-de-banho, como sabes. Só azulejos. São maiores. Serão menos, de certeza. Falava com ela enquanto descia as escadas do alpendre de olhos postos ao fundo do quintal.
Não sabia do cão e dos gatos. Deviam andar a passear alheios a toda esta situação de emergência. E ela disse Tenho comprimidos suficientes para um mês. Ainda bem!, saiu-me. Mas sim, ainda bem. Ainda bem por ela. Sabia como precisava dos comprimidos. Sabia como ficava sem os comprimidos.
Eu aproximava-me do fundo do quintal.
Ela disse Não tenho conseguido cozinhar. Tenho comido latas de conserva. Havia só dois dias que tínhamos ficado confinados em casa e ela já estava cansada. Esperava que conseguisse aguentar o tempo que fosse preciso. E vinha aí muito tempo. Muito tempo fechados em casa. Mesmo que ela quisesse agora aceitar o meu convite, eu não podia lá ir buscá-la. Ouvia as notícias que contavam das autoridades a patrulhar as áreas com mais densidade populacional para obrigar as pessoas a ficarem em casa. Já havia relatos de prisões. Já tinha lido no Facebook que tinham sido disparados tiros que tinham atingido algumas pessoas que teriam furado a quarentena. Para irem para a praia, dizia-se. Mas não sabia se era verdade ou não. Por aqui não se via polícias, guardas ou militares. É verdade que não tinha visto ninguém a passar aqui ao fundo. Mas ouvia vozes. Barulhos. Devia haver gente nos campos. A tratar das hortas. Dos pomares. Do gado. As pessoas aqui estão isoladas do mundo e aproveitam para furar o bloqueio. Devem andar de casa em casa. Eu estou por aqui. Sozinho.
Abri uma lata de atum com feijão frade. Nunca pensei gostar. Não é mau.
Cheguei ao fundo do quintal. Mandei fora a beata do cigarro. Baixei-me. Era um pássaro morto. Não estava ferido. Não via nenhum golpe. Não havia sangue. Estava morto mas estava intacto.
Está? ouvi lá do outro lado ela a sentir-se ignorada. Desculpa! disse, e continuei Descobri um pássaro morto aqui no quintal.
E depois senti o som seco de uma pancada um pouco mais ao lado, dentro do quintal. Fui até lá. Era outro pássaro que tinha acabado de cair. Igualmente intacto. Olhei à minha volta e não vi ninguém. Olhei para o céu e não vi nada. Olhei para a estrada e descobri mais dois pássaro caídos no asfalto.
Senti-me engolir em seco. Lembrei-me do copo de gin que tinha deixado na mesa lá em cima no alpendre. Tentei salivar para humedecer a garganta, mas não consegui. E disse-lhe para o telefone Tenho de desligar, e desliguei.
Comecei a andar mais depressa para o alpendre enquanto tentava ligar para o cento e doze. Interrompido. Para a polícia. Interrompido. Cheguei ao alpendre e bebi um grande gole de gin. Refresquei a garganta. Tentei ligar para a guarda. Interrompido. Acendi um cigarro. Vi cair mais dois pássaros no quintal. Tentei ligar para a linha de saúde, para o jornal da cidade, para a câmara municipal… Tudo interrompido!

[escrito directamente no facebook em 2020/03/14]

Recomeçar

Ela já tinha mandado o pano de cozinha molhado para o chão. Na verdade atirou-mo a mim, mas eu desviei-me e ele caiu no chão. Salpicou pingos de água em toda a volta. Agora ela tinha um prato de sopa na mão. Não sabia se o ia mandar ou não. Ela já não estava a falar. Nem me apercebi que entretanto deixara de falar. Tinha-me perdido nos meus pensamentos sobre esta repetição quase diária. Já nem estranhava. Ela olhava para mim. Só olhava para mim. Os olhos raiados de sangue. Como se estivesse possuída por alguma entidade maléfica. O prato de sopa na mão.
Que merda é que eu fiz agora? perguntava-me em silêncio. Era um pergunta retórica, claro. Não estava à espera de resposta. Alguma coisa eu devia ter feito. Ou não ter feito. Mas não me lembrava de nada que pudesse ter despoletado aquela reacção tão irritada dela. Outra vez. Nos últimos tempos, isto repetia-se e eu não conseguia descobrir a razão. Mais tarde haveria de querer fazer as pazes comigo. Pedia desculpa e acabávamos a foder no chão da sala. Mas eu estava a ficar farto. Estava saturado destas discussões que, para mim, não tinham sentido. Virei-lhe costas. Sim, não é o mais agradável de se fazer. Imagino a cara dela quando de repente vê que eu lhe viro as costas, afasto-me dela e deixo-a sozinha. Sozinha com o seu mau feitio. Abri a porta da rua e saí. Olhei o pequeno quintal. Um dos gatos estava lá sentado e ficou a olhar para mim. Lá mais à frente, o terreno de cultivo. O pai dela. Andava a cultivar alguma coisa. Talvez milho. Talvez milho para as galinhas. Ele tem galinhas. Galinhas poedeiras. É por isso que comemos tantos ovos. Acendi um cigarro. Percebi nessa altura que estava nervoso. As explosões dela, já habituais, ainda me deixavam nervoso. Puxei duas valentes passas e tentei acalmar. O pai dela viu-me à porta de casa. Levantou a mão numa saudação. Respondi com a minha mão levantada. Dali a pouco já toda a gente na aldeia saberia que eu e ela andávamos de candeia às avessas. Este é um grande problema das aldeias. Destes meios pequenos. Toda a gente sabe de toda a gente. Eu sei as histórias deles, como é que eles não hão-de saber as minhas? Ao fundo ouvi uns foguetes. Havia festa numa terriola perto. Dantes ia com ela aos bailaricos. Dançávamos muito. Bebíamos copos de tinto carrascão. Comíamos filhoses e bolo da festa. Ficávamos cheios de azia mas éramos felizes. Agora já não. Agora já não dançamos. Agora discutimos. Gritamos um com o outro. E acabamos a foder violentamente no chão da sala. Entre as centopeias e os lacraus que entram por baixo da porta e pelas janelas abertas.
Não gosto do campo. Não sou do tipo campestre. Esta não é uma estória bucólica.
Recomeço.
Ela já me tinha mandado com o copo de vinho para cima. O vinho primeiro e o copo depois. O vinho espalhou-se pelo chão e não me acertou que eu desviei-me a tempo. O copo estilhaçou-se na parede atrás de mim. Ela tem má pontaria. Depois colocou a mão na garrafa de vinho, ainda meio cheia. Não a levantou para me mandar com ela. Mas ficou com a mão a agarrar a garrafa, a ameaçar-me. Ouvi as pancadas vindas do apartamento de cima. Ultimamente, os vizinhos de cima batem com o cabo da vassoura no chão deles, o nosso tecto, para avisar que estão fartos dos nossos berros, das nossas discussões e do choro dela. E foi nessa altura que percebi que estávamos em silêncio. Ela estava em silêncio. Já não estava gritar comigo. Estava só a olhar para mim. A mão no gargalo da garrafa, a garrafa em cima da mesa e o olhar parado e frio sobre mim. Ela parecia possuída. E, de repente, parou. Mas aquele olhar. Aquele olhar fixo em mim. Aquele olhar assustava-me. Ultimamente estes ataques dela aconteciam com alguma frequência. Depois passavam. Ela ia para o quarto. Deitava-se sobre a cama. Descansava um pouco. Depois, mais tarde, vinha ter comigo. Pedia-me desculpa. Tocava-me. Beijava-me. E acabávamos a foder na bancada da cozinha. Era a única coisa boa destes ataques. Já não tínhamos o mesmo desejo um pelo outro de antes mas, nestas alturas, depois destes ataques sem sentido dela, terminávamos a foder como dantes, cheios de fúria e vontade. Mas que acabava também por terminar rápido. Eu depois ia para a varanda fumar um cigarro. Ela ia tomar um banho. E acabávamos a noite na sala, cada um na sua poltrona, a fazer zapping por todos os canais do cabo e sem ficar em nenhum. Quer dizer, eu, que tinha o comando na mão, ia fazendo zapping e ela ia não vendo os canais em fast forward comigo. Era um programa como outro qualquer.
Desta vez não. Desta vez virei-lhe as costas e saí de casa. Virei-lhe as costas e percorri o corredor todo até à porta da rua a sentir os olhos dela nas minhas costas. Olhos como punhais. Saí para a rua. Acendi um cigarro. Olhei em volta. Ninguém conhecido. Mandei um berro. Fo-da-se! Uma velha olhou para mim mas continuou em frente. Na cidade ninguém quer saber de ninguém. Ninguém conhece ninguém. Ninguém sabe quem eu sou. Deambulo pelas ruas, de olhos molhados, e ninguém quer saber o que é que se passa comigo. Vem um cão no sentido contrário mas foge de mim. Muda de passeio. Acho que deve ter sido mal tratado. Coitado. Não fujas, pá! que não te faço mal.
Passo à porta do museu. Houve uma altura em que íamos lá todas as semanas. Repetíamos as mesmas exposições vezes sem conta. De cada vez que lá íamos descobríamos coisas novas. E ficávamos contentes pela descoberta. Pela descoberta em conjunto. Pela partilha da descoberta.
Há muito tempo que já não vamos ao museu. Já não me lembro da última vez que vimos uma exposição. Há quanto tempo não vamos ao cinema? E ao teatro? Há quanto tempo não temos um jantar tranquilo, a dois, sem o telemóvel, o mail para responder, o feed de notícias para alimentar, a fotografia que precisa do like. Acho que já não usufruímos da cidade. Estamos em fim de ciclo. E a cidade não nos ajuda em nada. Estamos isolados. Não temos amigos. Estamos sozinhos no meio da confusão. Só nos temos um ao outro. É por isso que insistimos em nós. Nesta relação já desgastada. Mas qual é a alternativa?
Não gosto da cidade. Não gosto do egoísmo da cidade. Preciso de gente com quem falar. Preciso de ir ao café e encontrar as mesmas pessoas e sentir-me em casa.
Recomeço.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/06]

Alguém Ia Ter de Pagar

Quando, hoje, ia a sair de casa para ir ao café da aldeia beber uma amêndoa amarga e abrir o apetite para o almoço (estava a guisar um coelho que uma vizinha me ofereceu), vi o corpo do cão caído no chão do quintal. Senti um aperto no coração. Imaginei que não seria boa coisa. O cão anda sempre a correr de um lado para o outro com os gatos. Nunca está assim parado. Não seria boa coisa.
E não era.
O corpo estava parado. Vi espuma a sair-lhe da boca. Pus-lhe a mão sobre a barriga e percebi que estava morto. Envenenado, com certeza.
Acendi um cigarro. Senti um nervoso percorrer-me o corpo. Olhei em volta. Para os muros do quintal. Por cima dos muros do quintal. Para a estrada que passa lá em baixo. Para o terreno em frente. Não vi ninguém. Um Domingo como os outros. Nunca há ninguém nas ruas da aldeia antes de almoço. Uns estão na missa, outros a fazer o almoço e, os restantes, estão no café da aldeia. Não anda ninguém nas ruas. E hoje também não andava.
Dei uma volta em torno da casa. Olhei o chão com atenção. Espreitei atrás dos arbustos, das flores, dos troncos das árvores.
Espreitei atrás de todas as esquinas da casa. Levantei pedras. Subi ao muro e andei lá por cima a olhar para o lado de fora. Não sei do que é que andava à procura, mas saberia quando visse. Estava à espera de não ver. Não queria ter razão. Gostava que tivesse sido um acaso. Um azar.
Não vi nada de estranho.
Desci a pequena alameda até à estrada. Espreitei através das grades do portão. Caminhei ao longo do muro. Sempre a olhar para a estrada. Para o outro lado da estrada. Para as árvores do outro lado da estrada. Para os postes de electricidade. Vi os caixotes do lixo. Há ali, no fim do muro da casa, no outro lado da estrada, uma pequena ilha para separação de lixo. Há lá sempre alguns monstros. Tábuas de passar-a-ferro, esqueletos de máquinas de lavar, caixas de televisores de cinescópio. Que ficam por ali meses. Fiquei por momentos a olhar para os caixotes. Depois regressei a casa e subi a pequena alameda.
Estava furioso.
Entrei em casa. Fui ao quarto. Abri o guarda-fatos. Agarrei no cofre. Abri-o. Tirei o revólver. Confirmei que estava carregado. Prendi-o no cós das calças. Nas costas.
Passei na cozinha e agarrei num saco de lixo de 50 litros.
Saí de casa.
Enfiei no corpo mole do cão morto e enfiei-o no saco.
Desci a pequena alameda com o saco nas mãos. Fui à ilha e deixei-o no caixote de lixo RSU.
Acendi outro cigarro. Olhei em volta. Coloquei a mão atrás das costas para sentir o revólver. Estava lá. Estava lá à espera.
Voltei para trás na estrada. Olhei em volta. Fiz o caminho até à casa do vizinho mais próximo. Debrucei-me sobre o muro. O cão deles estava deitado no jardim. Viu-me e veio até ao muro a abanar o rabo. Esticou-se no muro. Fiz-lhe uma festa na cabeça. Voltei para trás. Ia fazer toda a aldeia. Olhar em todas as casas, em todos os quintais, em todos os jardins.
Alguém seria culpado. Alguém ia ter de pagar.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/09]